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estudos:ricoeur:identidade-em-locke

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 Mas não foi quanto à coerência do argumento que Locke suscitou maior perplexidade: a tradição creditou-lhe a invenção de um critério de identidade, a saber, a identidade psíquica, a que poderemos daqui em diante opor o critério de identidade corporal, do qual realçava de fato a primeira série de exemplos em que prevalecia a permanência de uma organização observável de fora. Uma discussão sobre os critérios da identidade ocupará de hoje em diante o proscênio, suscitando discursos opostos e igualmente plausíveis em favor de um ou de outro. Assim, a Locke e seus partidários oporemos regularmente as aporias de uma identidade suspensa apenas pelo testemunho da memória; aporias psicológicas concernentes aos limites, as intermitências (durante o sono, por exemplo), as perdas da memória, mas também as aporias mais propriamente ontológicas: antes de dizer que a pessoa existe e por isso é que ela se lembra, não seria mais plausível — pergunta J. Butler [^J. Butler, “Of personal identity”, The analogy of religion (1736) retomado em J. Perry (ed.), Personal identity, University of California Press, 1975, pp. 99-105.] — destinar a continuidade dá memória à existência contínua de uma alma-substância? Sem tê-lo previsto, Locke realçava o caráter aporético da própria questão da identidade. Testemunhando mais que tudo os paradoxos que ele assumia sem franzir a sobrancelha mas que seus sucessores transformaram em provas de indeterminação: seja o caso de um príncipe do qual transplantamos a memória para o corpo de um sapateiro remendão; este se torna o príncipe que ele se lembra ter sido ou permanece o sapateiro remendão que os outros homens continuam a observar? Locke, coerente consigo mesmo, decide em favor da primeira solução. Mas as leituras modernas, mais sensíveis à colisão entre dois critérios opostos de identidade, concluirão pela indeterminação do caso. Dessa maneira, a era dos puzzling cases estava aberta, a despeito da certeza de Locke. Voltaremos a esse assunto mais adiante [^E não em Locke mas em seus sucessores que a situação criada pela hipótese da transplantação de uma mesma alma para um outro corpo começou a parecer mais indeterminada do que simplesmente paradoxal, isto é, contrária ao senso comum. Pois, como a memória do príncipe poderia não afetar o corpo do sapateiro no plano da voz, dos gestos, das posturas? E como situar a expressão do caráter habitual do sapateiro em relação à da memória do príncipe? O que se tornou problemático após Locke e não era para esse último foi a possibilidade de distinguir entre dois critérios de identidade: a identidade dita psíquica e a identidade dita corporal, como se a expressão da memória não fosse um fenômeno corporal. De fato, o vício inerente ao paradoxo de Locke, além da circularidade eventual do argumento, é uma descrição imperfeita da situação criada pela transplantação imaginária.]. Mas não foi quanto à coerência do argumento que Locke suscitou maior perplexidade: a tradição creditou-lhe a invenção de um critério de identidade, a saber, a identidade psíquica, a que poderemos daqui em diante opor o critério de identidade corporal, do qual realçava de fato a primeira série de exemplos em que prevalecia a permanência de uma organização observável de fora. Uma discussão sobre os critérios da identidade ocupará de hoje em diante o proscênio, suscitando discursos opostos e igualmente plausíveis em favor de um ou de outro. Assim, a Locke e seus partidários oporemos regularmente as aporias de uma identidade suspensa apenas pelo testemunho da memória; aporias psicológicas concernentes aos limites, as intermitências (durante o sono, por exemplo), as perdas da memória, mas também as aporias mais propriamente ontológicas: antes de dizer que a pessoa existe e por isso é que ela se lembra, não seria mais plausível — pergunta J. Butler [^J. Butler, “Of personal identity”, The analogy of religion (1736) retomado em J. Perry (ed.), Personal identity, University of California Press, 1975, pp. 99-105.] — destinar a continuidade dá memória à existência contínua de uma alma-substância? Sem tê-lo previsto, Locke realçava o caráter aporético da própria questão da identidade. Testemunhando mais que tudo os paradoxos que ele assumia sem franzir a sobrancelha mas que seus sucessores transformaram em provas de indeterminação: seja o caso de um príncipe do qual transplantamos a memória para o corpo de um sapateiro remendão; este se torna o príncipe que ele se lembra ter sido ou permanece o sapateiro remendão que os outros homens continuam a observar? Locke, coerente consigo mesmo, decide em favor da primeira solução. Mas as leituras modernas, mais sensíveis à colisão entre dois critérios opostos de identidade, concluirão pela indeterminação do caso. Dessa maneira, a era dos puzzling cases estava aberta, a despeito da certeza de Locke. Voltaremos a esse assunto mais adiante [^E não em Locke mas em seus sucessores que a situação criada pela hipótese da transplantação de uma mesma alma para um outro corpo começou a parecer mais indeterminada do que simplesmente paradoxal, isto é, contrária ao senso comum. Pois, como a memória do príncipe poderia não afetar o corpo do sapateiro no plano da voz, dos gestos, das posturas? E como situar a expressão do caráter habitual do sapateiro em relação à da memória do príncipe? O que se tornou problemático após Locke e não era para esse último foi a possibilidade de distinguir entre dois critérios de identidade: a identidade dita psíquica e a identidade dita corporal, como se a expressão da memória não fosse um fenômeno corporal. De fato, o vício inerente ao paradoxo de Locke, além da circularidade eventual do argumento, é uma descrição imperfeita da situação criada pela transplantação imaginária.].
  
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 1. Que, sans le fil conducteur de la distinction entre deux modèles d’identité et sans le secours de la médiation narrative, la question de l’identité personnelle se perde dans les arcanes de difficultés et de paradoxes paralysants, les philosophes de langue anglaise et de culture analytique l’ont appris d’abord chez Locke et chez Hume. 1. Que, sans le fil conducteur de la distinction entre deux modèles d’identité et sans le secours de la médiation narrative, la question de l’identité personnelle se perde dans les arcanes de difficultés et de paradoxes paralysants, les philosophes de langue anglaise et de culture analytique l’ont appris d’abord chez Locke et chez Hume.
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