estudos:ldmh:etimologia
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| + | ====== Etimologia ====== | ||
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| + | * Eliminar dois preconceitos sobre a etimologia em Heidegger | ||
| + | * É necessário desfazer dois preconceitos persistentes: | ||
| + | * Uma vez publicado o conjunto dos cursos disponíveis, | ||
| + | * No curso de 1931-1932 sobre Platão, ao explicitar o sentido próprio de alétheia como suspensão do retraimento, | ||
| + | * Crítica à superstição da “origem” e limites do procedimento etimológico | ||
| + | * Na primeira versão da Introdução à metafísica, | ||
| + | * Ao mesmo tempo, ele rejeita a recusa precipitada que declara mortas as significações originárias por pertencerem a um “passado findo”, mostrando que a questão não se resolve nem por absolutização nem por desprezo; e o próprio percurso etimológico do “ser” termina reconhecidamente em impasse, o que atesta seu caráter experimental e não dogmático. | ||
| + | * Essas advertências remetem a uma interrogação mais ampla sobre a ideia de uma “origem” primeira dos vocábulos e sobre a noção de raiz como portadora de um sentido “originário” supostamente estável, tema que atravessa, por exemplo, Parmênides (GA54, 31; GA55, 194). | ||
| + | * Distanciamento de Heidegger da filologia das raízes indo-europeias e da metafísica da origem | ||
| + | * O projeto de uma nomenclatura geral das raízes indo-europeias, | ||
| + | * A etimologia praticada como pesquisa puramente diacrônica — e, no fundo, acrônica — de uma raiz pura que serviria como metro-padrão do significado, | ||
| + | * Tais representações dominantes em linguística remontam ao fato de que a primeira reflexão sobre a língua, a gramática grega, foi conduzida pelo fio da Lógica, no horizonte de uma doutrina do dizer e da proposição, | ||
| + | * Ao explicitar a tese aristotélica da unidade do ser como analogia, Heidegger conclui que há relações próprias no próprio idioma que parecem exprimir-se em forma lógica, mas que a lógica habitual falha já no modo de significar; por isso, a linguagem não pode ser apreendida logicamente, | ||
| + | * Trabalho com os vocábulos como gesto fenomenológico de tornar a palavra falante | ||
| + | * Se Heidegger trabalha incessantemente os termos, ele não o faz num horizonte filológico de erudição, nem numa metafísica da origem, mas num gesto fenomenológico: | ||
| + | * Ao evocar o dialeto alemânico em que escreve J. P. Hebel, Heidegger afirma que todo dialeto (Mundart, modulação de boca) é fonte secreta de onde continua a afluir o que o espírito da língua abriga e resguarda, isto é, relações fundamentais — embora inapparentes — com Deus, com o mundo, com os seres humanos, com suas obras e seus gestos; e, mais decisivamente, | ||
| + | * Palavra como existencial e a libertação da gramática em Ser e Tempo | ||
| + | * Em Ser e Tempo, Heidegger exige que a tarefa de libertar a gramática da lógica seja precedida por uma compreensão positiva da estrutura a priori da fala em geral enquanto existencial, | ||
| + | * Que a fala seja existencial significa que ela precede sempre já os vocábulos efetivos de uma língua e é co-originária com a disposicionalidade e com o entender, de modo que a estrutura a priori da fala deve ser vista antes que a força das palavras elementares em que o Dasein se exprime seja achatada pelo senso comum (Ser e Tempo, p. 165; SZ, 161; SZ, 221). | ||
| + | * Esse ver exige interrogar não só o sentido próprio das palavras, mas a compreensão de mundo que elas abrigam e as tonalidades (Stimmungen) que elas afinam em sua melodia, para que à abertura do Dasein responda a abertura do mundo. | ||
| + | * Desse modo, o cuidado etimológico em Heidegger não é caça a uma origem impossível, | ||
| + | * Segundo preconceito: | ||
| + | * Ainda assim, poderia parecer que esse a priori existencial abre caminho para a solicitação arbitrária; | ||
| + | * A questão, porém, é mais sutil, porque o leitor de fato encontra por vezes etimologias desconcertantes; | ||
| + | * Exames cuidadosos mostram que muitas etimologias atribuídas a invenção são, na verdade, usos de dicionários então vigentes: ao interpretar to chreôn como “a primeira palavra do ser” em A Palavra de Anaximandro (GA5, 365; Caminhos que não levam a lugar nenhum, p. 441), Heidegger afasta o sentido clássico de “necessidade” (confirmado como derivado por Chantraine) e parte de modo justificável de chraô, chraomai, com sua gama de sentidos (aspirar a; ter à disposição para usar; proferir oráculo; recorrer ao oráculo; emprestar; tomar emprestado). | ||
| + | * O ponto desconcertante é quando ele tenta desdobrar chraô a partir de cheir, “mão”, sugerindo um horizonte de manejar, dar a mão, entregar em mãos próprias, e, daí, pensar uma pertença em que a presença mantém (main-tient) o presente ao entregá-lo, | ||
| + | * O helenista comum se espanta porque Chantraine, Boisacq e Frisk não registram essa derivação nem como hipótese errada; contudo, Heidegger não inventa: basta abrir os Grundzüge der griechischen Etymologie de Georg Curtius (edição de referência de 1879) para encontrar explicitamente atestada e “justificada” essa filiação, além de Frisk mencioná-la. | ||
| + | * Por que a questão não se reduz a “acertar” ou “errar” etimologias | ||
| + | * Mesmo assim, não se alcança ainda o núcleo do problema, pois, ainda que Heidegger inventasse algumas etimologias (o que ocorre), o ponto decisivo não é julgá-las apenas pelos critérios de uma genealogia diacrônica positiva. | ||
| + | * A ideia de progresso positivo da filologia, quando aplicada à etimologia, torna-se problemática porque pressupõe, ainda que tacitamente, | ||
| + | * O mérito de P. Chantraine está em romper com essa ficção ao compreender que não há etimologia sem história do uso das palavras na língua, nem, portanto, visada diacrônica sem horizonte sincrônico, | ||
| + | * Por isso, importa menos determinar quais dicionários Heidegger consultava do que reconhecer a lei efetiva do etymo-logos: | ||
| + | * Encontro “diamythológico” entre diacronia e sincronia e a crítica heideggeriana aos dicionários | ||
| + | * Heidegger está plenamente consciente do enlace entre a etimologia diacrônica e a etimologia sincrônica, | ||
| + | * Prova disso é sua crítica recorrente aos dicionários: | ||
| + | * Sócrates no Crátilo, anthropos e a redefinição do humano como ser do logos | ||
| + | * Outra prova é o interesse de Heidegger por etimologias socráticas, | ||
| + | * Em um curso sobre Aristóteles, | ||
| + | * A língua não é apenas meio de enunciar e comunicar, embora também o seja, mas o âmbito em que irrompem a manifestidade e o anúncio do mundo em geral; por isso, originariamente e em sentido próprio, a língua está em casa na poesia, não como ocupação literária, mas como o clamor com que o mundo responde ao apelo do deus. | ||
| + | * Palavra e coisa: superação da bipolaridade metafísica e a experiência poética | ||
| + | * A experiência evocada por Francis Ponge — segundo a qual os poetas se aprofundam na noite do logos até o nível das raízes onde coisas e formulações se confundem — indica que o problema da etimologia reconduz à necessidade de repensar o vínculo entre “palavras” e “coisas”. | ||
| + | * Em Caminho da Linguagem, Heidegger mostra que a bipolaridade metafísica entre um mundo de palavras e um mundo de coisas se torna insustentável, | ||
| + | * Consequentemente, | ||
| + | * A escuta etymo-lógica como desdobramento do logos como alétheia | ||
| + | * Se livre, a escuta etymo-lógica consiste em desdobrar — até o silêncio — a compreensão do logos como alétheia, isto é, como desvelamento que não se separa do próprio dizer. | ||
| + | * No centro de seu estudo do fragmento DK B 50 de Heráclito, Heidegger formula de modo simples a lei dessa escuta: o Logos é ao mesmo tempo desabrigamento do retraimento e abrigamento em retraimento, | ||
| + | * Nessa lei se concentra o sentido próprio do exercício etimológico: | ||
