estudos:ricoeur:ec:mito
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| + | ====== Mito ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.// | ||
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| + | * Restringindo-se aos problemas de sentido e verdade próprios à filosofia, deixam-se de lado as discussões antropológicas e histórico-religiosas sobre origem, evolução e função social do mito, bem como o debate sobre seu caráter pré-lógico. | ||
| + | * O mito é considerado como forma de discurso que reivindica sentido e verdade, o que leva a interrogar sua pretensão frente ao discurso filosófico, | ||
| + | * O mito suscita duas avaliações opostas: de um lado a razão o condena e o exclui, como já fazia Platão ao opor mythos e logos, tratando os mitos como alegorias cujo sentido oculto, uma vez decifrado, tornaria supérflua a narrativa, atitude retomada pelos estoicos. | ||
| + | * Essa recusa racionalista, | ||
| + | * A crítica moderna de Marx, Nietzsche e Freud, apesar de argumentos distintos, prolonga esse exorcismo racionalista do mito. | ||
| + | * O paradoxo dessa luta está em nunca se resolver: o próprio Platão escreve mitos e sua filosofia deriva do orfismo, sugerindo que o mito não se esgota em função explicativa, | ||
| + | * O que está em jogo não é apenas o estatuto do mito, mas o da própria verdade: Schelling propõe que o mito seja " | ||
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| + | **I. O LINGUAGEM DO MITO** | ||
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| + | * Situado no campo das ciências semiológicas, | ||
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| + | **O modelo estrutural** | ||
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| + | * Para Claude Lévi-Strauss, | ||
| + | * O mito situa-se entre fala, pela sucessão temporal do relato, e língua, pelo arranjo sincrônico de seus elementos, cabendo à análise extrair estruturas permanentes a partir da hipótese de homogeneidade do mitema com as demais unidades linguísticas. | ||
| + | * Os mitemas, frases predicativas mínimas, organizam-se em matrizes de dupla entrada cuja leitura vertical revela pacotes de relações e cuja leitura horizontal revela combinações. | ||
| + | * Na reconstrução do mito de Édipo, os mitemas distribuem-se em quatro colunas: parentesco superestimado, | ||
| + | * A proporcionalidade entre essas colunas enuncia a lei estrutural do mito, revelando-o como instrumento lógico de mediação entre termos contraditórios, | ||
| + | * Essa construção lógica, passível de tratamento matemático, | ||
| + | * Reforçam-se assim três traços da mito-lógica: | ||
| + | * Por mais sedutora que seja, essa explicação pode ser questionada quanto à pretensão de esgotar a inteligência dos mitos, ao eliminar do campo a pretensão do mito de dizer algo verdadeiro ou falso sobre o mundo, reduzindo-o a algo a decodificar e não a compreender. | ||
| + | * Émile Benveniste insiste na necessidade de dois sistemas de unidades linguísticas — as unidades de língua e as unidades de discurso, irredutíveis entre si —, sendo estas últimas, as frases, responsáveis pela referência identificante e pela predicação que ancoram a linguagem na realidade. | ||
| + | * A eliminação desses aspectos do modelo estrutural tem consequências para a interpretação dos mitos, já que o processo metafórico pertence ao mesmo conjunto de traços que a criatividade, | ||
| + | * A própria explicação estrutural recorre implicitamente à significação, | ||
| + | * Essa crítica não torna supérflua a análise estrutural, que continua sendo etapa necessária para revelar a semântica profunda do mito, semelhante, segundo Lévi-Strauss, | ||
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| + | **O modelo metafórico** | ||
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| + | * O segundo modelo de linguagem recupera a enunciação como discurso, situando o processo metafórico no quadro de uma semântica irredutível à semiótica, distinção tomada de Benveniste. | ||
| + | * Antes das metáforas retóricas, existe o que Roman Jakobson chama processo metafórico, | ||
| + | * A polissemia das palavras da linguagem ordinária, ao contrário da univocidade das linguagens técnicas, constitui condição necessária de funcionamento, | ||
| + | * A polissemia, enquanto realidade histórica e cumulativa, funda o fenômeno de transferência de sentido chamado metáfora, já identificado por Aristóteles na Poética como transporte categorial entre gênero e espécie. | ||
| + | * Segundo a observação de Quintiliano, | ||
| + | * Ao empregar uma palavra polissêmica, | ||
| + | * Distinguem-se assim o processo metafórico geral da linguagem, o fenômeno da polissemia e a estrutura contextual que instaura a polifonia, fundando a linguagem poética capaz de dizer o que não pode ser atingido diretamente. | ||
| + | * A interpretação metafórica do mito supõe atenção à constituição simbólica das enunciações, | ||
| + | * Assim como processo metonímico e metafórico se misturam em proporções variáveis em todo discurso, o universo mítico distribui-se entre a prevalência do fator sintático e a do fator metafórico, | ||
| + | * Nos mitos semíticos e pré-helênicos, | ||
| + | * Sem exagerar essa oposição, explicação estrutural e interpretação simbólica combinam-se em proporções variáveis em cada mito, sendo essencial atentar à maneira como uma remete à outra por exigência interna própria. | ||
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| + | **II. A INTENÇÃO SIGNIFICANTE DO MITO** | ||
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| + | **O mito como relato das origens** | ||
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| + | * Adota-se, com Mircea Eliade, a hipótese de que o mito é um relato das origens com função de instauração, | ||
| + | * A função de instauração, | ||
| + | * O mito mantém vínculo estreito com o rito, que ele funda ao estabelecer paradigmas de ação, como no elo entre o relato de criação veterotestamentário e o ritual do Ano Novo, ligando mito, rito e realeza. | ||
| + | * A função instauradora do mito gera valores emocionais próprios ao sagrado, descritos por Rudolf Otto como o sentimento ambivalente de temor e amor diante do tremendum fascinosum, intensificados pela recitação e pela ação ritual. | ||
| + | * Esses três corolários — representativo, | ||
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| + | **Mito e história da salvação** | ||
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| + | * A história da salvação da literatura hebraica, centrada na confissão de fé em atos de libertação, | ||
| + | * Nessa fusão, ocorre historicização do mito, com o ato criador colocado como primeiro ato de salvação, articulando-se a saga dos patriarcas e os mitos de criação da área acadiana, suméria e cananeia à narrativa do Êxodo. | ||
| + | * Em contrapartida, | ||
| + | * O mito do dilúvio, mito de recriação ligado à destruição, | ||
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| + | **Mito e escatologia** | ||
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| + | * A fronteira entre mito e escatologia revela duas estruturas distintas, ligadas respectivamente à história da salvação, voltada ao passado, e à profecia, tema que Gerhard von Rad situou como dicotomia central da teologia veterotestamentária. | ||
| + | * A profecia supõe o tempo do relato para rompê-lo, anunciando eventos iminentes — a ameaça assírio-babilônica, | ||
| + | * Essa ruptura profética metaforiza o passado inteiro, tornando a terra prometida símbolo do não alcançado e fazendo da profecia o contrário do relato, ainda que ela deva reatar laço com o mito na forma da escatologia. | ||
| + | * A escatologia, | ||
| + | * O rito atua como fator de futurização do mito, e a memória da criação torna-se promessa para o futuro, de modo que todo recomeço recapitula a primeira origem, como no festival babilônico do Ano Novo. | ||
| + | * Todo começo passado é, em algum grau, também mito de fim — mortes de deuses, dilúvios, quedas — de modo que os mitos de fim permanecem mitos na medida em que transferem para o fim a potência inaugural da origem. | ||
| + | * Ao tomar de empréstimo os modelos dos mitos de criação, a escatologia arrisca representar a nova era apenas como restauração do originário, | ||
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| + | **Mito e sabedoria** | ||
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| + | * A fronteira entre o universo mítico e a literatura sapiencial merece igual exploração, | ||
| + | * Essa fronteira é incerta porque o mito repousa, em nível inconsciente, | ||
| + | * Sobre essa base classificatória, | ||
| + | * Os mitos de origem possuem assim dimensão sapiencial, pois compreender como as coisas começaram é saber o que significam agora, e os mitos de queda operam reconciliação com as zonas obscuras da experiência humana ao responder às perguntas sobre o sentido do sofrimento, do trabalho, da vergonha e da morte. | ||
| + | * Da articulação do mito com as demais formas de discurso emerge um horizonte de sentido em que relato, profecia e sabedoria compõem uma linguagem total, o que Jean-Paul Audet chamou " | ||
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| + | **III. MITO E FILOSOFIA** | ||
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| + | * Retoma-se, ao fim, a questão inicial do encontro entre a visão de mundo do mito e a exigência filosófica, | ||
| + | * Essa mesma antinomia reaparece como o problema representação-conceito: | ||
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| + | **A interpretação kantiana da mitologia** | ||
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| + | * A resposta kantiana à questão do estatuto da representação decorre do projeto inteiro de uma filosofia dos limites, segundo a qual o mundo mítico cai sob a crítica da ilusão transcendental que abrange toda posição sobrenaturalista. | ||
| + | * A filosofia kantiana não é simples positivismo, | ||
| + | * Sobre esse fundamento prático erguem-se os postulados de Deus, imortalidade e liberdade, permitindo à filosofia compreender as representações religiosas como apoio figurativo à esperança razoável de vitória do bom princípio sobre o mau. | ||
| + | * Embora Kant tenha refletido sobre o cristianismo e não sobre os mitos, é possível estender à visão mítica sua concepção de simbolização, | ||
| + | * O preço dessa interpretação é elevado, pois os mitos só se tornam inteligíveis despojados de alcance especulativo e reduzidos à função prática da razão, o que abre caminho a uma interpretação existencial dos mitos. | ||
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| + | **Hegel e as representações religiosas** | ||
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| + | * Para Hegel, as representações religiosas situam-se aquém do saber absoluto, e não além do limite kantiano, pertencendo ao penúltimo estágio de um itinerário que culmina no conceito, sem diferença de conteúdo entre religião e filosofia, apenas de grau de saber. | ||
| + | * Permanece da obra hegeliana a concepção de uma organização hierárquica da representação impelida ao conceito por um movimento de supressão, correspondendo ao mundo mítico os estágios da religião natural e da religião estético-moral. | ||
| + | * Uma morte das representações naturais, os símbolos cósmicos, cumpre-se na arte e religião gregas, e uma segunda morte, a da própria figura helênica, acompanha o nascimento da comédia e a interiorização jurídica romana, ocasião do célebre "Deus está morto" | ||
| + | * Sobre esse fundo de morte destaca-se a Encarnação cristã como revelação do espírito, ainda que um processo de morte continue necessário à apropriação comunitária desse sentido absoluto, exigindo reinterpretação conceitual de todo o conteúdo especulativo do cristianismo. | ||
| + | * Discute-se se Hegel não dissolveu mais radicalmente o universo mítico da representação, | ||
| + | * Hegel legou à hermenêutica moderna regras ainda vigentes: a representação mítica tem sentido, esse sentido habita primeiro nas figurações mais materiais, a representação é dinamismo que tende a suprimir-se no conceito interpretando a si mesma, esse movimento comporta uma etapa mortal, e a direção de sentido aponta para a emergência de um simbolismo exemplar, a consciência habitada pelo absoluto. | ||
| + | * A alternativa entre Kant e Hegel admite retificação mútua: a redução kantiana das crenças à prática arrisca o moralismo, lembrando com Nietzsche que " | ||
| + | * Redescobre-se um sentido da ética ligado menos ao dever que ao impulso de libertação, | ||
| + | * Assim retificados um pelo outro, Kant responde não ao "que devo fazer" mas ao "que devo esperar", | ||
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