estudos:ricoeur:si-mesmo:identidade
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| + | ====== Identidade pessoal e narrativa====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Soi-même comme un autre. Paris: Editions du Seuil, 1990.// | ||
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| + | * Com a discussão dos rapports entre agente e ação, encerra-se uma primeira série de estudos situados sob a égide da concepção analítica da linguagem, tendo aparecido, ao longo dessa análise, que a teoria da ação, apesar de sua dependência de princípio em relação à teoria da linguagem, constitui disciplina autônoma em razão dos traços próprios do agir humano e da originalidade do vínculo entre o agir e seu agente, autonomia que requereu nova aliança entre a tradição analítica e a tradição fenomenológica e hermenêutica, | ||
| + | * A lacuna mais considerável dos estudos anteriores, a um olhar retrospectivo, | ||
| + | * Uma vez confrontada — vitoriosamente, | ||
| + | * A teoria narrativa só pode exercer essa mediação se se mostrar, de um lado, que o campo prático coberto por ela é mais vasto que o coberto pela semântica e pela pragmática das frases de ação, e, de outro, que as ações organizadas em narrativa apresentam traços que só podem ser elaborados tematicamente no quadro de uma ética, bastando por ora dizer que, em muitas narrativas, é na escala de uma vida inteira que o si-mesmo busca sua identidade, havendo entre as ações curtas analisadas anteriormente e a conexão de uma vida, de que fala Dilthey em seus ensaios teóricos sobre a autobiografia, | ||
| + | * Não há narrativa eticamente neutra, sendo a literatura um vasto laboratório onde se ensaiam estimações, | ||
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| + | **1. O problema da identidade pessoal** | ||
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| + | * O problema da identidade pessoal constitui o lugar privilegiado da confrontação entre os dois usos maiores do conceito de identidade já evocados sem nunca terem sido tematizados propriamente: | ||
| + | * À primeira vista, a questão da permanência no tempo se prende exclusivamente à identidade-idem, | ||
| + | * A mesmidade é um conceito de relação e uma relação de relações; vem em primeiro lugar a identidade numérica, segundo a qual duas ocorrências de uma coisa designada por um nome invariável na linguagem ordinária não formam duas coisas diferentes, mas uma só e mesma coisa, correspondendo-lhe a operação de identificação como reidentificação do mesmo, pela qual conhecer é reconhecer | ||
| + | * Vem em segundo lugar a identidade qualitativa, | ||
| + | * Essas duas componentes são irredutíveis uma à outra, como em Kant as categorias de quantidade e qualidade, mas não estranhas entre si, pois é na medida em que o tempo está implicado na sucessão das ocorrências que a reidentificação do mesmo pode suscitar hesitação, | ||
| + | * A fraqueza do critério de similitude em grande distância temporal sugere apelar a um terceiro critério, o da continuidade ininterrupta entre o primeiro e o último estágio do desenvolvimento do que se tem por um mesmo indivíduo, critério que prevalece nos casos em que crescimento e envelhecimento operam como fatores de dessemelhança — como se diz do carvalho que é o mesmo, da bolota à árvore desenvolvida, | ||
| + | * A ameaça que o tempo representa para a identidade só é inteiramente conjurada se se puder colocar, na base da similitude e da continuidade ininterrupta, | ||
| + | * Feita essa análise conceitual da identidade-mesmidade, | ||
| + | * Ao falar de si mesmo, dispõe-se de fato de dois modelos de permanência no tempo, resumíveis em dois termos ao mesmo tempo descritivos e emblemáticos: | ||
| + | * A hipótese é que a polaridade desses dois modelos resulta de que a permanência do caráter exprime o recobrimento quase completo entre a problemática do idem e a do ipse, enquanto a fidelidade a si mesmo na manutenção da palavra dada marca o afastamento extremo entre a permanência do si-mesmo e a do mesmo, atestando a irredutibilidade das duas problemáticas; | ||
| + | * Por caráter entende-se o conjunto das marcas distintivas que permitem reidentificar um indivíduo humano como sendo o mesmo, cumulando a identidade numérica e qualitativa, | ||
| + | * Já em Le Volontaire et l' | ||
| + | * Em L' | ||
| + | * Reinterpreta-se hoje o caráter não mais na problemática da perspectiva e da abertura, mas em função de seu lugar na problemática da identidade, deslocamento que questiona o estatuto de imutabilidade antes tido por certo, revelando-se essa imutabilidade de gênero particular, o que a reinterpretação do caráter como disposição adquirida permite tematizar em sua dimensão temporal, designando o caráter, doravante, o conjunto das disposições duráveis pelas quais se reconhece uma pessoa, ponto-limite em que a problemática do ipse se torna indiscernível da do idem | ||
| + | * À noção de disposição prende-se, em primeiro lugar, a de hábito, com sua dupla valência de hábito sendo contraído e hábito já adquirido, valência com significação temporal evidente, pois o hábito dá uma história ao caráter, história em que a sedimentação tende a recobrir e, no limite, a abolir a inovação que a precedeu | ||
| + | * Félix Ravaisson, em De l' | ||
| + | * Prende-se ainda à noção de disposição o conjunto das identificações adquiridas pelas quais o outro entra na composição do mesmo, sendo a identidade de uma pessoa ou de uma comunidade em grande parte feita dessas identificações-a valores, normas, ideais, modelos, heróis, nos quais se reconhecem | ||
| + | * A identificação a figuras heroicas manifesta essa alteridade assumida, já latente na identificação a valores que fazem colocar uma causa acima da própria vida, incorporando-se ao caráter um elemento de lealdade que o faz virar fidelidade, ou seja, manutenção de si, comprovando que não se pode pensar até o fim o idem da pessoa sem o ipse; integram-se assim aos traços de caráter os aspectos de preferência avaliativa que definem o aspecto ético do caráter no sentido aristotélico, | ||
| + | * Por essa estabilidade emprestada dos hábitos e identificações adquiridas, o caráter assegura a identidade numérica, a qualitativa, | ||
| + | * Esse recobrimento do ipse pelo idem não exige, porém, renunciar à sua distinção, | ||
| + | * Numerosos e vãos debates sobre identidade atestam que o caráter deve ser recolocado no movimento de uma narração, sobretudo quando têm por objeto a identidade de uma comunidade histórica, como no caso de Fernand Braudel em L' | ||
| + | * Antes de prosseguir, importa argumentar em favor da distinção entre identidade do si-mesmo e identidade do mesmo a partir dos contextos em que as duas espécies de identidade deixam de se recobrir e se dissociam inteiramente, | ||
| + | * O uso das palavras é bom guia: uma coisa é a perseveração do caráter, outra a perseverança da fidelidade à palavra dada; uma coisa é a continuação do caráter, outra a constância na amizade; Heidegger tem razão em distinguir da permanência substancial o manter-se de si (Selbständigkeit), | ||
| + | * A manutenção da promessa, já lembrada anteriormente, | ||
| + | * Não é necessário situar a manutenção da palavra dada sob o horizonte do ser-para-a-morte, | ||
| + | * Essa nova maneira de opor a mesmidade do caráter à manutenção de si na promessa abre um intervalo de sentido a preencher, intervalo aberto pela polaridade, em termos temporais, entre a perseveração do caráter e a manutenção de si na promessa, sendo na ordem da temporalidade que a mediação deve ser buscada, ocupando esse meio a noção de identidade narrativa, que oscilará entre um limite inferior, onde a permanência no tempo exprime a confusão entre idem e ipse, e um limite superior, onde o ipse põe a questão de sua identidade sem o socorro do idem | ||
| + | * Antes disso, é preciso examinar as teorias da identidade pessoal que ignoram tanto a distinção entre idem e ipse quanto os recursos que a narratividade oferece para resolver os paradoxos da identidade pessoal, paradoxos que essas mesmas teorias têm o mérito de formular em termos fortes e claros | ||
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| + | **2. Os paradoxos da identidade pessoal** | ||
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| + | * Que, sem o fio condutor da distinção entre dois modelos de identidade e sem o socorro da mediação narrativa, a questão da identidade pessoal se perca em dificuldades e paradoxos paralisantes, | ||
| + | * Da obra de Locke a tradição posterior reteve a equação entre identidade pessoal e memória, equação paga ao preço de inconsistência argumentativa e inverossimilhança nas consequências | ||
| + | * No célebre capítulo XXVII do Essai philosophique concernant l' | ||
| + | * Essa definição parece cumular os caracteres da mesmidade, pela operação de comparação, | ||
| + | * A tradição creditou a Locke a invenção de um critério de identidade psíquica, a que se oporá o critério de identidade corporal, ocupando desde então a discussão dos critérios de identidade a cena principal, opondo-se a Locke as aporias de uma identidade suspensa apenas ao testemunho da memória — limites, intermitências durante o sono, falhas da memória — e aporias mais ontológicas, | ||
| + | * Locke assumiu sem hesitar paradoxos que seus sucessores transformaram em casos de indecidibilidade, | ||
| + | * Com Hume abre-se a era da dúvida e da suspeita; no Traité de la nature humaine, livro I, quarta parte, seção sexta (1739), Hume propõe um conceito forte da relação de identidade | ||
| + | * "Temos uma ideia distinta de um objeto que permanece invariável e ininterrupto durante uma suposta variação de tempo; a essa ideia chamamos identidade ou sameness" | ||
| + | * Sem ambiguidade, | ||
| + | * Essa conclusão, porém, abre o debate em vez de fechá-lo: perguntando o que nos dá tão forte propensão a sobrepor identidade a essas percepções sucessivas, Hume mobiliza dois conceitos novos, a imaginação e a crença, sendo à imaginação atribuída a faculdade de passar facilmente de uma experiência a outra quando sua diferença é fraca e gradual, transformando diversidade em identidade, e à crença o papel de colmatar o déficit da impressão | ||
| + | * Numa cultura como a de Hume, admitir que uma ideia repousa sobre uma crença e não sobre uma impressão não a desacredita inteiramente, | ||
| + | * Objeta-se que Hume buscava o que não podia encontrar, um si-mesmo que fosse apenas um mesmo, pressupondo o si-mesmo que dizia não buscar, como mostra seu argumento principal: " | ||
| + | * Roderick Chisholm observa, em Person and Object, que ao menos alguém se encontra em processo de tropeçar, de observar uma percepção, | ||
| + | * A discussão sobre se o melhor critério de identidade é de ordem corporal ou psicológica não será aprofundada, | ||
| + | * Não se deve supor que o critério psicológico tenha afinidade privilegiada com a ipseidade e o corporal com a mesmidade, pois, embora a memória tenha afinidade com a ipseidade, o critério psicológico não se reduz a ela, como mostra o caráter, que antes inclina a pensar a identidade em termos de mesmidade, sendo o caráter o si-mesmo sob as aparências da mesmidade; inversamente, | ||
| + | * Há dúvida quanto ao uso do termo critério nesta discussão, pois critério é o que permite distinguir o verdadeiro do falso numa competição entre pretensões à verdade, e a questão é saber se ipseidade e mesmidade se prestam do mesmo modo à prova do julgamento de verdade; no caso da mesmidade, o termo critério designa as provas de verificação e falsificação de enunciados sobre identidade como relação — mesmo que... —, como afirmavam Locke e Hume e como em Kant a substância é a primeira categoria da relação; quanto à ipseidade, cabe perguntar se o pertencimento de meu corpo a mim mesmo releva de uma criteriologia ou antes do campo da atestação, | ||
| + | * Em vez de entrar na discussão dos critérios de identidade pessoal, optou-se por medir forças com uma obra maior que, transcendendo o debate entre critério psicológico e corporal, se dirige diretamente às crenças ligadas ordinariamente à reivindicação de identidade pessoal: Reasons and Persons, de Derek Parfit, nela se reconhecendo o adversário — não o inimigo — mais formidável da tese da identidade narrativa, pois suas análises se desenrolam num plano em que identidade só pode significar mesmidade, excluída expressamente toda distinção entre mesmidade e ipseidade | ||
| + | * A obra lembra tanto Locke, pelo recurso a casos paradoxais, quanto Hume, por sua conclusão cética, conduzindo os famosos puzzling cases que servem de prova ao longo do livro à ideia de que a própria questão da identidade pode ser vazia de sentido, já que nos casos paradoxais a resposta é indeterminada, | ||
| + | * Parfit ataca as crenças de base subjacentes ao manejo dos critérios de identidade, decomponíveis didaticamente em três séries de asserções: | ||
| + | * A primeira tese de Parfit é que a crença comum deve ser reformulada nos termos da tese adversa, tida por única verdadeira, chamada tese reducionista, | ||
| + | * A tese reducionista reintroduz a noção neutra de evento já discutida na teoria da ação a propósito das teses de Donald Davidson sobre a relação entre ação e evento, parecendo a categoria de evento primitiva, não tributária da de entidade substancial, | ||
| + | * A tese reducionista exclui exatamente que sejamos entidades existindo separadamente, | ||
| + | * É a tese reducionista que estabelece o vocabulário de referência em que a tese adversa é formulada, o vocabulário do evento e do fato descrito impessoalmente, | ||
| + | * A verdadeira questão é se a minhidade releva da ordem dos fatos, da epistemologia dos observáveis, | ||
| + | * Dessa ignorância resulta, como corolário, a falsa aparência de que a tese não reducionista encontraria sua ilustração mais notável no dualismo espiritualista ao qual o cartesianismo é apressadamente assimilado, quando, na verdade, o que a tese redutora reduz não é primariamente a minhidade do vivido psíquico, mas mais fundamentalmente a do corpo próprio — de meu corpo —, marcando a impessoalidade do evento antes de tudo a neutralização do corpo próprio | ||
| + | * A verdadeira diferença entre tese não reducionista e reducionista não coincide com o pretenso dualismo entre substância espiritual e corporal, mas com a diferença entre pertencimento meu e descrição impessoal, devendo a confrontação mais radical opor as duas perspectivas sobre o corpo, o corpo como meu e o corpo como um corpo entre corpos, marcando a tese reducionista a redução do corpo próprio ao corpo qualquer, neutralização que facilita, em todas as experiências de pensamento subsequentes, | ||
| + | * O cérebro difere de muitas partes do corpo, e do corpo inteiro como experiência integral, por ser desprovido de todo estatuto fenomenológico e, portanto, do traço de pertencimento meu — há relação vivida com os membros como órgãos de movimento (a mão), de percepção (o olho), de emoção (o coração), de expressão (a voz), mas nenhuma relação vivida com o próprio cérebro, não significando "meu cérebro" | ||
| + | * Quanto aos fenômenos psíquicos, colocam problema comparável, | ||
| + | * Isso seria possível se se pudesse criar uma réplica da memória de um no cérebro de outro por manipulação cerebral, podendo então a memória ser tida por equivalente a um traço cerebral, falando-se de traços mnêmicos, nada impedindo fabricar uma réplica desses traços, definindo-se sobre essa base um conceito amplo de quase-memória, | ||
| + | * O caso da memória é apenas o mais frisante da continuidade psíquica, estando em causa a ascrição do pensamento a um pensador, perguntando-se se se pode substituir, sem perda semântica, isso pensa (ou a pensamento está em curso) por eu penso, parecendo a ascrição a si e a outro, no vocabulário de Strawson, intraduzível nos termos da descrição impessoal | ||
| + | * A segunda crença atacada por Parfit é a de que a questão da identidade é sempre determinável, | ||
| + | * A invenção de puzzling cases com o auxílio da ficção científica, | ||
| + | * A questão da identidade sempre suscitou interesse por casos paradoxais: as crenças religiosas e teológicas relativas à transmigração das almas, à imortalidade, | ||
| + | * A literatura sobre identidade pessoal está repleta de invenções desse tipo — transplante de cérebro, bisseção, duplicação de hemisférios cerebrais —, além dos casos de desdobramento de personalidade oferecidos pela observação clínica, sendo essa continuidade no recurso à imaginação de casos capazes de paralisar a reflexão indício de que a questão da identidade constitui lugar privilegiado de aporias, podendo talvez concluir-se não que a questão é vazia, mas que pode permanecer sem resposta | ||
| + | * A seleção dos puzzling cases de Parfit é regida pela hipótese reducionista já discutida, como mostra a experiência fictícia de teletransporte que abre a terceira parte de Reasons and Persons, em duas versões, ambas fazendo uma cópia exata do cérebro, transmitida por rádio a um receptor noutro planeta, onde uma máquina reconstitui uma réplica exata de mim mesmo | ||
| + | * Na primeira versão, meu cérebro e corpo são destruídos na viagem espacial, sendo indecidível se sobrevivi na réplica ou morri — numericamente, | ||
| + | * Na segunda versão, meu cérebro e corpo não são destruídos, | ||
| + | * A presunção subjacente a esse e a outros puzzling cases é que são casos imaginários concebíveis mesmo que tecnicamente irrealizáveis, | ||
| + | * A conclusão que Parfit tira da indecidibilidade revelada pelos puzzling cases é que a questão era ela mesma vazia — conclusão irresistível se se admite que identidade significa mesmidade —, pois em nenhum dos casos mais embaraçosos nenhuma das três soluções é plausível: não existir ninguém que seja o mesmo que eu; eu ser o mesmo que um dos dois indivíduos resultantes; | ||
| + | * O paradoxo é bem um paradoxo da mesmidade, tendo sido preciso tratar como equivalentes a pergunta vou sobreviver? e a pergunta haverá uma pessoa que seja a mesma pessoa que eu?, sendo nesse quadro predeterminado que resolver o paradoxo é dissolver a questão, tendo-a por vazia, ou antes indeterminada | ||
| + | * Se Parfit atribui aos puzzling cases papel tão eminente é porque eles dissociam componentes tidas por indissociáveis na vida cotidiana — o recobrimento entre a conexão psicológica (e eventualmente corporal), que a rigor pode relevar de descrição impessoal, e o sentimento de pertencimento a alguém capaz de se designar como possuidor de suas próprias lembranças —, ficando reservado à comparação ulterior entre ficção científica e ficção literária o exame da contingência presumida dos traços mais fundamentais da condição humana, entre os quais parece indepassável, | ||
| + | * Enquanto se considera apenas a adequação da réplica ao cérebro reduplicado, | ||
| + | * A terceira crença atacada por Parfit concerne ao julgamento de importância atribuído à questão da identidade — " | ||
| + | * Esse ataque ao julgamento de importância ocupa posição estratégica central em toda a obra de Parfit, pois o problema da identidade discutido na terceira parte do livro destina-se a resolver um problema moral posto nas duas partes anteriores, o da racionalidade da escolha ética diante da moral utilitarista predominante no mundo de língua inglesa, atacando Parfit sua versão mais egoísta, chamada teoria do interesse próprio (self-interest theory), estando em jogo o si-mesmo em sua dimensão ética | ||
| + | * A tese de Parfit é que a disputa entre egoísmo e altruísmo não pode ser decidida no plano em que se desenrola sem antes tomar posição sobre que sorte de entidades são as pessoas — daí o título Reasons and Persons —, passando as razões válidas da escolha ética pela dissolução de crenças falsas sobre o estatuto ontológico das pessoas, retornando-se assim, ao fim da terceira parte, à questão posta na primeira, recaindo sobre a questão da identidade todo o peso das questões éticas iniciais, tornando-se ela um problema propriamente axiológico | ||
| + | * Cabe perguntar a que identidade se pede que se renuncie — à mesmidade que Hume já tinha por inencontrável e pouco digna de interesse, ou à minhidade que constitui o núcleo da tese não reducionista? | ||
| + | * Por mais que se admita que as variações imaginativas sobre a identidade pessoal conduzam a uma crise da própria ipseidade — como confirmarão os casos bizarros de ordem narrativa adiante considerados —, não se vê como a questão quem? poderia desaparecer nos casos extremos em que fica sem resposta, pois como se poderia perguntar o que importa sem perguntar a quem a coisa importa ou não?, não relevando essa interrogação do cuidado de si, constitutivo da ipseidade? E, remontando do terceiro nível ao segundo e ao primeiro nível das crenças examinadas, não se continua a mover-se no elemento da crença sobre o que somos?, traindo a tenacidade dos pronomes pessoais, presente até no enunciado da própria tese reducionista, | ||
| + | * O que está em jogo, em última instância, é mudar a concepção que se faz de nós mesmos e de nossa vida efetiva, sendo nossa maneira de ver a vida que está em causa | ||
| + | * Objetar-se-á ao argumento em favor da irredutibilidade do traço de minhidade, e por implicação da própria questão da ipseidade, que o quase-budismo de Parfit não deixa intacta a própria asserção de ipseidade, pois Parfit pede que nos preocupemos menos conosco mesmos, com nosso envelhecimento e nossa morte, que atribuamos menos importância a saber se tais ou tais experiências provêm de mesmas vidas ou de vidas diferentes, que nos interessemos pelas experiências mesmas mais do que pela pessoa que as tem, que façamos menos diferença entre nós mesmos em épocas diferentes da vida e outrem com experiências semelhantes às nossas, que ignoremos o mais possível as fronteiras entre as vidas dando menos importância à unidade de cada vida, que façamos da unidade da própria vida antes uma obra de arte que uma reivindicação de independência | ||
| + | * Não seria isso convite à neutralização da questão da ipseidade, para além da observação impessoal do encadeamento de uma vida, opondo Parfit moralista a despreocupação — pregada também, afinal, por Jesus no Sermão da Montanha — ao cuidado de si? A objeção procede, mas pode ser incorporada à defesa da ipseidade frente à sua redução à mesmidade, pois o que a reflexão moral de Parfit provoca é, no fundo, uma crise interna à própria ipseidade, consistindo essa crise em que a noção mesma de pertencimento das experiências a mim mesmo tem sentido ambíguo, havendo posse e posse: o que Parfit visa é precisamente o egotismo que alimenta a teoria do interesse próprio contra a qual sua obra se dirige, mas não será um momento de despossessão de si essencial à autêntica ipseidade, sendo preciso, para se tornar disponível, | ||
| + | * Essas mesmas questões serão retomadas ao termo do argumento em favor de uma interpretação narrativa da identidade, que também tem seus casos bizarros, capazes de reconduzir a asserção de identidade a seu estatuto de questão — por vezes sem resposta: quem sou eu, em verdade? —, ponto em que a teoria narrativa, convocada a enfrentar as interrogações de Parfit, será também levada a explorar sua fronteira comum com a teoria ética | ||
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