estudos:ricoeur:si-mesmo:si-identidade-narrativa
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| + | ====== Si e identidade narrativa ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Editions du Seuil, 1990.// | ||
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| + | * O presente estudo é estreitamente solidário do anterior, ainda que de tom diferente, pois até aqui a identidade narrativa foi tratada de modo polêmico e mais defensivo que construtivo, | ||
| + | * A primeira tarefa consiste em levar ao mais alto grau a dialética da mesmidade e da ipseidade implicitamente contida na noção de identidade narrativa | ||
| + | * A segunda tarefa consiste em completar essa investigação do si-mesmo narrado pela exploração das mediações que a teoria narrativa pode operar entre teoria da ação e teoria moral, tarefa com dois versantes: retomando o ternário descrever, narrar, prescrever, cabe perguntar primeiro que extensão do campo prático a função narrativa suscita, se a ação descrita deve poder igualar-se à ação narrada, e examinar depois de que maneira o relato, nunca eticamente neutro, se revela o primeiro laboratório do julgamento moral, prosseguindo nesse duplo versante, prático e ético, a constituição recíproca da ação e do si-mesmo | ||
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| + | **1. A identidade narrativa e a dialética da ipseidade e da mesmidade** | ||
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| + | * A natureza verdadeira da identidade narrativa só se revela na dialética da ipseidade e da mesmidade, representando esta última a contribuição maior da teoria narrativa à constituição do si-mesmo | ||
| + | * A ordem seguida pelo argumento mostrará primeiro, na continuidade das análises de Temps et Récit, como o modelo específico de conexão entre eventos constituído pela intriga permite integrar à permanência no tempo o que parece ser seu contrário sob o regime da identidade-mesmidade — a diversidade, | ||
| + | * Retomando a estratégia dos puzzling cases da filosofia analítica, dar-se-á lugar, no espaço de variações imaginativas aberto pela dialética da ipseidade e da mesmidade, a casos-limite de dissociação entre duas modalidades de identidade, dignos de competir com os casos indecidíveis de Derek Parfit, oferecendo-se ocasião notável para confrontar os recursos respectivos da ficção literária e da ficção científica diante do caráter eminentemente problemático da identidade pessoal | ||
| + | * Ao formar o conceito de Zusammenhang des Lebens, conexão da vida, Wilhelm Dilthey o tinha espontaneamente por equivalente ao de história de uma vida, sendo essa pré-compreensão da significação histórica da conexão que a teoria narrativa da identidade pessoal tenta articular em nível superior de conceitualidade, | ||
| + | * A identidade no plano da intriga caracteriza-se, | ||
| + | * Por concordância entende-se o princípio de ordem que preside ao que Aristóteles chama de agenciamento dos fatos; por discordância, | ||
| + | * Para estender a validade desse conceito além do exemplo privilegiado de Aristóteles — a tragédia grega e, em menor grau, a epopeia —, propõe-se definir a concordância discordante, | ||
| + | * À configuração narrativa assim compreendida deve-se comparar a espécie de conexão reivindicada por uma descrição impessoal, residindo a diferença essencial que distingue o modelo narrativo de qualquer outro modelo de conexão no estatuto do evento | ||
| + | * Enquanto num modelo de tipo causal evento e ocorrência permanecem indiscerníveis, | ||
| + | * O paradoxo da intriga está em inverter o efeito de contingência — no sentido do que poderia ter acontecido de outro modo ou não acontecido — incorporando-o de algum modo ao efeito de necessidade ou probabilidade exercido pelo ato configurante, | ||
| + | * Dessa simples retomada da noção de intriga, antes mesmo de considerar a dialética da personagem que lhe é corolário, resulta que a operação narrativa desenvolve um conceito inteiramente original de identidade dinâmica, que concilia as próprias categorias que Locke tinha por contrárias — a identidade e a diversidade | ||
| + | * O passo decisivo em direção a uma concepção narrativa da identidade pessoal se dá ao passar-se da ação à personagem, sendo personagem aquele que faz a ação no relato, categoria também narrativa cujo papel releva da mesma inteligência narrativa que a própria intriga, sustentando-se a tese de que a identidade da personagem se compreende por transferência sobre ela da operação de intriga primeiramente aplicada à ação narrada — a personagem, também ela, é posta em intriga | ||
| + | * A correlação entre história narrada e personagem é simplesmente postulada por Aristóteles na Poética, aparecendo tão estreita que assume a forma de uma subordinação, | ||
| + | * A narratologia contemporânea tentou dar a essa correlação o estatuto de restrição semiótica, implícita em certo sentido na análise conceitual do muthos em partes por Aristóteles, | ||
| + | * O autor de Morfologia do conto começa por dissociar as funções, segmentos recorrentes de ação, das personagens, | ||
| + | * A lista dos papéis não é independente da das funções, cruzando-se em vários pontos que Propp chama de esferas de ação: numerosas funções se agrupam logicamente segundo certas esferas, correspondendo essas esferas às personagens que cumprem as funções; o problema da distribuição das funções pode resolver-se no plano do problema da distribuição das esferas de ação entre as personagens | ||
| + | * Citando essas declarações de Propp em Temps et Récit II, coloca-se a questão de saber se toda intriga não procede de uma gênese mútua entre o desenvolvimento de um caráter e o de uma história narrada, adotando-se o axioma de Frank Kermode segundo o qual, para desenvolver um caráter, é preciso narrar mais | ||
| + | * Claude Bremond, em sua Logique du récit, pôs isso perfeitamente em relevo, não podendo o papel ser definido senão pela atribuição a um sujeito-pessoa de um predicado-processo eventual, em ato ou concluído, podendo-se ver nessa atribuição a solução narrativa do problema da ascrição da ação ao agente | ||
| + | * A sequência elementar de um relato já contém essa correlação, | ||
| + | * Sobre essa base torna-se possível compor um repertório tão completo quanto possível dos papéis, sendo notável que a primeira grande dicotomia seja a dos pacientes, afetados por processos modificadores ou conservadores, | ||
| + | * O problema moral se enxerta no reconhecimento dessa dissimetria essencial entre quem faz e quem sofre, culminando na violência do agente poderoso, organizando o ser afetado por um curso de eventos narrados toda uma série de papéis de pacientes, conforme a ação exercida seja influência, | ||
| + | * Um enriquecimento notável da noção de papel concerne à sua introdução no campo das valorizações, | ||
| + | * É com o modelo actancial de Algirdas Julien Greimas que a correlação entre intriga e personagem atinge seu nível mais alto de radicalidade, | ||
| + | * A radicalização prossegue em duas linhas: a do actante, onde à lista ainda empírica das personagens do conto russo segundo Propp se substitui um modelo em três categorias — de desejo (princípio da busca de um objeto, de uma pessoa, de um valor), de comunicação (princípio de toda relação de destinador a destinatário), | ||
| + | * E a linha dos percursos narrativos, em que se destaca a série de noções de plano medial entre estruturas profundas e plano figurativo próprias de uma concepção normativa da coesão íntima da vida: a de programa narrativo, depois a de relação polêmica entre dois programas, de onde resulta a oposição entre sujeito e anti-sujeito, | ||
| + | * Recruzando as duas linhas de análise, vê-se reforçarem-se mutuamente uma semiótica do actante e uma semiótica dos percursos narrativos até o ponto em que estes aparecem como percursos da personagem | ||
| + | * Merece destaque a categoria do destinador, fortemente acentuada pelo Maupassant de Greimas embora presente já no primeiro modelo actancial, prolongando o par destinador/ | ||
| + | * A estrutura narrativa conjuga os dois processos de intriga, o da ação e o da personagem, sendo essa conjunção a verdadeira resposta às aporias da ascrição evocadas desde o primeiro estudo | ||
| + | * Do ponto de vista paradigmático, | ||
| + | * Também é verdade que se podem descrever separadamente os predicados psíquicos tomados fora de atribuição a uma pessoa — condição mesma da descrição do psíquico —, mas é no relato que se recompõe a atribuição, | ||
| + | * Nem mesmo a mais formidável aporia da ascrição deixa de encontrar réplica na dialética da personagem e da intriga: confrontada à terceira antinomia kantiana, a ascrição aparece dilacerada entre a tese, que põe a ideia de começo de uma série causal, e a antítese, que lhe opõe a de um encadeamento sem começo nem interrupção | ||
| + | * O relato resolve à sua maneira a antinomia, conferindo à personagem uma iniciativa — o poder de começar uma série de eventos sem que esse começo constitua um começo absoluto, um começo do tempo — e dando ao narrador o poder de determinar o começo, o meio e o fim de uma ação, fazendo assim coincidir a iniciativa da personagem e o começo da ação, dando satisfação à tese sem violar a antítese, constituindo, | ||
| + | * Retoma-se aqui de propósito o termo réplica poética, aplicado em Temps et Récit III à relação entre as aporias do tempo e a função narrativa, pois, como então se dizia, a função narrativa não dá resposta especulativa a essas aporias, mas as torna produtivas em outro registro de linguagem, tal como a dialética da personagem e da intriga torna produtivas as aporias da ascrição | ||
| + | * Dessa correlação entre ação e personagem do relato resulta uma dialética interna à personagem, exato corolário da dialética de concordância e discordância desdobrada pela intriga da ação | ||
| + | * Segundo a linha de concordância, | ||
| + | * A identidade da personagem posta em intriga só se compreende sob o signo dessa dialética, recebendo a tese da identidade que Parfit chama não-reducionista mais que um reforço — um completo remanejamento —, pois a pessoa, compreendida como personagem de relato, não é entidade distinta de suas experiências, | ||
| + | * Essa dialética de concordância discordante da personagem deve agora inscrever-se na dialética da mesmidade e da ipseidade, necessidade que se impõe ao confrontar-se a concordância discordante da personagem com a exigência de permanência no tempo ligada à noção de identidade, cuja equivocidade — de um lado a mesmidade de um caráter, de outro a ipseidade da manutenção de si — foi mostrada no estudo anterior, cabendo mostrar como a dialética da personagem se inscreve no intervalo entre esses dois polos, fazendo mediação entre eles | ||
| + | * Essa função mediadora que a identidade narrativa da personagem exerce entre os polos da mesmidade e da ipseidade é essencialmente atestada pelas variações imaginativas a que o relato submete essa identidade, variações que o relato não apenas tolera, mas engendra e busca | ||
| + | * A literatura se revela assim vasto laboratório para experiências de pensamento em que se põem à prova do relato os recursos de variação da identidade narrativa, sendo o benefício dessas experiências tornar manifesta a diferença entre as duas significações da permanência no tempo, fazendo variar a relação entre uma e outra | ||
| + | * Na experiência cotidiana elas tendem a se recobrir e confundir — contar com alguém é ao mesmo tempo apoiar-se na estabilidade de um caráter e esperar que o outro cumpra sua palavra, quaisquer que sejam as mudanças suscetíveis de afetar as disposições duráveis pelas quais se o reconhece | ||
| + | * Na ficção literária o espaço de variações aberto entre as duas modalidades de identidade é imenso: numa extremidade, | ||
| + | * Aproxima-se do polo inverso com o romance dito de formação e, mais ainda, o romance de fluxo de consciência, | ||
| + | * É nesse polo que se encontram os casos-limite em que a ficção literária se presta a confrontação com os puzzling cases da filosofia analítica, culminando nessa confrontação o conflito entre uma versão narrativista e uma versão não narrativista da identidade pessoal | ||
| + | * O teatro e o romance contemporâneo ensinam à saciedade que a narratividade também tem seus casos desconcertantes, | ||
| + | * Com Robert Musil, por exemplo, o Homem sem qualidades — ou mais exatamente sem propriedades (ohne Eigenschaften) — torna-se no limite não identificável, | ||
| + | * À medida que o relato se aproxima do ponto de anulação da personagem, o romance perde também suas qualidades propriamente narrativas, mesmo interpretadas do modo mais flexível e dialético, correspondendo à perda de identidade da personagem a perda da configuração do relato e, em particular, uma crise do fechamento do relato, produzindo-se assim um choque de retorno da personagem sobre a intriga | ||
| + | * É um mesmo cisma — nas palavras de Frank Kermode em The Sense of an Ending — que afeta ao mesmo tempo a tradição da intriga conduzida a um termo que vale como fechamento e a tradição do herói identificável, | ||
| + | * Não é por acaso que muitas autobiografias contemporâneas, | ||
| + | * Recolocados no quadro da dialética do idem e do ipse, esses casos desconcertantes da narratividade se deixam reinterpretar como desnudamento da ipseidade por perda do suporte da mesmidade, constituindo assim o polo oposto ao do herói identificável por superposição de ipseidade e mesmidade, sendo o que se perde, sob o título de propriedade, | ||
| + | * A comparação com os puzzling cases de Parfit permite precisar o que é a ipseidade quando perdeu o suporte da mesmidade | ||
| + | * As ficções literárias diferem fundamentalmente das ficções tecnológicas por permanecerem variações imaginativas em torno de um invariante, a condição corporal vivida como mediação existencial entre si e o mundo, sendo as personagens de teatro e romance humanos como nós | ||
| + | * Na medida em que o corpo próprio é uma dimensão do si-mesmo, as variações imaginativas em torno da condição corporal são variações sobre o si-mesmo e sua ipseidade; e, em virtude da função mediadora do corpo próprio na estrutura do ser-no-mundo, | ||
| + | * Esse traço qualifica a condição terrestre enquanto tal e dá à Terra a significação existencial que, sob formas diversas, Friedrich Nietzsche, Edmund Husserl e Martin Heidegger lhe reconhecem, sendo a Terra mais e outra coisa que um planeta — o nome mítico de nossa ancoragem corporal no mundo —, o que fica ultimamente pressuposto pelo relato literário enquanto submetido à restrição que faz dele uma mimèsis da ação, pois a ação imitada, na e pela ficção, permanece também submetida à restrição da condição corporal e terrestre | ||
| + | * O que os puzzling cases atingem em cheio com contingência radical é justamente essa condição corporal e terrestre que a hermenêutica da existência, | ||
| + | * O cérebro é o ponto de aplicação da alta tecnologia; nas experiências de bisseção, transplante, | ||
| + | * Pode-se então dizer que as variações imaginativas da ficção científica dizem respeito à mesmidade, enquanto as da ficção literária dizem respeito à ipseidade, ou mais exatamente à ipseidade em sua relação dialética com a mesmidade | ||
| + | * A verdadeira perplexidade não reside dentro de um ou outro campo de variações imaginativas, | ||
| + | * Essa perplexidade de segundo grau talvez não possa ser decidida no plano do imaginário mobilizado de um lado e de outro, só o podendo ser no plano ético, ao qual se chegará na última seção deste estudo, ao confrontar a identidade narrativa, oscilante entre mesmidade e ipseidade, e a identidade ética, que requer uma pessoa capaz de responder por seus atos | ||
| + | * É em relação a essa capacidade de imputação que manipulações cerebrais podem ser ditas atentar contra a identidade pessoal e, portanto, violar um direito, o da pessoa à sua integridade física, mas, para que a capacidade de imputação, | ||
| + | * O que as manipulações imaginárias sobre o cérebro violam não seria mais que uma regra, mais que uma lei — a condição existencial de possibilidade para que haja regras, leis, enfim preceitos endereçados à pessoa como agente e paciente? Em outras palavras, o inviolável não seria a diferença entre o si-mesmo e o mesmo, já no plano da corporeidade? | ||
| + | * Fica em suspenso essa perplexidade de segundo grau, pois, se um imaginário que respeita o invariante da condição corporal e terrestre tem mais afinidade com o princípio moral da imputação, | ||
| + | * Será necessário sem dúvida interditar um dia fazer aquilo com que a ficção científica se limita a sonhar, mas o sonho não terá sempre sido transgressão do interdito? Sonhemos então com Parfit, desejando apenas que os cirurgiões-manipuladores desses sonhos jamais tenham os meios, nem sobretudo o direito, de fazer o que permanece perfeitamente lícito imaginar | ||
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| + | **2. Entre descrever e prescrever: narrar** | ||
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| + | * Resta justificar, nesta segunda seção, a afirmação avançada desde a introdução geral e retomada no início do quinto estudo, segundo a qual a teoria narrativa ocupa, no percurso completo da investigação, | ||
| + | * A questão tem dois versantes: no primeiro, voltado aos estudos lógico-práticos anteriores, importa mostrar em que medida a conexão, revelada pela teoria narrativa, entre intriga e personagem, além do esclarecimento novo que lança sobre as dificuldades ligadas à relação da ação com seu agente, exige extensão considerável do campo prático, se a ação descrita deve poder igualar-se à ação narrada | ||
| + | * No segundo versante, voltado aos estudos morais seguintes, a questão é a dos apoios e antecipações que a teoria narrativa propõe à interrogação ética; a relação da intriga com a personagem só traz luzes novas sobre a relação entre a ação e seu agente ao preço de uma extensão do campo prático, para além dos segmentos de ação que a gramática lógica inscreve mais facilmente em frases de ação, e mesmo além das cadeias de ação cujo único interesse reside no modo de conexão lógica próprio de uma praxeologia | ||
| + | * É notável que Aristóteles, | ||
| + | * Uma revisão do rapport entre ação e agente exige, além disso, revisão do próprio conceito de ação, se este deve poder ser elevado ao nível da configuração narrativa desdobrada na escala de uma vida, revisão que implica muito mais que um alongamento das conexões entre os segmentos de ação formados pela gramática das frases de ação, fazendo aparecer uma hierarquia de unidades práxicas, cada qual com princípio de organização específico que integra diversidade de conexões lógicas | ||
| + | * As primeiras unidades compostas são as que merecem o nome de práticas, cujos exemplos mais familiares são os ofícios, as artes, os jogos, podendo-se ter uma primeira ideia delas partindo da descrição das ações de base na teoria analítica da ação | ||
| + | * Arthur Danto define a ação de base subtraindo das ações ordinárias a relação em vista de, restando ações que sabemos fazer e que de fato fazemos sem ter de fazer outra coisa em vista de fazer o que fazemos — gestos, posturas, ações corporais elementares que aprendemos a coordenar e dominar sem propriamente aprender seus rudimentos —, sendo, por contraste, todo o resto do campo prático construído sobre a relação em vista de: para fazer Y é preciso primeiro fazer X | ||
| + | * Poder-se-ia objetar que o conceito de prática é supérfluo, bastando alongar as cadeias de meios e fins, como faz Elizabeth Anscombe no exemplo famoso de Intention, e coordenar entre si os segmentos de causalidade física e os segmentos intencionais formalizados em silogismos práticos dentro de um modelo misto, como o que propõe Georg Henrik von Wright em Explanation and Understanding, | ||
| + | * Esse enredamento de finalidade e causalidade, | ||
| + | * Uma segunda espécie de conexão contribui para delimitar as práticas como unidades de segunda ordem: não mais as relações lineares antes consideradas, | ||
| + | * O vocabulário ligado ao repertório de poderes exprime bem essas relações de subordinação mais que de coordenação: | ||
| + | * Essa ligação de encaixe, de subordinação das ações parciais a uma ação total, só se articula à ligação de coordenação entre segmentos sistêmicos e teleológicos na medida em que as conexões de uma e outra espécie são unificadas sob as leis de sentido que fazem do ofício de agricultor uma prática, dizendo-se o mesmo de outras práticas: assim como a agricultura é uma prática no sentido de um ofício, e não lavrar, muito menos ligar o trator, também administrar uma casa, no sentido grego do oikos de que vem a palavra economia, ou ocupar uma função pública no Estado, designam práticas, sem que os comportamentos subordinados mereçam esse título — compor um menu, pronunciar um discurso numa reunião pública; do mesmo modo pintar é uma prática, tanto ofício quanto arte, e não pôr uma mancha de cor na tela | ||
| + | * Um último exemplo aponta transição útil: mover um peão no tabuleiro é em si apenas um gesto, mas, tomado na prática do jogo de xadrez, esse gesto reveste a significação de uma jogada numa partida | ||
| + | * Esse último exemplo atesta que a unidade de configuração constitutiva de uma prática repousa numa relação particular de sentido, a que exprime a noção de regra constitutiva, | ||
| + | * Por regra constitutiva entendem-se preceitos cuja única função é estatuir que, por exemplo, tal gesto de mover um peão no tabuleiro conta como uma jogada numa partida de xadrez, não existindo a jogada, com essa significação e esse efeito na partida, sem a regra que a constitui como fase da partida | ||
| + | * A regra é constitutiva no sentido de não ser sobreposta como um regulamento externo aplicado a movimentos que já teriam organização própria, à maneira dos sinais luminosos em relação à circulação de condutores com seus próprios projetos, revestindo a regra por si só o gesto de significação, | ||
| + | * A noção de regra constitutiva pode estender-se do exemplo do jogo a outras práticas, pela simples razão de os jogos serem excelentes modelos práticos, tendo John Searle podido estender a noção ao domínio dos atos de discurso, já que estes também são ações ou fases de práticas mais vastas: assim os atos ilocutórios, | ||
| + | * Importa notar que as regras constitutivas não são regras morais, estatuindo apenas sobre a significação de gestos particulares e fazendo, como já dito, que tal gesto da mão conte como, por exemplo, saudar, votar, chamar um táxi | ||
| + | * Certamente as regras constitutivas apontam para as regras morais, na medida em que estas regem condutas suscetíveis de significação, | ||
| + | * A introdução da noção de regra constitutiva tem ainda a virtude de sublinhar o caráter de interação que se prende à maioria das práticas, caráter não sublinhado na teoria analítica da ação porque as frases de ação são extraídas de seu ambiente social | ||
| + | * É só sob o aspecto pragmático que a recepção, por um alocutário, | ||
| + | * As práticas repousam sobre ações em que um agente leva em conta, por princípio, a ação de outrem, definindo Max Weber sucessiva e conjuntamente os termos de ação e ação social no início de Economia e Sociedade: entende-se por atividade (Handeln) um comportamento humano — pouco importa tratar-se de ato exterior ou íntimo, de omissão (Unterlassen) ou de tolerância (Dulden) — quando e enquanto o agente ou os agentes lhe atribuem um sentido subjetivo; e por atividade social a atividade que, segundo seu sentido visado (gemeinten Sinn) pelo agente ou agentes, se refere ao comportamento de outrem, por relação ao qual se orienta seu desenrolar | ||
| + | * Referir-se a, levar em conta a conduta de outros agentes é a expressão mais geral e neutra capaz de cobrir a multidão de relações de interação encontradas no nível dessas unidades de ação que são as práticas, podendo essas interações ser colocadas, como as ações intencionais tomadas segundo seu sentido subjetivo, sob as rubricas de Max Weber | ||
| + | * As maneiras externas, abertas, de levar em conta o comportamento dos outros agentes encontram-se nas interações escalonadas do conflito à cooperação, | ||
| + | * A esse exemplo canônico de interação interiorizada soma-se o exemplo sutil que Georg Wilhelm Friedrich Hegel evoca no capítulo V da Fenomenologia do Espírito, correspondente ao momento em que a consciência mede a desproporção entre a obra, como efetividade limitada e determinada, | ||
| + | * Um paralelo em termos de interação pode ser dado às maneiras pelas quais um agente compreende subjetivamente a ação no modo negativo da omissão (Unterlassen) e da tolerância (Dulden), sendo omitir e suportar, ou mesmo sofrer, tanto fatos de interação quanto de compreensão subjetiva | ||
| + | * Esses termos lembram que, no plano da interação como no da compreensão subjetiva, o não-agir ainda é um agir: negligenciar, | ||
| + | * Nesse ponto a teoria da ação se estende dos homens agentes aos homens pacientes, adjunção tão essencial que comanda boa parte da reflexão sobre o poder, exercido por alguém sobre alguém, e sobre a violência, como destruição por alguém da capacidade de agir de um sujeito, conduzindo ao limiar da ideia de justiça, como regra que visa igualar pacientes e agentes da ação — toda ação tem seus agentes e seus pacientes | ||
| + | * São essas algumas das complexidades da ação para as quais a operação narrativa chama atenção, na medida em que se mantém a seu respeito numa relação mimética, não porque as práticas comportem em si mesmas roteiros narrativos já constituídos, | ||
| + | * A mesma relação entre práxis e relato se repete em grau mais elevado de organização, | ||
| + | * Antes de considerar o que Alasdair MacIntyre chama unidade narrativa de uma vida, dando assim coloração narrativa à expressão diltheyana conexão de uma vida, vale a pena deter-se num nível medial entre as práticas — ofícios, jogos, artes — e o projeto global de uma existência, | ||
| + | * Esses planos de vida tomam forma — móvel e revogável, aliás — por um movimento de vaivém entre ideais mais ou menos distantes e a ponderação das vantagens e inconvenientes da escolha de tal plano de vida no nível das práticas, retomando-se no estudo seguinte, sob a condução de Hans-Georg Gadamer, a análise aristotélica da phronèsis e do phronimos | ||
| + | * O que se quer aqui evidenciar é que o campo prático não se constitui de baixo para cima, por composição do mais simples ao mais elaborado, mas segundo duplo movimento de complexificação ascendente a partir das ações de base e das práticas, e de especificação descendente a partir do horizonte vago e móvel dos ideais e projetos à luz dos quais uma vida humana se apreende em sua unicidade | ||
| + | * Nesse sentido, o que MacIntyre chama unidade narrativa de uma vida não resulta apenas da soma das práticas numa forma englobante, mas é regido igualmente por um projeto de vida, por incerto e móvel que seja, e por práticas fragmentárias com unidade própria, constituindo os planos de vida a zona medial de troca entre a indeterminação dos ideais reitores e a determinação das práticas | ||
| + | * Acontece que, nessa troca, o projeto global seja o primeiro a ser firmemente traçado, como nos casos de vocação precoce ou imperiosa, fazendo com que, sob a pressão dessa restrição vinda de cima, as práticas percam os contornos atribuídos pela tradição e conformados pelo aprendizado, | ||
| + | * Cabe dizer uma palavra sobre a noção de unidade narrativa de uma vida, que MacIntyre situa acima das de práticas e planos de vida, sem que essa noção designe nele o último grau na escala da práxis | ||
| + | * Numa perspectiva deliberadamente ética, que só será assumida no próximo estudo, a ideia de um recolhimento da vida em forma de relato serve de ponto de apoio à visada da vida boa, pedra angular de sua ética, como o será da presente investigação, | ||
| + | * Saúda-se o encontro feliz entre as análises de Temps et Récit e as de After Virtue, sem contudo identificar sem exame a demarche de MacIntyre à própria | ||
| + | * MacIntyre tem principalmente em vista as histórias encontradas no vivo da ação cotidiana e não atribui importância decisiva, ao menos para sua investigação ética, ao afastamento entre as ficções literárias e as histórias que chama de encenadas (enacted); no tratamento próprio da função mimética do relato, porém, a ruptura operada pela entrada do relato no campo da ficção é levada tão a sério que se torna problema espinhoso fazer literatura e vida se reencontrarem por meio da leitura | ||
| + | * Para MacIntyre não se colocam as dificuldades ligadas à ideia de uma refiguração da vida pela ficção; em contrapartida, | ||
| + | * Essa vantagem do desvio pela ficção tem seu reverso, colocando-se uma dificuldade que MacIntyre não conhece: como as experiências de pensamento suscitadas pela ficção, com suas implicações éticas, contribuem para o exame de si mesmo na vida real? Se o fosso entre ficção e vida parece tão grande, como pôde situar-se a ideia de unidade narrativa da vida no topo da hierarquia das práticas múltiplas? | ||
| + | * Poder-se-ia pensar que o fosso foi transposto pela teoria da leitura proposta em Temps et Récit III, destinada a pôr em contato o mundo do texto e o mundo do leitor, mas é precisamente do próprio ato de ler que surgem os obstáculos ao trajeto de retorno da ficção à vida | ||
| + | * Que dizer, primeiro, da relação entre autor, narrador e personagem, cujos papéis e discursos são bem distintos no plano da ficção? Ao interpretar-se nos termos de um relato de vida, é-se ao mesmo tempo os três, como no relato autobiográfico? | ||
| + | * Outra dificuldade: | ||
| + | * Na ficção, nem o começo nem o fim são necessariamente os dos eventos narrados, mas os da própria forma narrativa; assim a Recherche começa pela frase célebre — " | ||
| + | * O mesmo se dá com os futuros condicionais do fim de Le Temps retrouvé, que se abrem sobre um futuro indeterminado em que a escrita da obra é conjurada a competir em velocidade com a chegada da morte, havendo, porém, uma última página que vale como fim narrativo | ||
| + | * É esse fechamento, esse fechamento literário, que falta ao que MacIntyre, em After Virtue, chama unidade narrativa da vida, condição que ele faz da projeção da vida boa: é preciso que a vida seja recolhida para que possa colocar-se sob a mira da verdadeira vida; se a própria vida não pode ser apreendida como uma totalidade singular, jamais se poderá desejar que ela seja bem-sucedida, | ||
| + | * Nada, porém, na vida real tem valor de começo narrativo: a memória se perde nas brumas da primeira infância; o nascimento e, mais ainda, o ato pelo qual se foi concebido pertencem mais à história dos outros — no caso, a dos pais — do que a si mesmo; quanto à morte, só será fim narrado no relato de quem sobreviver; sempre se está em direção à própria morte, o que exclui apreendê-la como fim narrativo | ||
| + | * A essa dificuldade fundamental se junta outra, não sem relação com a precedente: no percurso conhecido da própria vida, é possível traçar vários itinerários, | ||
| + | * Enquanto cada romance desdobra um mundo do texto que lhe é próprio, sem que se possam geralmente relacionar as intrigas de certo modo incomensuráveis de várias obras — exceto talvez em certas séries, como os romances de gerações: Buddenbrooks, | ||
| + | * Fatias inteiras da própria vida fazem parte da história da vida de outrem, dos pais, dos amigos, dos companheiros de trabalho e de lazer, confirmando o que se disse antes das práticas, das relações de aprendizagem, | ||
| + | * Esse mesmo ponto é sublinhado com máxima força por MacIntyre, retomando, sem dúvida sem o saber, o que Wilhelm Schapp já escrevera sob o título In Geschichten verstrickt (enredado em histórias), | ||
| + | * Última objeção: na compreensão de si, a mimèsis praxéôs parece só poder cobrir a fase já passada da vida, devendo articular-se sobre as antecipações, | ||
| + | * Todos esses argumentos são perfeitamente admissíveis — equivocidade da noção de autor, inacabamento narrativo da vida, enredamento das histórias de vida umas nas outras, inclusão dos relatos de vida numa dialética de rememoração e antecipação —, sem que pareçam, contudo, capazes de anular a própria noção de aplicação da ficção à vida | ||
| + | * As objeções só valem contra uma concepção ingênua da mimèsis, a mesma que certas ficções dentro da ficção põem em cena, como o primeiro Dom Quixote ou Madame Bovary, sendo menos a refutar que a integrar a uma inteligência mais sutil, mais dialética, da apropriação | ||
| + | * É no quadro da luta, já evocada, entre o texto e o leitor que se devem recolocar as objeções precedentes: | ||
| + | * Não é por acaso nem abuso que, em sentido inverso, muitos filósofos estoicos interpretaram a própria vida vivida como o desempenho de um papel numa peça que não escrevemos e cujo autor, por conseguinte, | ||
| + | * Quanto à noção de unidade narrativa da vida, é preciso ver nela também uma mescla instável entre fabulação e experiência viva | ||
| + | * É precisamente por causa do caráter evasivo da vida real que se necessita do socorro da ficção para organizá-la retrospectivamente a posteriori, ainda que se deva ter por revisável e provisória toda figura de intriga emprestada da ficção ou da história; assim, com o auxílio dos começos narrativos a que a leitura nos familiarizou, | ||
| + | * Também se tem a experiência, | ||
| + | * A ficção pode assim concorrer para o aprendizado do morrer, tendo a meditação da Paixão de Cristo acompanhado dessa forma mais de um crente até o último limiar; ao pronunciar a esse respeito a palavra consolação, | ||
| + | * O enredamento das histórias de vida umas nas outras será rebelde à inteligência narrativa que a literatura alimenta? Não encontra ele antes, no encaixe de um relato no outro, do qual a literatura dá muitos exemplos, um modelo de inteligibilidade? | ||
| + | * A última objeção repousa num equívoco nem sempre fácil de desfazer: crê-se voluntariamente que o relato literário, por ser retrospectivo, | ||
| + | * O relato literário só é retrospectivo em sentido bem preciso: é somente aos olhos do narrador que os fatos narrados parecem ter se desenrolado outrora, sendo o passado de narração apenas o quase-passado da voz narrativa | ||
| + | * Entre os fatos narrados num tempo do passado situam-se projetos, expectativas, | ||
| + | * O relato narra também o cuidado; em certo sentido, só narra o cuidado, não havendo por isso absurdo em falar de unidade narrativa de uma vida, sob o signo de relatos que ensinam a articular narrativamente retrospecção e prospecção | ||
| + | * Dessa discussão resulta que relatos literários e histórias de vida, longe de se excluírem, se completam, apesar de — ou graças a — seu contraste, lembrando essa dialética que o relato faz parte da vida antes de exilar-se dela na escrita, retornando à vida pelas múltiplas vias da apropriação e ao preço das tensões inexpugnáveis já mencionadas | ||
| + | |||
| + | **3. As implicações éticas do relato** | ||
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| + | * Quanto ao segundo versante da investigação, | ||
| + | * A noção de identidade narrativa ajuda aqui também a explicitar relações entre narratividade e ética já antecipadas sem terem sido esclarecidas, | ||
| + | * O enraizamento do relato literário no solo do relato oral, no plano da prefiguração do relato, já sugere que a função narrativa não é destituída de implicações éticas | ||
| + | * Em seu célebre ensaio sobre o narrador, Walter Benjamin lembra que, em sua forma mais primitiva, ainda discernível na epopeia e já em vias de extinção no romance, a arte de narrar é a arte de trocar experiências, | ||
| + | * Essa sabedoria não deixa de comportar apreciações, | ||
| + | * Dir-se-á que o relato literário, no plano da configuração narrativa propriamente dita, perde essas determinações éticas em benefício de determinações puramente estéticas? Seria equivocar-se sobre a própria estética | ||
| + | * O prazer que se toma em seguir o destino das personagens implica certamente suspender todo julgamento moral real ao mesmo tempo que se suspende a ação efetiva, mas, no recinto irreal da ficção, não se deixa de explorar novas maneiras de avaliar ações e personagens, | ||
| + | * Transvalorar, | ||
| + | * É graças a esses exercícios de avaliação na dimensão da ficção que o relato pode finalmente exercer sua função de descoberta e também de transformação em relação ao sentir e ao agir do leitor, na fase de refiguração da ação pelo relato | ||
| + | * Em Temps et Récit III chegou-se a dizer que a forma de relato que se quer mais neutra a esse respeito, o relato historiográfico, | ||
| + | * É ao menos no modo da imaginação e da simpatia que ele faz reviver maneiras de avaliar que continuam a pertencer à nossa humanidade profunda, sendo por isso a historiografia lembrada de sua relação de dívida para com os homens do passado, transformando-se essa relação de dívida, em certas circunstâncias — em particular quando o historiador se confronta ao horrível, figura-limite da história das vítimas —, em dever de não esquecer | ||
| + | * Não é sobre as certezas referentes às implicações éticas da função narrativa que se quer concluir este estudo, pois, assim como no primeiro versante surgiram dificuldades particulares no ponto em que se recruzam teoria narrativa e teoria da ação, dificuldades simétricas surgem no ponto em que a teoria narrativa se inflete em teoria ética | ||
| + | * Elas dizem respeito ao destino distinto, ou mesmo oposto, da identidade, tema diretor do presente estudo em um e outro registro; na seção consagrada à problemática da identidade, admitiu-se que a identidade-ipseidade cobre um espectro de significações desde um polo extremo em que recobre a identidade do mesmo até o outro polo extremo em que dele inteiramente se dissocia | ||
| + | * Esse primeiro polo pareceu simbolizado pelo fenômeno do caráter, pelo qual a pessoa se torna identificável e reidentificável; | ||
| + | * Porque alguém conta comigo, sou responsável por minhas ações perante um outro; o termo responsabilidade reúne as duas significações, | ||
| + | * Ao opor polarmente a manutenção de si ao caráter, quis-se demarcar a dimensão propriamente ética da ipseidade, sem consideração pela perpetuação do caráter, marcando-se assim o intervalo entre duas modalidades de permanência no tempo, bem dito pelo termo manutenção de si, oposto ao de perpetuação do mesmo, cabendo perguntar onde se situa finalmente a identidade narrativa nesse espectro de variações entre o polo de ipseidade-mesmidade do caráter e o polo de pura ipseidade da manutenção de si | ||
| + | * A resposta já parece dada: a identidade narrativa mantém-se no entremeio; ao narrativizar o caráter, o relato lhe devolve o movimento, abolido nas disposições adquiridas, nas identificações-com sedimentadas; | ||
| + | * A dificuldade vem dos casos desconcertantes com que se concluiu a seção anterior, casos-limite que parecem propor tal problematização da identidade narrativa que, longe de aproximar-se da identidade ética figurada pela manutenção de si, antes lhe retiram todo ponto de apoio | ||
| + | * Enquanto a linha divisória passava entre os casos perturbadores da ficção literária e os puzzling cases da ficção científica, | ||
| + | * Esse alegato pela ipseidade, documentado pelos casos perturbadores da ficção literária, começa a virar seu contrário quando, retornando a ficção à vida, o leitor em busca de identidade se vê confrontado à hipótese de sua própria perda de identidade, essa Ichlosigkeit que foi ao mesmo tempo o tormento de Musil e o efeito de sentido interminavelmente cultivado por sua obra | ||
| + | * O si-mesmo aqui refigurado pelo relato é na realidade confrontado à hipótese de seu próprio nada, nada que não é o nada de que não há nada a dizer, dando essa hipótese muito a dizer, como testemunha a imensidão de uma obra como O Homem sem Qualidades | ||
| + | * A frase "Não sou nada" deve manter sua forma paradoxal: " | ||
| + | * A hipótese não carece de verificações existenciais, | ||
| + | * O que reabre o debate é precisamente esse desnudamento da questão quem?, confrontado à orgulhosa resposta " | ||
| + | * Somos tentados a dizer que os casos perturbadores da ficção literária conduzem paradoxalmente à vizinhança da conclusão ética que Parfit tirava da indecidibilidade de seus puzzling cases — a de que a identidade pessoal não é o que importa —, apagando-se então não apenas a identidade do mesmo, mas a identidade do si-mesmo, que se cria salva do desastre da primeira | ||
| + | * Em certo sentido isso é verdade: os relatos que narram a dissolução do si-mesmo podem ser tidos por relatos interpretativos a respeito do que se poderia chamar uma apreensão apofática do si-mesmo, consistindo essa apófase em que a passagem do " | ||
| + | * Ora, o "o quê" do " | ||
| + | * Como manter então, no plano ético, um si-mesmo que, no plano narrativo, parece apagar-se? Como dizer ao mesmo tempo "Quem sou eu?" e " | ||
| + | * De um lado, não há dúvida de que o " | ||
| + | * Entre a imaginação que diz "Posso experimentar tudo" e a voz que diz "Tudo é possível, mas nem tudo é benéfico [entenda-se: | ||
| + | * De outro lado, a angustiante pergunta Quem sou eu?, que os casos perturbadores da ficção literária desnudam, pode de certo modo incorporar-se à orgulhosa declaração "Aqui me mantenho!", | ||
| + | * O afastamento entre a pergunta em que se abisma a imaginação narrativa e a resposta do sujeito tornado responsável pela expectativa do outro torna-se falha secreta no próprio cerne do compromisso, | ||
| + | * É exatamente nesse ponto que a via aqui seguida recorta a de Parfit: em certo sentido, a caracterização da ipseidade pela relação de posse — ou pertencimento — entre a pessoa e seus pensamentos, | ||
| + | * Por mais que essa relação não se preste a confusão no plano gramatical dos dêiticos (meu/o meu; teu/o teu; seu, sua/o seu, a sua etc.), permanece suspeita no plano em que Parfit trava seu combate contra o princípio do self-interest; | ||
| + | * O que sugerem os casos-limite engendrados pela imaginação narrativa é uma dialética da posse e da despossessão, | ||
| + | * Que esse despojamento, | ||
| + | * Não convém, porém, que a crise da ipseidade tenha por efeito substituir o ódio de si pela estima de si | ||
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