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estudos:ldmh:silencio

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 +====== Silêncio ======
  
 +LDMH
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 +  * Na época contemporânea, o silêncio tornou-se inaudível, reduzido a uma negação ou privação da fala, visto como opacidade.
 +  * Em //Ser e Tempo// (§34), Heidegger demonstra que o silêncio (//das Schweigen//) não é uma ausência negativa de som.
 +        * É uma possibilidade positiva e até mesmo insigne da palavra, desde que esta não seja reduzida ao enunciado ou a um instrumento de comunicação.
 +        * Um silêncio pode ser eloquente e dar mais a ouvir que a abundância de um discurso trivial, que apenas traz uma clareza falaciosa.
 +  * A reserva silenciosa (//die Verschwiegenheit//) contrasta com a tagarelice do "diz-se" (//Gerede//) público e vão.
 +        * Guardar silêncio não é guardar para si, mas um modo de dirigir-se aos outros.
 +        * Deste silêncio provêm a aptidão para ouvir e o ser-em-comum lúcido.
 +  * Ser silencioso não é ser mudo; aquele que nunca diz nada também não pode calar-se.
 +        * Só pode guardar um silêncio digno deste nome aquele que poderia falar se quisesse e que tem algo a dizer – dirigindo-se ao ser, que ele mesmo se furta a todo enunciado.
 +  * A consciência moral (//Gewissen//), nos §56-57 de //Ser e Tempo//, dirige ao //Dasein// uma palavra que nada narra sobre eventos mundanos e fala apenas no modo do silêncio, recordando-o à singularidade de seu ser-próprio.
 +        * Ao cessar de fazer ouvidos surdos a este apelo, o //Dasein// encontra-se "calmamente (isto é, em silêncio) em paz consigo mesmo".
 +  * Após a //Kehre//, Heidegger utiliza também //die Stille// para nomear a origem da palavra humana.
 +        * //Stille// conjuga os sentidos de paz, imobilidade e silêncio.
 +        * É a unidade originária do tempo e do espaço; o //Ereignis// advém como uma imobilidade móvel em torno da qual tudo se reúne, reinando uma paz silenciosa apesar do barulho periférico.
 +        * O pensamento dos pensadores, ao longo da história, fez-se eco desta paz de maneiras diversas.
 +  * A obsessão pela publicação é alheia ao pensamento genuíno; exemplos: Kant guardou silêncio por mais de dez anos antes de publicar a //Crítica da Razão Pura//; Schelling publicou pouco após seu tratado sobre a liberdade, num silêncio que não era decadência criativa.
 +        * Isso contrasta com a impudica febrilidade de uma época mais preocupada com a celebridade fugaz que com aquilo a partir do qual todo nome próprio se apaga.
 +  * Em entrevista de 1966, Heidegger sugere que o caminho do pensamento hoje pode exigir calar-se para evitar que o pensamento seja barateado e consumido em um ano.
 +  * Nos //Contribuições à Filosofia// (GA65:§13), indica que se uma história ainda nos for dada, será aquela que, mantendo-se em retraimento dos eventos da historiografia, advém a partir da grande paz silenciosa (//die große Stille//) dentro da qual o reino do último deus poderia dar figura ao mundo.
 +  * Na noite do mundo, o que haveria a dizer ainda não foi dito com a decência requerida.
 +        * O silêncio do qual nasce a palavra poética transparece nela e prepara um modo de dizer cuja sobriedade, evitando o mutismo e a tagarelice, dá a ouvir, através do que é dito, aquilo que não é dito.
 +        * Verso de Hölderlin em "Retorno": "Fazer silêncio nós devemos frequentemente; faltam, os nomes sagrados".