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estudos:jaspers:jaspers-verdade-3545

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estudos:jaspers:jaspers-verdade-3545 [15/01/2026 20:13] – created - external edit 127.0.0.1estudos:jaspers:jaspers-verdade-3545 [17/01/2026 13:31] (current) mccastro
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 A questão da verdade é uma das mais estonteantes questões do filosofar. À medida que pensamos movidos por essa questão, o lampejo mágico da verdade torna-se obscurecido. A questão da verdade é uma das mais estonteantes questões do filosofar. À medida que pensamos movidos por essa questão, o lampejo mágico da verdade torna-se obscurecido.
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 CONFRONTADOS com essa confusão, imaginamos rapidamente a nós como tendo uma fundamentação segura: concebemos a verdade inequívoca localizada na validade das proposições elaboradas sob o apoio da experiência visual e da evidência lógica. A despeito de todas as sutilezas cépticas, não obstante encontramos os objetos das ciências metodologicamente purificadas. Através da nossa compreensão descobrimos a inteligibilidade compulsória e, a ela correspondendo, o assentimento de fato universal aos seus resultados da parte de cada ser racional que as compreende. Há uma esfera de exatidão estabelecida para a consciência-em-geral, uma esfera estreita mas vagamente limitada de verdade válida. A nossa altamente desenvolvida introvisão das conexões lógicas entre os significados das proposições — um campo de investigação científica tanto mais intensivo em proporção quanto cada vez mais mostra-se sujeito a técnicas matemáticas (na logística) — mesmo assim sempre acha que o rigor lógico cessa quando nos dirigimos aos fatos propriamente ditos. A verdade está nos pressupostos desta análise lógica; a verdade se torna real apenas pela força de seu conteúdo. CONFRONTADOS com essa confusão, imaginamos rapidamente a nós como tendo uma fundamentação segura: concebemos a verdade inequívoca localizada na validade das proposições elaboradas sob o apoio da experiência visual e da evidência lógica. A despeito de todas as sutilezas cépticas, não obstante encontramos os objetos das ciências metodologicamente purificadas. Através da nossa compreensão descobrimos a inteligibilidade compulsória e, a ela correspondendo, o assentimento de fato universal aos seus resultados da parte de cada ser racional que as compreende. Há uma esfera de exatidão estabelecida para a consciência-em-geral, uma esfera estreita mas vagamente limitada de verdade válida. A nossa altamente desenvolvida introvisão das conexões lógicas entre os significados das proposições — um campo de investigação científica tanto mais intensivo em proporção quanto cada vez mais mostra-se sujeito a técnicas matemáticas (na logística) — mesmo assim sempre acha que o rigor lógico cessa quando nos dirigimos aos fatos propriamente ditos. A verdade está nos pressupostos desta análise lógica; a verdade se torna real apenas pela força de seu conteúdo.
  
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 Nesses limites fala uma outra verdade. Um significado peculiar de verdade emerge de cada um dos modos da realidade abrangente que somos, não apenas da consciência-em-geral, que é o locus da introvisão necessária, mas da existência, do espírito e também da Existenz. Nesses limites fala uma outra verdade. Um significado peculiar de verdade emerge de cada um dos modos da realidade abrangente que somos, não apenas da consciência-em-geral, que é o locus da introvisão necessária, mas da existência, do espírito e também da Existenz.
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 COMO O CONHECIMENTO e a volição ao nível da existência, a verdade não tem nem validez universal nem certeza compulsória. COMO O CONHECIMENTO e a volição ao nível da existência, a verdade não tem nem validez universal nem certeza compulsória.
  
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 O que eu mesmo sou, portanto, sempre permanece um problema, e não obstante a certeza que sustenta e realiza tudo o mais. Meu eu autêntico não pode nunca tornar-se uma posse minha; permanece minha potencialidade. Se eu o conhecesse, não seria mais ele, dado que me torno interiormente consciente de mim mesmo na existência temporal apenas como uma tarefa. A verdade da Existenz pode, portanto, permanecer simples e não-condicionalmente em si mesma, sem precisar conhecer a si mesma. Nas mais poderosas Existenzen, sente-se esta parcimônia e esta resignação — que não alcança nenhuma imagem, nenhuma representação visível de sua própria natureza. O que eu mesmo sou, portanto, sempre permanece um problema, e não obstante a certeza que sustenta e realiza tudo o mais. Meu eu autêntico não pode nunca tornar-se uma posse minha; permanece minha potencialidade. Se eu o conhecesse, não seria mais ele, dado que me torno interiormente consciente de mim mesmo na existência temporal apenas como uma tarefa. A verdade da Existenz pode, portanto, permanecer simples e não-condicionalmente em si mesma, sem precisar conhecer a si mesma. Nas mais poderosas Existenzen, sente-se esta parcimônia e esta resignação — que não alcança nenhuma imagem, nenhuma representação visível de sua própria natureza.
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 ESTA RESUMIDA APRESENTAÇÃO mostra a pluralidade de significados da verdade. Passaremos, agora, a comparar estes significados; cada um de per si, visto sob esta luz, tem a sua fonte adequada num modo particular da realidade abrangente. ESTA RESUMIDA APRESENTAÇÃO mostra a pluralidade de significados da verdade. Passaremos, agora, a comparar estes significados; cada um de per si, visto sob esta luz, tem a sua fonte adequada num modo particular da realidade abrangente.
  
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 Na existenz há fé e desespero. Oposto a ambos, o desejo pela paz da eternidade, em que o desespero é impossível e a fé se torna uma visão, vale dizer, a presença perfeita da perfeita realidade. Na existenz há fé e desespero. Oposto a ambos, o desejo pela paz da eternidade, em que o desespero é impossível e a fé se torna uma visão, vale dizer, a presença perfeita da perfeita realidade.
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 ATÉ AQUI, no nosso exame relativo aos vários modos do significado da verdade, os diferentes modos simplesmente postam-se lado a lado e em lugar algum encontramos a verdade em si mesma. ATÉ AQUI, no nosso exame relativo aos vários modos do significado da verdade, os diferentes modos simplesmente postam-se lado a lado e em lugar algum encontramos a verdade em si mesma.
  
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 Esta situação básica da existência temporal torna possível a efetividade da exceção como verdade original em oposição à universalidade fixa — e exige a autoridade como a verdade da realidade abrangente em forma histórica, em oposição à pluralidade arbitrária da intenção e da vontade. A exceção e a autoridade precisam, no momento, ser esclarecidas. Esta situação básica da existência temporal torna possível a efetividade da exceção como verdade original em oposição à universalidade fixa — e exige a autoridade como a verdade da realidade abrangente em forma histórica, em oposição à pluralidade arbitrária da intenção e da vontade. A exceção e a autoridade precisam, no momento, ser esclarecidas.
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 O HOMEM que é uma exceção é uma exceção, primeiramente, à existência universal, quer apareça sob a forma de ethos, de instituições e de leis específicas do seu meio, ou de saúde do corpo, ou de qualquer outra forma de normalidade. Em segundo lugar, é ele uma exceção ao que é universalmente válido, imperioso e correto pensamento da consciência-em-geral. Finalmente, é ele uma exceção em relação ao espírito, a que pertence como membro de um todo. Ser uma exceção é efetivamente irromper fora de todas as espécies de universalidade. O HOMEM que é uma exceção é uma exceção, primeiramente, à existência universal, quer apareça sob a forma de ethos, de instituições e de leis específicas do seu meio, ou de saúde do corpo, ou de qualquer outra forma de normalidade. Em segundo lugar, é ele uma exceção ao que é universalmente válido, imperioso e correto pensamento da consciência-em-geral. Finalmente, é ele uma exceção em relação ao espírito, a que pertence como membro de um todo. Ser uma exceção é efetivamente irromper fora de todas as espécies de universalidade.
  
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 A exceção genuína, portanto, não é uma exceção arbitrária. Isto faria com que fosse um mero apóstata. Antes, em sua existência temporal está ele inseparavelmente vinculado à verdade da realidade abrangente. O que foi a princípio tomado em situações extremas como o mais alheio e, por conseguinte, como uma exceção, somos nós mesmos — é qualquer um na medida em que for um ser histórico, e ninguém na medida em que toda verdadeira exceção acha-se relacionada com o universal que a elucida. A verdade é sempre apreendida em abertura à exceção e com vistas a ela, mas de tal modo que aquele que apreende não deseja ser uma exceção, subordinando-se ao universal; ele aquiesce em ser o universal, sabendo de si mesmo que é desimportante em face do sacrifício feito pela exceção. A exceção genuína, portanto, não é uma exceção arbitrária. Isto faria com que fosse um mero apóstata. Antes, em sua existência temporal está ele inseparavelmente vinculado à verdade da realidade abrangente. O que foi a princípio tomado em situações extremas como o mais alheio e, por conseguinte, como uma exceção, somos nós mesmos — é qualquer um na medida em que for um ser histórico, e ninguém na medida em que toda verdadeira exceção acha-se relacionada com o universal que a elucida. A verdade é sempre apreendida em abertura à exceção e com vistas a ela, mas de tal modo que aquele que apreende não deseja ser uma exceção, subordinando-se ao universal; ele aquiesce em ser o universal, sabendo de si mesmo que é desimportante em face do sacrifício feito pela exceção.
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 À MEDIDA QUE penetramos na área da verdade encontramos no seu seio efetividade concreta, encontramos exceção e autoridade. A exceção questiona todas as coisas, é surpreendente e fascinante. A autoridade é a plenitude que dá apoio, que protege e que inspira confiança. À MEDIDA QUE penetramos na área da verdade encontramos no seu seio efetividade concreta, encontramos exceção e autoridade. A exceção questiona todas as coisas, é surpreendente e fascinante. A autoridade é a plenitude que dá apoio, que protege e que inspira confiança.
  
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 Não obstante, ao filosofar posso explicar como a autoridade declina e gradativamente perde o seu poder. A autoridade se torna não-verdadeira quando esses modos individuais da verdade separam o que deve existir em conjunto — existência, certeza imperiosa ou espírito — e tenta tornar-se autônoma, usurpando a autoridade para eles próprios; quando ela se torna um mero poder em existência sem vivificar todas as fontes de verdade; quando pretende a validade meramente por virtude da posição dos indivíduos singularmente considerados que não têm nenhum poder neste mundo, que não fazem sacrifícios e não assumem riscos necessários para vencer e para manter a autoridade; quando eu abro mão da liberdade da eu-idade e à força de uma suposta introvisão (insight) "livremente renuncio à minha liberdade"; quando atuo em obediência impensada em iugar de me entregar às profundidades da autoridade. Não obstante, ao filosofar posso explicar como a autoridade declina e gradativamente perde o seu poder. A autoridade se torna não-verdadeira quando esses modos individuais da verdade separam o que deve existir em conjunto — existência, certeza imperiosa ou espírito — e tenta tornar-se autônoma, usurpando a autoridade para eles próprios; quando ela se torna um mero poder em existência sem vivificar todas as fontes de verdade; quando pretende a validade meramente por virtude da posição dos indivíduos singularmente considerados que não têm nenhum poder neste mundo, que não fazem sacrifícios e não assumem riscos necessários para vencer e para manter a autoridade; quando eu abro mão da liberdade da eu-idade e à força de uma suposta introvisão (insight) "livremente renuncio à minha liberdade"; quando atuo em obediência impensada em iugar de me entregar às profundidades da autoridade.
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 EM SUA EFETIVIDADE HISTÓRICA, a exceção e a autoridade são a insondável realidade abrangente. O que revelam parece sem sentido e censurável à mera compreensão: a verdade una e a natureza humana una não existem; a verdade, para os homens, existe no tempo e é, por conseguinte, histórica, — portanto uma tarefa continuamente ameaçada. EM SUA EFETIVIDADE HISTÓRICA, a exceção e a autoridade são a insondável realidade abrangente. O que revelam parece sem sentido e censurável à mera compreensão: a verdade una e a natureza humana una não existem; a verdade, para os homens, existe no tempo e é, por conseguinte, histórica, — portanto uma tarefa continuamente ameaçada.
  
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 4. Ambas contêm a verdade que escapa à configuração num objeto observável e cognoscível. Se são objetivamente construídas, como um princípio de dedução racional, a exceção e a autoridade são constringidas, escamoteadas da sua vida e da sua verdade. Imediatamente as perco se as constituo como objetos do meu planejamento e da minha ação intencionais. As palavras "exceção" e "autoridade" parecem denotar fenômenos sem ambiguidade. Mas o significado destas palavras se refere a um transcendente em que o fundamento da verdade que abrange todas as coisas numa única se torna presente. Nem a poesia nem a filosofia dominam esta verdade. A poesia toca a fronteira em que aquilo a que dá forma não é a derradeira interioridade com que está realmente preocupada. A filosofia toca a fronteira a que o seu pensamento nunca é idêntico ao ser da verdade em si mesma, embora a procura da verdade seja o objetivo derradeiro do filosofar. 4. Ambas contêm a verdade que escapa à configuração num objeto observável e cognoscível. Se são objetivamente construídas, como um princípio de dedução racional, a exceção e a autoridade são constringidas, escamoteadas da sua vida e da sua verdade. Imediatamente as perco se as constituo como objetos do meu planejamento e da minha ação intencionais. As palavras "exceção" e "autoridade" parecem denotar fenômenos sem ambiguidade. Mas o significado destas palavras se refere a um transcendente em que o fundamento da verdade que abrange todas as coisas numa única se torna presente. Nem a poesia nem a filosofia dominam esta verdade. A poesia toca a fronteira em que aquilo a que dá forma não é a derradeira interioridade com que está realmente preocupada. A filosofia toca a fronteira a que o seu pensamento nunca é idêntico ao ser da verdade em si mesma, embora a procura da verdade seja o objetivo derradeiro do filosofar.
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 QUANDO SE TENHA votado à verdade racionalmente cognoscível na forma da ciência concreta — quando se tem imaginado, além do mais, o significado da verdade em que efetivamente já se viveu, dentro dos modos da realidade abrangente — e quando, finalmente, se tem percebido a forma da verdade na exceção e na autoridade, está-se caminhando, a passos regulares, de volta à realidade. QUANDO SE TENHA votado à verdade racionalmente cognoscível na forma da ciência concreta — quando se tem imaginado, além do mais, o significado da verdade em que efetivamente já se viveu, dentro dos modos da realidade abrangente — e quando, finalmente, se tem percebido a forma da verdade na exceção e na autoridade, está-se caminhando, a passos regulares, de volta à realidade.
  
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 Saber o que seja razão, realizando-a, tem sido sempre e sempre será a tarefa específica da filosofia. Saber o que seja razão, realizando-a, tem sido sempre e sempre será a tarefa específica da filosofia.
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 A CARACTERÍSTICA BÁSICA da razão é a vontade de unidade. Mas tudo está em saber-se em que consiste tal unidade. É decisivo para a verdade que a unidade seja capturada como una, única, uma unidade efetiva, e não como uma verdade que ainda deixe alguma coisa fora dela. Em toda captação prematura e parcial da unidade, nunca se atinge ou já se perdeu a verdade, A CARACTERÍSTICA BÁSICA da razão é a vontade de unidade. Mas tudo está em saber-se em que consiste tal unidade. É decisivo para a verdade que a unidade seja capturada como una, única, uma unidade efetiva, e não como uma verdade que ainda deixe alguma coisa fora dela. Em toda captação prematura e parcial da unidade, nunca se atinge ou já se perdeu a verdade,
  
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 A razão destrói a estreiteza da pseudo-verdade, dissolve o fanatismo e não permite qualquer confortável segurança baseada tanto no sentimento quanto no entendimento. A razão é "misticismo para o entendimento". Não obstante, desenvolve todas as possibilidades do entendimento a fim de fazer com que ela própria, a razão, seja comunicável. A razão destrói a estreiteza da pseudo-verdade, dissolve o fanatismo e não permite qualquer confortável segurança baseada tanto no sentimento quanto no entendimento. A razão é "misticismo para o entendimento". Não obstante, desenvolve todas as possibilidades do entendimento a fim de fazer com que ela própria, a razão, seja comunicável.
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 SE, AO FILOSOFAR, DESEJO um conteúdo conhecido a que possa me agarrar, se pretendo ter conhecimento em lugar de fé, receitas técnicas para tudo em lugar de uma Existenz baseada no todo de todos os modos da realidade abrangente, se desejo instruções psicoterapêuticas em lugar da liberdade da eu-idade — da personalidade — então a filosofia me deixa ao desamparo. Ela fala somente onde o conhecimento e a técnica fracassam. Ela aponta, mas não dá. Move-se com raios de luz fuminosos, mas nada produz. SE, AO FILOSOFAR, DESEJO um conteúdo conhecido a que possa me agarrar, se pretendo ter conhecimento em lugar de fé, receitas técnicas para tudo em lugar de uma Existenz baseada no todo de todos os modos da realidade abrangente, se desejo instruções psicoterapêuticas em lugar da liberdade da eu-idade — da personalidade — então a filosofia me deixa ao desamparo. Ela fala somente onde o conhecimento e a técnica fracassam. Ela aponta, mas não dá. Move-se com raios de luz fuminosos, mas nada produz.
  
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