estudos:patocka:fausto-de-thomas-mann
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| + | ====== Fausto de Thomas Mann ====== | ||
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| + | ==== Jan Patocka. L’écrivain et son " | ||
| + | === Le sens du mythe du pacte avec le diable === | ||
| + | A solução goethiana da questão de Fausto, solução que rejeita a venda da alma imortal como impossível, | ||
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| + | A situação comporta mais uma vez um “império germânico”, | ||
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| + | A questão da alma se coloca mais uma vez, mais premente do que nunca. Não se trata mais simplesmente de saber durante quanto tempo o mal, vulgar, enfadonho e obsceno, que busca em vão assegurar sua autonomia, pode abusar um profundo espírito humano sobre o sentido do mundo espiritual e divino. Pois o mundo mesmo se revelou sem alma. A questão de Fausto, tal como Goethe a coloca, não tem mais sentido. A concepção da aposta só pode se manter parcialmente, | ||
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| + | O que significa, em um mundo sem alma, o pacto com o diabo, a aposta cuja alma imortal é o que está em jogo? O “grande pecado original do século XIX, a descoberta, por Schopenhauer, | ||
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| + | Apesar de sua desumanidade, | ||
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| + | Em seu fundo, esse mundo sem alma é idêntico ao mundo de sempre. Ele está apenas “desencantado”, | ||
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| + | O pacto com o diabo (ou com o mal) significa, por um lado, essencialmente, | ||
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| + | Mas a história tem ainda outro aspecto que, em grande parte, inverte a situação. Como artista, Leverkühn é um homem que busca e revela a verdade. Uma verdade que, apesar dos estudos de sua juventude, não é abstratamente conceitual. (Não é por acaso que ele estuda justamente teologia, ainda que essa ciência o fascine principalmente como via de acesso ao mal.) No artista, a busca da verdade renuncia ao enunciado; ela não pode dizer nada diretamente, | ||
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| + | Visto assim, o isolamento de Leverkühn se apresenta sob outra luz. A solidão do artista que se afasta de todas as relações impregnadas de calor humano não é o furor absoluto de uma presunção paroxística, | ||
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| + | O fato de o mal universal, sob as espécies do acaso e de um conjunto caprichoso de circunstâncias, | ||
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| + | Em um mundo sem alma, o mal universal é, na verdade, inevitável como ponto de partida. Mesmo nas tradições que expressam uma visão “animista” do mundo, o caminho para a conquista da autenticidade parte sempre de uma queda original. No entanto, na história de Adrian Leverkühn, esse ponto de partida significa ainda outra coisa. O mal como componente do mundo colabora ativamente para tornar possível o surgimento da alma imortal; ele transforma a determinação interior em necessidade exterior, em destino, em algo irrevogável. Aquele que se liga como Leverkühn o faz, pelo “pacto” que representa sua doença, contrai um compromisso do qual não poderá se desvencilhar: | ||
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| + | Uma determinação livremente escolhida torna-se assim destino, tão inevitável quanto a morte. O homem se condena a si mesmo... A quê? O diabo diria: a uma frenesi de criação, ao desencadeamento de uma desmedida paroxística e lúdica. No entanto, a experiência do artista é, na realidade, a da culpa. Não é a presunção que se dá livre curso. O homem, consciente de sua culpa, não considera seu destino uma prerrogativa. É verdade que a incapacidade de estabelecer uma relação humana intramundana, | ||
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| + | Ao criar uma obra de arte que é a verdade de uma época sem alma, Leverkühn cria algo que vale para toda essa época; ele não vive mais apenas enclausurado em si mesmo. Mesmo que permaneça aparentemente distante de toda relação humana, inimigo das tradições, | ||
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| + | No entanto, ela é também uma alma interiormente madura, cujo ser é justificado e, nesse sentido, indestrutível. Em Leverkühn, essa alma é ainda fortalecida na consciência de sua responsabilidade universal pela perda do ser mais querido. A vocação do artista como servidor da verdade se concretizou em destino. Ora, o destino é uma escolha irrevogável que, reunindo de maneira paradoxal liberdade e necessidade, | ||
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| + | O sentimento de responsabilidade universal não é, portanto, a união mística, a fusão, a identificação de todos em uma simpatia universal. É um sentimento de solidariedade na participação da verdade e daquilo que a torna possível: do destino humano. O que significa essa responsabilidade no sentido universal? Nada mais do que isto: submeter-se ao julgamento e, portanto, à lei e à comunidade verdadeira e universal; querer ser julgado sabendo que se é cúmplice de todo mal; querer carregar e pagar sua parte da iniquidade universal, sem fugir para a esfera privada, para a atitude estética ou lúdica — querer tomar parte na justiça universal como na única situação em que a alma como tal possa existir, a alma enquanto ser cujo ser é um impulso que a eleva acima da decadência. | ||
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