estudos:mulhall:historicidade
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| + | ====== História e Historicidade (SZ §§72-75) ====== | ||
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| + | * História e Historicidade (§§72–5) | ||
| + | * A existência cotidiana é compreendida como diurna, isto é, como um viver-se de dia em dia, no qual o Dasein se alonga ao longo da sequência de seus dias, e tal alongamento já se encontra implicitamente tanto na estrutura do cuidado quanto na estrutura da temporalidade que a fundamenta. | ||
| + | * Uma vez que o Dasein existe como lançado e projetante, e não como uma identidade inicialmente dada que apenas se estenderia no tempo, a tese de que o Dasein é o ser do “entre” deve possuir uma conotação temporal, pois o humano é sempre já adiante de si e sempre já tendo-sido, de modo que a abertura ao mundo pressupõe uma abertura ao tempo como temporalização extática. | ||
| + | * A reformulação heideggeriana — pela qual o movimento específico do alongar-se e alongar-se-a-si-mesmo recebe o nome de “historizar”, | ||
| + | * A passagem de “temporalidade” para “historicidade” torna-se necessária porque a exposição precedente dera prioridade ao futuro e ao ser-adiante-de-si, | ||
| + | * Se nenhuma êxtase temporal pode ser isolada das outras, então a passadidade [pastness] deve infletir a relação com o presente e o futuro, e, por conseguinte, | ||
| + | * Resultados particulares da investigação histórica não esclarecem a questão da historicidade do Dasein, porque toda historiografia ou historiologia já pressupõe precisamente a capacidade humana de explorar o passado, e, ademais, nenhuma ciência da história teria assumido a perspectiva existencial-ontológica que interroga as condições de possibilidade da história como atividade de um ente cujo ser é inerentemente mundano. | ||
| + | * A tarefa, portanto, consiste em romper a compreensão média e cotidiana da historicidade, | ||
| + | * Tal modelo pressupõe um tempo atomizado em unidades autossuficientes de “agoras” que se tornam e deixam de ser presentes-à-mão, | ||
| + | * A crítica atinge seu ponto mais incisivo quando se problematiza a suposta “força” da tese de que um objeto histórico é algo do passado que permanece presente-à-mão no presente, pois, se o passado é o não-mais-presente-à-mão, | ||
| + | * Nem o desgaste material, nem a conservação intacta, nem a cessação do uso original explicam a historicidade de uma peça, já que objetos contemporâneos também se desgastam e um objeto intacto do passado não se torna contemporâneo por isso; mesmo um prato herdado e ainda utilizado permanece herança, embora seu uso já não coincida com o uso do serviço contemporâneo, | ||
| + | * A passadidade do objeto consiste, antes, no fato de pertencer a um mundo pretérito, isto é, ao contexto de significações e de práticas no qual ele integrava uma totalidade de utensílios pronta-para-a-mão e era encontrado na preocupação de um Dasein ser-no-mundo; | ||
| + | * O objeto herdado é, assim, vestígio de um quadro conceitual e cultural no qual cumpria funções ligadas não só à alimentação, | ||
| + | * Se a mundanidade constitui a passadidade dos objetos históricos, | ||
| + | * Contudo, a passadidade do Dasein não pode ser compreendida como presença-à-mão ou prontidão-à-mão, | ||
| + | * Existir como ser-no-mundo significa ser futural, tendo-sido e fazendo-presente numa unidade tríplice, de tal modo que o Dasein sempre já foi; em suma, existir é ser histórico, e, se assim é, devem existir modos inautênticos e autênticos de historizar, pois o ser do Dasein está em jogo para ele. | ||
| + | * O fio condutor da análise é a autenticidade: | ||
| + | * Deve-se então voltar ao outro polo do entre — o nascimento —, ou, mais precisamente, | ||
| + | * A própria biografia, as decisões anteriores e as circunstâncias presentes restringem ainda mais o espectro do possível, podendo tornar uma escolha inviável e outra quase incontornável; | ||
| + | * A escolha pode ocorrer de modo inautêntico, | ||
| + | * Definir a apropriação autêntica do ser-lançado como “assumir uma herança” implica, em primeiro lugar, reconhecer que a cotidianidade média é ela mesma parte da herança, pois o Dasein é sempre entregue à perda no “se”, isto é, ao modo público de interpretar as opções disponíveis, | ||
| + | * Herdar propriamente significa, portanto, reagir contra a herança para descobri-la, | ||
| + | * A resolução apreende como “mais próximas” — não por conveniência, | ||
| + | * A finitude, uma vez assumida, arranca o Dasein da multiplicidade indefinida do que se oferece como “mais próximo” — conforto, esquiva e leveza — e o reconduz à simplicidade do destino, entendido como historizar originário situado na resolução autêntica, em que o Dasein se transmite a si mesmo, livre para a morte, numa possibilidade herdada e, contudo, escolhida. | ||
| + | * Trata-se de uma visão de liberdade mortal como liberdade finita e condicionada, | ||
| + | * Como ser-no-mundo é também ser-com, a historicidade autêntica é igualmente um “co-historizar”: | ||
| + | * Por conseguinte, | ||
| + | * O risco de enfatizar a natalidade em detrimento da fatalidade é fazer a historicidade parecer retroativa e conservadora, | ||
| + | * Por isso, “seguir lealmente as pegadas do que pode ser repetido” não significa prender o presente ao obsoleto, mas responder ao passado por um contra-golpe criativo, um diálogo entre passado e presente no qual se reconfigura uma possibilidade existenciária à luz de uma crítica essencial às superficialidades e ambiguidades do modo como o passado é “trabalhado” na cotidianidade média. | ||
| + | * Ainda assim, a ligação entre herança e projeção não implica endosso ao progresso: o Dasein autêntico é tão indiferente à novidade quanto à nostalgia, pois a projeção autêntica pressupõe assumir a herança e, portanto, é guiada e limitada por ela; contudo, a finalidade de recuperar o passado é projetá-lo no futuro por uma repetição que reconhece as necessidades do presente e a potência do porvir. | ||
| + | * Assim, a base oculta da historicidade autêntica é a finitude da temporalidade: | ||
| + | * A existência cotidiana típica, porém, é inautêntica, | ||
| + | * Desse modo, a historicidade de objetos aparece como mero surgir e desaparecer de entes presentes-à-mão, | ||
| + | * Essa formulação é inadequada ao ente cuja unidade temporal é o alongar-se entre nascimento e morte, mas é adequada ao modo existenciário do Dasein perdido no “se”, pois tal perda é uma inconstância de si, uma dissipação no jogo de ambiguidade, | ||
| + | * A constância de si não consiste em coincidir com o próprio passado, mas em abrir-se a um futuro genuíno precisamente na não-coincidência com o passado: na espera do “novo”, o “se” faz presente o “hoje” e já esqueceu o “velho”, | ||
| + | * Perdido na presentificação do “hoje”, o “se” entende o passado nos termos do presente, carrega um legado de passado irreconhecível e “procura o moderno”; ao contrário, a historicidade autêntica compreende a história como recorrência do possível e sabe que uma possibilidade só retorna se a existência está aberta a ela de maneira fática, em momento de visão, por repetição resoluta. | ||
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