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| + | ====== Ética e Ação ====== | ||
| + | //RICŒUR, Paul. Écrits et conférences II. Paris: Éd. du Seuil, 2008.// | ||
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| + | **Implicação ética da teoria da ação** | ||
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| + | * A teoria da ação pode oferecer o quadro adequado para articular o momento teleológico aristotélico, | ||
| + | * A noção ampla de praxis permite restituir à ação humana sua complexidade e compreender os momentos teleológico e deontológico como etapas complementares de uma mesma trajetória prática. | ||
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| + | **1. Praxis e momento teleológico da vida moral** | ||
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| + | * A análise percorre níveis da praxis para determinar até onde o conceito quase aristotélico de virtude como excelência pode avançar antes que o modelo quase kantiano da obrigação se torne necessário diante da violência. | ||
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| + | **a) As práticas** | ||
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| + | * As práticas são ações complexas regidas por preceitos técnicos, estéticos, éticos ou políticos, como ofícios, habilidades, | ||
| + | * Os preceitos das práticas ainda não são necessariamente imperativos morais, mas já possuem uma dimensão avaliativa porque ensinam a fazer bem aquilo que se faz. | ||
| + | * As práticas distinguem-se dos gestos simples por serem atividades cooperativas socialmente instituídas, | ||
| + | * Os padrões de excelência permitem comparar desempenhos dentro das práticas e mostram que a competição depende de um acordo mínimo sobre regras comuns. | ||
| + | * Os bens imanentes às práticas constituem sua teleologia interna e fornecem uma base para a teoria moral, embora ainda não se distingam plenamente das regras de habilidade, dos conselhos de prudência e das máximas morais. | ||
| + | * A teleologia interna da praxis retoma a distinção aristotélica entre poièsis, voltada para uma coisa exterior à atividade, e praxis, cujo fim permanece no interior da própria ação. | ||
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| + | **b) Plano de vida** | ||
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| + | * A noção de plano de vida amplia a ideia de prática para projetos globais, como vida profissional, | ||
| + | * A deliberação phronética não se limita aos meios, mas incide sobre os próprios fins, especificando o horizonte confuso dos ideais que apontam para a vida boa. | ||
| + | * A vida, nesse contexto, não é tomada em sentido biológico, mas em sentido ético-cultural, | ||
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| + | **c) A unidade narrativa da vida** | ||
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| + | * A unidade narrativa da vida constitui mediação decisiva entre teoria da ação e teoria moral, pois liga o si mesmo à história de uma vida refigurada pela historiografia e pela ficção. | ||
| + | * As intrigas e personagens recebidos da cultura podem ser aplicados à própria vida porque o campo prático se apresenta como quase-texto oferecido à leitura. | ||
| + | * A expressão proustiana “ler em si mesmos” indica que práticas e planos de vida podem ser compreendidos como quase-textos, | ||
| + | * A interpretação de si surge porque o quase-texto da ação exige compreender o todo pelas partes e as partes pelo todo. | ||
| + | * O agente torna-se autor de sua ação ao interpretar-se por meio das capacidades, | ||
| + | * A interpretação das práticas comporta contestação e rivalidade, pois toda significação prática é significação para alguém e dá lugar a controvérsia. | ||
| + | * A adequação de uma interpretação prática não depende de verificação observacional, | ||
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| + | **d) A verdadeira vida** | ||
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| + | * A vida boa, ou verdadeira vida, designa o horizonte de ideais e sonhos de realização em função dos quais uma existência pode ser julgada mais ou menos plena. | ||
| + | * A verdadeira vida funciona como ideia-limite da série formada por regras constitutivas, | ||
| + | * A progressão teleológica da praxis liga a teoria da ação à teoria moral por meio de mediações avaliativas orientadas pela busca da vida boa. | ||
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| + | **2. Praxis e momento deontológico da vida moral** | ||
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| + | * A existência da violência exige a moral, pois o mal da violência impõe a passagem das preferências e avaliações optativas para obrigações e proibições prescritivas. | ||
| + | * A violência projeta o outro para o centro da ética como vítima, carrasco, testemunha ou juiz, tornando insuficiente uma ética limitada ao cuidado de si e à excelência da própria ação. | ||
| + | * A moral já existe antes da filosofia, pois se nasce em sociedades nas quais normas, leis e imperativos já estão vigentes e nos quais o sentido de dever e proibição já foi compreendido. | ||
| + | * A tarefa do filósofo moral não consiste em criar a moral do nada, mas em refletir sobre normas exemplares reconhecidas e remontar à fonte da obrigação. | ||
| + | * A Regra de Ouro oferece um princípio primitivo da moralidade ao prescrever que não se faça ao próximo aquilo que se detestaria sofrer de sua parte. | ||
| + | * A Regra de Ouro confere à moralidade uma dimensão intersubjetiva fundamental, | ||
| + | * O outro aparece moralmente como vítima potencial da ação própria, e a voz que ordena “não matarás” é também a voz do sofredor que pede para não ser morto. | ||
| + | * A moral responde à violência própria contra o outro, não apenas à violência do outro contra si, distinguindo-se assim de teorias do direito natural centradas na autoproteção. | ||
| + | * A Regra de Ouro percebe que o agente reivindica poder sobre outro ser humano e pode tratá-lo como submetido, razão pela qual moral e violência são contemporâneas e coextensivas. | ||
| + | * A objeção de formalismo contra a Regra de Ouro é respondida pela função da phronèsis, que interpreta situações concretas e decide que regra convém aplicar em cada caso. | ||
| + | * O princípio formal da moralidade não é vazio, pois entre a regra geral e o juízo situado intervêm premissas especificantes que determinam quais espécies de ação respeitam ou violam o ser humano. | ||
| + | * A jurisprudência fornece modelo para a passagem entre regra formal e casos singulares, pois novos casos podem exigir a criação de novas premissas especificantes. | ||
| + | * A aplicação da regra “não matarás” depende de exceções e especificações, | ||
| + | * A revisão das premissas especificantes permitiu reconhecer os escravos como pertencentes ao grupo dos seres humanos livres e racionais, corrigindo uma limitação histórica do princípio moral. | ||
| + | * A deliberação razoável entre regra formal e decisão singular governa tanto a casuística moral quanto a jurisprudência diante de problemas como aborto, manipulações genéticas, tortura, guerra e liberdade. | ||
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| + | **3. Retomada do juízo avaliativo no juízo normativo** | ||
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| + | * A mediação entre o princípio da moralidade e a decisão singular ocorre pela retomada das avaliações imanentes à praxis no interior da deliberação normativa. | ||
| + | * A Regra de Ouro conserva um lado afetivo, expresso por amar e detestar, que remete a bens e males humanos experimentados como satisfações e sofrimentos. | ||
| + | * Os bens humanos fundamentais não são desejos arbitrários, | ||
| + | * A Regra de Ouro permite integrar uma ética do bem e dos bens a uma ética da obrigação, | ||
| + | * A conformidade entre bens optativos visados pelas práticas e bens normativos implicados pelo princípio moral constitui a interseção entre teoria da ação e teoria moral. | ||
| + | * A passagem da moral optativa à moral do dever é necessária por causa da violência, que exige oposição normativa e não apenas avaliação da vida boa. | ||
| + | * A integração do optativo no normativo encontra obstáculo na desconfiança kantiana em relação ao desejo e na recusa de uma hierarquia legítima dos afetos ligada à busca da vida boa. | ||
| + | * As virtudes funcionam como padrões de excelência que mediam a regra moral única em situações humanas genéricas, como temperança, | ||
| + | * O amor ao próximo deve ser prático, mas continua sendo sentimento, e o respeito a outrem inclui querer-lhe o bem, a satisfação e a boa fortuna. | ||
| + | * A reformulação da moralidade em torno dos bens humanos fundamentais fornece linhas diretrizes plurais para aplicar o princípio moral a casos particulares. | ||
| + | * A noção de bens humanos fundamentais oferece mediação para que a phronèsis e o phronimos deliberem em situações singulares e diante de casos novos. | ||
| + | * A contingência dos bens humanos fundamentais evidencia a fragilidade da praxis diante da fortuna e a vulnerabilidade diante da violência, de modo que a regra de justiça se torna inseparável da regra moral. | ||
| + | * A pluralidade qualitativa dos bens fundamentais torna inevitáveis conflitos reais de deveres e limita a ambição dedutiva e sistemática do racionalismo moral. | ||
| + | * A esfera prática exige coerência e invenção moral, pois a deliberação deve responder a conflitos que não podem ser eliminados por simples dedução. | ||
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