estudos:kearney:breton
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| + | ====== Stanislas Breton ====== | ||
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| + | **Sobre o Deus do Possível** | ||
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| + | * A concepção do divino proposta por Richard Kearney se distingue por uma extraordinária juventude filosófica, | ||
| + | * O possível evoca a leveza de ultrapassar os limites impostos pela memória e pela atenção, sem negá-los, como tema de uma imaginação criadora que não se preocupa em reproduzir ou possuir as coisas. | ||
| + | * Na forma adverbial do " | ||
| + | * Kearney havia esboçado uma primeira fenomenologia dessas dimensões poéticas e existenciais do possível em Poétique du Possible; em The God Who May Be, continua a explorar a dinâmica transfigurativa do possível em sua dimensão religiosa. | ||
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| + | **Preliminares** | ||
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| + | * É preciso afastar de imediato os sentidos lógicos do possível -- as modalidades aléticas de " | ||
| + | * O possível segundo Bergson -- entendido não como abertura do futuro, mas como produto retrospectivo que projeta o presente no passado para atenuar a novidade escandalosa do presente -- é igualmente estranho à orientação de Kearney. | ||
| + | * Kearney avança uma nova ideia de Deus, não mais encerrado em seu ser e na plenitude imutável de sua atualidade, recuperando o Deus da Bíblia e do Evangelho, o Deus da promessa e do reino vindouro, escatológico, | ||
| + | * Esse Deus vivo, cujo " | ||
| + | * A nova ideia de Deus implica uma nova concepção da relação humana com Deus: "Deus depende de nós para ser" -- o ser de Deus depende de nós, reversão inaudita pela qual Deus como poder-de-ser permanece a " | ||
| + | * O problema do mal não deve ser discutido em relação a alguma predestinação divina do mundo, pois isso pressuporia "um Deus de puro ato e necessidade"; | ||
| + | * Kearney busca um nome adequado para essa filosofia de Deus, sugerindo títulos como " | ||
| + | * A teologia negativa, contrariamente ao que se pensa, é igualmente pródiga em imagens e metáforas, e ao proibir a referência ontológica deixa o campo livre para todo tipo de nomeação, em virtude do axioma retomado por Eckhart: "o inominável é omnominável" | ||
| + | * O Deus "fraco e louco" da Cruz de Paulo, além da sabedoria e do poder, mostra um Deus "além do ser e da essência" | ||
| + | * O Deus do possível e o Deus da Cruz estão próximos: em ambos os discursos "Deus depende de nós", e é nossa responsabilidade que se empenha na transfiguração do mundo; e aquele que ultrapassa todo nome tem direito a todos os nomes. | ||
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| + | **Eu Sou o Que Sou** | ||
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| + | * O nome, especialmente entre os semitas, não serve apenas para indicar um indivíduo, mas exerce um poder real sobre quem é nomeado; o verdadeiro Deus que fala a Moisés elide esse poder, transcende toda nomeação e é assim chamado inefável, e tanto a imagem quanto o nome são igualmente idólatras. | ||
| + | * O título " | ||
| + | * Tomás de Aquino, em seu comentário ao texto do Êxodo, capta a primeira condição: " | ||
| + | * As interpretações conhecidas do texto se distribuem em três orientações: | ||
| + | * Versões que insistem, por razões gramaticais, | ||
| + | * Os nuances mais plausíveis falam da fidelidade de Deus ao povo que escolheu: Yahweh está ao lado de seu povo, vela por ele, pertence-lhe sempre, está sempre com ele (o Emmanuel) e vai adiante dele. | ||
| + | * Eckhart meditou profundamente sobre a reduplicação do "Eu sou" na fórmula do Êxodo, recusando a tautologia insípida AA e articulando a distância e a proximidade entre os dois "Eu sou" num movimento de autogeneração expresso pelos verbos permanecer (em si mesmo), proceder de si mesmo e retornar a si mesmo. | ||
| + | * Em Eckhart, Deus não é uma entidade constituída de antemão, mas a própria fecundidade: | ||
| + | * Kearney reteve dois traços da exegese de Eckhart: os temas do dom e da passagem -- "Deus dá-se até o sacrifício e o esvaziamento de si; ele está em contínua passagem entre nós, e graças a nós". | ||
| + | * Um sermão latino de Eckhart acrescenta: "o intelecto resolve tudo na luz do ser, que deve ser apenas uma passagem... pois a alma deve fazer de Deus mesmo um lugar de passagem, sob esse nome e sob qualquer nome que seja" -- todos os nomes são apenas sítios e ocasiões de passagem para a vinda de Deus à nossa terra. | ||
| + | * A terceira via de Kearney vai além tanto da ontoteologia das teologias da eminência quanto da meontologia da teologia negativa, promovendo constantemente o " | ||
| + | * A primeira estratégia -- manter o " | ||
| + | * Na segunda abordagem -- minimizar o " | ||
| + | * O Uno neoplatônico não é alguém; pode-se chamá-lo personne no sentido francês de " | ||
| + | * Outra solução faz de Deus não o princípio pessoal na origem do mundo, mas o fim para o qual tenderia o movimento da história -- o que Husserl, tentativeamente, | ||
| + | * Kearney examina o possest de Nicolau de Cusa, tão próximo em aparência do may be, e esboça uma conclusão essencial: um Deus de radical transcendência, | ||
| + | * Esse Deus está muito próximo do Uno-Bem neoplatônico, | ||
| + | * A imagem da criança que diz não à mãe, tomando distância e se dando por isso um ser de posição e autoposição, | ||
| + | * A não-violência proclamada por Gandhi, como retraimento ou vazio de uma distância tomada que produziu a libertação como seu traço e resultado -- o ser finalmente libertado da Índia -- exemplifica vividamente esse paradoxo. | ||
| + | * As Bem-aventuranças evangélicas (Mateus 5) são a melhor ilustração desse "poder de não ter poder" | ||
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| + | **Poética do Possível** | ||
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| + | * O projeto é fazer emergir em nosso mundo refratário uma poética do possível, e Kearney examina precedentes filosóficos que possam ir ao encontro de seu propósito. | ||
| + | * A distinção aristotélica entre nous poietikos e nous pathetikos é examinada, mas o intelecto agente, enquanto universal anônimo, é uma pura abstração da mente -- " | ||
| + | * Nicolau de Cusa, embora mais útil por causa de seu possest, embota seu alcance ao projetar sobre Deus, sob o nome de possíveis, todos os seres da criação na forma de possíveis, diluindo a novidade radical do mundo num fenômeno de reduplicação -- o que recorda a crítica bergsoniana. | ||
| + | * O Schelling da Philosophie der Mythologie descobre um devir da divindade pela passagem, graças à liberdade, da essência à existência -- "Eu serei o que serei" --, mas Kearney rejeita a trans-descendência abissal em direção ao monstruoso e ao horrível. | ||
| + | * O tema recente do jogo divino ou do "jogo do ser", nos escritos influenciados por Heidegger, tem precedentes bíblicos no livro da Sabedoria, que diz que a Sabedoria "se regozijava diante dele" e " | ||
| + | * "Este motivo recorrente da Criação como 'jogo infantil' | ||
| + | * O Deus dançarino convida a entrar na pericórese de "um jogo escatológico do qual não somos nem os iniciadores nem os culminadores" | ||
| + | * "Se não podemos dominar o jogo divino do possível, podemos participar dele como um dom que nos é dado, uma graça que cura e capacita" | ||
| + | * O possível, entendido como jogo humano-divino, | ||
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| + | **Sobre o Deus das Pequenas Coisas** | ||
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| + | * A troca de Jesus com a mulher samaritana (João 4) é uma intervenção revolucionária: | ||
| + | * Jesus aponta para o enigma da Cruz, o mesmo enigma a que Paulo se refere em Filipenses ao falar do ato de " | ||
| + | * Esse Deus escatológico das pequenas coisas resiste à atribuição de plenitude absoluta habitualmente associada à divindade; fala-se antes de um " | ||
| + | * O Deus que renuncia à eminência não reivindica mais atributos, propriedades, | ||
| + | * O que a Cruz ensina, como kenosis, como despossessão de toda possível possessão, é que devemos passar a uma nova maneira de experimentar Deus além de Deus -- " | ||
| + | * O esvaziamento divino, operativo em Deus desde o início, não deve ser concebido como pura " | ||
| + | * Enquanto a religião busca representar Deus como ser de plenitude e determinação, | ||
| + | * É na medida em que a Cruz responde primariamente à fé em vez da religião que se pode dizer que ela testemunha um absoluto "além de Deus e dos deuses" | ||
| + | * A parábola do Juízo Final (Mateus 25) mostra que não é por ter ido ao templo ou recitado o credo que alguém é salvo, mas porque amou os últimos; o amor da fé escatológica remete a um vazio ativo -- não o vazio passivo da falta -- que diz: "Eu estou além do ser e dos seres para que o ser e os seres sejam" | ||
| + | * "Deus está com fome... Deus está nu... Deus está com sede" -- o que se fez aos últimos foi feito a Deus; o vazio divino se torna idêntico ao excesso divino num ato de total esquecimento e doação de si que permite aos outros ser, ser com um, ser uns com os outros. | ||
| + | * O ser pode ser reinterpretado, | ||
| + | * Uma escatologia da Cruz pode reabrir o monoteísmo ao politeísmo, | ||
| + | * " | ||
| + | * O ato kenótico de Deus não é concebido como uma plenitude prévia que se aniquila, mas como um auto-esvaziamento do Uno -- entendido como vazio ativo além do ser -- numa universo de entidades, nomes e plenitudes múltiplas: um nada positivo (néant actif) que cria todas as coisas, um sopro que dá vida ao ser. | ||
| + | * A ressurreição não deve ser lida como sinal de onipotência metafísica, | ||
| + | * O enigma da ressurreição leva a perguntar "O que é o real?" e "O que é a matéria?", | ||
| + | * Paulo responde ao enigma da ressurreição falando de um "corpo espiritual" | ||
| + | * Emprestando da noção budista do traço individual de alguém como " | ||
| + | * Paulo refere-se a isso como o "bom perfume" | ||
| + | * O ressuscitado se revela segundo duas representações aparentemente incompatíveis -- como ondas que atravessam portas e paredes e como presença maciça de um corpo tangível que senta e come com os discípulos e cujas feridas podem ser tocadas --, e o Cristo crucificado e ressuscitado permanece não uma solução mas uma função crítica permanente que coloca em dúvida os dogmatismos teístas e ateístas. | ||
| + | * O enigma da ressurreição nos convida a pensar o corpo -- e por extensão a matéria, a realidade e a individualidade -- de novas maneiras; o que se aplica a Jesus de modo especial aplica-se a todas as criaturas escatologicamente: | ||
| + | * O vazio da Cruz pode ser lido como sinal de um novo Deus, como convite a pensar o divino diferentemente -- não uma plenitude prévia que se esvazia, mas uma tentativa de repensar Deus como antes e além de todas as determinações; | ||
| + | * O eschaton é uma maneira de recuperar o proton que a religião institucionaliza em ritos e leis; a ressurreição escatológica pode ser interpretada como redenção da criação original, novo retorno ao começo -- o sempre de novo. | ||
| + | * A perspectiva escatológica reconecta cada pessoa única ao corpo maior da comunidade e da universalidade, | ||
| + | * O " | ||
| + | * A tensão entre o universal e o individual reaparece na famosa disputa entre Averróis e Tomás sobre o papel do " | ||
| + | * O Deus do Êxodo 3:15 que diz "Eu sou" é também e ao mesmo tempo um Deus que diz "Eu não sou ninguém" | ||
| + | * A perspectiva escatológica convida a repensar o nihil da criação divina não como nada passivo, mas como ato -- um ato que cria em si mesmo um espaço para o outro; o Deus além do ser cria o ser e deixa o ser ser. | ||
| + | * Uma escatologia da Cruz pode reabrir o monoteísmo ao politeísmo, | ||
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