estudos:ricoeur:ec:estranheza
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| + | ====== Estranheza ====== | ||
| + | //RICOEUR, Paul. Écrits et conférences III. Paris: Seuil, 2013.// | ||
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| + | * A meditação parte da relação entre os " | ||
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| + | **I** | ||
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| + | * Distingue-se cuidadosamente o discurso metafísico, | ||
| + | * A mesma função meta rege em Aristóteles não apenas as Categorias mas a ordenação das múltiplas acepções do ser expostas em Metafísica E, 2 — ser por acidente, ser como verdadeiro, os tipos de categorias, e o ser em potência e em ato. | ||
| + | * A fenomenologia hermenêutica compreende-se melhor colocando seu discurso sob a égide dessa função meta, entrecruzando o discurso platônico do mesmo e do outro com o discurso aristotélico do ser como potência e ato, retomada esta última favorecida pelo retorno a Aristóteles no rastro da análise heideggeriana do cuidado e da consciência moral, sem que essa ontologia do ato deva perder de vista a dialética platônica do mesmo e do outro, sob pena de reconstituir uma ontologia não mediatizada da identidade. | ||
| + | * Cabe à metacategoria do ser como ato e potência reunir os membros dispersos de uma hermenêutica do agir — linguagem, ação, relato, imputação moral, política —, enquanto cabe à metacategoria do outro dispersar as modalidades fenomenais da alteridade, sendo contudo necessário que haja o mesmo para que haja o outro. | ||
| + | * Em Si mesmo como um outro, a analogia entre falar, fazer, narrar e submeter-se à imputação moral, reunidos sob a pergunta comum quem age?, prepara-se para as tentativas contemporâneas de reapropriação da acepção aristotélica do ser como ato e potência, cabendo a uma antropologia filosófica fazer a ligação entre os dois níveis de discurso. | ||
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| + | **II** | ||
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| + | * Enquanto a noção de ser como ato-potência tinha por correspondente fenomenológico certa analogia entre as manifestações do agir humano, a metacategoria do outro exprime-se por operações disjuntivas cujo paradigma são os paradoxos platônicos, | ||
| + | * Insiste-se na dispersão para prevenir a redução não crítica do outro à alteridade de outrem, propondo-se em Si mesmo como um outro fazer explodir o campo da alteridade em três direções: a carne, mediadora entre o si e o mundo; o estrangeiro, | ||
| + | * O sofrer e o padecer têm literalmente a mesma amplitude que o agir, sendo mais proveitoso partir da disparidade do padecer do que da analogia do agir, redesdobrando as figuras correlativas do padecer que tornam o si estranho a si mesmo em sua própria carne. | ||
| + | * Quanto a quem fala?, a psicanálise revela sob o nome de inconsciente uma fundamental impotência para dizer, processo de dessimbolização segundo Lorenzer e Habermas, sendo o ensaio freudiano sobre o Unheimliche particularmente relevante ao dispersar-se numa polissemia em torno do Heim, o lar, e da negação Un. | ||
| + | * Quanto a quem age?, a dialética entre agir e não-agir revela que fazer tem dois contrários — não fazer e padecer —, retomando-se o axioma cartesiano de que toda ação num sujeito é paixão em outro, e que sobre a distribuição desigual do poder de agir se enxerta o fenômeno da violência, exemplificado no ensaio de Freud pela ameaça simbólica de castração do homem da areia. | ||
| + | * Quanto ao poder-narrar, | ||
| + | * A estranheza do mundo mesmo, ora repulsiva como a náusea sartriana ou o " | ||
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| + | **2)** | ||
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| + | * No plano de outrem, o caráter intransferível da experiência pessoal e da memória, apesar da reversibilidade dos papéis de eu e tu, torna cada vida impenetrável em seu segredo, sendo a relação fiduciária inseparável dessa impenetrabilidade, | ||
| + | * A estranheza de outrem manifesta-se ainda na distinção entre outrem das relações interpessoais e o terceiro das relações mediadas por instituições, | ||
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| + | **3)** | ||
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| + | * O foro íntimo, termo preferido a consciência moral para traduzir o alemão Gewissen, retém da metáfora da voz uma passividade e estranheza sem igual, instância de atestação (Bezeugung) que enfrenta a suspeita nas circunstâncias em que o si se designa como autor, agente ou narrador, sendo essa certeza íntima de existir um dom do qual o si não dispõe, o que Heidegger traduz dizendo que, na consciência, | ||
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