estudos:ricoeur:mho:exercicio-memoria
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| + | ====== Exercício da Memória ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. La mémoire, l’histoire, | ||
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| + | **NOTA DE ORIENTAÇÃO** | ||
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| + | * A abordagem cognitiva do capítulo anterior não esgota a descrição da memória sob o ângulo objetal, exigindo complemento por uma abordagem pragmática, | ||
| + | * As abordagens cognitiva e pragmática se recobrem na operação do rememorar, reservando-se o termo remémoration para designar essa superposição entre anamnēsis, recoleção e rememoração. | ||
| + | * Esse duplo caráter cognitivo e pragmático confere à memória especificidade entre os fenômenos psíquicos, inscrevendo o ato de fazer memória entre os poderes do "eu posso" de Merleau-Ponty, | ||
| + | * Essa originalidade importa para toda a investigação subsequente, | ||
| + | * O objetivo último da investigação é o destino do voto de fidelidade ligado à visada da memória como guardiã da profundidade e da distância temporal, questionando-se como as vicissitudes da memória exercida podem afetar essa ambição veritativa, dado que todo uso comporta a possibilidade do abuso, e é pelo viés do abuso que a visada veritativa da memória é ameaçada. | ||
| + | * Propõe-se esboçar uma tipologia de grandes malhas desses abusos da memória, cada um correlacionado a um aspecto da memória exercida. | ||
| + | * Distinguem-se, | ||
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| + | **I. OS ABUSOS DA MEMÓRIA ARTIFICIAL: AS PROEZAS DA MEMORIZAÇÃO** | ||
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| + | * Distingue-se rigorosamente a mnemorização, | ||
| + | * A rememoração acentua o retorno à consciência desperta de um acontecimento reconhecido como anterior, sob a forma da evocação simples e do reconhecimento que conclui o rememorar, enquanto a memorização consiste em maneiras de aprender que fixam saberes e saber-fazeres para efetuação fácil, marcada por sentimento de espontaneidade, | ||
| + | * Descrever as maneiras de aprender do ponto de vista das técnicas de aquisição é projeto legítimo que permite identificar as falhas pelas quais o abuso se insinua no uso, seguindo-se uma ordem de complexidade crescente ligada à ambição de domínio sobre o processo de memorização. | ||
| + | * No grau mais baixo situam-se as técnicas de aprendizagem da psicologia experimental, | ||
| + | * A crítica de Kurt Goldstein, retomada por Merleau-Ponty em A Estrutura do Comportamento e por Canguilhem em O Conhecimento da Vida, denuncia o caráter artificial dessas situações experimentais frente às relações espontâneas do vivente com seu Umwelt, tal como a etologia as apreende. | ||
| + | * As maneiras de aprender oscilam entre manipulação e disciplina, dialética própria dos exercícios de memorização inscritos num programa de paideia, cujo modelo clássico é a recitação da lição decorada, exemplificada por Agostinho ao derivar sua análise do triplo presente do ato de recitar um poema ou versículo bíblico. | ||
| + | * A recitação constituiu por muito tempo o modo privilegiado de transmissão de textos prestigiosos, | ||
| + | * Exemplificam essa transmissão o catecismo cristão, as regras da escrita e da gramática, as declinações e conjugações do grego e do latim, as cantigas infantis, as fábulas e poemas, evocando-se Jorge Semprún murmurando ao ouvido de Maurice Halbwachs moribundo os versos de Baudelaire: "Ó morte, velho capitão, é tempo, levemos ferro... nossos corações que conheces estão cheios de raios..." | ||
| + | * Também profissionais como médicos, juristas, cientistas e engenheiros recorrem vitaliciamente a copiosa memorização de repertórios e protocolos. | ||
| + | * Henri Gouhier situa sob o título de artes em dois tempos — dança, teatro, música — aquelas cuja execução se distingue da escrita da obra, exigindo dos praticantes um treino penoso da memória até obter execução fiel e inovadora, fazendo desses artistas verdadeiros atletas da memória e talvez os únicos testemunhos de um uso sem abuso. | ||
| + | * Evoca-se a longa tradição que elevou a memorização ao posto de ars memoriae, à qual Frances A. Yates dedicou a obra clássica The Art of Memory. | ||
| + | * O nome latino remete aos procedimentos mnemotécnicos dos retóricos latinos — o autor anônimo do Ad Herennium, Cícero (Tullius), Quintiliano —, mas o mito fundador é grego: o episódio de Simônides de Ceos, poeta louvado por Platão, que, chamado para fora do banquete por Castor e Pólux, escapa ao desabamento que sepulta atleta e convivas, podendo depois identificar os mortos por sua localização espacial, segundo Weinrich. | ||
| + | * Do tratado Ad Herennium extrai-se a definição "a memória artificial (artificiosa) consiste em lugares e imagens", | ||
| + | * Essa tradição da instituição oratória de Quintiliano é herdada tardiamente pelos atuais lugares de memória, remontando ao Teeteto e ao Fedro, com sua condenação da memória entregue a marcas exteriores, e chegando a Giordano Bruno, em quem Frances Yates vê culminar a ars memoriae. | ||
| + | * Um primeiro retorno é a reinscrição por Agostinho da retórica latina numa interpretação platônica, com o apólogo do selo na cera e o tema das " | ||
| + | * Um segundo retorno é a moralização completa da ars memoriae pelos escolásticos medievais, cruzando a retórica ciceroniana com a psicologia aristotélica do De anima e do De memoria et reminiscentia — comentado por Tomás de Aquino —, inscrevendo a memória entre as partes da retórica e da prudência; Alcuíno declara a Carlos Magno que a memória é o " | ||
| + | * O terceiro renversement é a junção entre mnemotécnica e segredo hermético em Giordano Bruno, cuja "roda da memória" | ||
| + | * Ao concluir seu percurso, Frances Yates confessa não poder responder com clareza se a memória oculta representaria o segredo da Renascença, | ||
| + | * Responde-se a Yates observando que a razão do eclipse da ars memoriae está no cerne mesmo do empreendimento: | ||
| + | * A ars memoriae nega peremptoriamente o esquecimento e a condição de ser-afetado pelo acontecimento, | ||
| + | * Restauram-se os limites da memória natural por duas vias: moderar a cultura da memorização e considerar os abusos enxertados sobre o uso. | ||
| + | * A crítica renascentista à recitação decorada, ilustrada por Montaigne — "Não se fazem senão asnos carregados de livros" | ||
| + | * Constata-se um abuso por excesso em Giordano Bruno e um abuso por falta em Rousseau, afetando este a memória natural, restando estimável a memorização profissional e artística. | ||
| + | * Com H. Weinrich, sugere-se um breve excurso sobre o esquecimento, | ||
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| + | **II. OS ABUSOS DA MEMÓRIA NATURAL: MEMÓRIA IMPEDIDA, MEMÓRIA MANIPULADA, MEMÓRIA ABUSIVAMENTE COMANDADA** | ||
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| + | * A presente seção dedica-se a uma tipologia dos usos e abusos da memória natural, seguindo a via aberta por Nietzsche na Segunda Consideração Intempestiva, | ||
| + | * Propõe-se distinguir três níveis: uma abordagem patológica com categorias clínicas emprestadas da psicanálise, | ||
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| + | **1. Nível patológico-terapêutico: | ||
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| + | * Nesse nível cabe falar de memória ferida ou doente, com expressões como trauma e cicatrizes, o que levanta a questão de até que ponto categorias forjadas no colóquio analítico interpessoal são aplicáveis à memória coletiva, e em que medida uma patologia da memória se inscreve numa investigação sobre a tekhnē memorial. | ||
| + | * Recorre-se a dois ensaios de Freud para orientar essa dupla dificuldade: | ||
| + | * O obstáculo principal ao trabalho de interpretação sobre lembranças traumáticas é a " | ||
| + | * Freud propõe duas indicações terapêuticas: | ||
| + | * A esse duplo trabalho de resistências dá-se o nome de Durcharbeiten (working through, perlaboração, | ||
| + | * O segundo ensaio, "Luto e Melancolia", | ||
| + | * Freud define o luto como " | ||
| + | * Ao contrário da melancolia, no luto não há diminuição do sentimento de si; o trabalho do luto consiste em submeter-se, | ||
| + | * O luto normal libera e desinibe o eu uma vez completado o trabalho, sendo o trabalho de luto o custo do trabalho do souvenir, e o trabalho do souvenir o benefício do trabalho de luto. | ||
| + | * Na melancolia é o próprio eu que se acha empobrecido, | ||
| + | * A melancolia empresta parte de seus caracteres ao luto e parte à regressão narcísica; o Ichgefühl do luto comporta vergonha diante de outrem, ausente no melancólico, | ||
| + | * A proximidade entre Klage e Anklage revela o caráter ambivalente das relações amorosas, aproximando amor e ódio até no luto; a melancolia partilha com o luto a capacidade de desaparecer sem deixar modificações grosseiras aparentes, exigindo tempo análogo, confessando Freud que "não compreendemos nem um nem outro fenômeno." | ||
| + | * Diante desse impasse freudiano, questiona-se se a melancolia deve ser abandonada aos médicos, evocando-se Saturn and Melancholy de Raymond Klibansky, Erwin Panofsky e Fritz Saxl, que recusam a redução nosológica iniciada por Kraepelin e reorientada por Binswanger. | ||
| + | * A melancolia remonta ao antigo sistema das quatro humores gregas — a bile negra ao lado do sangue, da cólera e do fleuma —, correlacionada a elementos cósmicos e idades da vida, no espírito pitagórico e empedocleano, | ||
| + | * A jonção entre a melancolia humoral e a loucura dos heróis trágicos — Ájax, Héracles, Belerofonte — culmina no Problema XXX atribuído a Aristóteles, | ||
| + | * Os pensadores da Renascença — Erasmo, Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Nicolau de Cusa, Dürer — orientam a meditação sobre a melancolia rumo à doutrina moderna do gênio, tensionada entre a " | ||
| + | * A gravura Melencolia I, de Dürer, comentada por Klibansky, Panofsky e Saxl, cristaliza essa reabilitação: | ||
| + | * Prolonga-se a investigação sobre a melancolia até a acedia dos espirituais medievais, complacência à tristeza evocada pela "Dame Merencolye" | ||
| + | * O trabalho de luto, embora sem antecedente direto na literatura da melancolia, encontra antídotos tradicionais — a alegria, o humor, a esperança, a confiança e o trabalho — celebrados na poesia lírica inglesa de Milton, Shakespeare e Keats, e estudados por Jean Starobinski em La Mélancolie au miroir a propósito de Baudelaire, cujo poema "Ao leitor" | ||
| + | * " | ||
| + | * Evocam-se ainda os últimos quartetos e sonatas de Beethoven como sublimação de uma tristeza que não fez o trabalho de luto, sendo a alegria a recompensa da renúncia ao objeto perdido, horizonte de uma memória " | ||
| + | * Retoma-se a questão da legitimidade de transpor ao plano da memória coletiva e da história as categorias patológicas de Freud, justificação buscada de ambos os lados. | ||
| + | * Do lado de Freud, aponta-se que suas próprias extrapolações — Totem e Tabu, Moisés e o Monoteísmo, | ||
| + | * Do lado da memória coletiva, a constituição bipolar da identidade pessoal e comunitária justifica falar diretamente de traumatismos coletivos e feridas da memória coletiva, sendo a noção de objeto perdido aplicável às perdas de poder, território e populações que constituem a substância de um Estado, ilustradas pelas grandes celebrações fúnebres. | ||
| + | * A transposição se completa ao mostrar que essas categorias tocam uma estrutura fundamental da existência coletiva: o rapport fundamental da história com a violência, retomando Hobbes sobre a origem contratual ligada ao temor da morte violenta, pois nenhuma comunidade histórica nasceu sem relação assimilável à guerra, e os eventos fundadores são atos violentos legitimados a posteriori, celebrados por uns e execrados por outros, gerando feridas simbólicas que reclamam cura. | ||
| + | * O excesso de memória evoca a compulsão de repetição, | ||
| + | * No plano coletivo, mais ainda que no individual, o cruzamento entre trabalho de luto e trabalho de souvenir ganha pleno sentido, tratando-se sempre de perdas do amor-próprio nacional que exigem o abandono dos investimentos ligados ao objeto perdido, submissão à prova de realidade que integra o trabalho do souvenir. | ||
| + | * A transição do nível patológico ao nível prático é fornecida pela cooperação exigida do analisante por Freud, articulando o lado passivo e o lado ativo da memória, noção de trabalho que implica responsabilidade, | ||
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| + | **2. Nível prático: a memória manipulada** | ||
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| + | * Ao lado das modalidades passivas e sofridas de abuso, cabe reservar espaço para abusos resultantes de manipulação concertada da memória e do esquecimento por detentores de poder, falando-se então de memória instrumentalizada, | ||
| + | * A especificidade dessa abordagem está no cruzamento entre memória e identidade, coletiva e pessoal, questão retomada adiante a propósito da teoria de Locke, sendo os sintomas dessa mobilização identitária o excesso de memória em certas regiões e o déficit alhures, fragilidade que se soma à fragilidade cognitiva já resultante da proximidade entre imaginação e memória. | ||
| + | * A fragilidade da identidade reside no caráter presumido, alegado, das respostas à pergunta "quem sou eu?", deslocando o problema da fragilidade da memória para a fragilidade da identidade. | ||
| + | * Primeira causa dessa fragilidade: | ||
| + | * Segunda causa: a confrontação com o outro percebida como ameaça, as humilhações e ofensas à estima de si sob o peso da alteridade mal tolerada fazendo virar acolhimento em rejeição. | ||
| + | * Terceira causa: a herança da violência fundadora, pois nenhuma comunidade histórica nasce sem relação originária à guerra, os mesmos acontecimentos significando glória para uns e humilhação para outros, arquivando-se na memória coletiva feridas reais e simbólicas. | ||
| + | * As manipulações da memória devem-se à intervenção do fenômeno ideológico, | ||
| + | * Essa função constituinte da ideologia articula-se à segunda função, a justificação de um sistema de ordem ou poder, girando a ideologia, em definitivo, em torno do poder. | ||
| + | * As análises de Max Weber sobre ordem (Ordnung) e dominação (Herrschaft) interessam por girarem em torno da pretensão à legitimidade de todo poder — carismático, | ||
| + | * Esse eixo de legitimação distribui, de um lado, o fenômeno mais radical de integração comunitária e, de outro, o fenômeno de distorção sobre o qual Marx concentrou suas análises em A Ideologia Alemã, com as metáforas discutíveis da imagem invertida ou do homem de cabeça para baixo, mecanismo plausível apenas se articulado ao fenômeno de legitimação, | ||
| + | * As diversas empresas de manipulação da memória se distribuem pelos níveis operatórios da ideologia: no nível mais profundo é pela função narrativa que a memória se incorpora à identidade, sendo o récit, segundo Hannah Arendt, aquilo que diz "o quem da ação", | ||
| + | * No nível em que a ideologia opera como discurso justificativo do poder, mobiliza-se o récit imposto — mesmo o tirano precisa de um retórico ou sofista —, tecendo récits de fundação, de glória e de humilhação a mais-valia narrativa que alimenta o discurso da lisonja e do medo, tornando-se a memória imposta armada por uma história " | ||
| + | * Tzvetan Todorov, em Les Abus de la mémoire, denuncia a frenesia contemporânea de comemorações, | ||
| + | * Todorov observa que "o trabalho do historiador, | ||
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| + | **3. Nível ético-político: | ||
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| + | * Questiona-se o pretendido dever de memória, cuja pertinência é largamente prematura frente ao percurso ainda por cumprir, projetando-se além de uma fenomenologia da memória e de uma epistemologia da história, até o cerne da hermenêutica da condição histórica, tomando-se por referência as condições históricas em que o dever de memória é exigido — na Europa ocidental e na França, décadas após os eventos horríveis de meados do século XX. | ||
| + | * No ponto de fricção entre memória viva dos sobreviventes e olhar distanciado do historiador, | ||
| + | * Assinala-se o paradoxo gramatical da injunção "tu te lembrarás" | ||
| + | * No quadro da cura terapêutica, | ||
| + | * O que falta ao trabalho de memória e ao trabalho de luto para se igualarem ao dever de memória é o elemento imperativo, encontrado sem discussão na ideia de justiça, já nomeada em resposta aos abusos da manipulação: | ||
| + | * Primeiro elemento de resposta: a virtude de justiça é por constituição voltada para o outro, constituindo a componente de alteridade de todas as virtudes; o dever de memória é o dever de fazer justiça, pelo souvenir, a um outro que não a si mesmo. | ||
| + | * Segundo elemento de resposta: intervém a noção de dívida, inseparável da de herança — somos devedores àqueles que nos precederam de parte do que somos —, sendo o dever de memória também o de submeter a herança a inventário. | ||
| + | * Terceiro elemento de resposta: entre esses outros aos quais somos devedores, prioridade moral cabe às vítimas, malgrado a advertência de Todorov contra a propensão a proclamar-se vítima e reclamar reparação sem fim, sendo a vítima aqui em questão a vítima outra, distinta de nós. | ||
| + | * Legitimado assim o dever de memória como dever de justiça, os abusos que se enxertam sobre esse bom uso constituem abusos no manejo da própria ideia de justiça, quando a reivindicação de memórias passionais e feridas contra a visada mais crítica da história confere ao dever de memória um tom comminatório, | ||
| + | * Duas interpretações compatíveis desse deslizamento do uso ao abuso são apontadas. | ||
| + | * Henry Rousso, em Le Syndrome de Vichy, propõe uma explicação centrada no caráter regressivo do abuso, valendo-se de categorias da patologia da memória — trauma, recalque, retorno do recalcado, hantise, exorcismo —, funcionando o dever de memória como tentativa de exorcismo diante da hantise dos traumas franceses de 1940-1945, tratando-se de captação da palavra muda das vítimas por uma direção de consciência que se autoproclama porta-voz. | ||
| + | * Pierre Nora, no texto " | ||
| + | * Declara-se que o presente empreendimento não participa desse "élan de comemoração memorial" | ||
| + | * A questão do dever de memória excede os limites de uma fenomenologia da memória e mesmo de uma epistemologia da história, remetendo, enquanto imperativo de justiça, a uma problemática moral apenas tangenciada nesta obra, a ser retomada em relação ao esquecimento e a um eventual direito ao esquecimento, | ||
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