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estudos:lumia:giuseppe-lumia-sartre

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estudos:lumia:giuseppe-lumia-sartre [16/01/2026 04:36] – created - external edit 127.0.0.1estudos:lumia:giuseppe-lumia-sartre [26/01/2026 20:02] (current) mccastro
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-====== Giuseppe Lumia: Sartre ======+====== Sartre ======
  
 O «fenômeno» Jean Paul Sartre não interessa somente à filosofia, ao teatro, ou à literatura, — é um «fenômeno» que implica com os próprios costumes. Se em um certo momento, isto é, no após-guerra, o existencialismo se tornou uma moda e ultrapassou o círculo restrito dos especialistas, criando à sua volta «uma atmosfera de curiosidade e de escândalo», deve-se isso, em larga medida, à influência de Sartre, ao interesse despertado pela sinceridade quase brutal com que ele tratou nos seus escritos, em um momento em que o público, acabada a grande tragédia, era particularmente sensível, os temas mais escaldantes da vida contemporânea. O primeiro a queixar-se desta «extensão» foi o próprio Sartre, que foi obrigado a sublinhar o caráter «austero» da sua filosofia, «destinada estritamente aos técnicos e aos filósofos». E, na verdade, as obras filosóficas de Sartre, designadamente a mais importante entre elas, L’être et le néant, publicada em 1943, precisamente no decorrer da tragédia, não se recomendam, decerto, por uma leitura fácil. Escritas no mais tradicional estilo acadêmico, caro aos professores alemães, só algumas raras páginas, em que a análise psicológica prevalece sobre a pura sedução especulativa, deixam antever algo do estilo, ao mesmo tempo incisivo e brilhante, do autor de Le mur e de La Nausée. Por outro lado, a tradição acadêmica alemã não está presente somente no estilo, inspira também profundamente todo o pensamento de Sartre, ao qual fornece alguns dos motivos condutores mais importantes da sua obra. Nenhum discípulo de Husserl se ressente tanto da influência do mestre como Sartre, que esteve em contato com a fenomenologia durante a sua permanência em Berlim entre as duas guerras. Na verdade, foram de índole declaradamente fenomenológica os primeiros ensaios sobre L’imagination e L’imaginaire, publicados respectivamente em 1936 e 1940, como «Essai d’ontologie phénoménologique» é o sub-título de L’etre et le néant. Da fenomenologia extrai Sartre a teoria da intencionalidade da consciência, segundo a qual, como é sabido, a consciência não pode explicar-se sem ser dirigida a um fim, sem ser «compreendida» em direção a um objeto, sem ser «consciência de qualquer coisa». Sartre chama à consciência être-pour-soi, e être-en-soi, ao seu objeto: o mundo, os outros. O ser que é presente para a consciência é o fenômeno, mas Sartre acrescenta, de seguida, que nada existe além do fenômeno, isto é, as coisas apresentam-se-nos tal como são. O «fenômeno» Jean Paul Sartre não interessa somente à filosofia, ao teatro, ou à literatura, — é um «fenômeno» que implica com os próprios costumes. Se em um certo momento, isto é, no após-guerra, o existencialismo se tornou uma moda e ultrapassou o círculo restrito dos especialistas, criando à sua volta «uma atmosfera de curiosidade e de escândalo», deve-se isso, em larga medida, à influência de Sartre, ao interesse despertado pela sinceridade quase brutal com que ele tratou nos seus escritos, em um momento em que o público, acabada a grande tragédia, era particularmente sensível, os temas mais escaldantes da vida contemporânea. O primeiro a queixar-se desta «extensão» foi o próprio Sartre, que foi obrigado a sublinhar o caráter «austero» da sua filosofia, «destinada estritamente aos técnicos e aos filósofos». E, na verdade, as obras filosóficas de Sartre, designadamente a mais importante entre elas, L’être et le néant, publicada em 1943, precisamente no decorrer da tragédia, não se recomendam, decerto, por uma leitura fácil. Escritas no mais tradicional estilo acadêmico, caro aos professores alemães, só algumas raras páginas, em que a análise psicológica prevalece sobre a pura sedução especulativa, deixam antever algo do estilo, ao mesmo tempo incisivo e brilhante, do autor de Le mur e de La Nausée. Por outro lado, a tradição acadêmica alemã não está presente somente no estilo, inspira também profundamente todo o pensamento de Sartre, ao qual fornece alguns dos motivos condutores mais importantes da sua obra. Nenhum discípulo de Husserl se ressente tanto da influência do mestre como Sartre, que esteve em contato com a fenomenologia durante a sua permanência em Berlim entre as duas guerras. Na verdade, foram de índole declaradamente fenomenológica os primeiros ensaios sobre L’imagination e L’imaginaire, publicados respectivamente em 1936 e 1940, como «Essai d’ontologie phénoménologique» é o sub-título de L’etre et le néant. Da fenomenologia extrai Sartre a teoria da intencionalidade da consciência, segundo a qual, como é sabido, a consciência não pode explicar-se sem ser dirigida a um fim, sem ser «compreendida» em direção a um objeto, sem ser «consciência de qualquer coisa». Sartre chama à consciência être-pour-soi, e être-en-soi, ao seu objeto: o mundo, os outros. O ser que é presente para a consciência é o fenômeno, mas Sartre acrescenta, de seguida, que nada existe além do fenômeno, isto é, as coisas apresentam-se-nos tal como são.
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