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estudos:outros:quintao-intencionalidade-e-ciencia

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 +====== Quintão – intencionalidade e ciência ======
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 +A intencionalidade, que reduz o real à uma objetivação teórico-fenomenológica, o entende como um sistema, um conjunto de unidades, articuladas por subordinação e coordenação. A fenomenologia da ciência produz uma atitude que se realiza num projeto de experimentação, verificação e certeza do real, sistematicamente, objetivado. O aspecto noemático dessa generalização varia de acordo com a face visada da multiplicidade de modos de apresentação do fenômeno para a consciência. Segundo a fenomenologia de Husserl, o que caracteriza, ou não, uma ciência como objetiva não é o tema, que pode, até mesmo, ser Deus, ser o homem, a angústia coletiva, mas o rigor e a universalidade da investigação, sobre a totalidade ôntica do objeto. Basta dizer que a teologia, hoje, está se desfigurando numa positividade, que tem a pretensão de negar o mistério.
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 +A ciência objetiva sofre o limite de não poder refletir sobre a constituição originária da consciência, na qual emerge e se estrutura. Isto não é uma escolha da ciência, mas faz parte de sua constituição: ela não pode querer olhar para si mesma enquanto ciência, pois seu olhar projeta-se, sempre, para fora de si mesma, visa o diferente de si mesma. Assim, a ciência nunca alcança, na fenomenologia do fenômeno, a comunhão total, unificante, de todos os seres e realizações. A epoché, que proporciona a evidência científica suspende, por um lado, os juízos naturais, mas dedica-se, por outro, à construção de outros juízos objetivantes e teóricos, tomando impossível, para Husserl, o salto da transformação, a partir dessa generalização teórico-fenomenológica. É o erro que comentem os ideólogos de todos os tempos, achando que a conquista de uma mudança, no sistema da organização, é capaz de transformar o modo de ser homem. A ideologia não consegue avaliar a diferença entre a simples mudança e a transformação radical. Acha, por exemplo, que a introdução do chip numa cultura é um fato, por si só, revolucionador, capaz de acarretar uma transformação originária. No entanto, o chip é o aprofundamento de um processo que se desenvolve, há muito tempo, através dos percalços da história moderno-contemporânea. Só uma radicalização, oriunda do interior de própria consciência (no caso de Husserl, a radicalização se dá na imanência da consciência), pode (no sentido de ter a possibilidade) realizar no mundo um novo horizonte Essa, a lição que Platão, Santo Agostinho, Duns Escoto, Mestre Eckhart, Joaquim di Fiori, Nicolau di Cusa, Pascal, Heidegger, Husserl e todos os outros grandes pensadores, da história do pensamento, aprenderam e ensinaram.
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 +O sentido de universalização, de que hoje tanto se fala na globalização c mundialização, é, na verdade, resultado de uma perspectiva parcial, que se realiza como uma generalização objetivada da consciência teórico-fenomenológica da ciência. É uma generalização que não tem o rigor necessário para alcançara evidenciação das estruturas essenciais, constantes cm qualquer experiência natural ou qualquer teoria. Este entendimento de universalidade, como generalização de uma parte, decorre c desenvolve-se no horizonte da ciência, um horizonte instalado por uma intencionalidade que objetiva o mundo da vida como ciência. Tudo é ciência. A visada da ciência busca nos fenômenos a indiferença e a impessoalidade da eficiência e das funções. A funcionalidade e a eficácia da ciência se firma e confirma na medida em que se expande pelo mundo afora, a partir da experiência ocidental. Essa expansão quantitativa e tecnológicamente virtual, a ciência chama de universalização. Mas a ciência europeia-ocidental, a ciência objetiva ((Há outros tipos de ciência, na verdade, assim chamadas, pela nivelização que a ciência ocidental extende a partir de si a todos os fenômenos. Essas ciências seriam, por exemplo, as medicinas alternativas do oriente e outras civilizações, a astrologia budista. Esses conhecimentos lidam na prática, que desenvolvem, com a abertura do ser, com as transformações contínuas da vida. Emergem e se exercitam, cada vez, a partir das possibilidades dadas pelo real. Não são axiomáticas.)), não se preocupa com o qualitativo, com a correlação entre a funcionalidade da ciência e as diferenças humanas, as diferenças do mundo da vida. A universalização qualitativa é aquela que visa as estruturas essenciais, presentes nos diferentes encaminhamentos da ciência. Volta-se para o todo de qualquer particular, assegurando a originariedade e a autenticidade das diversas práticas de vida.
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 +A objetivação científica é uma das possíveis realizações da consciência teórico-fenomenológica, consciência sempre vigente, em diversos modos, na história da metafísica. A tematização de diferentes reduções, desenvolvida por Husserl, é própria da história metafísica, não se aplica, de forma alguma, a um modo de ser não metafísico, como o arcaico dos pré-socráticos, pela profunda diferença no modo de ser. O exercício dessas reduções correlaciona-se com intencionalidades diferenciadas e voltadas para práticas distintas. A intencionalidade, que tematiza os diversos tipos de redução, não é compatível com a experiência arcaica dos gregos: tudo é celebração do divino na ordinariedade da vida, cozinhar, comer, plantar, cantar, pensar, viver, brotar, nascer, morrer, procriar, gerar, criar, chover.
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 +As reduções, por sua vez, se cumprem, sempre, numa articulação lógico-relacional entre si, o que pressupõe, que sejam independentes e diferentes. A exceção é a redução natural da experiência natural, base constitutivamente necessária para qualquer outra redução. O modo de ser arcaico não conhece a independência e a diferença entre as realizações. Para o arcaico do grego, o real realiza-se por uma dinâmica de comunhão originária, na qual as diferenças se identificam numa recíproca co-pertença. O homem é um ser privilegiado, livre e responsável, capaz de receber, transparentemente, as doações da origem.
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 +A objetivação do real na fenomenologia de Husserl pertence à mentalidade contemporânea. Determina-se por um processo intencional de significação, no qual a apreensão da realidade, a partir de e em qualquer nível de objetivação, seja natural, seja fenomenal, ou eidético, relaciona-se, sempre, com um lançar-se da consciência, como um todo, para o outro de si mesma, inaugurando um horizonte de significações e objetivações. Essa abertura é a consciência transcendental.
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 +//QUINTÃO, Denise. Seguindo o Todo por toda Terra - Uma Fenomenologia do Arcaico nos Gregos. Teresópolis: Daimon Editora, 2007//
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 +{{tag>Outros}}