estudos:kearney:resposta
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| + | **Em Lugar de uma Resposta** | ||
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| + | * Derrida evita vincular a messianicidade do dom a qualquer messianismo específico -- cristão, judaico, islâmico ou outro --, o que é coerente com sua posição desconstrucionista; | ||
| + | * Há duas maneiras igualmente válidas de fazer filosofia: (1) partir de pressupostos teológicos e religiosos, da vida de fé e convicção; | ||
| + | * Uma terceira via é a fenomenologia quasi-teológica ou a teologia quasi-fenomenológica, | ||
| + | * The God Who May Be pratica uma fenomenologia da atitude natural sem suspensão dos pressupostos: | ||
| + | * As quatro categorias do dom divino em The God Who May Be são: (1) o Deus transfigurador; | ||
| + | * O Deus poeticizador não pode criar o Reino sem que se crie o espaço para que o Reino venha; Deus criou o mundo em seis dias e deixou o sétimo livre para que o completemos. | ||
| + | * O que há de bom na creatio ex nihilo -- apesar de sua não-reciprocidade -- é que ela é um dar incondicional, | ||
| + | * A dicotomia entre "dom absolutamente incondicional" | ||
| + | * Derrida e Caputo estão interessados no impossível; | ||
| + | * Deus é invocado para garantir que a economia não se feche sobre si mesma -- não como opção para a humanidade, mas como vocação divina; a vocação humana é tornar-se mais plenamente humano, não fundir-se com Deus. | ||
| + | * A fenomenologia do dom como poeticizar é uma cocriação da história por humanidade e Deus, orientada para o Reino -- uma nova terra e um novo céu que não se pode programar, mas apenas prefigurar como escatologia. | ||
| + | * O dar é desejar porque o desejo não é apenas movimento da falta à plenitude ou da potência ao ato -- noções ontológicas de desejo --, mas também movimento de " | ||
| + | * A ideia de ebullitio em Eckhart -- o " | ||
| + | * No Cântico dos Cânticos, o desejo da mulher sulamita -- representando a humanidade -- pelo Senhor não é apenas frustração ou falta, mas também celebração do encontro; é um desejo de plenitude, não de presença fusional, que nasce de ser tomado por Deus e responde ao desejo do Absoluto. | ||
| + | * Há falta em Deus -- Deus não é humano -- e plenitude no humano; por isso o Reino como segunda vinda é o encontro do finito e do infinito, que hermeneuticamente pode ser imaginado como uma dança, uma pericórese -- jamais uma economia fechada. | ||
| + | * A presença de um terceiro na dança trinitária é essencial: sem ele, dois podem tornar-se um; o terceiro introduz uma " | ||
| + | * O Deus transfigurador transfigura a humanidade por meio da criação e das intervenções na história -- a sarça ardente, Cristo, os santos, as epifanias de Joyce e Proust --, e o mal é ausência de Deus como transfigurador, | ||
| + | * A transfiguração é também algo que a humanidade faz a Deus: ao criar arte, justiça e amor, traz ao ser uma transfiguração do mundo que Deus não pode realizar sozinho -- " | ||
| + | * Deus não pode deter o mal porque o mal é a ausência de Deus, e Deus não tem poder sobre o que não é -- o mal; se a humanidade recusar o dom, pode destruir o mundo e, com ele, a possibilidade do Reino na terra. | ||
| + | * O Deus possibilizador oferece constantemente a possibilidade do Reino, interpretável de dois modos: (1) como promessa escatológica após a história; (2) como Reino agora, presente nos atos mais ínfimos e imperceptíveis -- "Todo momento é um portal pelo qual o Messias pode vir", como diz Walter Benjamin. | ||
| + | * O Messias é sempre ainda por vir, mesmo quando já veio: o Messias vem e parte -- na sarça ardente, em Elias, em João Batista, em Cristo -- e essa natureza dupla é fundamental porque o possível não significa o Fim hegeliano da história universal. | ||
| + | * O triunfalismo teleológico -- " | ||
| + | * As " | ||
| + | * A escatologia é concebida como uma " | ||
| + | * A cena de Blanchot ilustra a estrutura messiânica: | ||
| + | * A desconstrução como " | ||
| + | * O critério de discernimento entre verdadeiro e falso profeta não pode ser eliminado: é preciso distinguir, hermeneuticamente, | ||
| + | * A lacuna que a desconstrução insiste em manter entre nossas decisões e a indecidibilidade é excessivamente polar e aporética; não se precisa de luz absoluta nem de trevas totais -- o mundo é lugar de luz e sombra, e sempre se tem um pouco de ambas. | ||
| + | * Supor que se possui a luz enquanto os demais estão nas trevas é receita para imperialismo, | ||
| + | * A parábola do rico e Lázaro serve de molde à desconstrução -- um abismo intransponível entre o divino e o humano --; em contraste, a hermenêutica de Kearney segue o paradigma da escada de Jacó: vai e vem em ambas as direções, sem ascensão ou descida absolutas. | ||
| + | * A leitura da história de Abraão sacrificando o filho é próxima da de Levinas e distante da de Kierkegaard: | ||
| + | * Textos bíblicos que mandam exterminar os cananeus devem ser lidos hermeneuticamente e desmitologizados como interpolações de escribas zelosos justificando a ocupação de terras alheias; ao contrário, os Salmos, onde Deus protege a viúva, o estrangeiro e o órfão, expressam a voz divina genuína. | ||
| + | * O único Deus de interesse é o Deus de amor e justiça -- não o Deus gnóstico que inclui o mal como contrapartida necessária do bem; as teodiceias que justificam o mal como " | ||
| + | * A moralidade humana é frequentemente cinza sobre cinza, não preto e branco: aborto, Hiroshima -- são questões complexas que comportam razões dos dois lados; mas quando se trata de Deus, que é absoluto, ou Deus é bom ou Deus não interessa. | ||
| + | * Quando alguém pratica um ato bom -- dá um copo d' | ||
| + | * A hermenêutica diacrítica proposta em Strangers, Gods, and Monsters é uma terceira via entre a hermenêutica romântica de Gadamer -- fusão de horizontes, reapropriação do momento inaugural -- e a hermenêutica radical de Caputo, que é outro nome para a desconstrução e não permite suficientemente recuperações, | ||
| + | * Nenhuma religião tem direito absoluto ao Absoluto; todas são caminhos narrativos em direção ao Absoluto -- e quem nasceu numa estrada específica a conhece melhor e pode dialogar mais ricamente com quem vem por outra. | ||
| + | * Kearney é suspeito de convertidos zelosos que repudiam tudo em sua própria tradição; a busca pelo Absoluto não deve ser ela mesma absolutista, | ||
| + | * Sem o longo caminho da reinterpretação hermenêutica, | ||
| + | * Nicolau de Cusa -- cuja noção de possest influenciou profundamente a hermenêutica do Deus possível de Kearney -- combina sensibilidade ao mistério com respeito à sabedoria prática: "O amor de Deus firmado pelo entendimento embriaga a mente" (amor Dei cum intelligentia conditus inebriat mentem); seu videre aenigmatice et symbolice é uma poética de interpretação do inefável -- modelo de " | ||
| + | * As diferenças de Kearney com a desconstrução não são de valores -- Derrida, Caputo e Lyotard estão todos do lado do bem, emancipatória e eticamente --, mas de método: a hermenêutica informada pela cautela desconstrucionista é considerada um caminho mais eficaz do que a desconstrução sem hermenêutica. | ||
| + | * O bem é algo a que se aspira, impossível em sentido absoluto mas possível em inúmeros atos práticos minúsculos; | ||
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