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| + | ====== Eclipse do Relato ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Temps et récit I. Paris: Éd. du Seuil, 1983.// | ||
| + | **O eclipse do relato** | ||
| + | * A historiografia de língua francesa e a epistemologia neopositivista pertencem a universos discursivos muito diferentes, marcados respectivamente por uma desconfiança constante em relação à filosofia da história e por um cuidado normativo em medir a explicação histórica pelos modelos do saber científico, | ||
| + | * Apesar de heterogêneos, | ||
| + | * O fio condutor deste capítulo é o destino do acontecimento e da duração histórica em ambas as perspectivas, | ||
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| + | **O eclipse do acontecimento na historiografia francesa** | ||
| + | * O conceito de acontecimento histórico é escolhido como pedra de toque por ser a crítica da história factual equivalente, | ||
| + | * No sentido ontológico, | ||
| + | * No sentido epistemológico, | ||
| + | * O livro de Raymond Aron, Introduction à la philosophie de l’histoire, | ||
| + | * H.-I. Marrou, em De la connaissance historique, reforça esse argumento ao afirmar que o conhecimento histórico não é ciência propriamente dita, mas conhecimento de fé, no qual subjetividade e objetividade se somam ao invés de se combaterem, e ao mostrar que a história não pode reatualizar o passado, pois este só existe como postulado, análogo ao noumeno kantiano, sendo a iniciativa em história da questão do historiador, | ||
| + | * A contribuição da escola dos Annales, distinta da problemática alemã do Verstehen, corresponde à metodologia de historiadores de ofício, iniciada por Marc Bloch em Apologie pour l’histoire, | ||
| + | * Fernand Braudel, em La Méditerranée et le Monde méditerranéen à l’époque de Philippe II, torna-se o manifesto da escola ao contestar que os acontecimentos sejam o que indivíduos fazem acontecer, ligando essa contestação ao primado do indivíduo e ao dos acontecimentos pontuais, e produzindo o terceiro corolário implícito segundo o qual toda história de acontecimentos seria necessariamente uma história-relato — associação nunca questionada por si mesma, nem mesmo por Lucien Febvre. | ||
| + | * À noção de acontecimento como salto temporal, Braudel opõe a de um tempo social hierarquizado em camadas — conjuntura, estrutura, tendência —, denunciando a história de batalhas e a história factual como corolários da primazia da história política, e propondo em seu lugar o conceito de longa duração, ilustrado por metáforas que depreciam o tempo curto enganoso e valorizam o tempo longo, anônimo e silencioso das civilizações. | ||
| + | * Duas apercepções adversas mantêm-se em equilíbrio no pensamento de Braudel: de um lado, a longa duração confere à história uma inteligibilidade e estabilidade próprias; de outro, o historiador resiste à absorção da duração em modelos matemáticos quase intemporais, | ||
| + | * A escola dos Annales prolonga-se na história quantitativa ou serial, fundada na constituição de séries homogêneas de itens repetíveis, | ||
| + | * A metodologia da história econômica prolonga o combate antipositivista de Bloch e Febvre contra a fascinação pelo acontecimento único, a identificação da história com a crônica do Estado, e a ausência de critério na seleção dos fatos, sendo a demografia histórica um exemplo notável dessa conquista quantitativa por suas implicações temporais de longa duração. | ||
| + | * A história antropológica, | ||
| + | * A história das mentalidades, | ||
| + | * Os trabalhos sobre a relação do homem com a morte, especialmente a tipologia de Philippe Ariès em L’Homme devant la Mort, exemplificam de modo notável a reconquista do qualitativo pelo quantitativo, | ||
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| + | **O eclipse da compreensão: | ||
| + | * Ao passar da metodologia dos historiadores franceses para a epistemologia derivada do positivismo lógico, muda-se de universo de pensamento, pois o plaidoyer pela unidade da ciência, herdado do Círculo de Viena, é incompatível com a distinção windelbandiana entre método idiográfico e nomotético, | ||
| + | * O artigo de Carl G. Hempel, The Function of General Laws in History, sustenta que as leis gerais desempenham funções análogas na história e nas ciências naturais, retirando do acontecimento histórico seu estatuto narrativo e alinhando-o a um conceito geral de acontecimento que inclui ocorrências físicas, sendo a explicação a dedução lógica da ocorrência de um evento a partir de condições iniciais e de uma lei de forma universal. | ||
| + | * Três traços caracterizam esse modelo, chamado modelo nomológico ou de subsunção: | ||
| + | * Hempel admite que, na melhor das hipóteses, a história oferece apenas um esboço de explicação, | ||
| + | * Os partidários do modelo nomológico dedicaram-se sobretudo a enfraquecer o modelo forte para preservar sua viabilidade, | ||
| + | * O debate sobre a seletividade em história, no qual se destaca a réplica de Ernest Nagel, decompõe a objeção subjetivista em argumentos distintos — escolha de domínio, limitação da matéria, seleção de hipóteses, preconceitos coletivos — mostrando que cada um é compatível com a possibilidade de objetividade histórica, ainda que a atribuição de importância relativa às causas exija uma pesagem sujeita a debate. | ||
| + | * O artigo de Charles Frankel representa o ponto extremo do enfraquecimento do modelo, admitindo a interpretação, | ||
| + | * O ponto crítico de toda a discussão é a hipótese de base segundo a qual a explicação em história não difere fundamentalmente da explicação nas demais ciências, hipótese que os defensores do modelo nomológico se esforçam por salvar reportando ao estado de fato da ciência histórica os traços discordantes de sua metodologia, | ||
