estudos:mulhall:culpa-consciencia
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| + | ===== Culpa e Consciência (SZ §§54–60) ===== | ||
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| + | * Culpa e Consciência (§§54–60) | ||
| + | * A análise da morte mostrou que o Ser-um-todo do Dasein é ontologicamente possível e compatível com as estruturas fundamentais de seu modo de ser, mas permanece em aberto como tal possibilidade pode realizar-se concretamente na cotidianidade inautêntica dominada pelo impessoal [das Man]. | ||
| + | * Torna-se necessário identificar as raízes ônticas dessa possibilidade ontológica, | ||
| + | * Na cotidianidade média, o Dasein encontra-se perdido de si mesmo, de modo que a conquista da autenticidade exige um reencontro consigo. | ||
| + | * Tal reencontro só pode iniciar-se quando o Dasein reconhece possuir um si mesmo a ser encontrado, superando a repressão de sua própria possibilidade de individualidade autêntica. | ||
| + | * A possibilidade da individualização autêntica deve, portanto, manifestar-se de um modo que rompa a inautenticidade cotidiana. | ||
| + | * A consciência é identificada por Martin Heidegger como o fenômeno existencial que dá testemunho dessa possibilidade. | ||
| + | * As interpretações religiosas, psicanalíticas ou sociobiológicas da consciência não são nem aceitas nem rejeitadas, mas reconduzidas ao fundamento ontológico que torna possível a experiência a que todas elas se referem. | ||
| + | * A consciência é compreendida como a realização existencial da capacidade originária do Dasein de desvelar-se como perdido e de chamar a si mesmo para sua possibilidade mais própria de ser-si. | ||
| + | * A voz da consciência é caracterizada como um modo de discurso que se opõe ao falatório do impessoal. | ||
| + | * Trata-se de uma comunicação sem alarde, novidade ou ambiguidade, | ||
| + | * Quando transformada em objeto de reflexão obsessiva, a consciência perde sua função e é reabsorvida pelas estratégias repressivas do impessoal. | ||
| + | * O chamado da consciência dirige-se ao Dasein não segundo seus papéis públicos ou valores socialmente reconhecidos, | ||
| + | * O chamado é desprovido de conteúdo informativo ou normativo: não prescreve modos de vida nem comunica fatos do mundo. | ||
| + | * Ele convoca o Dasein a colocar toda a sua existência em julgamento diante de sua capacidade de ser-si, sem determinar quais possibilidades devem ser escolhidas. | ||
| + | * A consciência fala mantendo silêncio, isto é, chamando sem dizer, para não substituir a apropriação existencial por instruções externas. | ||
| + | * A questão de quem chama na consciência revela uma estrutura paradoxal. | ||
| + | * O chamado não provém de um outro externo, mas tampouco coincide simplesmente com o Dasein cotidiano que o escuta. | ||
| + | * O Dasein interpelado está perdido no impessoal, enquanto o Dasein que chama não está, pois só assim pode romper o domínio do impessoal. | ||
| + | * Por isso, o chamado é experimentado como vindo de mim e, ao mesmo tempo, de além de mim. | ||
| + | * A passividade do Dasein diante da consciência remete à sua facticidade e ao seu caráter de ser-lançado [Geworfenheit]. | ||
| + | * O Dasein encontra-se sempre já entregue à tarefa de existir, situado em um contexto que não escolheu, mas no qual deve decidir-se. | ||
| + | * Essa condição funda a estranheza ou não-estar-em-casa do Dasein, que nunca pode identificar-se plenamente com nenhuma forma de vida dada. | ||
| + | * A consciência recorda o Dasein dessa condição, arrancando-o da fuga impessoal e expondo-o à angústia diante de sua possibilidade de individualidade autêntica. | ||
| + | * O que chama na consciência é o Dasein enquanto não-em-casa, | ||
| + | * Esse si mesmo é o mais estranho ao impessoal e, por isso, aparece como simultaneamente interno e externo. | ||
| + | * Como voz do Dasein enquanto projeção lançada, a consciência pode ser compreendida como o chamado do cuidado [Sorge]. | ||
| + | * A possibilidade ontológica da consciência funda-se no fato de que o ser do Dasein é, em sua base, cuidado. | ||
| + | * A experiência ôntica da culpa encontra sua explicação ontológica nessa estrutura. | ||
| + | * Culpa implica responsabilidade e endividamento, | ||
| + | * Ontologicamente, | ||
| + | * O Dasein, ao projetar-se em uma possibilidade existencial, | ||
| + | * Além disso, nunca possui controle total sobre a base factual a partir da qual projeta. | ||
| + | * Ser fundamento significa, assim, nunca ser senhor absoluto de seu próprio ser. | ||
| + | * A nulidade pertence tanto à condição de ser-lançado quanto à estrutura projetiva da existência. | ||
| + | * O cuidado, enquanto projeção lançada, é definido como ser-fundamento de uma nulidade que é, ela mesma, nula. | ||
| + | * A existência humana, em seu todo, é ser-nulo fundamento de uma nulidade. | ||
| + | * Nesse sentido ontológico originário, | ||
| + | * A autenticidade não consiste na superação ou eliminação da culpa. | ||
| + | * A culpa ontológica é ineradicável, | ||
| + | * A autenticidade exige, antes, a assunção da própria possibilidade de ser-culpado como possibilidade mais própria. | ||
| + | * Assumir a culpa significa tomar para si a base lançada que se é e as projeções que se realizam a partir dela. | ||
| + | * Trata-se de apropriar-se de uma existência necessariamente culpada, em vez de deixá-la dissolver-se no impessoal. | ||
| + | * Querer-ter-consciência expressa essa disposição para responder ao chamado e decidir-se a partir de si mesmo. | ||
| + | * A resposta exigida pela consciência não é a adoção de um código moral determinado. | ||
| + | * O que se exige é a disposição para responder, a prontidão para deixar-se interpelar. | ||
| + | * Querer-ter-consciência é escolher-se, | ||
| + | * Querer-ter-consciência é um modo de compreensão, | ||
| + | * A essa compreensão correspondem uma disposição afetiva específica, | ||
| + | * A forma de desvelamento de si que daí resulta é denominada resolução [Entschlossenheit]. | ||
| + | * A resolução, | ||
| + | * Ela reconduz o Dasein às suas relações concretas com entes e com outros, para que descubra suas possibilidades reais naquela situação. | ||
| + | * A resolução é essencialmente indeterminada, | ||
| + | * A situação não é um dado prévio, mas algo que se constitui no próprio ato resoluto. | ||
| + | * Somente a partir de uma resolução concreta um contexto adquire definição existencial. | ||
| + | * Resolver-se é projetar não apenas uma possibilidade, | ||
| + | * A resolução constitui, assim, o âmbito no qual ela mesma atua. | ||
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