estudos:ricoeur:schleiermacher

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 É nessa segunda interpretação que se realiza o projeto mesmo de uma hermenêutica. Trata-se de atingir a subjetividade daquele que fala, ficando a língua esquecida. A linguagem torna-se, aqui, o órgão a serviço da individualidade. Essa interpretação é chamada de positiva, porque atinge o ato de pensamento que produz o discurso. Não somente uma exclui a outra, mas cada uma exige talentos distintos, como o revelam os excessos respectivos de ambas. O excesso da primeira gera o pedantismo; o da segunda, a nebulosidade. Somente nos últimos textos de Schleiermacher a segunda interpretação ganha um primado sobre a primeira e o caráter adivinhatório da interpretação enfatiza seu caráter psicológico. Todavia, mesmo neles, a interpretação psicológica — este termo substitui o de interpretação técnica — jamais se limita a uma afinidade com o autor, mas implica motivos críticos na atividade de comparação: uma individualidade só pode ser apreendida por comparação e por contraste. Assim, também a segunda hermenêutica comporta elementos técnicos e discursivos. Não se apreende jamais diretamente uma individualidade, mas somente sua diferença com relação a outra e a si mesma. Complica-se, assim, a dificuldade de se demarcar as duas hermenêuticas pela superposição, ao primeiro par de opostos, o gramatical e o técnico, de um segundo par de opostos, a adivinhação e a comparação. Os "Discursos Acadêmicos" [^In: Schleiermacher Werke I, Leipzig, 1928.]  dão testemunho desse extremo embaraço do fundador da hermenêutica moderna. Proponho-me a mostrar, no segundo estudo, que tais embaraços só podem ser superados se elucidarmos a relação da obra com a subjetividade do autor e se, na interpretação, deslocarmos a ênfase da busca patética das subjetividades subterrâneas em direção ao sentido e à referência da própria obra. Contudo, precisamos, antes, levar mais adiante a aporia central da hermenêutica, considerando a ampliação decisiva pela qual Dilthey a fez passar subordinando a problemática filológica e exegética à problemática histórica. É essa ampliação, no sentido de uma maior universalidade, que prepara o deslocamento da epistemologia em direção à ontologia, no sentido de uma maior radicalidade. É nessa segunda interpretação que se realiza o projeto mesmo de uma hermenêutica. Trata-se de atingir a subjetividade daquele que fala, ficando a língua esquecida. A linguagem torna-se, aqui, o órgão a serviço da individualidade. Essa interpretação é chamada de positiva, porque atinge o ato de pensamento que produz o discurso. Não somente uma exclui a outra, mas cada uma exige talentos distintos, como o revelam os excessos respectivos de ambas. O excesso da primeira gera o pedantismo; o da segunda, a nebulosidade. Somente nos últimos textos de Schleiermacher a segunda interpretação ganha um primado sobre a primeira e o caráter adivinhatório da interpretação enfatiza seu caráter psicológico. Todavia, mesmo neles, a interpretação psicológica — este termo substitui o de interpretação técnica — jamais se limita a uma afinidade com o autor, mas implica motivos críticos na atividade de comparação: uma individualidade só pode ser apreendida por comparação e por contraste. Assim, também a segunda hermenêutica comporta elementos técnicos e discursivos. Não se apreende jamais diretamente uma individualidade, mas somente sua diferença com relação a outra e a si mesma. Complica-se, assim, a dificuldade de se demarcar as duas hermenêuticas pela superposição, ao primeiro par de opostos, o gramatical e o técnico, de um segundo par de opostos, a adivinhação e a comparação. Os "Discursos Acadêmicos" [^In: Schleiermacher Werke I, Leipzig, 1928.]  dão testemunho desse extremo embaraço do fundador da hermenêutica moderna. Proponho-me a mostrar, no segundo estudo, que tais embaraços só podem ser superados se elucidarmos a relação da obra com a subjetividade do autor e se, na interpretação, deslocarmos a ênfase da busca patética das subjetividades subterrâneas em direção ao sentido e à referência da própria obra. Contudo, precisamos, antes, levar mais adiante a aporia central da hermenêutica, considerando a ampliação decisiva pela qual Dilthey a fez passar subordinando a problemática filológica e exegética à problemática histórica. É essa ampliação, no sentido de uma maior universalidade, que prepara o deslocamento da epistemologia em direção à ontologia, no sentido de uma maior radicalidade.
  
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 Le véritable mouvement de dérégionalisation commence avec l’effort pour dégager un problème général de l’activité d’interprétation chaque fois engagée dans des textes différents. Le discernement de cette problématique centrale et unitaire est l’œuvre de Friedrich Schleiermacher. Avant lui, il y a d’une part une philologie des textes classiques, principalement ceux de l’Antiquité gréco-latine, d’autre part une exégèse des textes sacrés, Ancien et Nouveau Testaments. Et dans chacun de ces deux domaines, le travail d’interprétation varie suivant la diversité des textes. Une herméneutique générale exige donc que l’on s’élève au-dessus des applications particulières et que l’on discerne les opérations communes aux deux grandes branches de l’herméneutique. Mais, pour y parvenir, il faut s’élever non seulement au-dessus de la particularité des textes, mais de la particularité des règles, des recettes entre lesquelles se disperse l’art de comprendre. L’herméneutique est née de cet effort pour élever l’exégèse et la philologie au rang d’une Kunstlehre, c’est-à-dire d’une « technologie » qui ne se borne pas à une simple collection d’opérations sans lien. Le véritable mouvement de dérégionalisation commence avec l’effort pour dégager un problème général de l’activité d’interprétation chaque fois engagée dans des textes différents. Le discernement de cette problématique centrale et unitaire est l’œuvre de Friedrich Schleiermacher. Avant lui, il y a d’une part une philologie des textes classiques, principalement ceux de l’Antiquité gréco-latine, d’autre part une exégèse des textes sacrés, Ancien et Nouveau Testaments. Et dans chacun de ces deux domaines, le travail d’interprétation varie suivant la diversité des textes. Une herméneutique générale exige donc que l’on s’élève au-dessus des applications particulières et que l’on discerne les opérations communes aux deux grandes branches de l’herméneutique. Mais, pour y parvenir, il faut s’élever non seulement au-dessus de la particularité des textes, mais de la particularité des règles, des recettes entre lesquelles se disperse l’art de comprendre. L’herméneutique est née de cet effort pour élever l’exégèse et la philologie au rang d’une Kunstlehre, c’est-à-dire d’une « technologie » qui ne se borne pas à une simple collection d’opérations sans lien.
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