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| | ====== Inverdade ====== |
| | * A questão da //inverdade// não é um desvio, mas o caminho único e direto para o //Wesen// da verdade. |
| | * A verdade grega (//alètheia//) significa a suspensão do retraimento (//lèthe//), o aberto sem retraimento, uma vitória arrancada sobre o retraimento. |
| | * Contudo, seria apressado deduzir uma contrariedade radical entre retraimento e aberto, pois o retraimento não é o inimigo da //alètheia//, mas sua fonte viva, aquilo que carrega a eclosão até a propriedade de ser ela mesma. |
| | * O //Dasein//, enquanto ek-siste, gera o primeiro e mais extenso des-velamento (//Un-entborgenheit//), a verdade originária. |
| | * O //Un-wesen// (não-essência) originário da verdade é o segredo. |
| | * Neste contexto, o prefixo //Un-// de //Un-wesen// não implica degradação, mas visa a essência pré-existente, o domínio ainda inexplorado da verdade do ser. |
| | * A //inverdade// não deve ser entendida como o contrário da verdade, mas sim como seu //Wesen//. |
| | * Heidegger refere-se aqui à //Irre// (errância) íntima ao //Dasein//. |
| | * No mundo, o //Dasein// se aventura numa experiência não trilhada, arriscando-se, um risco que pertence à sua finitude e à sua inteligência do ser. |
| | * A errância é componente essencial da abertura (//Offenheit//) do homem ao ser e da abertura (//Erschlossenheit//) que o homem mesmo é para o ser. |
| | * Ela é o //Wesen// da verdade do ser. |
| | * À condição humana responde a indeterminação, que nada tem de indecisão ou indiferença. |
| | * A errância é distinta do erro. |
| | * A indeterminação, da qual a errância é um modo, resulta de nosso engajamento pela verdade do ser, em uma constante incerteza do mundo. |
| | * A errância é como um "espaço de jogo"; a plena essência da verdade, incluindo seu //Un-wesen//, mantém o //Dasein// na angústia pelo vaivém perpétuo entre o segredo e a ameaça do extravio. |
| | * Com a //inverdade//, a atenção deve voltar-se primeiramente para o abrigamento no retraimento, a //Verbergung//. |
| | * Remontando aos gregos e além deles, que experienciam a verdade apenas a partir do aberto sem retraimento, Heidegger passa do desvelamento (//Entbergung//), da clareira (//Lichtung//), para o desvelamento abrigado no retraimento: propriamente, a //inverdade//. |
| | * Não há outro fundamento senão o //Abgrund//, fundamento sem fundo que é o //Dasein//. |
| | * Existe a experiência grega da verdade (que leva à experiência moderna) a partir da presença sem retraimento do ente. |
| | * E, a montante da experiência grega, existe o retraimento que abriga o desvelamento, que constitui sua fonte viva. |
| | * Isso corresponde, grosso modo, à passagem em Heidegger do ser ao //Ereignis//, de //Ser e Tempo// aos //Contributos à Filosofia//, um retorno à montante para a verdade do ser à qual pertence o homem enquanto //Dasein//. |
| | * Heidegger também empregou o termo //inverdade// no sentido de simples negação, para designar o falso. |
| | * É com base numa compreensão específica do falso que a essência da verdade sofreu, nos gregos, uma mutação decisiva em relação à experiência originária da //alètheia// como aberto sem retraimento. |
| | * Com base no aberto sem retraimento, a inexatidão, a inadequação ou a falsidade vão sobrepor-se ao retraimento. |
| | * Elas "puxam" a verdade para si, contaminando-a, de modo que até mesmo seu caráter de sem-retraimento deixa de ser visível. |
| | * O termo //inverdade// passa então a caracterizar essa contaminação, a partir da qual a verdade será determinada no Ocidente. |
| | * Heidegger analisa como a verdade, contaminada pela //inverdade// como inexatidão ou falsidade, pôde tomar a figura da exatidão, processo que recobre o retraimento e sua suspensão, notando que já em Platão a vacância da questão pelo retraimento como tal prova que o aberto sem retraimento começa a perder sua eficiência. |
| | * Para designar o contrário da verdade (//alètheia//), os gregos usavam //pseudos//, cuja etimologia aponta para uma experiência totalmente diversa. |
| | * O //pseudos//, aquilo que é tanto mais falso quanto pode ser confundido com o verdadeiro, passa a determinar a verdade, designando-a então como //apseudos//. |
| | * Platão apreende o //Wesen// do //pseudos// como não-retidão do //lógos//; o //lógos// torna-se o lugar do falso. |
| | * O //Wesen// da //inverdade// torna-se a não-retidão, um caráter do enunciado. |
| | * Sendo a //inverdade// o contrário da verdade, esta também deve ter seu lugar no //lógos//: a verdade torna-se a retidão do enunciado (//orthotes//). |
| | * Falta uma compreensão suficientemente originária da //alètheia//, que não é primariamente um caráter do comportamento cognoscente, mas do ente em causa, e do que ela combate, o //lèthe// (esquecimento), que também não remete a um estado subjetivo, mas ao retraimento daquilo que está em causa. |
| | * A verdade como arrancamento ao escapamento torna-se o contrário da não-retidão: a retidão. |
| | * Que primeiramente o ente se retire, eis a razão pela qual quem busca conhecê-lo não pode mais ajustar seu olhar sobre ele. |
| | * Da //inverdade// determinada como falsidade desde Platão resulta a verdade definida exclusivamente como exatidão (//Richtigkeit//) e, com isso, a indiferenciação entre verdade e exatidão. |
| | * O que é exato não é necessariamente (ou ainda não é) verdadeiro. |
| | * Enquanto aquilo que está em causa não for retido em sua "nudez primeira", em seu //Wesen//, a exatidão pode passar-se por verdade. |
| | * Ir à contracorrente deste movimento, "buscar o verdadeiro através do exato e para além dele" é a única condição que, fazendo-nos remontar do exato para o verdadeiro, também nos expõe à nossa finitude e à nossa relação com o ser, abrindo a possibilidade de ouvir o que Heidegger tentou dizer com a //inverdade// como //Wesen// da verdade. |