estudos:ricoeur:ec:hermeneutica-simbolismo
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| + | ====== Hermenêutica e Simbolismo ====== | ||
| + | //RICŒUR, Paul. Écrits et conférences II. Paris: Éd. du Seuil, 2008.// | ||
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| + | **I. Hermenêutica e simbolismo** | ||
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| + | * A descoberta dos problemas do simbolismo ocorreu de modo progressivo e histórico, à medida que cada obra respondeu a uma questão limitada e deixou abertas novas questões para investigações posteriores. | ||
| + | * A questão do simbolismo surgiu inicialmente no percurso de uma Filosofia da vontade, em conexão com os símbolos do mal e com os limites de uma análise puramente reflexiva e eidética das estruturas do voluntário e do involuntário. | ||
| + | * A análise da vontade buscava oferecer, no campo prático, um contraponto à Fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty, | ||
| + | * A ontologia da desproporção foi elaborada em O homem falível por meio de três polaridades e três mediações frágeis, conciliando pensamento reflexivo e pathos da miséria numa antropologia filosófica marcada pela tensão entre vitalidade simples e humanidade dúplice. | ||
| + | * A fenomenologia da vontade, mesmo ampliada em antropologia fundamental, | ||
| + | * A passagem à Simbólica do mal introduziu a reflexão concreta, na qual a vontade só se reconhece má e culpada ao meditar os símbolos e mitos transmitidos pelas grandes culturas formadoras da consciência ocidental. | ||
| + | * A incorporação dos símbolos da mancha, do pecado, da culpabilidade e dos mitos da queda à filosofia reflexiva nasceu da pressão de uma dupla cultura bíblica e grega, antes que a interpretação desses símbolos recebesse plenamente o nome teórico de hermenêutica. | ||
| + | * A primeira aproximação do problema hermenêutico definiu o símbolo como expressão de duplo sentido, na qual a significação literal remete a um sentido segundo acessível somente por esse desvio. | ||
| + | * O símbolo autêntico distingue-se da alegoria porque o sentido figurado não pode ser substituído por uma formulação direta, já que o caminho pelo sentido literal constitui a única via de acesso ao sentido segundo. | ||
| + | * A estrutura do duplo sentido ultrapassa a simbólica do mal e aparece em zonas diversas de emergência simbólica, como as hierofanias cósmicas, as produções oníricas e a criatividade poética. | ||
| + | * O mito foi definido como símbolo desenvolvido em forma de relato, articulado num tempo e num espaço não coordenáveis criticamente com a história e a geografia. | ||
| + | * A hermenêutica recebeu inicialmente uma definição limitada: há interpretação quando expressões de duplo sentido exigem que um sentido segundo seja desdobrado a partir de um sentido primeiro. | ||
| + | * A fórmula “o símbolo dá a pensar” indicava que o pensamento começa a partir de uma linguagem já acontecida e de pressuposições simbólicas, | ||
| + | * A exigência de uma segunda ingenuidade pós-crítica ainda permanecia vaga, pois faltava articular uma repetição dos mitos com uma crítica que fosse restauradora e não apenas redutora. | ||
| + | * O choque da psicanálise e do estruturalismo conduziu a uma hermenêutica crítica e a uma definição mais ampla da interpretação do que o simples deciframento de expressões de duplo sentido. | ||
| + | * A leitura de Freud alargou o problema hermenêutico ao opor à interpretação amplificante dos símbolos do mal uma interpretação redutora, fazendo emergir a polaridade que levaria ao conflito das interpretações. | ||
| + | * A obra de Freud revelou que o conflito das interpretações não se limita à culpabilidade, | ||
| + | * A dupla leitura do complexo e do mito de Édipo ilustra a mediação entre a arqueologia freudiana do Cogito, voltada aos aspectos arcaicos da sexualidade, | ||
| + | * A pluralidade das interpretações abriu um conflito entre hermenêutica amplificante e hermenêutica da suspeita, na qual Freud se inscreve ao lado de Feuerbach, Marx e Nietzsche. | ||
| + | * A passagem ao linguistic turn deslocou a investigação de uma fenomenologia ampliada para uma hermenêutica de orientação linguística, | ||
| + | * O conflito com o estruturalismo tornou decisiva a questão do sujeito e da compreensão de si, pois os sistemas anônimos de signos só adquirem significância quando mediam a historicidade da autocompreensão. | ||
| + | * A permanência do problema aparece na dialética entre compreensão de si e história, especialmente na articulação entre compreender e explicar nos campos do texto, da ação e da história. | ||
| + | * A interpretação consiste na alternância entre fases de compreensão e fases de explicação ao longo de um único arco hermenêutico, | ||
| + | * A noção de texto exerce papel piloto porque nela surgem modelos de explicação próprios do domínio dos signos, tornando insuficiente a antiga oposição entre ciências da natureza e ciências do espírito. | ||
| + | * A teoria do discurso, entendido como ato pelo qual alguém diz algo sobre algo a alguém, oferece uma charneira entre compreensão e explicação. | ||
| + | * A teoria da ação mostra que os modelos interpretativos mais ricos entrelaçam segmentos sistêmicos e segmentos teleológicos no fenômeno da intervenção intencional no curso do mundo. | ||
| + | * A teoria da história mostra a combinação entre compreensão de uma trama singular de acontecimentos e explicação por generalidades, | ||
| + | * A fórmula “explicar mais é compreender melhor” resume a relação pela qual a compreensão precede, acompanha e envolve a explicação, | ||
| + | * A definição inicial de hermenêutica como desdobramento de um sentido segundo não foi abandonada, mas incorporada à dialética mais ampla entre compreensão e explicação. | ||
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