estudos:lumia:giuseppe-lumia-camus
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| + | ====== Camus ====== | ||
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| + | O encontro de filosofia e literatura, típico do existencialismo francês, tem em Albert Camus (1913-1960) o seu mais alto representante. Mas se [[https:// | ||
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| + | Camus ingressou na cena literária francesa em 1942, em plena guerra, com um ensaio, Le Mythe de Sisyphe, e um romance, L’Étranger, | ||
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| + | Em L’Étranger um jovem funcionário comete por circunstâncias imprevistas e imprevisíveis um crime, quase sem dar por isso. No entanto, apercebe-se durante o processo de que o Ministério Público, o defensor, os juízes lhe atribuem móbeis determinados, | ||
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| + | No Mythe de Sisyphe Camus teoriza estas conclusões. Se Deus morreu, diz ele, nada mais existe senão o absurdo, o absurdo na sua totalidade. O mal e a morte não têm qualquer significado que nos remeta para algum bem misterioso. Em um tal mundo o homem é um estrangeiro, | ||
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| + | É o mito de Sísifo, que aos pés da montanha torna a encontrar de cada vez o seu penedo, e no entanto de cada vez entende que vale a pena voltar a subir ao cume. Sísifo aceita o seu destino absurdo, o quer, o faz seu, encontra nele a sua dignidade e o seu valor, «ensina a fidelidade superior que nega os deuses e ergue os penedos». Mersault, o protagonista de L’Étranger, | ||
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| + | A partir destas duas primeiras obras, Camus delineia dois planos! de existência : a existência banal daquele que se esforça absurdamente por racionalizar a experiência, | ||
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| + | É claro que nesta concepção também os «valores sociais» se precipitam no absurdo. Quem crer neles e pretender realizá-los move-se no plano da existência banal : é o caso do juiz instrutor, do procurador geral, do defensor, que representam, | ||
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| + | Mas o homem Camus não soube permanecer espectador desinteressado da grande tragédia que naqueles anos convulsionava a Europa, e que parecia ameaçar os próprios fundamentos da civilização. E escolheu a revolta: combateu entre os resistentes, | ||
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| + | Significativas da mudança de orientação de Camus são as duas obras teatrais aparecidas, respectivamente, | ||
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| + | O mar de Marta e a lua de Calígula são apenas símbolos de uma vida finalmente autêntica, na qual «as coisas sejam aquilo que são», isto é, tenham um significado intrínseco. Marta e Calígula não aceitam o mundo como ele é, revoltam-se, | ||
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| + | Nas obras seguintes Camus indica resolutamente este caminho. Na falência do Super-homem encontra uma humanidade autêntica, e daí em diante o fardo de Sísifo terá um nome: chamar-se-á «solidariedade humana». Um ensaio, L’homme révolté, (1951), e um romance, La peste (1952), são as expressões mais significativas desta segunda fase do pensamento de Camus, tal como Le mythe de Sisyphe e L’étranger o foram da primeira. L’homme révolté teoriza e La peste descreve a experiência de solidariedade humana que Camus tinha vivido na Resistência. Se o protagonista de L’étranger vive fora da sociedade dos homens, e Marta e Calígula pretendem realizar a própria liberdade opondo-se às leis dessa sociedade, em L’homme révolté e em La peste o homem funda o seu valor absoluto como pessoa na solidariedade com os outros. Também o discurso se torna pouco a pouco mais amplo : o que em L’étranger era uma narrativa na primeira pessoa, aparece como diálogo no Malentendu e em Calígula, e transforma-se em romance em La peste, que tem como protagonista toda uma cidade. | ||
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| + | A cidade é Orão, atingida pelo deflagrar inesperado da peste e, por medida higiênica, praticamente isolada do mundo. Da cidade fechada, presa da dor e da morte, ninguém pode sair : cada um está exposto aos mesmos riscos dos outros, um mesmo destino une e iguala todos. Ela é o símbolo da «condição humana», a que nenhum de nós pode escapar e que nos torna iguais uns aos outros. Na luta contra a ameaça comum desabrocha a flor da solidariedade. A peste que se desencadeou sobre a cidade é sempre alguma coisa de absurdo, a que cada um pretende dar uma interpretação e um sentido : « é um castigo», diz o padre Paneloux; «um flagelo», responde o médico Rieux. Mas para além da diversidade das opiniões e das fés, todos sentem que não é possível pensar em si próprios : a peste é algo que diz respeito a todos, e é necessário fazer alguma coisa. Ninguém pode retrair-se, é preciso ajudar os outros. Ninguém pode salvar-se por si só. Cada um, ajudando os outros, ajuda-se a si próprio. À medida que o perigo avança, todos sentem que estão ligados ao mesmo carro, nenhum pode separar as próprias responsabilidades das alheias. O «vós» do padre Paneloux («Meus irmãos, vós estais na desgraça, vós mereceste-lo») torna-se num «nós»: ele aprendeu que a religião não pode ser contemplação do bem e do mal, mas caridade atuante. O herói de Camus já não é o estrangeiro que olha indiferente os acontecimentos humanos. É Tarrou, o animador das formações de voluntários, | ||
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| + | O fim do homem antigo é simbolizado pela conversão de Rambert, o jornalista forasteiro bloqueado por acaso na cidade, da qual quer fugir. Mas quando por fim consegue com um estratagema atravessar a cintura das muralhas, sente que afinal a sua pátria é ali, na cidade fechada, onde se sofre e se morre; e volta para trás, a reocupar o posto que o seu dever de homem lhe mostra. | ||
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| + | Um só permanece estranho ao drama que assola a cidade, e continua a manter-se de parte até ao fim: é Cottard, o homem da consciência suja, aquele que «tem alguma coisa a exprobar-se», | ||
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| + | Em La peste Camus aponta-nos o caminho de um novo humanismo, no qual a liberdade e a dignidade sejam fundadas na compreensão e na solidariedade de todos os homens, conscientes da sua comum situação absurda. A cidade em que essa autenticidade pode realizar-se não é certamente a cidade de Orão antes da peste, onde cada um julgava que podia viver por si próprio, e até o sacerdote pensava que podia separar as próprias responsabilidades das alheias. É sim a sociedade emergida do flagelo da peste, que tornou mais que nunca evidente a identidade de destino que une todos os habitantes da cidade. A solidariedade é a autêntica revolta que o homem pode opor ao absurdo que o cerca. Essa solidariedade não é já o gesto nietzschiano de uma personalidade isolada e excepcional, | ||
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| + | Seja-nos permitido observar neste momento como há mais de cem anos o nosso Leoppardi chegou a idênticas conclusões. Também ele, na verdade, em face de uma natureza hostil, indiferente às esperanças e aos desejos dos homens, uma natureza «que sem cessar realiza o seu capricho, se diverte destruindo e criando», mostra aos mortais o caminho da fraternidade e do amor; convida «a humana companhia» a unir-se e a ajudar-se reciprocamente «nos perigos vários e nas angústias — da guerra comum ». E conclui prestando homenagem à humilde giesta, que aceita o seu destino sem súplicas cobardes e sem insensato orgulho. | ||
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| + | Também o Camus de La peste permanece firme no seu ateísmo, e continua a pensar que «talvez valha mais para Deus que não se creia nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguermos os olhos ao céu onde ele está mudo». | ||
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| + | Mas o seu ateísmo, como o de Leopardi, não é um ateísmo satisfeito, porque extrai dele um motivo de amargura mais que de orgulho, «pois que a certeza de um Deus que desse sentido à vida, superaria de longe em força de atração o poder impune de fazer o mal». Sciacca põe em relevo que Camus «sente a necessidade de Deus e a atração da fé», e Valentini fala de um «cristianismo exigencial» de Camus. | ||
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| + | Não é, portanto, de surpreender que as posições de Camus se tenham revelado, no plano político, bastante próximas das da esquerda católica francesa dirigida por Mounier. Com efeito, também para Camus a antítese em que se debate o mundo contemporâneo não é tanto entre capitalismo e marxismo, ambos aliás igualmente irrespeitosos dos mais essenciais direitos humanos, mas entre totalitarismo e liberdade, entre opressores e oprimidos. Camus toma resolutamente o partido dos oprimidos, e prevê uma espécie de socialismo não marxista, muito semelhante àquele de que fala Berdjaev. Na fé em um mundo mais justo, fé «absurda» porque não garantida por nenhum pressuposto metafísico, | ||
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