estudos:ricoeur:ec:individuo
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| + | ====== Indivíduo ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.// | ||
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| + | * A dupla definição de indivíduo proposta por Louis Dumont — o sentido empírico de amostra indivisível da espécie humana, universal de toda cultura, e o sentido moral de ser independente e autônomo próprio da ideologia moderna — motiva a reconstrução sistemática, | ||
| + | * O percurso proposto compreende três etapas ligadas por duas transições: | ||
| + | * A análise privilegia o primado da linguagem, não em oposição à abordagem antropológica de Dumont, mas como o húmus dos universais que ela pressupõe, progredindo em correlação crescente entre si-mesmo e o outro através dos três estágios: individualização, | ||
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| + | **I. INDIVIDUALIZAÇÃO** | ||
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| + | * Partir da linguagem, e não da questão aristotélica do tode ti, permite discernir como a linguagem designa o individual sem cair na alternativa entre o conceitual e o inefável, evitando também, com Pariente, reduzir a individualização à determinação do último discernível em favor de jalonar o próprio processo, que se detém em níveis variáveis conforme as línguas. | ||
| + | * Os lógicos distinguem três operadores de individualização — descrições definidas, nomes próprios e indicadores (pronomes, demonstrativos, | ||
| + | * As descrições definidas constituem uma classe a um único indivíduo por cruzamento de classes lógicas, implicando já uma alteridade mínima por exclusão de todos os outros, com finalidade de designação ostensiva e não de classificação. | ||
| + | * Os nomes próprios lógicos designam de modo fixo e permanente a mesma coisa em suas múltiplas ocorrências, | ||
| + | * Os indicadores, | ||
| + | * Neste primeiro estágio, o indivíduo humano não se distingue do indivíduo em geral, mas já se evidencia que a linguagem dispõe de procedimentos específicos de designação, | ||
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| + | **Primeira transição: | ||
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| + | * Com a pragmática, | ||
| + | * Todo enunciado constativo comporta também uma força ilocutória própria, expressa em prefixos implícitos como "eu declaro que", nos quais o eu figura ainda captivo do prefixo, sem que sua reflexividade seja plenamente exercida. | ||
| + | * Um primeiro paradoxo evidencia a ambiguidade do eu, ora shifter substituível por qualquer falante, ora ancorado a uma perspectiva única e insubstituível, | ||
| + | * Um segundo paradoxo reside na reversibilidade dos papéis de eu e tu na situação dialógica, distinta do primeiro paradoxo que opõe substituível e insubstituível. | ||
| + | * A distinção peirceana entre tipo e ocorrência, | ||
| + | * Essa aporia só se resolve admitindo uma correlação entre o eu, situado fora do mundo de que fala, e um evento do próprio mundo, correlação que se manifesta na datação do tempo vivido pelo calendário e na localização do corpo próprio pela cartografia, | ||
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| + | **II. IDENTIFICAÇÃO** | ||
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| + | * A passagem ao problema da identificação e da ipseidade parte da pergunta heideggeriana "quem é o Dasein?", | ||
| + | * A pergunta quem? admite resposta em qualquer pessoa gramatical — eu na confissão, tu na acusação, ele/ela na descrição narrativa —, sendo o reflexivo comum a todas essas respostas o si, que Michel Foucault consagrou no título O cuidado de si, e que o francês distingue parcialmente do idem através do determinativo mesmo, sendo preciso, como no texto de Santo Agostinho citado por Heidegger, separar a reflexividade do ipse da identidade do idem. | ||
| + | * Uma função distributiva, | ||
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| + | **Segunda transição: | ||
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| + | * Assim que o eu se destaca do prefixo "eu digo que", ele se insere numa história, sendo tratado, na semiótica narrativa de Greimas, como actante que se identifica por seu fazer, modalizado pelo poder-fazer, | ||
| + | * A identidade do ipse, ao contrário da identidade substancial do idem, comporta uma mutabilidade fundamental que somente o ato configurante do relato consegue conjugar com a configuração de uma história, cumprindo à narrativa dizer a " | ||
| + | * O texto de Proust sobre o livro como vidro de aumento que permite ao leitor ler em si mesmo ilustra essa refiguração do agente pelo relato, marcando o limiar da ipseidade. | ||
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| + | **III. IMPUTAÇÃO** | ||
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| + | * O limiar ético do si-mesmo se atinge observando que, se todo actante se relaciona com objetos-valores, | ||
| + | * A estima de si, correlata originariamente à estima de outrem, encontra-se atestada em linguagem por um ato ilocutório específico, | ||
| + | * A promessa testemunha uma ipseidade forte, definida pela manutenção de si apesar das mudanças de coração e de intenção, ipseidade que tem sempre outrem por destinatário. | ||
| + | * A obrigação de manter a promessa não deriva da própria promessa, mas pressupõe, segundo a noção rawlsiana de esquema de cooperação em Uma teoria da justiça, um meio societal ao qual se consente contribuir equitativamente, | ||
| + | * O individualismo como ideologia nasce da pretensão de engendrar a dimensão cosmopolita e o espaço público a partir apenas da ipseidade ética, sem a dimensão societal originária, | ||
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