estudos:macquarrie:filosofia-e-teologia:autenticidade
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| + | ====== AUTENTICIDADE ====== | ||
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| + | **A transição para uma existência autêntica** | ||
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| + | **18. A ideia de uma existência autêntica** | ||
| + | * O problema da existência autêntica consiste em responder à questão sobre a verdadeira vida do homem, questão natural e radical que raramente se formula enquanto subsiste a segurança individual ou cultural. | ||
| + | * Enquanto o homem permanece adormecido na satisfação ilusória de uma existência fundada no mundo, evita as questões últimas sobre sua origem, destino e sentido, mas a ansiedade revela a insegurança dessa construção e faz emergir, especialmente na Europa do século XX, a pergunta pela vida verdadeira diante da ruína das tradições e instituições. | ||
| + | * Heidegger oferece uma resposta ambígua à pergunta radical pela existência autêntica, pois abre a possibilidade de salvação do homem decaído, mas a identifica com a aceitação do nada, ao passo que Bultmann recorre à revelação cristã em Jesus Cristo como resposta decisiva ao problema da existência humana. | ||
| + | * A autenticidade designa aquilo que é genuíno ou originário, | ||
| + | * A compreensão bíblica do homem aplica prontamente a ideia de autenticidade, | ||
| + | * O Novo Testamento designa a existência autêntica como vida, não no sentido de princípio vital natural, mas como verdadeiro ser do homem segundo Bultmann, pois o mandamento do Criador é vida e o homem só alcança seu ser pleno quando existe segundo a intenção divina. | ||
| + | * A vida como possibilidade autêntica do homem é comum às tradições paulina e joanina, pois Cristo vem trazer vida abundante, dá vida ao mundo, é pão da vida, palavra de vida, ressurreição e vida, e possibilita que a fé em seu nome conduza à vida. | ||
| + | * A vida dada por Deus é eterna porque se opõe à morte ligada ao pecado e, como existência autêntica concedida por Deus, já pertence ao crente no presente. | ||
| + | * O conceito neotestamentário de espírito expressa a existência autêntica como orientação para Deus, para o invisível e para o eterno, em oposição à existência segundo a carne, orientada para o mundo visível, tangível e temporal, de modo que São Paulo desvaloriza radicalmente as coisas mundanas diante de Deus e não diante do nada, como em Heidegger. | ||
| + | * A estrutura detalhada da existência espiritual prometida pelo Novo Testamento ainda deve ser desenvolvida, | ||
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| + | **19. Consciência** | ||
| + | * O problema imediato consiste em compreender a passagem da existência falsa à verdadeira, da queda ao originário e da inautenticidade à autenticidade, | ||
| + | * A passagem entre morte e vida não pode ser pensada como dualismo gnóstico, pois o cristianismo não trata de dois mundos mutuamente exclusivos, mas de um único mundo ainda criado por Deus, de modo que a nova criatura conserva continuidade com o mesmo homem cuja existência individual permanece sua. | ||
| + | * A analogia da reconstrução de uma habitação em ruínas distingue substituição sem continuidade, | ||
| + | * O problema fica definido como investigação da reorientação ôntica ou existencial que talvez venha de fora do homem e, ao mesmo tempo, permaneça dentro do horizonte de suas possibilidades existenciais, | ||
| + | * A passagem heideggeriana da existência inautêntica à autêntica começa pela situação do homem perdido no público e no mundo da preocupação, | ||
| + | * A análise da consciência prolonga a analítica existencial, | ||
| + | * A consciência é um fenômeno difícil, pois Butler a tornou central sem defini-la claramente, Kant a identificou com a razão prática, Mill privilegiou seu aspecto afetivo, e Heidegger oferece uma teoria que a relaciona à estrutura total do ser do homem, fazendo justiça a seus elementos cognitivos e afetivos. | ||
| + | * A análise heideggeriana parte do fato de que a consciência faz compreender algo, pertence aos modos de desvelamento do homem a si mesmo e, ao lado da compreensão, | ||
| + | * A consciência possui o caráter de chamado dirigido ao homem decaído, perdido na multidão e no mundo, convocando-o para fora da preocupação mundana, da autodecepção, | ||
| + | * A consciência é o chamado do eu ao eu, do eu autêntico ao eu decaído, e torna inteligível a cisão do ser humano somente quando o eu é concebido como possibilidade, | ||
| + | * O chamado da consciência exige uma escuta autêntica, pois a consciência pode ser distorcida pela influência do público, mas a possibilidade de ouvir e apropriar-se autenticamente do chamado deve permanecer mesmo na queda, sem a qual o homem jamais poderia ser convocado de volta às suas possibilidades originárias. | ||
| + | * A escuta autêntica compreende o chamado da consciência como convocação ao ser-culpado, | ||
| + | * A consciência comum, entendida como boa ou má consciência, | ||
| + | * A redução das declarações cotidianas da consciência à voz da multidão abre perigos de niilismo moral e ecos de Nietzsche ou de interpretações nazistas da moral dos senhores, mas também permite uma leitura cristã segundo a qual a consciência se manifesta com maior pureza quando o indivíduo protesta contra a consciência de massa, como Lutero, os reformadores e os pioneiros da melhoria social contra códigos aceitos pela Igreja e pela sociedade. | ||
| + | * A teoria heideggeriana pode ser entendida menos como ataque aos códigos morais e mais como apelo para que a consciência seja ouvida a partir do ser individual, livre das convenções da multidão, embora sua falta de uma comunidade autêntica exija correção cristã pela ideia de Igreja como sociedade capaz de reforçar e corrigir as consciências individuais. | ||
| + | * A teoria heideggeriana da consciência possui valor ao relacioná-la à estrutura total do ser humano, ao compreendê-la como modo cognitivo e afetivo de desvelamento na angústia e ao reconhecer a impotência do homem, cuja responsabilidade já implica culpa porque ele é livre sem ser senhor de sua liberdade. | ||
| + | * A crítica decisiva a Heidegger recai menos sobre o conceito de consciência e mais sobre a função de ponte que lhe é atribuída entre existência decaída e existência autêntica, pois toda a passagem depende de saber se a consciência pode cumprir o papel exigido pela teoria. | ||
| + | * A questão central é o alcance da queda em Heidegger, pois, se a queda é radical e universal, pertencendo ao próprio cuidado como estrutura cotidiana do homem, então a compreensão e a própria consciência também estão decaídas, tornando problemática qualquer saída da queda. | ||
| + | * A saída da queda permanece possível em Heidegger porque o homem decaído ainda pode ouvir autenticamente o chamado da consciência quando a angústia o isola da multidão e da preocupação mundana, possibilidade que também deve ser admitida pela teologia cristã para que a mensagem do evangelho alcance o homem decaído. | ||
| + | * A distinção entre possibilidade ontológica e possibilidade ôntica mostra que a autenticidade permanece formalmente possível ao homem decaído enquanto estrutura de seu ser, mas deixou de ser possibilidade existencial concreta para sua decisão, pois o homem privado do poder de escolher suas possibilidades originárias não pode escolher a própria escolha. | ||
| + | * A consciência pode no máximo despertar no homem decaído a consciência de uma possibilidade perdida e revelar sua possibilidade ontológica de autenticidade, | ||
| + | * A analítica existencial de Heidegger se aproxima das fronteiras da religião ao reconhecer a queda, a impotência e a culpa do homem, mas se afasta de uma doutrina de Deus ao atribuir à consciência uma função insuficiente, | ||
| + | * A consciência não suporta o peso que Heidegger lhe atribui, pois mesmo quando desvela o ser autêntico e convoca às possibilidades originárias, | ||
| + | * A função própria da consciência na transição para a autenticidade é preparatória, | ||
| + | * A compreensão neotestamentária da consciência a apresenta como fenômeno universal enraizado na estrutura do ser humano e presente em judeus e gentios, como testemunho ou lei escrita no coração, aproximando-se de Heidegger por surgir do próprio ser do homem e por ligar-se ao estado afetivo em que esse ser se desvela. | ||
| + | * Bultmann interpreta a consciência como relação reflexiva e crítica do homem consigo mesmo, influenciado por Heidegger, e embora essa leitura preencha lacunas exegéticas em Paulo, ela permanece compatível com o Novo Testamento ao articular a consciência com outros conceitos antropológicos cristãos. | ||
| + | * Bultmann aceita a teoria heideggeriana da natureza da consciência, | ||
| + | * A consciência participa da passagem da existência decaída à autêntica apenas de modo subordinado e preparatório, | ||
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| + | **20. Graça** | ||
| + | * A graça é tão obscura na teologia quanto a consciência na ética quando é concebida como poder misterioso, quase hipnótico, transmitido, | ||
| + | * Para Bultmann, a graça não é uma qualidade especial de Deus, assim como a ira também não é qualidade, mas evento de juízo pelo qual o homem, criado responsável diante de si e do Criador, perde Deus ao perder-se a si mesmo e experimenta a separação como ira divina. | ||
| + | * Crer na graça de Deus significa crer na possibilidade de ser salvo de sua ira, pois a graça é o evento em que Deus restitui ao homem sua possibilidade perdida de ser autêntico, perdoa a culpa passada, rompe o poder do pecado e abre um futuro que só poderia ser restaurado de fora do próprio homem. | ||
| + | * O conceito de graça mostra que o Novo Testamento e o pensamento cristão entendem a transição da existência decaída à autêntica como obra de Deus, não do homem, pois Deus concede a possibilidade existencial concreta do ser autêntico ao homem que ainda conserva a possibilidade existencial formal de recebê-la. | ||
| + | * A justificação, | ||
| + | * A graça, em Bultmann, é o evento dos atos poderosos e salvíficos realizados por Deus em Jesus Cristo, que vêm de fora da situação humana, libertam o homem da escravidão ao próprio passado e devolvem-lhe a possibilidade perdida de existência autêntica como filho de Deus. | ||
| + | * A obra de Deus em Jesus Cristo constitui para Bultmann a graça única e decisiva para a existência humana e o único caminho de salvação, distinguindo-se de teologias liberais que viam Cristo apenas como manifestação suprema e contínua de Deus na consciência, | ||
| + | * A graça como ato de Deus em Cristo é presente sempre que a Palavra é proclamada e ouvida autenticamente, | ||
| + | * A influência evangélica e protestante em Bultmann aparece na centralidade da proclamação do evangelho, pois a pregação, os sacramentos e até a leitura do Novo Testamento tornam presentes a graça e os eventos salvíficos enquanto possibilidade atual de alcançar o verdadeiro ser. | ||
| + | * Os atos salvíficos não são meros acontecimentos históricos objetivos do passado, comparáveis à morte de Sócrates, pois a graça deve estar presente na proclamação e na escuta da Palavra para que o evento seja significativo para a existência atual e ofereça perdão e possibilidade de nova vida. | ||
| + | * A identificação da graça com os eventos salvíficos de Deus em Jesus Cristo não é abandonada quando se afirma sua presença na proclamação, | ||
| + | * O sentido do acontecimento escatológico, | ||
