estudos:merleau-ponty:1945:sujeito-e-mundo
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| + | ====== Sujeito e mundo ====== | ||
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| + | * O problema inicial consiste em compreender a relação entre consciência e natureza, interior e exterior, sem reduzir um termo ao outro. | ||
| + | * A investigação visa superar a oposição clássica entre idealismo, que concebe o mundo apenas como objeto para a consciência, | ||
| + | * A mesma dificuldade reaparece na distinção entre investigações explicativas, | ||
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| + | * Esses problemas podem ser reformulados de maneira mais essencial como a questão da relação entre sentido e não-sentido, | ||
| + | * Pergunta-se se o sentido presente no mundo resulta do simples encontro de fatos independentes ou se exprime uma razão absoluta que os unificaria. | ||
| + | * O sentido é reconhecido quando os acontecimentos aparecem como realização de uma visada única ou quando uma multiplicidade de fatos pode ser retomada por uma compreensão unificadora. | ||
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| + | * O sentido manifesta-se sempre como relação de expressão ou representação, | ||
| + | * Uma intenção satisfeita ou uma pluralidade de signos compreendidos como unidade são exemplos dessa experiência do sentido. | ||
| + | * O idealismo caracteriza-se por conceber toda significação como um ato de Sinngebung, isto é, como produção ativa e centrífuga do sentido pela consciência. | ||
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| + | * Segundo essa concepção idealista, compreender equivale sempre a construir ou constituir o objeto por meio de uma síntese atual. | ||
| + | * Não haveria signo natural, pois toda significação dependeria de uma operação consciente que a institui. | ||
| + | * O objeto seria inteligível apenas enquanto resultado dessa atividade sintética. | ||
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| + | * A análise do corpo próprio e da percepção revela, contudo, uma relação ao objeto mais originária do que a significação idealista. | ||
| + | * A coisa pode ser dita significação, | ||
| + | * A compreensão ocorre pelo encontro do sujeito com a coisa a partir de seus campos sensoriais, perceptivos e de uma tipicidade geral do mundo. | ||
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| + | * No próprio sujeito descobre-se a presença do mundo, o que impede compreendê-lo apenas como atividade sintética. | ||
| + | * O sujeito deve ser pensado como ek-stase, isto é, como abertura ou projeção para fora de si em direção ao mundo. | ||
| + | * As operações ativas de significação aparecem, assim, como derivadas e secundárias em relação a uma pregnância originária de sentido nos signos. | ||
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| + | * Sob a intencionalidade tética ou de ato encontra-se uma intencionalidade operante, anterior a qualquer juízo ou tese explícita. | ||
| + | * Essa intencionalidade já trabalha silenciosamente como condição de possibilidade de toda significação explícita. | ||
| + | * Ela pode ser descrita como um Logos do mundo estético, uma arte escondida que só se manifesta por seus resultados. | ||
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| + | * A distinção entre estrutura e significação esclarece-se a partir dessa perspectiva. | ||
| + | * A Gestalt do círculo é apreendida como fisionomia circular por um sujeito familiar ao seu mundo. | ||
| + | * A significação círculo, ao contrário, é produzida por um entendimento que a engendra conceitualmente como conjunto de pontos equidistantes de um centro. | ||
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| + | * O acesso ao sentido das coisas exige sempre uma situação perceptiva determinada. | ||
| + | * Não há outro modo de conhecer um quadro ou uma coisa senão olhando-os a partir de um certo ponto de vista, distância e orientação. | ||
| + | * A significação revela-se quando a conivência do sujeito com o mundo é colocada a serviço daquilo que aparece. | ||
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| + | * A noção de sentido implica sempre orientação e polarização. | ||
| + | * O sentido de um córrego, de um movimento ou de uma direção só existe para um sujeito situado. | ||
| + | * No mundo em si, direções e movimentos não existem, pois são sempre relativos a um habitante do mundo. | ||
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| + | * A percepção funda a possibilidade do movimento e da direção. | ||
| + | * A terra funciona como solo prévio de todos os repousos e movimentos porque é habitada. | ||
| + | * Do mesmo modo, a direção só surge quando um olhar traça uma primeira referência no mundo. | ||
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| + | * O mesmo vale para o sentido dos objetos, das frases e da visão. | ||
| + | * Um tecido só tem sentido para quem pode abordá-lo de diferentes lados. | ||
| + | * O sentido de uma frase supõe uma intenção que liga um ponto de partida a um ponto de chegada. | ||
| + | * O sentido da visão é uma preparação originária ao mundo das cores e à lógica. | ||
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| + | * Em todas essas acepções, o sentido remete a um ser orientado para aquilo que não é ele mesmo. | ||
| + | * Essa orientação conduz à concepção do sujeito como ek-stase e à transcendência ativa entre sujeito e mundo. | ||
| + | * O sujeito e o mundo são inseparáveis, | ||
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| + | * O sujeito é ser-no-mundo e o mundo é subjetivo no sentido ontológico. | ||
| + | * A textura e as articulações do mundo são desenhadas pelo movimento de transcendência do sujeito. | ||
| + | * Essa subjetividade do mundo não o torna menos objetivo, mas mais originário do que qualquer objeto isolado. | ||
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| + | * O mundo, entendido como berço das significações e solo dos pensamentos, | ||
| + | * Supera-se a alternativa entre realismo e idealismo, entre acaso e razão absoluta, entre não-sentido e sentido. | ||
| + | * O mundo não é nem produto de um pensamento constituinte nem reunião fortuita de partes. | ||
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| + | * O mundo é a pátria de toda racionalidade. | ||
| + | * Ele é a unidade primordial de todas as experiências no horizonte da vida. | ||
| + | * É o termo único de todos os projetos, condição de possibilidade de toda razão e de todo sentido. | ||
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