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estudos:jaspers:jaspers-realidade

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 Os homens acreditam que compreendem sua própria existência realisticamente, seja em termos de fatos econômicos, ou de ação diplomática e política, dos diversos sistemas sociais, dos princípios espirituais, etc. Ao declararem certas conexões como básicas e fazendo originar o resto destas conexões como superestruturas secundárias, os homens são pegos numa consciência de realidade que prontamente se decompõe à luz do conhecimento crítico. Todos estes objetos de investigação são fatores indubitáveis; mas, mais uma vez, a realidade "autêntica" não pode ser com eles encontrada, seja onde for. Nem os objetos investigáveis nem a soma total ou outro qualquer arranjo deles abarcam nunca a totalidade. Os homens acreditam que compreendem sua própria existência realisticamente, seja em termos de fatos econômicos, ou de ação diplomática e política, dos diversos sistemas sociais, dos princípios espirituais, etc. Ao declararem certas conexões como básicas e fazendo originar o resto destas conexões como superestruturas secundárias, os homens são pegos numa consciência de realidade que prontamente se decompõe à luz do conhecimento crítico. Todos estes objetos de investigação são fatores indubitáveis; mas, mais uma vez, a realidade "autêntica" não pode ser com eles encontrada, seja onde for. Nem os objetos investigáveis nem a soma total ou outro qualquer arranjo deles abarcam nunca a totalidade.
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 Embora a realidade pareça retroceder continuamente à medida que adquirimos um conhecimento determinado, de modo que o que a realidade seja nunca possa, em princípio, ser respondido pela investigação crítica, não obstante isto - os fatos individuais parecem permanecer com oreais. Um fato - diz-se - ou existe ou não existe; eis aqui alguma coisa inabalável; aqui pontos-de-vista mutuamente opostos e até mesmo hostis devem reconhecer alguma coisa de comum a todos eles; o que existe, o que aconteceu, o que foi feito, deve sempre ser conhecido, ou, pelo menos, cognoscível, a alguém. Mas ¡isto é um erro. Em primeiro lugar, cada coisa individual efetiva é inexaurível e, em segundo lugar, cada fato está sujeito à interpretação não-limitada e à re-interpretação. Se se deseja captar um fato de uma forma determinada, tem-se de construí-lo. "Todos os fatos são já teorias." Cada fato isolado permanece inexaurível e sujeito a interpretação diversa complementar, mesmo quando se tenha posto de lado toda a ilusão, toda a falsidade patente, ioda a ofuscação, toda a supressão e todo o sigilo. Embora a realidade pareça retroceder continuamente à medida que adquirimos um conhecimento determinado, de modo que o que a realidade seja nunca possa, em princípio, ser respondido pela investigação crítica, não obstante isto - os fatos individuais parecem permanecer com oreais. Um fato - diz-se - ou existe ou não existe; eis aqui alguma coisa inabalável; aqui pontos-de-vista mutuamente opostos e até mesmo hostis devem reconhecer alguma coisa de comum a todos eles; o que existe, o que aconteceu, o que foi feito, deve sempre ser conhecido, ou, pelo menos, cognoscível, a alguém. Mas ¡isto é um erro. Em primeiro lugar, cada coisa individual efetiva é inexaurível e, em segundo lugar, cada fato está sujeito à interpretação não-limitada e à re-interpretação. Se se deseja captar um fato de uma forma determinada, tem-se de construí-lo. "Todos os fatos são já teorias." Cada fato isolado permanece inexaurível e sujeito a interpretação diversa complementar, mesmo quando se tenha posto de lado toda a ilusão, toda a falsidade patente, ioda a ofuscação, toda a supressão e todo o sigilo.
  
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 Até o presente momento, o nosso filosofar vem apenas dissipando as dificuldades. Na base deste filosofar crítico voltamo-nos para outra espécie de filosofar, no qual encontramos nosso caminho de volta à realidade. Estamos procurando um filosofar que comece por atender a iodos os possíveis modos de realidade, isto é, que deseje captar e conhecer estes modos sem limite, mas transcendê-los rumo à realidade em si mesma. E aqui é que está a dificuldade! Aqui o filosofar deve provar-se a si mesmo. Como isto se realiza pode ser mostrado apenas no processo concreto do próprio filosofar. Ã falta de espaço, os exemplos devem bastar. Vou escolher o pensamento abstrato, especulativo - no sentido estrito - e tentarei fazer com que o seu significado seja evidente meramente por meio de indicação: Até o presente momento, o nosso filosofar vem apenas dissipando as dificuldades. Na base deste filosofar crítico voltamo-nos para outra espécie de filosofar, no qual encontramos nosso caminho de volta à realidade. Estamos procurando um filosofar que comece por atender a iodos os possíveis modos de realidade, isto é, que deseje captar e conhecer estes modos sem limite, mas transcendê-los rumo à realidade em si mesma. E aqui é que está a dificuldade! Aqui o filosofar deve provar-se a si mesmo. Como isto se realiza pode ser mostrado apenas no processo concreto do próprio filosofar. Ã falta de espaço, os exemplos devem bastar. Vou escolher o pensamento abstrato, especulativo - no sentido estrito - e tentarei fazer com que o seu significado seja evidente meramente por meio de indicação:
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 A REALIDADE AUTÊNTICA é o ser que não pode ser pensado em termos de possibilidade. Que significa isto? A REALIDADE AUTÊNTICA é o ser que não pode ser pensado em termos de possibilidade. Que significa isto?
  
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 Dado que a realidade como pensamento afasta-se de nós permanecendo, não obstante, presente como o condutor que tudo engloba, e dado que a sua presença consiste no que nenhum pensamento pode transformar em possibilidade, o pensamento filosófico não significa que esvaziemos a inconcebilidade da realidade autêntica, mas que a intensifiquemos. A força do real é tornada palpável pelo colapso do pensamento. Dado que a realidade como pensamento afasta-se de nós permanecendo, não obstante, presente como o condutor que tudo engloba, e dado que a sua presença consiste no que nenhum pensamento pode transformar em possibilidade, o pensamento filosófico não significa que esvaziemos a inconcebilidade da realidade autêntica, mas que a intensifiquemos. A força do real é tornada palpável pelo colapso do pensamento.
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 O pensamento especulativo deve ser defendido contra a compreensão incorreta: O pensamento especulativo deve ser defendido contra a compreensão incorreta:
  
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 2. A história humana não tem qualquer situação-final possível, nenhuma integralidade duradoura, nenhum objetivo. A qualquer momento é possível uma ultimação que seja, ao mesmo tempo, fim e declínio. A grandeza e a essência do homem colocam-se sob a condição do seu momento. A realidade se revela apenas à transição - e assim procede não no momento arbitrário de uma mera ocorrência, mas naquele momento pleno que é uma presença irrepetível, não-intermutável da própria realidade mesmo em sua evanescência, e que foi decidido para que nela se inserisse a Existenz, e em seu crepúsculo também para o espectador que busca esta inconcebível realidade com o seu entendimento. 2. A história humana não tem qualquer situação-final possível, nenhuma integralidade duradoura, nenhum objetivo. A qualquer momento é possível uma ultimação que seja, ao mesmo tempo, fim e declínio. A grandeza e a essência do homem colocam-se sob a condição do seu momento. A realidade se revela apenas à transição - e assim procede não no momento arbitrário de uma mera ocorrência, mas naquele momento pleno que é uma presença irrepetível, não-intermutável da própria realidade mesmo em sua evanescência, e que foi decidido para que nela se inserisse a Existenz, e em seu crepúsculo também para o espectador que busca esta inconcebível realidade com o seu entendimento.
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 3. A realidade do mundo não se torna uma totalidade à qual o homem poderia tornar-se idêntico e, assim, conseguir o seu ser autêntico. Quando construída como mundo, a realidade é sempre perdida. As ideias de perfeição visando o todo apenas exibem uma harmonia ilusória, sejam sob a forma de um ordenamento definitivo de uma razão transparente, ou do todo de uma vida universal, da emergência contínua da justiça advinda do conflito, ou de séries cíclicas, de história de uma queda e da subsequente necessária restauração, ou concebida de outro modo. 3. A realidade do mundo não se torna uma totalidade à qual o homem poderia tornar-se idêntico e, assim, conseguir o seu ser autêntico. Quando construída como mundo, a realidade é sempre perdida. As ideias de perfeição visando o todo apenas exibem uma harmonia ilusória, sejam sob a forma de um ordenamento definitivo de uma razão transparente, ou do todo de uma vida universal, da emergência contínua da justiça advinda do conflito, ou de séries cíclicas, de história de uma queda e da subsequente necessária restauração, ou concebida de outro modo.
  
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 3. Quando o homem se torna consciente de sua própria eu-idade (selfhood) como origem, também se torna consciente, imediatamente, da fragmentação, primeiramente em sua incapacidade de realizar a sua eu-idade completamente e de dar unidade à sua existência e, em segundo lugar, na pluralidade de verdades das Existenzen o que se deparam, umas frente às outras. E, ainda assim, a característica essencial da Existenz em si mesma é o seu desejo de seguir avante em comunicação com o Uno que vincula até mesmo os mais distantes indivíduos e a que todo mundo pertence. 3. Quando o homem se torna consciente de sua própria eu-idade (selfhood) como origem, também se torna consciente, imediatamente, da fragmentação, primeiramente em sua incapacidade de realizar a sua eu-idade completamente e de dar unidade à sua existência e, em segundo lugar, na pluralidade de verdades das Existenzen o que se deparam, umas frente às outras. E, ainda assim, a característica essencial da Existenz em si mesma é o seu desejo de seguir avante em comunicação com o Uno que vincula até mesmo os mais distantes indivíduos e a que todo mundo pertence.
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 Cada modo de fragmentação do ser é uma exigência sobre nós para que não vejamos a realidade em si mesma nos fragmentos. O impulso da nossa razão rumo à unidade conta como realidade genuína apenas o que é verificado na unidade, não na dispersão ou nessas pluralidades preliminares. Um Deus, um mundo, uma totalidade de fenômenos naturais, uma verdade, a unidade das ciências, a unicidade histórica no mundo onde algo é a nós essencial - estas são exigências que devem ser satisfeitas, ou do contrário efetivamente não só resulta o caos como as partes isoladas parecem perder a sua realidade. Cada modo de fragmentação do ser é uma exigência sobre nós para que não vejamos a realidade em si mesma nos fragmentos. O impulso da nossa razão rumo à unidade conta como realidade genuína apenas o que é verificado na unidade, não na dispersão ou nessas pluralidades preliminares. Um Deus, um mundo, uma totalidade de fenômenos naturais, uma verdade, a unidade das ciências, a unicidade histórica no mundo onde algo é a nós essencial - estas são exigências que devem ser satisfeitas, ou do contrário efetivamente não só resulta o caos como as partes isoladas parecem perder a sua realidade.
  
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 2. O caminho que o filosofar percorre rumo à realidade, ilustrado nestes exemplos, constitui uma espécie de pensamento que se utiliza das categorias a fim de ir mais adiante que as categorias. As categorias - como unidade, possibilidade, etc. - são as formas determinadas de objetos para nós. Ao transcender tais categorias parece que fazemos surgir como por encanto a realidade. No nosso pensamento, gostaríamos de continuar até ao ponto em que o pensamento fosse idêntico à realidade: mas, à medida que assim procedemos experimentamos o estouro do pensamento recuando da realidade. À medida que o pensar transcende-se a si mesmo na experiência deste estouro, pode fazer com que a realidade se torne presente àquele que pensa de uma maneira indireta e insubstituível. 2. O caminho que o filosofar percorre rumo à realidade, ilustrado nestes exemplos, constitui uma espécie de pensamento que se utiliza das categorias a fim de ir mais adiante que as categorias. As categorias - como unidade, possibilidade, etc. - são as formas determinadas de objetos para nós. Ao transcender tais categorias parece que fazemos surgir como por encanto a realidade. No nosso pensamento, gostaríamos de continuar até ao ponto em que o pensamento fosse idêntico à realidade: mas, à medida que assim procedemos experimentamos o estouro do pensamento recuando da realidade. À medida que o pensar transcende-se a si mesmo na experiência deste estouro, pode fazer com que a realidade se torne presente àquele que pensa de uma maneira indireta e insubstituível.
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 3. É uma experiência fundamental o fato de que a realidade não "exista" simplesmente. Do momento em que medimos pelos padrões do que é para nós concebível, de acabamento e de integralidade, de adequação e de duração, há sempre alguma coisa errada com o modo por que a realidade se apresenta a nós. É como se tivéssemos caído da realidade e a ela retornado tão somente por meio da verdade. 3. É uma experiência fundamental o fato de que a realidade não "exista" simplesmente. Do momento em que medimos pelos padrões do que é para nós concebível, de acabamento e de integralidade, de adequação e de duração, há sempre alguma coisa errada com o modo por que a realidade se apresenta a nós. É como se tivéssemos caído da realidade e a ela retornado tão somente por meio da verdade.
  
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 Embora a paz só possa ser encontrada na realidade, esta realidade é audível por mim no tempo somente na linguagem da finitude. A forma em que eu penso acerca da realidade em tempos de extrema necessidade, numa situação fronteiriça, é uma característica básica da minha própria realidade. A satisfação básica, fundamental, só pode ser atingida na própria realidade, infinita e perfeita, a partir da qual e na qual tanto nós como todas as outras coisas para nós existem. Mas estamos conscientes desta realidade sempre tão somente por meio dos surgimentos nas situações históricas concretas. Embora a paz só possa ser encontrada na realidade, esta realidade é audível por mim no tempo somente na linguagem da finitude. A forma em que eu penso acerca da realidade em tempos de extrema necessidade, numa situação fronteiriça, é uma característica básica da minha própria realidade. A satisfação básica, fundamental, só pode ser atingida na própria realidade, infinita e perfeita, a partir da qual e na qual tanto nós como todas as outras coisas para nós existem. Mas estamos conscientes desta realidade sempre tão somente por meio dos surgimentos nas situações históricas concretas.
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 TODAS AS EXPERIÊNCIAS que analisamos convergem: em pensamento existencial tomo decisões filosóficas fundamentais segundo a maneira como apreendo a realidade: TODAS AS EXPERIÊNCIAS que analisamos convergem: em pensamento existencial tomo decisões filosóficas fundamentais segundo a maneira como apreendo a realidade:
  
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 Daí, também, a transcendência significar tudo para nós, se cada uma das coisas existentes que tenham ser autêntico para nós o tenham somente em relação com a transcendência ou como um sinal para a transcendência. Daí, também, a transcendência significar tudo para nós, se cada uma das coisas existentes que tenham ser autêntico para nós o tenham somente em relação com a transcendência ou como um sinal para a transcendência.
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 NESTA ESPÉCIE DE FILOSOFAR nossa averiguação da realidade é expressa, mas não ainda alcançada, em pensamento. A filosofia parece ser uma ineficaz e desapontadora espécie de pensamento; em lugar algum oferece ela a "autêntica" realidade. Porquanto pressupõe que, filosofando, aquele que pensa deseja apenas elevar a claridade e a fidedigna continuidade do que traz consigo e possa ser, e não que deseje obter alguma coisa que nunca soube e que por si mesmo não poderia ser. O último degrau no retorno à realidade deve ser galgado por cada pessoa ela mesma, segundo maneiras que não podem ser antecipadas. Tudo que podemos fazer filosoficamente é mostrar a maneira pela qual se pode enfocar a realidade através da verdade e apreender o ser, que sempre está presente e, ainda assim, nunca manifesto geralmente. NESTA ESPÉCIE DE FILOSOFAR nossa averiguação da realidade é expressa, mas não ainda alcançada, em pensamento. A filosofia parece ser uma ineficaz e desapontadora espécie de pensamento; em lugar algum oferece ela a "autêntica" realidade. Porquanto pressupõe que, filosofando, aquele que pensa deseja apenas elevar a claridade e a fidedigna continuidade do que traz consigo e possa ser, e não que deseje obter alguma coisa que nunca soube e que por si mesmo não poderia ser. O último degrau no retorno à realidade deve ser galgado por cada pessoa ela mesma, segundo maneiras que não podem ser antecipadas. Tudo que podemos fazer filosoficamente é mostrar a maneira pela qual se pode enfocar a realidade através da verdade e apreender o ser, que sempre está presente e, ainda assim, nunca manifesto geralmente.
  
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 Somente atentando-se para os indícios do ser pode-se perceber esta realidade inquestionável; é como se, no ato de atentar-se, ocorresse uma transformação: não apenas na transparência, mas na necessidade não-fundamentada que não fosse mais o oposto da possibilidade. Somente atentando-se para os indícios do ser pode-se perceber esta realidade inquestionável; é como se, no ato de atentar-se, ocorresse uma transformação: não apenas na transparência, mas na necessidade não-fundamentada que não fosse mais o oposto da possibilidade.
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 A linguagem da realidade transcendente é uma objetividade que tem uma origem incomparável e não-originável: A linguagem da realidade transcendente é uma objetividade que tem uma origem incomparável e não-originável:
  
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 Para a filosofia os sinais são a forma da realidade transcendente no mundo. Tudo no mundo pode ser sinal e nada é, necessariamente, um sinal para o entendimento. O sina! não pode ser interpretado por meio de qualquer outra coisa. Mas cessa de ser um sinal e se torna uma realidade empírica se exigir que seja percebido como uma forma separada e tangível de sacralidade que se isola no mundo. Para a filosofia os sinais são a forma da realidade transcendente no mundo. Tudo no mundo pode ser sinal e nada é, necessariamente, um sinal para o entendimento. O sina! não pode ser interpretado por meio de qualquer outra coisa. Mas cessa de ser um sinal e se torna uma realidade empírica se exigir que seja percebido como uma forma separada e tangível de sacralidade que se isola no mundo.
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 2. Filosoficamente, a transcendência pode sempre ser entendida historicamente. Significa isto, todavia, que a sua aparência objetiva não pode tornar-se válida e verdadeira para todos os homens. Para a fé revelada da religião, por outro lado, a transcendência acha-se contida numa forma histórica, única forma que é objetiva para todos, exclusivamente válida, e a condição da salvação de cada um. 2. Filosoficamente, a transcendência pode sempre ser entendida historicamente. Significa isto, todavia, que a sua aparência objetiva não pode tornar-se válida e verdadeira para todos os homens. Para a fé revelada da religião, por outro lado, a transcendência acha-se contida numa forma histórica, única forma que é objetiva para todos, exclusivamente válida, e a condição da salvação de cada um.
  
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 A unidade não mais existe de uma maneira frágil, mas materialmente e de modo perfeito; é de encontrar-se nesta forma da igreja única, visível e sagrada e na satisfação absoluta ganha em participar dela. A unidade não mais existe de uma maneira frágil, mas materialmente e de modo perfeito; é de encontrar-se nesta forma da igreja única, visível e sagrada e na satisfação absoluta ganha em participar dela.
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 JUNTAMENTE COM esta caracterização da religião em termos de sua diferença da filosofia - mesmo se esta caracterização não estivesse limitada a umas poucas características e mesmo que estas fossem completamente desenvolvidas - e em presença da monumental realidade histórica da religião, formulam-se perguntas que levantam dúvida sobre o significado e o poder do filosofar por causa de sua distância da realidade. JUNTAMENTE COM esta caracterização da religião em termos de sua diferença da filosofia - mesmo se esta caracterização não estivesse limitada a umas poucas características e mesmo que estas fossem completamente desenvolvidas - e em presença da monumental realidade histórica da religião, formulam-se perguntas que levantam dúvida sobre o significado e o poder do filosofar por causa de sua distância da realidade.
  
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 A esta pergunta podemos responder que, quando se fala acerca de religião do ponto de vista da filosofia, ou acerca de filosofia ao ponto de vista da religião, deve parecer ao objeto que a caracterização é inadequada. Filosofia e religião são compreendidas apenas por aqueles que são, em virtude de sua respectiva fé, indivíduos filosóficos ou religiosos. Seria provavelmente também um erro supor-se que uma pessoa que passa de uma espécie de fé a outra deve, assim, compreender a ambas porque experimentou, realmente, a ambas. Ao contrário, é de suspeitar-se que um filósofo que venha a uma fé religiosa nunca se engajou no filosofar autêntico. O que acontece a um crente religioso que vem a filosofar, todavia, é talvez uma questão de tensão dentro dessa mesma fé. A esta pergunta podemos responder que, quando se fala acerca de religião do ponto de vista da filosofia, ou acerca de filosofia ao ponto de vista da religião, deve parecer ao objeto que a caracterização é inadequada. Filosofia e religião são compreendidas apenas por aqueles que são, em virtude de sua respectiva fé, indivíduos filosóficos ou religiosos. Seria provavelmente também um erro supor-se que uma pessoa que passa de uma espécie de fé a outra deve, assim, compreender a ambas porque experimentou, realmente, a ambas. Ao contrário, é de suspeitar-se que um filósofo que venha a uma fé religiosa nunca se engajou no filosofar autêntico. O que acontece a um crente religioso que vem a filosofar, todavia, é talvez uma questão de tensão dentro dessa mesma fé.
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 As consequências dessa introvisão (insight) é que, dentro do ponto de vista filosófico, desenvolve-se uma posição que parece paradoxal quando medida pelo pensamento de uma única verdade universalmente válida: As consequências dessa introvisão (insight) é que, dentro do ponto de vista filosófico, desenvolve-se uma posição que parece paradoxal quando medida pelo pensamento de uma única verdade universalmente válida:
  
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 c) Nisto, a filosofia pressupõe que o seu pensamento, que parece por em perigo a religião, não pode na verdade ser uma ameaça a uma autêntica religião. O que não enfrenta o pensamento não pode ser genuíno; nem pode sê-lo o que recusa-se a ouvir e a ser questionado. O pensamento inexorável fará com que aquilo que possua uma origem autêntica se levante mais pura e limpidamente. A religião degenerada, todavia, fica justificadamente exposta ao perigo do ataque. c) Nisto, a filosofia pressupõe que o seu pensamento, que parece por em perigo a religião, não pode na verdade ser uma ameaça a uma autêntica religião. O que não enfrenta o pensamento não pode ser genuíno; nem pode sê-lo o que recusa-se a ouvir e a ser questionado. O pensamento inexorável fará com que aquilo que possua uma origem autêntica se levante mais pura e limpidamente. A religião degenerada, todavia, fica justificadamente exposta ao perigo do ataque.
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 A terceira pergunta: A terceira pergunta:
  
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