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estudos:poggeler:geviert

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 +====== O MUNDO COMO QUADRIPARTIÇÃO [Geviert] ======
 +
 +OPPMH
 +
 +  * O mundo como o autêntico próprio para o qual o pensamento de Heidegger é liberado
 +    * O pensamento heideggeriano, ao tentar penetrar naquilo que é, libera-se para o mundo como aquilo que é autenticamente próprio
 +    * Este mundo não é uma totalidade de objetos, mas a estrutura originária dentro da qual o desvelamento do ser ocorre
 +
 +  * A definição do mundo como quadripartição (Geviert)
 +    * O mundo é pensado como a unidade dos quatro (das Vier): a terra, o céu, os divinos e os mortais
 +    * Estes quatro não existem isoladamente, mas somente em sua mútua pertença e jogo recíproco
 +  * Caracterização dos quatro momentos do Geviert
 +    * A terra é aquilo que suporta e edifica, que frutifica e nutre, que cuida das águas, rochas, plantas e animais
 +    * O céu é o curso do sol e da lua, o brilho das estrelas, as estações do ano, a luz e o crepúsculo, a escuridão e a claridade da noite, os benefícios e rigores da atmosfera, a fuga das nuvens e a profundidade azulada do éter
 +    * Os divinos são os mensageiros da divindade que dirigem sinais; o deus emerge do poder oculto da divindade e aparece em sua essência, que o subtrai a qualquer comparação com o presente
 +    * Os mortais são os homens; chamam-se mortais porque podem morrer; morrer significa ser capaz da morte como morte
 +  * A morte como abrigo do ser e relação essencial dos mortais
 +    * A morte, como arco do nada, encerra o que faz a essência do ser e é assim o abrigo do ser
 +    * Os mortais são verdadeiramente mortais quando têm seu ser no abrigo do ser e são a relação essencial com o ser enquanto ser
 +  * A unidade do Geviert como jogo e dança
 +    * Céu e terra, divinos e mortais nunca existem sozinhos, mas somente em comum uns com os outros
 +    * Eles existem na simplicidade, na dança e na roda dos quatro, no jogo do mundo
 +
 +  * A retomada de ideias antigas e a ponte com a experiência mítica
 +    * Pensar o mundo como quadripartição é retomar, através do pensamento, ideias muito antigas
 +    * O homem na experiência mítica do mundo experimentava-o como o casamento da terra e do céu, e a si mesmo como mortal sob a reivindicação do deus
 +    * Platão, em sua maneira, ainda está próximo da ideia do mundo como ordem, assembléia do céu e da terra, dos deuses e dos homens
 +  * A poesia de Hölderlin como incitação decisiva
 +    * Heidegger estabelece uma ponte de sua concepção do mundo para a experiência mítica de Hölderlin
 +    * A poesia de Hölderlin foi a incitação decisiva para pensar o mundo como quadripartição
 +
 +  * O desafio de reinserir a sabedoria do mito no pensamento
 +    * Talvez tenha chegado o momento de reintegrar no pensamento a sabedoria mais antiga do mito
 +    * Para isso, o pensamento, partindo de um início autônomo, deve desenvolver a questão sobre o que o mito nomeia
 +    * O pensamento não pode simplesmente tomar respostas do mito para si, sem renunciar a si mesmo como pensamento
 +  * A dificuldade em apreender conceitualmente os quatro
 +    * Quando questionamos sobre o mundo, o saber sobre o que é o céu e a terra escapa-nos das mãos
 +    * As indicações de Heidegger, por vezes escassas, podem mais mascarar do que desenvolver o que deve ser pensado
 +    * A definição do homem como mortal pressupõe um saber sobre quem é o homem, algo que o próprio Heidegger afirma não possuirmos mais
 +    * Sobre o divino, Heidegger sugere que é preferível guardar silêncio na zona do pensamento
 +  * A necessidade de um caminho meditativo para alcançar o Geviert
 +    * Nenhuma indicação pode dizer imediatamente como pensar o mundo como quadripartição
 +    * É necessário seguir o caminho pelo qual o próprio Heidegger chegou a esse conhecimento
 +
 +  * O ponto de partida: a questão do ser como abertura
 +    * A via começa com a questão do ser; o ser é a abertura do ente
 +    * Um ente chega ao seu ser quando é tomado nele mesmo pelo que é
 +    * Ao ser tomado como ente, produz-se nele uma ruptura; sua imanência fechada é aberta à força, o ente é distinguido de si mesmo
 +  * A diferença ontológica e o intervalo
 +    * A ruptura abre abruptamente a diferença entre ser e ente; ela gera o intervalo pelo qual o ente advém à abertura do ser
 +    * Para esta abertura é necessária a pensamento, que concebe o ente como ente
 +    * É apenas o intervalo que faz do ser o ser do ente; ele é o que desdobra sua essência no ser como seu fundamento e sua verdade
 +  * A verdade do ser como simultaneidade de descobrimento e encobrimento
 +    * A questão é como se desdobra realmente este entre-dois, a verdade do ser
 +    * Ela é conhecida como a simultaneidade do descobrir e do encobrir, como o acontecimento do desvelamento
 +
 +  * A multiplicidade de nomes para o desvelamento
 +    * O desvelamento é pensado de muitas maneiras: como liberdade do esclarecimento, como proximidade (Nahnis), como dimensão de todas as dimensões, como região
 +    * Ele é o movimento mais originário, o caminho mesmo (Tao), o movimento que abre todos os caminhos do pensamento, da ação e do discurso
 +    * O movimento vem do repouso, concebido não como imobilidade rígida, mas como imanência que reúne em si todos os movimentos
 +  * O mundo como nome decisivo para a estrutura do desvelamento
 +    * Entre os nomes para o que vigora como desvelamento, um é decisivo: mundo
 +    * Este nome designa a estrutura na qual se situa o desvelamento
 +    * O que reina no mundo é o encobrimento descobridor do desvelamento, um proveniente
 +  * O estatuto não-ente do ser e do mundo
 +    * Ser e mundo não existem como um ente, pois não são um ente entre outros
 +    * Por isso Heidegger diz que eles desdobram sua essência (wesen) ou vigorecem (walten)
 +    * O desdobramento deve ser concebido como este advir que se abriga na presença
 +  * O destino como proveniente de descobrimento e encobrimento indissociáveis
 +    * Como no advir do descobrimento, o encobrimento pertence permanentemente ao descobrimento, este advir não deve ser concebido como um processo teleológico
 +    * Um proveniente onde descobrir e encobrir se unem indissoluvelmente é chamado por Heidegger de destino
 +
 +  * A essência do tempo como temporalidade eqüi-original
 +    * No destino vigora a essência do tempo; este tempo não é o tempo intramundano, mas a temporalidade, o horizonte transcendental do sentido do ser
 +    * É a maneira como tem lugar o desvelamento
 +    * Heidegger busca quebrar a dominação do presente na tradição metafísica
 +  * O tempo como engrenagem das três dimensões
 +    * O tempo é pensado como eqüi-temporalidade do passado, presente e futuro, ou ser-passado, ser-presente, vir-ao-encontro (Gegen-Wart)
 +    * A eqüi-temporalidade é a engrenagem das três dimensões temporais, algo como uma quarta dimensão que seria a primeira e inicial
 +    * As três dimensões são de igual importância; não toleram a predominância do presente
 +  * A negação da eternidade como presente extra-temporal
 +    * O presente não é o constante, a partir do qual passado e futuro seriam concebidos como sua negação
 +    * O presente (como instante) só é produzido quando há a engrenagem do passado e do futuro
 +    * Heidegger não supera o tempo rumo a um presente extra-temporal e eterno; ele corta definitivamente essa rota
 +    * A eternidade conhecida a partir da eqüi-temporalidade reside na unicidade do instante
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 +  * A concepção originária do espaço e sua união com o tempo
 +    * O tempo como eqüi-temporalidade vigorece em conjunto com o espaço, pensado em seu sentido originário
 +    * Espaço originário não é o conjunto de lugares, mas o que abre a separação dos emplacamentos, lhe dá espaço
 +  * O espaço-de-jogo-temporal (Zeit-Spiel-Raum) como domínio do desvelamento
 +    * O tempo como eqüi-temporalidade e o espaço nesse sentido formam o espaço-de-jogo-temporal, o domínio movente do desvelamento
 +    * Este se abre como destino ao retirar-se em seu encobrimento
 +  * A derivação do tempo e espaço mensuráveis
 +    * O tempo como sequência mensurável de instantes e o espaço como separação mensurável resultam de abstrair o jogo originário do espaço-de-jogo-temporal
 +    * Nessa abstração, o encobrimento é recoberto em favor do presente mensurável
 +  * Os limites do saber objetivo sobre espaço e tempo
 +    * O espaço submetido ao cálculo não esgota o espaço-de-jogo-temporal; não pode dar conta, por exemplo, da proximidade ou do afastamento do deus
 +    * Se espaço e tempo são postos apenas em vista do mensurável, o mundo como espaço-de-jogo-temporal é destruído
 +    * Interpretar espaço e tempo a partir do espaço-de-jogo-temporal não torna falso o saber científico, mas o insere no domínio restrito de sua exatidão, mostrando que são inesgotáveis em sua essência
 +
 +  * A ordenação do desvelamento na estrutura do Geviert
 +    * O desvelamento se ordena, como dispensação do espaço-de-jogo-temporal, na estrutura do mundo, erigindo-se em quadripartição
 +    * O encobrimento, enquanto traço fundamental do desvelamento, se manifesta sob o aspecto da terra, que só se abre fechando-se
 +    * O descobrimento, outro traço fundamental, é especialmente proporcionado sob a forma do céu, que se estende, indisponível, sobre a terra
 +  * O mundo como conflito íntimo e união
 +    * O mundo é o conflito da terra e do céu, conflito entendido como união íntima onde um não pode ser sem o outro
 +    * O mundo nunca é um mundo em si, mas o advento da abertura do ente no homem
 +  * O homem como necessário para o advento do desvelamento
 +    * O homem é, com sua essência, utilizado para o advento do desvelamento
 +    * É necessário como aquele mortal ao qual a vigência da verdade e do mundo só se dá ao recolher-se no apelo do totalmente outro, do divino
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 +  * A ausência de fundamento exterior ao mundo
 +    * O mundo como quadripartição não precisa ser explicado a partir de um fundamento exterior a ele
 +    * Também não se pode isolar um de seus momentos estruturais para fundamentar o todo
 +    * O descobrimento encobridor que vigora no mundo permanece um fundamento sem fundo
 +  * O mundo como jogo de espelhos e unidade dinâmica
 +    * O mundo é o quadriparti como jogo de espelhos, onde cada um reflete a essência dos outros e assim se reflete em sua própria essência
 +    * A reflexão não é pensada platonicamente, mas como velamento esclarecedor que, como advento, traz àquilo que é próprio
 +    * A unidade que mantém juntos os quatro, como simplicidade da quadratura, não é identidade rígida, mas roda e dança animadas
 +  * A infinidade do mundo como relação infinita
 +    * A unidade dos quatro é a intimidade de uma relação infinita
 +    * Infinito não é o que não tem fim, mas o movimento do mundo que remete para fora de si tudo que é finito e o traz de volta a si
 +    * Esta infinidade não é o ser em si de um ente supremo, mas o fundamento sem fundo, descobrimento que encobre e assim acontecimento
 +  * O mundo como concessão do próprio e da pátria
 +    * Como relação infinita, o mundo faz entrar o que é naquilo que lhe é próprio
 +    * Na experiência do mundo ocorre esta entrada no ser próprio, onde o próprio existe como próprio, como o historicamente único
 +    * O mundo concede a possibilidade de estar em casa no que é próprio, com base no que permanece estrangeiro e indisponível; concede o próprio como pátria
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 +  * A mútua pertença do mundo e das coisas
 +    * O mundo apropria o ente àquilo que lhe é próprio, liberando-o para ser ele mesmo
 +    * Esta guarda não ocorre como se, de um lado, houvesse um ente e, de outro, um desvelamento, e ambos fossem reunidos
 +    * Verdade e mundo se abrigam no ente quando o ente se abriga neles: o mundo concede coisas, enquanto as coisas fazem morar e reúnem o mundo
 +  * A via de acesso ao mundo a partir do ente
 +    * Em um tempo onde verdade e mundo se recusam, Heidegger busca conduzir primeiro à essência da verdade e do mundo
 +    * Ele questiona sobre as vias pelas quais verdade e mundo se abrigam no ente, para seguir o estreito caminho que conduz ao seu conhecimento
 +    * Se o mundo só vigora ao abrigar-se no ente, o caminho inverso também deve ser possível: mostrar, a partir do ente, como ele está, em sua diversidade, abrigado no mundo
 +  * A retomada modificada da teoria das categorias
 +    * Nesse caminho, o objetivo da teoria universal das categorias e da ordem ontológica do ente é retomado sob uma forma modificada
 +    * Trata-se da questão dos níveis segundo os quais o ente é abrigado na verdade e em sua estrutura, o mundo
 +  * A separação das vias de pensamento
 +    * No entanto, questionar assim é fazê-lo no sentido contrário ao que determina as questões de Heidegger
 +    * Os Beiträge sugerem que aqueles que assumem a ressonância do evento como recusa e aqueles que fundam a liberdade do ente em si podem permanecer separados
 +    * Uma maneira de re-executar o pensamento de Heidegger, partindo de outros pontos de partida, talvez possa despertar melhor a questão sobre o que deve ser pensado
 +
 +  * A ausência de um telos para uma gradação do ente
 +    * Se questionamos sobre os níveis de abrigo do ente, renovamos aparentemente a questão platônico-neoplatônico-idealista sobre a gradação do ente
 +    * No entanto, se o mundo é o acontecimento onde todo fundamento se abisma, falta o ponto de mira para tal gradação
 +  * O encontro histo-rial como ordem não supratemporal
 +    * Se verdade e mundo são destino indisponível, a abertura na qual o ente se coloca é sempre um encontro histo-rial do destino, e não uma ordem supratemporal
 +    * A questão é como Heidegger desenvolve este encontro e como o ente se decompõe na variedade de seus domínios para seu conhecimento do mundo
 +
 +  * A crítica à concepção objetificante da natureza
 +    * Sein und Zeit não interroga especialmente sobre a natureza, mas afasta a opinião de que a natureza seria identificável à coisidade natural dada e disponível
 +    * Distingue a natureza que nos envolve (no sentido romântico) da natureza como objeto das ciências naturais
 +  * A natureza a partir da disposição (Befindlichkeit) do ser-aí
 +    * A natureza é originariamente manifesta no ser-aí pelo fato de este existir como disposto e situado no meio do ente
 +    * Como a disposição pertence à essência do ser-aí, a analítica do ser-aí forneceria a base para o desdobramento do problema da natureza
 +  * A terra como chave para a questão da natureza
 +    * Se a disposição do ser-aí é concebida como o momento estrutural terra no Lá do ser do mundo, a questão da natureza deve ser posta a partir da terra
 +    * Os Beiträge refletem sobre como a natureza foi primeiro physis, morada dos deuses, depois antítese da graça, e hoje é apenas objeto para a técnica
 +  * A terra como mais originária que a natureza
 +    * A natureza só se torna terra em virtude de seu conflito com o céu, conflito que o homem deve sustentar
 +    * Se sua abertura é concebida como o conflito da terra que se fecha e do céu que a eleva para o aberto, então a natureza se torna terra
 +    * A terra é, em certos aspectos, mais originária que a natureza, pois tem uma relação com a história
 +
 +  * A física como um modo específico de manifestação da natureza
 +    * A física provoca a natureza como objeto e fundo (Bestand)
 +    * O que é provocado é a natureza mesma, mas apenas como domínio de objetos cuja objetidade é determinada pela elaboração da física
 +    * A física abstrai de uma multiplicidade de traços da natureza; o que ela apreende é apenas uma maneira que a natureza tem de se manifestar
 +  * Os limites da explicação física
 +    * A objetividade da física nunca pode abraçar toda a plenitude de ser da natureza
 +    * A física não pode decidir, com seus próprios meios, daquilo de que abstrai
 +    * A questão de saber se a natureza não se retrai em sua plenitude oculta é assunto de uma reflexão que busca explicitar os modos de descobrimento
 +  * A superação da aparência de um em si último
 +    * Se recordamos que a natureza se encobre ao mostrar à pesquisa física um certo modo de desvelamento, não pode mais surgir a aparência de que o descoberto pela física é um em si último e certo
 +    * Valores estéticos, por exemplo, não podem ser superpostos como algo adicional a esse em si
 +
 +  * A relação recíproca entre homem e natureza
 +    * Se a natureza se descobre ao mesmo tempo que se encobre, ela não pode ser apenas produto elaborado por um sujeito, nem simples objeto e fundo da tecnologia
 +    * O desvelamento, tal como eclode no homem, é condição para que a natureza seja conhecida em seu eclodir e em seu fechar
 +    * Por outro lado, o homem deve, como condição para ser ele mesmo, reconhecer a natureza que se encobre em sua estranheza
 +  * A inquietação da parentesco corporal com o vivente
 +    * O fato de seu ser-aí ser portado por algo que não é no modo do ser-aí, que é do gênero da natureza, inquieta o homem
 +    * Essa inquietação se dá sobretudo na parentesco que ele tem, por sua corporalidade, com aquilo que é apenas vivente
 +
 +  * A ontologia do ser-aí como pré-ordenada à ontologia da vida
 +    * Sein und Zeit afirma que a ontologia do ser-aí é pré-ordenada à ontologia da vida
 +    * Na realidade, a natureza precede o homem, mas em verdade ela não existe (ex-siste) sem ele, pois existir só há onde há um dizer-que-uma-coisa-existe
 +    * A prioridade da ontologia do ser-aí diz respeito à ordem da verdade e do saber: o homem que sabe precede o saber sobre a natureza
 +  * A interpretação privativa da vida
 +    * A biologia é fundada na ontologia do ser-aí, ainda que não de modo exclusivo
 +    * A ontologia da vida se realiza por via de interpretação privativa; ela determina o que é necessário para que algo como simplesmente viver possa ser
 +    * A vida não é privação do ser-aí no sentido da decadência; a autonomia imanente do modo de ser vida se perderia em tal via
 +  * A interpetação privativa como esclarecimento prévio dos conceitos
 +    * A interpretação é privativa na medida em que pressupõe absolutamente um esclarecimento do que significam ser, ser-aí, realidade, etc.
 +    * Não se deve tomar a vida como uma privação do ser-aí, pois o homem não deve ser posto como telos da natureza
 +  * As sugestões dos Beiträge para uma interpretação da vida
 +    * A vida é compreendida como o começo da abertura do ente em vista do ente, onde o si mesmo ainda é guardado
 +    * O vivente se encontra num entorpecimento, dentro do qual se realiza toda excitação e irritabilidade
 +    * Mostra diversos graus de um obscurecimento, a guarda do si e a prioridade da espécie, que não reconhece nenhum indivíduo como ipsidade
 +  * A distinção radical entre homem e animal na Carta sobre o Humanismo
 +    * Os seres vivos não precisam do ser, não suportam a verdade do ser, não têm a guarda da essência de seu ser, não têm mundo (apenas um meio), e lhes falta a linguagem, a capacidade de dizer é
 +    * Esta interpretação privativa não deve fazer ver o animal a partir do ser-aí, mas conduzir-nos diante do abismo que nos separa do animal, a cuja essência somos no entanto aparentados por nosso corpo
 +
 +  * A exclusão do antropomorfismo pelo ponto de partida no ser-aí
 +    * Tomar o ser-aí como ponto de partida não deve dar garantias a uma interpretação antropomórfica, mas excluir o antropomorfismo
 +    * Isso ocorre ao tomarmos consciência de que somos sempre nós que compreendemos, e que nossa autocompreensão ainda está em jogo diante do incompreensível
 +  * A insuficiência da explicação mecanicista
 +    * A explicação mecanicista da vida não é uma saída do antropomorfismo, pois permanece inadequada à vida, ainda que possa esclarecer alguns traços de sua essência
 +    * Nela, o vivente é pensado a partir das obras que o homem realiza; o vivente é distinguido por ser definido como aquilo que se faz a si mesmo
 +  * A estranheza fundamental do animal
 +    * O animal, que parece tão próximo, nos resta profundamente estranho, porque o ente já se abre para ele, sem que ele mesmo assuma o desvelamento
 +    * Desvelar-se e velar-se estão unidos no animal de uma maneira tal que nossa interpretação humana mal encontra uma saída, evitando tanto a explicação mecanicista quanto a antropomórfica
 +
 +  * A diferença essencial: compreensão do ser
 +    * O homem não é apenas um ente como os outros; ele é o lugar onde ser, verdade e mundo se produzem
 +    * A diferença entre homem e o resto do ente deve ser estabelecida como a diferença entre o que se distingue pela compreensão do ser e o que não tem tal compreensão
 +  * O homem como tema a partir de sua função no desvelamento
 +    * O homem constitui um tema pelo fato de que sua essência é necessária para que o ente possa entrar em seu ser, para que o ser possa se produzir e se ordenar como desvelamento na estrutura do mundo
 +    * Em Heidegger, há poucas indicações sobre o homem como unidade de corpo, alma e espírito, ou sobre a ordem da comunidade
 +  * A reorientação das questões antropológicas para a questão do ser
 +    * Heidegger acolhe essas problemáticas, mas elas se transformam na questão de saber como é experimentado o desvelamento do ser quando o homem é assim definido
 +    * O que é dito sobre o um (das Man) em Sein und Zeit não fornece uma contribuição para a filosofia social, mas indica como, para um homem cujo pensamento é rebaixado às evidências do Um, a questão da verdade do ser não pode surgir
 +  * A tarefa de encontrar o terreno para as questões antropológicas
 +    * Quando Heidegger pensa o homem como o lugar, o Lá, do ser, e toma a peito transformar o homem nesta essência que é sua, as questões da unidade corpo-alma-espírito e da ordem da sociedade não são excluídas
 +    * É preciso precisamente encontrar o terreno sobre o qual estas questões devem ser postas
 +
 +  * A morte como medida da possibilidade mais extrema
 +    * O homem toma a medida da mais extrema possibilidade do ser-aí quando assume a morte como morte
 +    * A morte confia o ser-aí à sua profundidade abissal irredutível e o faz assim o lugar momentâneo para o desvelamento
 +  * A deformação da essência da morte
 +    * A essência da morte também pode ser mascarada: um morrer experimentado como simples extinção deforma a morte, assim como uma interpretação metafísica que a toma por passagem para uma vida eterna assegurada
 +  * A morte essencial como encontro com o que permanece
 +    * Na morte experimentada segundo sua essência, aquilo pelo qual o homem é sustentado em seu ser vem a ele: a realidade originária que recolhe em si tudo o que é e que é assim o que permanece, o advento do desvelamento e do mundo
 +    * A morte atribui o homem ao acontecimento da verdade e do mundo, e o transforma assim em sua essência de pertencer, como mortal, ao quadriparti
 +
 +  * O homem como mortal diante dos deuses
 +    * É como mortal que o homem se coloca diante dos deuses
 +    * O mundo ao qual ele pertence é o entre-dois entre os deuses e ele, o acontecimento que consagra uns aos outros os divinos e os mortais
 +  * A verdade e o mundo como reivindicação suprema
 +    * Verdade e mundo não se dão ao homem diretamente, mas sempre reunidos numa reivindicação suprema, que cria um compromisso
 +    * Se esta reivindicação torna familiar ou faz experimentar o desenraizamento como tal, ela é a reivindicação daquilo que concede ou recusa a salvação, do sagrado que chega ou se desvia
 +  * A manifestação do divino
 +    * O divino se esconde no sagrado como aquilo que concede ou recusa a salvação
 +    * Este divino se manifesta, de uma vez a outra, como reivindicação, como o deus ou os deuses
 +
 +  * A presença da questão de Deus desde o início
 +    * A questão de Deus paira desde a origem sobre o caminho do pensamento de Heidegger
 +    * Este caminho começa por um ponto de partida metafísico que encontra seu acabamento ao retornar a Deus como seu fundamento último, numa teologia especulativa
 +  * O ataque à teologia metafísica
 +    * Heidegger dirige seus ataques contra essa teologia metafísica: o Deus que a metafísica busca apreender e compreender, e do qual busca fazer a base do pensamento, não é o Deus vivo da fé
 +  * Sein und Zeit e a expulsão dos resíduos teológicos
 +    * Sein und Zeit não se funda mais numa teologia especulativa, mas quer expulsar radicalmente da filosofia os remanescentes da teologia cristã
 +    * Com isso, a relação do homem com Deus não é negada, mas trata-se de criar um lugar para uma teologia renovada, inspirada em Lutero
 +  * A historicidade da revelação
 +    * A Fenomenologia e Teologia refuta toda tentativa de reduzir a cristandade da fé cristã a um princípio geral de filosofia religiosa
 +    * Deus se atesta para a crença no Cristo crucificado em sua historicidade; uma revelação que é história não pode ser tornada universalmente inteligível
 +  * A abertura para uma pensamento preparatório
 +    * A possibilidade de um pensamento preparatório para a essência de Deus está aberta em Sein und Zeit
 +    * A parte não publicada deveria traçar uma delimitação da diferença ontológica em relação à diferença teológica
 +
 +  * A experiência nietzschéana da morte de Deus como decisiva
 +    * Nos anos posteriores a Sein und Zeit, a experiência nietzschéana da morte de Deus tornou-se decisiva
 +    * Para Heidegger, não é Deus mesmo que morre, mas o Deus tal como foi conhecido na história ocidental determinada pela metafísica
 +  * A refutação apenas do Deus moral
 +    * A palavra de Nietzsche significa para o pensamento meditativo: o Deus pensado como valor, mesmo que seja o maior, não é um Deus
 +    * Portanto, Deus não está morto, pois sua divindade vive; está mesmo mais próxima do pensamento que da fé, se a divindade recebe sua origem da verdade do ser
 +  * O Deus moral como equívoco da humanidade
 +    * O Deus moral é o equívoco da humanidade que se nega a si mesma e nega a vida
 +    * Quando esta humanidade é superada, o equívoco, o Deus moral, é refutado
 +  * A crítica ao Deus metafísico
 +    * Heidegger concebe o Deus moral como o Deus metafísico, limitando a palavra de Nietzsche sobre Deus à experiência metafísica
 +    * A crítica ao Deus ético-metafísico é conduzida a novas profundezas: Deus entra na metafísica quando a essência originária do desvelamento é esquecida e o ser é assegurado como presença constante
 +  * A liberação para o Deus divino
 +    * Deus é exigido pelo pensamento metafísico como fundamento último e valor supremo, mas assim não é conhecido em sua verdadeira essência
 +    * O pensamento só pode encontrar o caminho do ser verdadeiro de Deus se, superando a metafísica, alcançar a essência originária da verdade
 +    * É só quando o pensamento abandona o Deus metafísico que se liberta para o Deus divino
 +  * Hölderlin como garantia de uma nova possibilidade
 +    * Hölderlin, que retoma transformada a experiência pré-metafísica de Deus da tragédia grega, pode ser o garantidor da possibilidade de uma theologia que, mesmo num tempo de retirada de Deus, se sabe sob a invocação do divino
 +
 +  * A questão de Deus como encerramento necessário dos Beiträge
 +    * Os Beiträge terminam com a questão de Deus, necessariamente
 +    * Neles, o ser é pensado como ele mesmo, portanto como o advento do desvelamento
 +    * O desvelamento se concentra em que uma reivindicação divina, que determina e transforma tudo, se exprime nele e pode tocar o homem
 +  * O homem à disposição dos deuses
 +    * O homem transformado no ser-aí e que assim se sabe utilizado para o advento do desvelamento, está à disposição dos deuses
 +    * Isso significa manter-se longe e fora da banalidade do ente e de suas interpretações; pertencer ao mais distante
 +  * O ser como tremor do tornar-se-deus
 +    * O ser como acontecimento do desvelamento confia o deus ao homem ao atribuir o homem ao deus
 +    * Assim, ele é o tremor do tornar-se-deus, a antecipação da decisão divina sobre seu deus
 +  * A indeterminação na fala sobre o divino
 +    * Como nunca é o homem que pode decidir se e como Deus o interpela, o pensamento prévio deve deixar essa decisão indecisa
 +    * Por isso, Heidegger fala de maneira indefinida tanto do deus quanto dos deuses
 +  * A recusa do ser aos deuses
 +    * Ele recusa o ser aos deuses, embora o deus possa ser pensado tão pouco como não sendo quanto como sendo
 +    * Recusar o ser a Deus significa que o ser não está acima dos deuses, nem estes estão acima do ser
 +    * Os deuses precisam do ser para pertencerem a si mesmos graças a este ser, que não lhes pertence; o ser é aquilo de que os deuses precisam
 +
 +  * O último deus como começo da história futura
 +    * Se o divino é conhecido a partir do acontecimento do desvelamento, a essência do divino é elevada ao que tem de último e supremo
 +    * O deus aqui chamado último não representa um fim no sentido daquilo que cessa; conhecê-lo como último é antes o começo da história futura
 +    * O último deus não é simplesmente um outro deus diante dos deuses passados; ele os reúne na essência última e suprema do divino
 +  * A essência do último deus no signo (Wink)
 +    * O deus conhecido pelo acontecimento como o último só passa: não se pode forçá-lo a parar e assegurá-lo como o fundamento que tudo funda
 +    * Ele tem sua essência no signo, assalto e falta da chegada, bem como na fuga dos deuses que foram e sua transformação secreta
 +    * Nesta essência do signo, o ser mesmo amadurece; a maturidade é disposição para tornar-se fruto e doação
 +  * A relação entre o acontecimento e o deus
 +    * Contudo, o ser e sua essência, o acontecimento do desvelamento, não é ele mesmo o deus, mesmo que seja o elemento de que o deus precisa para aparecer
 +    * O acontecimento é a rede onde o deus se toma a si mesmo, para rasgá-la e deixá-la se consumar no que tem de único, divino e estranho
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 +  * A histo-rialidade como pertencente à essência do divino
 +    * O divino conhecido pelo acontecimento do desvelamento não pode mais ser posto como o fundamento que tudo funda
 +    * Ele se encobre na profundidade sem fundo; só se mostra de vez em quando na dispensação e permanece o outro em relação ao humano
 +    * A historicidade pertence a sua essência, na medida em que é pensada a partir do advento que, ao descobrir, encobre
 +  * A mortalidade dos deuses
 +    * Se o divino é assim experimentado, não se pode afastar a ideia de que uma reivindicação do divino também tem seu tempo
 +    * Os deuses também podem morrer; morrer aqui não significa acabar no vazio de um nada, mas retirar-se no único e no irremplaçável
 +    * A morte é concebida como o testemunho supremo a favor do ser e do advento da verdade
 +  * A superioridade do homem em relação aos deuses
 +    * Como o homem é capaz de assumir a morte especificamente como morte e de ser assim atribuído ao acontecimento, ele supera os deuses
 +    * Esta superação significa que os deuses estão inteiramente reunidos nos limites de uma reivindicação histo-rial
 +  * O deus como interrogado
 +    * Se tempo e história são reconhecidos a partir do advento do desvelamento, o deus não deve mais ser pensado como aquele que é sem tempo nem história
 +    * Ele só pode ser objeto de interrogação a partir do movimento trágico da história, do instante
 +    * Talvez ele só esteja aí, diz Heidegger, como o interrogado, ou seja, o chamado
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 +  * As questões abertas sobre a unidade e eternidade do divino
 +    * Se o divino só se mostra numa reivindicação cada vez histo-rial, como pode ainda ser pensado em sua unidade?
 +    * Pode-se representar a eternidade de Deus como temporalidade infinita?
 +    * A plenitude do divino pode ser resumida na noção do último deus, ou esta omite a experiência histo-rial do divino?
 +  * A revogação da expressão passagem do último deus
 +    * Antes que estas questões possam ter resposta, seria preciso perguntar mais exatamente como pensar que o deus seja último e que ele passe
 +    * Em seus trabalhos posteriores, Heidegger revoga a expressão passagem do último deus, apresentada nos Beiträge
 +    * Ele fala agora com mais reserva dos divinos, dos mensageiros da divindade que fazem sinais
 +  * Os divinos como anjos
 +    * Heidegger (com Hölderlin) chama também os divinos de anjos
 +    * Os anjos são os mensageiros que colocam os homens sob a reivindicação do sagrado e do divino e assim apaziguam o advento sem fundo do desvelamento num ser-salvo
 +    * Sendo tais mensageiros, os divinos pertencem ao mundo, à estrutura do desvelamento
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 +  * A necessidade da questão de Deus para o pensamento
 +    * A questão de Deus se coloca quando se pergunta como uma reivindicação que obriga pode reunir nela o advento da verdade e do mundo
 +    * Ela é indispensável para um pensamento que questiona sobre a estrutura da verdade e do mundo
 +  * A tarefa do pensamento e seus limites
 +    * O pensamento reconhece como sua tarefa reservar o domínio de uma reivindicação divina que traz a salvação; tenta mesmo reabrir este domínio
 +    * Contudo, ele não tem o poder de decidir por si mesmo se e como tal reivindicação toma a palavra e encontra o homem
 +    * O pensamento, ao qual a questão de Deus pertence com necessidade, não é ele mesmo teológico ou mitológico, resposta a uma reivindicação efetiva
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 +  * A presença constante da questão de Deus
 +    * Desde o início de seu itinerário, o pensamento de Heidegger traz consigo a questão de Deus
 +    * Este pensamento realiza, refazendo-o, o traçado da experiência ocidental de Deus e deve assim passar pela experiência nietzschéana da morte de Deus
 +  * Os desvios e armadilhas do caminho
 +    * Para finalmente voltar ao seu próprio caminho, ele deve percorrer os desvios mais consideráveis
 +    * A realidade contemporânea, que tem o aspecto de um novo começo e é na realidade a destruição do advento originário do desvelamento, jaz como uma armadilha no caminho
 +  * A exigência trágica do pensamento
 +    * É preciso manter o questionamento sobre Deus num tempo de extremo desvio; por isso, sobre o caminho deste questionamento, está colocada a palavra consternada do coro do Rei Édipo
 +    * O pensamento deve trabalhar para extirpar de si o que atrapalha a preparação da disponibilidade para os deuses
 +    * Como Édipo, deve trazer à luz, com uma paixão de saber única, a culpa oculta que se encontra na via própria, a via ocidental
 +  * A ruína como entrada no advento
 +    * Assim, o pensamento é chamado a uma via trágica, para esta ruína que não é o vazio do aniquilamento, mas entrada no advento do desvelamento
 +    * Esta entrada se consuma ao determinar e produzir na sua pertença recíproca o deus e o homem, a terra e o céu, e se põe assim como a estrutura do mundo
 +  * A superação das categorias humanas de julgamento
 +    * Se o pensamento se liberta para este advento, ele não pode mais creditar a um tempo bom ou mau, ou a uma sorte ou azar humanos, a via ou o desvio, a proximidade ou o afastamento do divino
 +    * Ele também é agora dominado pela palavra final do último poema do último poeta do helenismo originário, o Édipo em Colono de Sófocles
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