estudos:kearney:marion-kearney
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| + | ====== Marion e Kearney ====== | ||
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| + | **I. Boston College, 2 de outubro de 2001** | ||
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| + | * Apesar das similitudes evidentes entre as trajetórias filosóficas de Marion e Kearney -- formação nas fenomenologias de Husserl e Heidegger, diálogo com Levinas, Ricoeur e Derrida --, a diferença mais produtiva entre ambos reside no estatuto hermenêutico do " | ||
| + | * Kearney passa da fenomenologia à hermenêutica mais rapidamente do que Marion, pois para este o " | ||
| + | * Marion faz algumas concessões à hermenêutica, | ||
| + | * Para Kearney, não há fenômeno puro como tal: o aparecer, por mais icônico ou saturado que seja, sempre já envolve algum tipo de interpretação, | ||
| + | * O fenômeno saturado é caracterizado por um déficit de conceito em relação à intuição -- nos casos do evento, do ídolo, da carne e do outro há um excesso de intuição sobre a intenção --, e é precisamente esse excesso que torna a hermenêutica necessária. | ||
| + | * Hermenêutica é sempre uma busca de novos conceitos; ela é gerada pela presença de excesso de informação, | ||
| + | * Em Etant Donne, Marion descreve o ícone como "o ícone de uma hermenêutica interminável": | ||
| + | * A investigação hermenêutica jamais completa sua missão; a matemática e a ciência pura, por não apresentarem déficit de fenomenalidade, | ||
| + | * A revelação como fenômeno saturado recapitula os quatro tipos: é (1) evento, por sempre ocorrer como tal; (2) ídolo, por deslumbrar com sua aparição; (3) carne, por sempre apelar aos sentidos; e (4) outro, pela alteridade do outro -- sendo assim um fenômeno saturado "ao quadrado" | ||
| + | * O Credo Apostólico é um exemplo: é ao mesmo tempo um documento de doutrinas partilhadas e um texto aberto a interpretações inconsistentes entre si, mesmo dentro da mesma tradição. | ||
| + | * A espiritualidade jesuíta é citada como exemplo de uma possível interpretação, | ||
| + | * A questão de se o fenômeno de Deus pode ser experimentado fora de um contexto monoteísta permanece em aberto: a revelação é como uma tremenda explosão que afeta a todos, dos que estão no epicentro aos que estão na periferia mais remota, e cada um deve fazer o máximo com o que recebeu. | ||
| + | * O budismo é uma maneira de viver a experiência do infinito anterior ou paralela ao fenômeno da revelação -- uma " | ||
| + | * Afirmar que a hermenêutica da revelação está encerrada equivale a dizer que a revelação nada mais tem a revelar -- e, portanto, que não há revelação; | ||
| + | * A afirmação de God Without Being de que "só o bispo merece o título de teólogo" | ||
| + | * Com o advento das universidades, | ||
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| + | **II. Roma, Festa da Epifania, 2002** | ||
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| + | * Desde Platão, a filosofia pensou Deus em termos de " | ||
| + | * O título The God Who May Be traduz o nome clássico de Deus em Êxodo 3:14: o Deus do Êxodo não é o Deus "que é", mas o Deus "que pode ser", numa forma verbal incompleta que indica que o modo de ser de Deus está por vir -- "a hora há de vir e eis que é agora"; | ||
| + | * O título de Kearney é provocativo também por sugerir que o próprio " | ||
| + | * O risco real ao se pensar e falar sobre Deus não é formular posições não-ortodoxas, | ||
| + | * A conexão surpreendente que Kearney faz entre Deus e a história deixa claro que, se Deus criou o mundo, está além da criação; toda experiência do mundo deve ser direcionada de volta a Deus. | ||
| + | * A linguagem apofática, a desconstrução e a crítica da metafísica são ferramentas perfeitamente aceitáveis, | ||
| + | * Pensar Deus como "o que ainda não é mas pode ser" salvaguarda a alteridade divina: o ser tornou-se um ídolo por ser estático e imutável, e as inexauríveis possibilidades do possível abrem o pensamento a um "de outro modo" e a um " | ||
| + | * A identidade estrita do eu é impossível para o ser humano: permanecer exatamente o que se é sem mudança equivale à definição de alguém que está morto; existir como ser humano é tornar-se não o que se é, mas o que não se é -- por isso a existência é histórica. | ||
| + | * Imaginar Deus permanecendo exatamente o que supostamente é para sempre é algo idólatra, pois espelha e duplica nossa própria aspiração de ser sem limite -- o desejo que projetamos em Deus como " | ||
| + | * Trata-se de um antropomorfismo conceitual: a projeção de nosso desejo -- ou da falta de desejo -- em Deus. | ||
| + | * As três interpretações de Êxodo 3:14 constituem um exemplo de fenômeno saturado e de hermenêutica interminável: | ||
| + | * A " | ||
| + | * Em Levinas, a " | ||
| + | * Esse desejo metafísico está em Agostinho -- a inquietude em busca de Deus -- e em Descartes -- a "ideia do Infinito" | ||
| + | * A diferença em relação à teologia do processo (Hartshorne, | ||
| + | * A decepção diante do fenômeno saturado -- a experiência de encontrar algo sem ter conceito para isso -- não é nada: é uma figura muito importante da fenomenalidade. | ||
| + | * O desejo em filosofia apresenta duas possibilidades: | ||
| + | * Levinas sugere que o desejo é anterior à intenção filosófica de conhecer e deve ser tomado a sério como tal -- o que pode explicar certo aspecto do neoplatonismo. | ||
| + | * A questão do desejo pode ser séria demais para ser explicada no mesmo horizonte que a questão do conhecimento; | ||
| + | * A psicanálise considera o desejo apenas como pulsão inconsciente; | ||
| + | * Há duas vias de aproximação ao fenômeno divino saturado: (1) o êxtase -- a visão beatífica de fusão com Deus, a jouissance mística; (2) a Abgescheidenheit de Eckhart -- o sentido de deserdação, | ||
| + | * Na transfiguração de Cristo, há fascinação extraordinária com a brancura do evento, mas também experiência de medo -- a voz das nuvens no Monte Tabor diz: "Não tenhais medo" --, e Jesus instrui os discípulos a guardar distância e silêncio: são formas de reconhecer a importância da Abgeschiedenheit. | ||
| + | * Dois tipos de desejo devem ser distinguidos: | ||
| + | * Gregório de Nissa, no comentário ao Cântico dos Cânticos, descreve a eternidade no paraíso como cumprimento do prazer onde cada cumprimento é um novo arche, sem fim -- quanto mais o desejo é satisfeito, mais renasce, sem cessar. | ||
| + | * Esse tipo de desejo -- nutrido pelo excesso, não destruído por ele -- é radicalmente diferente do modelo platônico que governa toda a metafísica até Lacan. | ||
| + | * A noção de perichorese em Gregório de Nissa descreve o amor entre as Três Pessoas da Trindade como um desejo que cede o lugar ao outro (cedere) e ao mesmo tempo é atraído pelo outro (sedere) -- a dupla tradução latina como circum-in-Cessio e circum-in-Sessio --, e o peri ou circum refere-se à khora: espaço vazio, de desprendimento, | ||
| + | * O problema fundamental com Hegel reside na " | ||
| + | * Em contraste, a hermenêutica diacrítica proposta por Kearney aborda o problema do mal de modo menos dogmático, como hipótese e aposta, cuja única evidência é a comunidade intersubjetiva de diálogo. | ||
| + | * Como diz Merleau-Ponty sobre a evidência da fenomenologia: | ||
| + | * O único argumento para escolher entre diferentes interpretações dos mesmos dados é o poder de uma interpretação diante da outra -- uma batalha justa onde vence quem produz mais racionalidade. | ||
| + | * É uma fraqueza da filosofia recusar sentido a partes da experiência; | ||
| + | * O exemplo de Levinas: a questão do Outro permanecia enigmática até que Levinas propôs a inversão da intencionalidade -- não mais a intenção partindo de mim para o Outro como objeto, mas uma intencionalidade reversa -- tornando disponíveis, | ||
| + | * As diferentes hermenêuticas não precisam ser vistas como incompatíveis: | ||
| + | * A experiência amorosa é o exemplo paradigmático do fenômeno saturado: " | ||
| + | * No fim da metafísica, | ||
| + | * Há uma pluralidade de modos de ver: o empirista vê a sarça ardente como fato; a fenomenologia husserliana acrescenta um "ver categorial" | ||
| + | * Moisés vem ao Monte Horebe com uma questão ardente -- como libertar seu povo do Egito -- e com o desejo de uma promessa; por isso vê algo que o empirista não verá. | ||
| + | * Todo ver é um "ver como" -- "Você vê o que quero dizer?" | ||
| + | * O "ver como" teológico-escatológico de Moisés -- ver a sarça ardente como manifestação de Deus -- é uma variação da Als-Struktur heideggeriana, | ||
| + | * A hermenêutica filosófica transforma o "ver como" cotidiano em um "como se": coloca-se entre parênteses as crenças vividas não para renunciá-las, | ||
| + | * Há uma temporalidade na experiência do fenômeno saturado: alguns fenômenos podem, com o tempo e mais informação, | ||
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