| E, no entanto, é no sentido dessa "sociologia cultural" que o pensamento de Husserl evolui no final de sua vida. É o que testemunha abundantemente a Krisís, de que foram publicadas as duas primeiras partes em 1936, em Belgrado. Husserl se preocupa em ligar estreitamente esta reflexão sobre a história, isto é, sobre a intersubjetividade, ao seu problema, o da radicalidade transcendental: "esse escrito procura fundar a necessidade inelutável de uma conversão da filosofia à fenomenologia transcendental por meio de uma tomada de consciência teleológico-histórica aplicada às origens da situação crítica em que estamos no que se refere às ciências e à filosofia. Este escrito constitui, por conseguinte, uma introdução independente à fenomenologia transcendental". Em outros termos, o caminho percorrido até o presente e que, partindo dos problemas lógico-matemáticos ou do problema perceptivo nos levava ao eu absoluto, não é um caminho privilegiado: a via da história é igualmente segura. A elucidação da história na qual estamos empenhados ilumina a tarefa do filósofo. "Nós, que não temos apenas uma herança espiritual, mas que somos do começo ao fim, seres em devir segundo o espírito histórico, apenas em razão disso é que temos uma tarefa verdadeiramente nossa" (Krisis, 15); e o filósofo não pode não passar pela história porque o filósofo preocupado com a radicalidade deve compreender e ultrapassar os dados imediatos históricos, que são na realidade as sedimentações da história, os pressupostos, e que constituem seu "mundo" no sentido cultural. Ora, qual é a crise diante da qual nos encontramos? É a crise produto do objetivismo. Não se traia para sermos exatos, da crise da teoria física, mas da crise que atinge a significação das ciências para a própria vida. O que caracteriza o espírito moderno é a formalização lógico-matemática (a mesma que constituía a esperança das investigações lógicas) e a matematização do conhecimento natural: a mathesis universalis de Leibniz e a nova metodologia de Galileu.. Sobre esta base é que se desenvolve o objetivismo: descobrindo o mundo como matemática aplicada, Galileu redescobriu-a como obra da consciência (Kiisis II, § 9). Assim, o formalismo objetivista é alienador; esta alienação devia aparecer como mal-estar desde que a ciência objetiva viesse a apoderar-se do subjetivo: ela levava então à escolha entre construir o psíquico pelo modelo do físico ou então renunciar a estudar com rigor o psíquico pelo modelo do físico ou então renunciar a estudar com rigor o psíquico. Descartes anuncia a solução introduzindo o motivo transcendental: pelo cogito a verdade do mundo como fenômeno, como cogitatum lhe é restituída, a alienação objetivista que conduz às aporias metafísicas da alma e de Deus cessa então — ou pelo menos teria cessado, se o próprio Descartes não tivesse sido vítima, do objetivismo galileano e não houvesse confundido o cogito transcendental e o eu psicológico: a tese do ego res cogitans suprime todo o esforço transcendental. Daí deriva a dupla herança cartesiana: o racionalismo metafísico, que elimina o ego; o empirismo cético que arruína o saber. É somente o transcendentalismo, articulando todo saber sobre um ego fundamental, doador de sentido e que vive de uma vida pré-objetiva, pré-científica, num Lebenswelt imediato cuja ciência exata é apenas um revestimento, que dará ao objetivismo seu verdadeiro fundamento eliminando seu poder aliena-dor: a filosofia transcendental torna possível uma reconciliação do objetivismo e do subjetivismo, do saber abstraio e da vida concreta. Assim, a sorte da humanidade europeia, que é também a sorte da humanidade simplesmente, está ligada às possibilidades de conversão da filosofia à fenomenologia: "Nós somos, por nossa atividade filosófica, os funcionários da humanidade". | E, no entanto, é no sentido dessa "sociologia cultural" que o pensamento de Husserl evolui no final de sua vida. É o que testemunha abundantemente a Krisís, de que foram publicadas as duas primeiras partes em 1936, em Belgrado. Husserl se preocupa em ligar estreitamente esta reflexão sobre a história, isto é, sobre a intersubjetividade, ao seu problema, o da radicalidade transcendental: "esse escrito procura fundar a necessidade inelutável de uma conversão da filosofia à fenomenologia transcendental por meio de uma tomada de consciência teleológico-histórica aplicada às origens da situação crítica em que estamos no que se refere às ciências e à filosofia. Este escrito constitui, por conseguinte, uma introdução independente à fenomenologia transcendental". Em outros termos, o caminho percorrido até o presente e que, partindo dos problemas lógico-matemáticos ou do problema perceptivo nos levava ao eu absoluto, não é um caminho privilegiado: a via da história é igualmente segura. A elucidação da história na qual estamos empenhados ilumina a tarefa do filósofo. "Nós, que não temos apenas uma herança espiritual, mas que somos do começo ao fim, seres em devir segundo o espírito histórico, apenas em razão disso é que temos uma tarefa verdadeiramente nossa" (Krisis, 15); e o filósofo não pode não passar pela história porque o filósofo preocupado com a radicalidade deve compreender e ultrapassar os dados imediatos históricos, que são na realidade as sedimentações da história, os pressupostos, e que constituem seu "mundo" no sentido cultural. Ora, qual é a crise diante da qual nos encontramos? É a crise produto do objetivismo. Não se traia para sermos exatos, da crise da teoria física, mas da crise que atinge a significação das ciências para a própria vida. O que caracteriza o espírito moderno é a formalização lógico-matemática (a mesma que constituía a esperança das investigações lógicas) e a matematização do conhecimento natural: a mathesis universalis de Leibniz e a nova metodologia de Galileu.. Sobre esta base é que se desenvolve o objetivismo: descobrindo o mundo como matemática aplicada, Galileu redescobriu-a como obra da consciência (Kiisis II, § 9). Assim, o formalismo objetivista é alienador; esta alienação devia aparecer como mal-estar desde que a ciência objetiva viesse a apoderar-se do subjetivo: ela levava então à escolha entre construir o psíquico pelo modelo do físico ou então renunciar a estudar com rigor o psíquico pelo modelo do físico ou então renunciar a estudar com rigor o psíquico. Descartes anuncia a solução introduzindo o motivo transcendental: pelo cogito a verdade do mundo como fenômeno, como cogitatum lhe é restituída, a alienação objetivista que conduz às aporias metafísicas da alma e de Deus cessa então — ou pelo menos teria cessado, se o próprio Descartes não tivesse sido vítima, do objetivismo galileano e não houvesse confundido o cogito transcendental e o eu psicológico: a tese do ego res cogitans suprime todo o esforço transcendental. Daí deriva a dupla herança cartesiana: o racionalismo metafísico, que elimina o ego; o empirismo cético que arruína o saber. É somente o transcendentalismo, articulando todo saber sobre um ego fundamental, doador de sentido e que vive de uma vida pré-objetiva, pré-científica, num Lebenswelt imediato cuja ciência exata é apenas um revestimento, que dará ao objetivismo seu verdadeiro fundamento eliminando seu poder aliena-dor: a filosofia transcendental torna possível uma reconciliação do objetivismo e do subjetivismo, do saber abstraio e da vida concreta. Assim, a sorte da humanidade europeia, que é também a sorte da humanidade simplesmente, está ligada às possibilidades de conversão da filosofia à fenomenologia: "Nós somos, por nossa atividade filosófica, os funcionários da humanidade". |
| **X. — A Lebenswelt.** — Não podemos continuar a descrever a evolução de Husserl nesse sentido. Vemos que, a partir da doutrina da Wesenschau modificou-se sensivelmente a tônica de seu pensamento,- é, todavia, incontestável que esse pensamento permanece até o fim no eixo do problema central que é a radicalidade. Mas o ego absoluto, que era para o filósofo um pólo único idêntico e universal, aparece sob nova luz na história e na intersubjetividade. Husserl denomina-o por vezes a Leben (a vida), sujeito da Lebenswelt; sabíamos já que no fundo não há diferença entre o ego concreto e o sujeito transcendental; mas essa identificação é aqui sublinhada a ponto de se qualificar de empirismo o último aspecto da filosofia de Husserl (Wahl). | **X. — A Lebenswelt.** — Não podemos continuar a descrever a evolução de Husserl nesse sentido. Vemos que, a partir da doutrina da Wesenschau modificou-se sensivelmente a tônica de seu pensamento,- é, todavia, incontestável que esse pensamento permanece até o fim no eixo do problema central que é a radicalidade. Mas o ego absoluto, que era para o filósofo um pólo único idêntico e universal, aparece sob nova luz na história e na intersubjetividade. Husserl denomina-o por vezes a Leben (a vida), sujeito da Lebenswelt; sabíamos já que no fundo não há diferença entre o ego concreto e o sujeito transcendental; mas essa identificação é aqui sublinhada a ponto de se qualificar de empirismo o último aspecto da filosofia de Husserl (Wahl). |