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| Muitos dos filósofos contemporâneos da consciência aderem à fenomenologia, mesmo se eles — diferentemente do que grandes fenomenólogos como Franz Brentano, Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty — sejam ao mesmo tempo fundamentalmente naturalistas. Searle retoma com seus livros uma importante ideia fundamental da fenomenologia, que ele, a meu ver, coloca de modo completamente correto da seguinte maneira: | Muitos dos filósofos contemporâneos da consciência aderem à fenomenologia, mesmo se eles — diferentemente do que grandes fenomenólogos como Franz Brentano, Husserl, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty — sejam ao mesmo tempo fundamentalmente naturalistas. Searle retoma com seus livros uma importante ideia fundamental da fenomenologia, que ele, a meu ver, coloca de modo completamente correto da seguinte maneira: |
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| > //O bom da consciência é: se se tem a ilusão de se ter uma consciência, também se tem uma. Não se pode aplicar a distinção comum entre aparência e realidade à consciência do mesmo modo como se a aplica a outros fenômenos [[BLACKMORE, S. Gespräche über Bewusstsein [Diálogos sobre a consciência]. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2012, p. 283.]].// | > //O bom da consciência é: se se tem a ilusão de se ter uma consciência, também se tem uma. Não se pode aplicar a distinção comum entre aparência e realidade à consciência do mesmo modo como se a aplica a outros fenômenos ((BLACKMORE, S. Gespräche über Bewusstsein [Diálogos sobre a consciência]. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2012, p. 283.)).// |
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| Com isso Searle quer dizer que podemos, de fato, nos enganar conscientemente sobre algo: podemos, por exemplo, pensar, à primeira vista, que algo seja um ouriço, quando, na verdade, ele é um cacto, ou pensar que algo tem um gosto doce, mas logo sermos corrigidos sobre isso. Como já mencionado acima, muitos estão convencidos de que seja isso que está por trás da famosa sentença de Descartes “Penso, logo existo”, embora seja problemático, de um ponto de vista histórico, identificar aquilo que Descartes designa como “pensar (cogitare)” com o conceito posterior de Eu. Mas isso é outro assunto. | Com isso Searle quer dizer que podemos, de fato, nos enganar conscientemente sobre algo: podemos, por exemplo, pensar, à primeira vista, que algo seja um ouriço, quando, na verdade, ele é um cacto, ou pensar que algo tem um gosto doce, mas logo sermos corrigidos sobre isso. Como já mencionado acima, muitos estão convencidos de que seja isso que está por trás da famosa sentença de Descartes “Penso, logo existo”, embora seja problemático, de um ponto de vista histórico, identificar aquilo que Descartes designa como “pensar (cogitare)” com o conceito posterior de Eu. Mas isso é outro assunto. |
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| É decisivo que a consciência pertença aos casos que apontam para a estrutura em geral típica para o espírito, a saber, que também uma ilusão é um tipo de realidade. Se eu vivencio o fata morgana, naturalmente não há água lá onde penso ver água. Todavia, eu vivencio água e me lanço talvez sedento ao local aparentemente com água. Mesmo se a consciência como um todo fosse uma estrutura ilusória que o nosso corpo, enquanto uma máquina de cópia de genes programada puramente para a autopreservação, produz de modo completamente inconsciente, essa ilusão ainda existiría e seria, além disso, o fator decisivo para nós, seres vivos conscientes. Como Searle novamente sustenta: “A consciência é a nossa vida. [...] O especial na consciência é, então, que ela representa a pressuposição de praticamente tudo que é importante”[[Ibid.: 277.]]. | É decisivo, porém, que não sejamos apenas conscientes, mas também que nós mesmos tenhamos, em relações cotidianas, uma consciência da consciência. Conhecemos a esta não apenas porque temos disposições em relação às nossas próprias convicções, desejos, sentimentos ou impressões sensíveis, que podemos cultivar e de que podemos cuidar: afinal, podemos nos tornar conhecedores de vinho e gourmets; aprender a reconhecer o azul Yves-Klein à primeira vista; tornamo-nos mestres em judô; classificar uma sequência de acordes como típica de Beethoven ou do Nirvana; aprender os nossos próprios paradigmas de comportamento, e assim por diante. Além disso, temos também nisso tudo do mesmo modo imediatamente uma consciência de que outros têm consciência. A consciência de que outros também são conscientes é um fato exatamente tão original (Heidegger inventou uma palavra para isso: gleichursprüngliche ) quanto a consciência de nós mesmos. A autoconsciência não se dirige apenas a nós mesmos como indivíduos, mas já está estruturalmente atrelada à consciência alheia. O julgamento de nossas disposições conscientemente vividas (como alegria por algo ou vergonha) já é orientado pela nossa expectativa de que outros tenham uma disposição em relação às nossas disposições. Vivenciamos a nós mesmos desde o princípio em contextos sociais e não precisamos primeiramente nos encontrar nele ao deixarmos o nosso teatro cartesiano privado. Cada um de nós vivência isso em fenômenos conhecidos, como que se queira compartilhar vivências belas (p. ex. em uma viagem ou em uma visita ao museu), uma vez que apenas dessa maneira se pode esperar uma confirmação da estrutura dessa vivência. Cultivamos a nossa consciência segundo a medida da consciência de outros, uma medida que já está inscrita em nossa vida interior no instante em que podemos de algum modo verbalizar alguma coisa. Isso é, nessa medida, na verdade evidente, uma vez que precisamos ter aprendido de outros as regras de nossa linguagem, o que já impõe uma disciplina à nossa consciência individual, que faz que não seja mais possível para nós deixar nossos pensamentos vaguearem arbitrariamente (e, p. ex., designar, como uma criança, tudo que nos agrada e de que gostamos com a sequência de sons “mamãe”, ou tudo que se movimenta com a sequência de sons “carro”). |
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