estudos:mulhall:ser-no-tempo
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| + | ====== Ser no tempo (SZ §§78-82) ====== | ||
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| + | * Ser no tempo (§§78–82) | ||
| + | * Heidegger conclui sua análise relacionando a compreensão existencial do tempo com as concepções vigentes tanto na vida cotidiana quanto nas disciplinas teóricas que tematizam as estruturas fundamentais dessa vida, mostrando a tensão entre a temporalidade como fundamento ontológico do ser do Dasein e a compreensão ordinária e filosófica do tempo como algo objetivo, disponível ou mensurável. | ||
| + | * Na vida cotidiana, o tempo é compreendido como algo que se tem ou se perde, como um meio no qual os entes estão imersos ou como uma propriedade quantificável, | ||
| + | * As concepções filosóficas dominantes, ainda enraizadas em Aristóteles, | ||
| + | * Surge, assim, o problema central: como é possível que um ente cuja existência é constituída pela temporalidade possa interpretar e viver o tempo de modo tão inadequado, e como tais interpretações se desenvolvem a partir da própria temporalidade. | ||
| + | * A compreensão cotidiana do tempo manifesta-se na datação dos acontecimentos, | ||
| + | * A databilidade cotidiana está implicitamente fundada na primazia do agora, uma vez que o “então” é compreendido como o não-ainda-agora e o “naquela ocasião” como o não-mais-agora. | ||
| + | * Essa primazia decorre do fato de que o Dasein, em sua cotidianidade, | ||
| + | * A databilidade cotidiana não se reduz a uma sucessão pontual de instantes, pois as ocupações humanas se estendem por períodos e envolvem a experiência de duração e de perda ou ganho de tempo. | ||
| + | * O significado do agora varia conforme a ocupação, podendo designar um instante ou um intervalo prolongado, o que revela a elasticidade temporal da existência cotidiana. | ||
| + | * A databilidade e a duração do tempo são essencialmente públicas, pois os tempos aos quais nos referimos são compartilháveis, | ||
| + | * Esses traços da concepção cotidiana do tempo encontram analogias estruturais com a temporalidade existencial, | ||
| + | * A inter-relação entre agora, passado e futuro reflete a articulação dos êxtases temporais, e a noção de duração expressa o fato de que o Dasein se estende ao longo de sua existência. | ||
| + | * Resta, porém, explicar a publicidade do tempo e a possibilidade de encontrá-lo no mundo, tarefa que Heidegger enfrenta por meio de uma narrativa especulativa sobre a gênese do tempo mundano. | ||
| + | * Segundo essa narrativa, o modo mais originário de contagem do tempo é astronômico, | ||
| + | * A alternância entre luz e escuridão, marcada pelo nascer e pelo pôr do sol, fornece o primeiro critério de datação prática do tempo, fazendo do dia a medida temporal mais originária. | ||
| + | * O sol funciona como o primeiro relógio, não como objeto teórico, mas como ente à mão integrado às estruturas de significância que orientam as práticas humanas. | ||
| + | * O tempo cotidiano é, assim, essencialmente diurno, periódico e público, pois se funda em fenômenos naturais acessíveis a todos e relevantes para a realização de tarefas. | ||
| + | * A contagem do tempo em relação ao sol pressupõe a rede de relações de “para-que” e “em-vista-de-que” que constitui a mundanidade do mundo. | ||
| + | * O tempo com o qual o Dasein lida é, portanto, intrinsecamente mundano, isto é, tempo-do-mundo. | ||
| + | * A possibilidade de um relógio não funda o tempo, mas é fundada pela temporalidade do Dasein, uma vez que a acessibilidade de qualquer medida temporal pressupõe a abertura mundana da existência humana. | ||
| + | * Todos os desenvolvimentos posteriores da medição do tempo, dos relógios solares aos relógios atômicos, dependem estruturalmente dessa primeira articulação pública, datável e estendida do tempo. | ||
| + | * Mesmo as formas mais técnicas de medição do tempo permanecem dependentes da abertura do mundo e, portanto, do caráter temporal do ser-no-mundo. | ||
| + | * A concepção cotidiana do tempo e as formas de vida e de teoria que a pressupõem são modos específicos de temporalização da temporalidade, | ||
| + | * O tempo público é compreendido como algo puramente objetivo, desvinculado de suas raízes existenciais. | ||
| + | * A duração do tempo é interpretada em função das tarefas e não da extensão existencial do Dasein ao longo de sua vida. | ||
| + | * Essa inautenticidade deriva da primazia concedida ao agora, que reprime a significação originária do passado e do futuro. | ||
| + | * Na datação cotidiana, o passado e o futuro são compreendidos exclusivamente a partir do presente, o que conduz ao esquecimento do passado e à antecipação acrítica do futuro. | ||
| + | * O Dasein se perde na absorção pelo objeto de sua ocupação presente, dissolvendo sua individualidade nas exigências públicas do que está em curso. | ||
| + | * Essa forma de temporalização corresponde à irresolução, | ||
| + | * O que falta a essa experiência é a possibilidade do instante como momento de visão, no qual o presente é apropriado como situação de decisão existencial, | ||
| + | * A resolutividade antecipadora rompe o nivelamento do tempo e reconquista a constância de si, ao passo que a adesão à concepção cotidiana do tempo fecha essa possibilidade. | ||
| + | * Quando o tempo se torna tema explícito da filosofia, ele é pensado a partir das práticas cotidianas de uso de relógios, sobretudo não naturais, o que conduz à concepção do tempo como uma sequência de agoras mensuráveis. | ||
| + | * A tematização filosófica passa a seguir o movimento de um ponteiro e a registrar uma série sucessiva de agoras presentes-à-mão. | ||
| + | * Com isso, tanto o enraizamento do tempo na temporalidade quanto sua estrutura de databilidade mundana são reprimidos. | ||
| + | * A tradição filosófica, | ||
| + | * Esse encobrimento deriva da tendência geral do Dasein de interpretar tudo segundo as categorias do presente-à-mão. | ||
| + | * Assim como os entes à mão são mal interpretados como meras coisas, o tempo é interpretado como uma série de agoras presentes-à-mão. | ||
| + | * Nessa compreensão, | ||
| + | * Heidegger rejeita essa alternativa ao mostrar que o tempo é objetivo enquanto mundano e subjetivo enquanto fundado no modo de ser do Dasein. | ||
| + | * O tempo é mais objetivo que qualquer ente intramundano, | ||
| + | * Dasein e entes estão e não estão no tempo: estão, enquanto são datáveis e estendidos; não estão, porque a databilidade dos entes deriva da temporalidade do Dasein, e o Dasein não existe em tempo, mas como tempo. | ||
| + | * Somente uma análise existencial da temporalidade evita tanto a reificação objetiva do tempo quanto sua dissolução subjetivista. | ||
| + | * Apenas a compreensão do ser humano como temporalidade pode esclarecer em que sentido o ser humano e os entes estão, e não estão, dentro do tempo. | ||
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