estudos:ldmh:devastacao
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| + | ====== Devastação (Verwüstung) ====== | ||
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| + | * Apropriação filosófica do conceito de devastação como traço distintivo da época contemporânea não constitui singularidade do pensamento heideggeriano, | ||
| + | * Nesse panorama, Friedrich Nietzsche ergue-se como precursor essencial; no desfecho da quarta parte de //Also sprach Zarathustra//, | ||
| + | * Exame do termo alemão // | ||
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| + | * Consideração heideggeriana da devastação exige que ela seja pensada sem pathos, ou seja, sem indignação moral e imune a qualquer pânico, à maneira da observação de Armel Guerne sobre a linguagem do naufrágio, que permanece inacessível àqueles que só falam a linguagem das navegações. | ||
| + | * Aprender a soletrar essa linguagem do naufrágio próprio ao nosso tempo demanda, primariamente, | ||
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| + | * Aprender a linguagem do naufrágio requer, em seguida, capacidade de situar o deserto no espaço e no tempo, interrogando especificamente qual seja esse tempo de-finito pela devastação. | ||
| + | * Esse é precisamente o esforço que empreendem os dois protagonistas de //A Devaastação e a Espera//, diálogo escrito por Heidegger na primavera de 1945, cujo cenário histórico é cuidadosamente delineado: 8 de maio de 1945 em um campo de prisioneiros de guerra na Rússia soviética, enquanto a Alemanha, cujo povo //se extraviou cegamente ao deixar-se conduzir ao erro//, é presa da devastação. | ||
| + | * Esse cenário histórico não deve, contudo, ocultar a dimensão historial, pois se a devastação significa que //tudo, o mundo, o ser humano, a terra, é de-vastado, isto é, transformado em deserto//, isso não implica que o deserto resulte da extensão progressiva da devastação. | ||
| + | * Pelo contrário: o deserto já está a priori, e, por assim dizer, em um nada de tempo, para, depois, tudo incluir em si – o que significa justamente: fazer ser a vastação do deserto, de-vastar. | ||
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| + | * Característica de estar já de antemão aí em um nada de tempo configura a temporalidade paradoxal do deserto, a qual participa do movimento daquilo que Heidegger, desde os anos 1930, nomeia // | ||
| + | * A devastação nos apreende antecipadamente na amplitude de seu acontecimento. | ||
| + | * Determinação do que seja exatamente esse //mais amplo longínquo// | ||
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| + | * Sob um ponto de vista originariamente metafísico, | ||
| + | * Na época moderna, a figura predominante dessa fúria sempre em potência nada mais é que a da subjetividade, | ||
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| + | * Sob um ponto de vista, desta vez, livre da metafísica, | ||
| + | * A devastação própria ao deserto é simultaneamente deserção e desertação do ser. | ||
| + | * A devastação é, nesse sentido, o nome que o niilismo assume quando este se põe //em obra// tanto quanto //em desobra// | ||
| + | * Sob um ponto de vista historial, o niilismo só pode //ser algo de efetivamente real se advém algo como a deserção do ente pelo ser, deserção que, no entanto, deixa ainda assim ser o ente// | ||
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| + | * Esse último aspecto é crucial, pois permite compreender – e Heidegger insiste muito nisso – que a devastação não é de modo algum sinônimo de destruição. | ||
| + | * Diálogo de Franz Kafka com Gustav Janouch ilustra essa distinção: | ||
| + | * Heidegger pensa de modo análogo, afirmando que por devastação não se entende //a simples destruição do ente à mão, mas o trabalho de sapa que enterra a possibilidade de toda decisão inicial...// | ||
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| + | * A devastação consiste na impossibilidade de estar em relação com o começo, impossibilidade à qual todos colaboramos, | ||
| + | * Deserto: a persistência na interdição do começo. A devastação como asseguramento na duração de um desenraizamento integral de tudo, mas de tal modo que, na verdade, tudo o que vigora habitualmente permanece mantido; o fato de se preocupar com //política cultural// com a única finalidade de de-vastar. | ||
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| + | * Desse modo, como Heidegger também escreve a respeito de Jünger, a devastação se cumpre igualmente no cuidado e no gozo dos //bens culturais// | ||
| + | * Ou seja, enquanto desertificação, | ||
| + | * Sob outro ângulo, portanto: //A devastação da terra pode acompanhar-se da consecução do mais alto padrão de vida do homem e, igualmente, da organização de um estado de felicidade uniforme para todos os homens// | ||
| + | * Todos esses exemplos têm como horizonte comum uma relação com o tempo completamente cega, isto é, propriamente não historial. A devastação é //no ritmo máximo o banimento de Mnemósine// | ||
