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| - | ===== MULHALL | + | ===== O modo condicionado de ser humano |
| - | Já deve estar ficando claro que Heidegger concebe o modo de ser humano como essencialmente condicionado. O dualismo, o empirismo e o idealismo pressupõem, | + | |
| - | (MULHALL, Stephen. Routledge Philosophy GuideBook to Heidegger | + | SMBT |
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| + | Já deve estar ficando claro que Heidegger concebe o modo de ser humano como essencialmente condicionado. O dualismo, o empirismo e o idealismo pressupõem, | ||
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| + | * Individualidade e Comunidade (§§25–7) | ||
| + | * A análise do mundo do Dasein não pode restringir-se a objetos físicos, aquilo que J. L. Austin denominou “bens secos de tamanho médio” [medium-sized dry goods], pois uma investigação adequada deve incluir uma outra classe de entes: aqueles cujo modo de ser é o próprio do Dasein, isto é, outras pessoas. | ||
| + | * Se o Dasein não pode ser compreendido segundo categorias apropriadas a objetos, tampouco outros seres humanos e as relações do Dasein com eles podem ser compreendidos como relações com coisas. | ||
| + | * O enquadramento tradicional dessas questões como “O Problema das Outras Mentes” expressa pressupostos que já deformam o fenômeno. | ||
| + | * Supõe-se que a existência de corpos semelhantes aos nossos é certa, mas que a atribuição de “mentes” a esses corpos é duvidosa, o que combina um dualismo mente–corpo com um impulso materialista que reduz a relação com o outro a uma relação com um objeto físico especial ao qual acrescentamos predicados extraordinários. | ||
| + | * As tentativas clássicas de solução permanecem prisioneiras do modo de formulação do problema, pois aceitam de partida a compreensão composicional do outro como corpo mais mente. | ||
| + | * O argumento por analogia revela a fragilidade constitutiva dessa abordagem. | ||
| + | * Ele pretende justificar a crença em outras mentes pela semelhança corporal e comportamental entre “meu” corpo e outros corpos humanoides, inferindo indutivamente que, assim como meu comportamento se correlaciona com vivências mentais, o deles também se correlaciona com uma vida mental. | ||
| + | * Contudo, o que efetivamente observamos é apenas a correlação entre fenômenos mentais e o comportamento do próprio observador; daí não se segue nenhuma base para afirmar correlações análogas no caso do outro, correlações que, em princípio, não podem ser observadas diretamente. | ||
| + | * A inferência só pareceria legítima se já soubéssemos qual semelhança é relevante: não basta a semelhança físico-comportamental; | ||
| + | * Assim, a analogia pressupõe o que deveria provar e, ao fazê-lo, converte a compreensão do outro em mera projeção empática do ser-para-si sobre o ser-para-outros, | ||
| + | * A passagem de Ser e Tempo (BT, 26: 162) explicita o núcleo da crítica: tomar o outro como “duplicata do si mesmo” depende de um pressuposto não demonstrado. | ||
| + | * Embora seja correto dizer que o “outro” é um ente do mesmo tipo de ser que o Dasein e que há uma relação de ser de Dasein a Dasein, não se segue daí que a relação para com o outro seja apenas a projeção do ser-para-si “em algo diferente”. | ||
| + | * Enquanto a evidência desse pressuposto não se tornar manifesta, permanece obscuro como a relação do Dasein consigo poderia ser “desvelada” ao outro enquanto outro, isto é, como o outro pode ser encontrado na sua alteridade e não como reflexo. | ||
| + | * A conclusão heideggeriana é que devemos abandonar a compreensão composicional do outro, pois ela ou pressupõe ou elimina aquilo que pretende analisar. | ||
| + | * A resistência cética que destrói as melhores tentativas de “construir” o conceito de pessoa a partir de mente mais corpo revela que o outro não pode ser derivado desses supostos constituintes sem circularidade. | ||
| + | * O conceito de outra pessoa é irredutível e logicamente primitivo: para adaptar a terminologia de P. F. Strawson, o primitivo não é “outras mentes + outros corpos”, mas o conceito de pessoas (criaturas com perspectiva e cuja essência é existência). | ||
| + | * Sendo o outro primordialmente pessoa, seu ser deve ser do mesmo tipo do ser do Dasein. | ||
| + | * A tese heideggeriana é simultaneamente anti-dualista e anti-solipsista, | ||
| + | * O ser do Dasein é ser-no-mundo, | ||
| + | * A estrutura do mundo remete essencialmente a outros entes cujo modo de ser é como o do Dasein; por isso, o Dasein só é inteligível como habitante de um mundo necessariamente compartilhado com outros como ele. | ||
| + | * Assim, a análise ontológica do Dasein exige desde o início o ser-com-outros [Mitsein] como traço constitutivo de seu ser. | ||
| + | * A presença dos outros no mundo do Dasein se deixa compreender em três sentidos articulados a partir da análise do trabalho e do à-mão [Zuhandenheit] (BT, 26: 153–4). | ||
| + | * Primeiro, os outros compõem uma classe de entes encontrados no interior do mundo, e não um postulado teórico anexado depois à percepção de coisas. | ||
| + | * Segundo, o “de-que” e o “para-que” das totalidades instrumentais remetem a outros: o material costuma ser fornecido por alguém e o produto costuma destinar-se a alguém, de modo que o mundo do trabalho já contém referências a possíveis usuários, produtores, fornecedores e destinatários. | ||
| + | * Terceiro, a manualidade não é inteligível como manualidade “apenas para mim”: se algo é adequado para uma tarefa, deve ser adequável para qualquer Dasein capaz de executá-la; | ||
| + | * A afirmação “o ser do Dasein é ser-com” é ontológica e não depende do fato ôntico de haver ou não companhia humana em uma situação concreta. | ||
| + | * Se o ser do Dasein não fosse, ontologicamente, | ||
| + | * Além disso, só se pode falar de solidão como modo deficiente do ser-com: o outro pode faltar apenas “em e para” um ser-com (BT, 26: 157), isto é, só um ente capaz de estar-com pode estar só. | ||
| + | * No plano ontológico, | ||
| + | * “Preocupação” não descreve uma atitude moral positiva, mas um traço existencial que torna possível inclusive o descaso, pois apenas a um ser capaz de preocupar-se se pode atribuir falta de preocupação. | ||
| + | * De modo análogo, “solicitude” nomeia a estrutura ontológica que sustenta tanto relações cuidadosas quanto agressivas, e não uma prescrição normativa de benevolência. | ||
| + | * Não há contradição entre o “em cada caso meu” do Dasein e o seu ser-com; ao contrário, o ser-com especifica mais profundamente a minhadade [mineness]. | ||
| + | * A minhadade significa, primeiro, que o ser do Dasein está em questão para ele, pois cada escolha existencial é escolha da forma de sua própria vida; e, segundo, que cada Dasein é um indivíduo ao qual podem aplicar-se pronomes pessoais e ao qual pertence ao menos a possibilidade de individualidade autêntica. | ||
| + | * Dizer que o mundo é social é dizer que ele se dá como “nosso” mundo, e tal mundo não é menos meu por ser também teu: a intersubjetividade não nega a subjetividade, | ||
| + | * A relação do Dasein consigo e a relação com outros cooriginam-se: | ||
| + | * A medianidade cotidiana do ser-com manifesta-se como um modo em que a individualidade se perde e se constitui segundo a lógica das diferenças e da comparação. | ||
| + | * O senso usual de quem somos torna-se função do modo como nos diferenciamos de outros em aparência, comportamento, | ||
| + | * A tentativa de eliminar diferenças a qualquer custo instala a conformidade como ideal; a tentativa de enfatizá-las a qualquer custo pode apenas inverter o sinal da dependência, | ||
| + | * A “distancialidade” cotidiana, portanto, domina tanto os que adotam o gosto comum quanto os que cultivam o “incomum” como estratégia reativa; prazeres raros e opiniões excêntricas não garantem individualidade existencial. | ||
| + | * A descrição do impessoal [das Man] explicita a perda de si como subjugação difusa: o “quem” do cotidiano não é nenhum indivíduo determinável, | ||
| + | * O Dasein cotidiano está submetido aos outros e tem seu ser “tomado” por eles, pois suas possibilidades cotidianas são dispostas conforme o que “se” faz e “se” pensa. | ||
| + | * Esses “outros” não são outros determinados; | ||
| + | * O “eles” não é um conjunto de indivíduos autênticos nem um sujeito coletivo supraindividual; | ||
| + | * Daí resulta uma desertificação da responsabilidade: | ||
| + | * A inautenticidade cotidiana deve ser compreendida sem moralismo ontológico, | ||
| + | * Um ente capaz de encontrar-se deve também ser capaz de perder-se; a possibilidade da autenticidade implica a possibilidade da inautenticidade como reverso estrutural. | ||
| + | * A autenticidade não exige cortar laços com os outros nem instaurar isolamento, pois o ser do Dasein é ser-com; ela exige uma forma distinta de ser-com, isto é, uma modificação do modo de relação com a alteridade. | ||
| + | * A fórmula de Heidegger segundo a qual o ser-si-mesmo autêntico é “uma modificação existencial do ‘eles’” (BT, 27: 168) parece, à primeira vista, gerar uma tensão conceitual. | ||
| + | * Se o impessoal é um existencial, | ||
| + | * Tal leitura sugere uma confusão entre níveis ontológico e ôntico, pois a análise da medianidade cotidiana, enquanto estado existencial concreto, só mostraria que o si do cotidiano é o si-impessoal, | ||
| + | * Se alguma conclusão ontológica se segue do capítulo, ela é antes a de que o Dasein é sempre ser-com, e não a de que o ser-com tem de assumir a forma inautêntica do impessoal. | ||
| + | * A aparente “deriva” pode ser compreendida quando se percebe o vínculo entre publicidade do mundo próximo e indiferenciação dos indivíduos (BT, 27: 164). | ||
| + | * Fenômenos como transporte público e serviços de informação fazem com que “cada outro seja como o próximo”, | ||
| + | * Ainda que tais exemplos pareçam contingentes, | ||
| + | * A indicação decisiva está no modo como os outros aparecem no mundo do trabalho: como portadores de funções e papéis socialmente definidos (BT, 26: 153–4). | ||
| + | * Os outros surgem como produtores, fornecedores, | ||
| + | * Sua identidade, nesse horizonte, é dada pelo que fazem e pela adequação ao que o ofício requer, de modo que, mantida a competência, | ||
| + | * Como a aparição é recíproca, também o Dasein aprende a compreender-se e a oferecer-se aos outros como função, isto é, como alguém substituível no interior de expectativas impessoais. | ||
| + | * Essa impessoalidade tem alcance ontológico, | ||
| + | * Sendo o Dasein ser-no-mundo, | ||
| + | * Normas e práticas são necessariamente interpessoais e, portanto, em sentido decisivo, impessoais: deve ser possível que outros ocupem o mesmo papel e repitam a prática, caso contrário nem sociedade nem cultura poderiam reproduzir-se historicamente. | ||
| + | * Uma prática que apenas um indivíduo pudesse realizar não seria prática alguma; e, como argumenta Ludwig Wittgenstein, | ||
| + | * Nesse sentido específico, | ||
| + | * Os papéis não designam o que tu ou eu, enquanto indivíduos, | ||
| + | * O ocupante de papel assim especificado aproxima-se do si-impessoal, | ||
| + | * A possibilidade da autenticidade não é anulada por esse ponto de partida impessoal, mas definida como tarefa: a individualidade autêntica é sempre conquista e não dado. | ||
| + | * Um papel social pode ser apropriado como vocação e integrar decisivamente a autocompreensão de alguém, mas sua natureza impessoal não garante nem favorece tal apropriação. | ||
| + | * A autenticidade consiste no modo como se habita e se assume os papéis, não na recusa total de todo papel; ela é modificação, | ||
| + | * Por isso, o Dasein não está “necessariamente” perdido, mas deve sempre começar por encontrar-se: | ||
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