estudos:jaspers:jaspers-o-ser-da-realidade-abrangente-3544
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| + | ====== Jaspers: O Ser da Realidade Abrangente ====== | ||
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| + | //Data: 2022-03-23 14:10// | ||
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| + | ==== Pensamento Ocidental Moderno ==== | ||
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| + | === Filósofos e Pensadores === | ||
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| + | //Excertos de " | ||
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| + | //Excertos de " | ||
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| + | PRIMEIRA RESPOSTA à pergunta sobre o ser surge da seguinte experiência básica: | ||
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| + | O que quer que seja que se transforma num objeto para mim é sempre um ser determinado entre outros e somente um modo de ser. Quando penso no ser como matéria, energia, espírito, vida e assim por diante — cada categoria imaginável já foi experimentada — afinal de contas descubro sempre que absolutizei um modo de determinado ser, que surge dentro da totalidade do ser, no ser em si mesmo. Nenhum ser conhecido é o ser em si mesmo. | ||
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| + | Sempre vivemos, por assim dizer, dentro do horizonte dos nossos conhecimentos. Lutamos por ultrapassar todos os horizontes que ainda nos cercam e circunscrevem e que obstruem nossa visão. Mas nunca chegamos a um ponto de observação em que o horizonte limitador desapareça e de onde pudéssemos examinar o todo, então completo e sem qualquer horizonte, e por conseguinte não apontando para nada mais além de si mesmo. Nem conseguimos atingir uma série de postos de observação que constituam a totalidade, na qual atingíssemos o ser absoluto avançando através dos horizontes — como ao circunavegarmos a terra. Para nós, o ser permanece aberto. Por todos os lados, ele nos leva ao ilimitado. Repetidas vezes, reiteradamente, | ||
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| + | Tal é a natureza do nosso conhecimento progressivo. Refletindo sobre essa natureza, formulamos a pergunta acerca do ser em si mesmo, que sempre parece nos elidir, na manifestação mesma de todas as aparências com que nos defrontamos. A este ser chamamos de realidade abrangente. Mas a realidade abrangente não é o horizonte do nosso conhecimento em qualquer momento particular. Diversamente disto, é a fonte de que emergem todos os novos horizontes, sem que se mostre nunca como visível, mesmo como um horizonte. | ||
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| + | A realidade abrangente sempre se anuncia simplesmente — em objetos presentes e no âmbito dos horizontes — mas nunca se torna um objeto. Nunca aparecendo a nós ela mesma, é aquilo que tudo o mais parece. É ainda aquilo por que todas as coisas não apenas são o que imediatamente parecem ser, mas permanecem transparentes. | ||
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| + | COM ESTE PRIMEIRO pensamento levamos a cabo uma cooperação filosófica básica. Com ele, desejamos liberar o nosso sentido do ser da sua conexão com o conhecimento (uma conexão que retorna sob forma sempre diferente). É um pensamento simples, não obstante visivelmente impossível de efetivar-se justo porque abre a mais vasta de todas as perspectivas. | ||
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| + | A estrutura de nosso pensamento nos força a constituir o que quer que conheçamos em um determinado objeto. Se desejamos pensar acerca da realidade abrangente, precisamos transformar até mesmo esta realidade em algo objetivo, como: a realidade abrangente é o mundo, é a nossa existência, | ||
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| + | O que é logicamente impossível de realizar-se no sentido usual do conhecimento é, não obstante, filosoficamente possível como uma lucidez crescente de um sentido de ser totalmente diferente de qualquer conhecimento determinado. Tudo que tenha, pra nós, ser, ao ser conhecido adquire uma profundidade da sua relação com esse domínio, de onde sai para nos encontrar, anunciando o ser sem ser idêntico a esse domínio. | ||
| + | |||
| + | A REALIDADE ABRANGENTE precisa de ser mais elucidada. Precisamos adquirir a linguagem que, unicamente ela, nos permitirá formular claramente as questões básicas acerca da verdade e da realidade em geral. | ||
| + | |||
| + | O perfeito desenvolvimento desses elementos preliminares ao ato de filosofar é uma das tarefas da lógica filosófica. Aqui uma sugestão muito sumária deve bastar para o fim de indicar o significado de umas poucas palavras para a realidade abrangente que têm de ser usadas na próxima conferência — as palavras " | ||
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| + | Uma delas, a realidade abrangente — falo a seu respeito desta maneira para elucidar o seu conteúdo — divide-se imediatamente em modos da realidade abrangente através da objetividade de determinadas aparências. Estes modos separam-se independentemente, | ||
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| + | Primeiro lanço: | ||
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| + | Kant entendia que o mundo não se torna um objeto para nós, que é apenas uma ideia; isto é, tudo aquilo que podemos conhecer acha-se no mundo, nunca é o mundo. Via ele que, se presumirmos conhecer o mundo, como um todo que existe por si mesmo, caímos em armadilhas de contradições irresolúveis — as antinomias. | ||
| + | |||
| + | Kant entendia mais, que todos os nosso objetos estão condicionados pela consciência do pensar (desta forma, a unidade de qualquer objeto dado está condicionada pela unidade da consciência-em-geral como a fundamentação da sua unidade). Em outras palavras, todo "ser para nós" é uma aparência de "ser em si mesmo" tal como se apresenta a si mesmo à consciência-em-geral que abrange todo ser para nós. As elaborações da " | ||
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| + | Desta forma, a realidade abrangente surgia em dois modos. A realidade abrangente na qual surge o ser em si mesmo é chamada mundo. A realidade abrangente que sou eu e que somos nós é chamada consciência-em-geral. | ||
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| + | O segundo lanço: | ||
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| + | Há mais coisas em relação à realidade abrangente que sou eu do que a consciência-em-geral. Eu sou como existência, | ||
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| + | O terceiro lanço: | ||
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| + | Tomados em conjunto, estes modos da realidade abrangente constituem uma indubitável atualidade. Compreendem o ser imanente tanto de mim mesmo — existência, | ||
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| + | A articulação da realidade abrangente depende da separação dos três lanços que apresentamos um após o outro; primeiramente o lanço da ideia geral da realidade abrangente à sua divisão em realidade abrangente que somos nós e a realidade abrangente que é o ser em si mesmo; em segundo lugar, da realidade abrangente que somos nós à sua divisão em que somos como existência, | ||
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| + | Esta articulação não significa uma dedução compulsória de um princípio, mas antes um encontro ao nível dos limites. Significa uma aceitação dos modos da presença originária do ser. | ||
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| + | Reflitamos sobre o significado do que temos, até aqui, examinado. Quando a elucidação da realidade abrangente e dos seus modos se mostra bem sucedida, seu efeito impregna o significado de qualquer cognição. E isto porque esclarece as decisões filosóficas que atingem qualquer aspecto do nosso ser. | ||
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| + | 1. A operação filosófica básica altera o meu sentido do ser. Não mais pode a totalidade do ser ser conhecida por conceitos ontológicos; | ||
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| + | Na iluminação dos modos da realidade abrangente, uma série de pseudo-ontologias inevitavelmente surge sobre aquilo que captamos. Porquanto a estrutura conceituai dessas ontologias nos fornece a linguagem. Mas o movimento do filosofar imediatamente dissolve o seu significado da elucidação da realidade abrangente é uma de uma mera alguma coisa, faz surgir a presença de uma esfera colorida e aberta, peculiarmente, | ||
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| + | 2. De um lado, a inter-vinculação em que o ser se nos apresenta permite-nos uma extensão ilimitada de cognição a respeito de tudo que passa a ser um objeto. Mas, por outro lado, na realidade abrangente essa inter-vinculação coloca um limite insuperável que dá, ao mesmo tempo, asas ao significado da cognição. | ||
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| + | Isto tem implicações importantes, | ||
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| + | Todos os modos da realidade abrangente virtualmente desmoronam-se quando se tornam objetos de investigação e recebem a suposição de que podem ser mais do que isto. Expiram naquilo que fica quando se tornam visíveis e objetos conhecíveis de pesquisas, de exame. A espécie de realidade possuída por um dado objeto de conhecimento científico é uma pergunta que se deve formular em cada caso. Negativamente, | ||
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| + | Nenhuma antropologia conhece a existência viva, real. do homem. Essa existência viva, de realidade abrangente, que nós mesmos possuímos carrega um conhecimento biológico em si mesma apenas como uma perspectiva ou dele se utiliza como meio. No nosso exame, move-mo-nos dentro da realidade abrangente que somos ao transformarmos nossa existência num objeto para nós mesmos, atuando sobre ela e manipulando-a; | ||
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| + | Nenhuma teoria estética pode compreender cientificamente a intrínseca realidade da arte — isto é, a verdade que se experimentou e que se criou na arte. O que, por exemplo, o pensamento objetivo chama de " | ||
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| + | Nenhuma ciência da religião (história, psicologia ou sociologia da religião) compreende a realidade da religião. A ciência pode saber e compreender as religiões sem que o analista ou o investigador pertençam a qualquer delas ou nelas tenham a sua fé. A fé real não é cognoscível. | ||
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| + | A realidade abrangente preserva minha liberdade contra a cognoscibilidade. Mas, se tomo o conteúdo do conhecimento como sendo já a própria realidade, o que é conhecido me leva, por assim dizer, ao longo de um desvio que passa ao largo da realidade. A tarefa filosófica, | ||
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| + | Nenhum ser conhecido é o próprio ser. Assim, em relação ao que conheço sobre mim mesmo, nunca sou verdadeiramente eu mesmo. O que conheço do ser não é nunca o ser mesmo, o ser-em-si-mesmo. O que quer que seja conhecido, tornou-se conhecido; é, desta forma, um particular que temos captado, mas também alguma coisa que oculta e restringe. Deve-se continuamente irromper do confinamento do conhecimento, | ||
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| + | 3. Se mantenho ou não a totalidade dos modos da realidade abrangente na mente, à medida que filosofo, é uma decisão básica. Parece possível captar o verdadeiro ser em modos isolados, únicos — no mundo, na consciência em geral, na existência ou no espírito, ou numa combinação destes elementos. Mas os erros característicos e a perda de realidade emergem em cada caso. | ||
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| + | A mais profundamente efetiva dentre estas decisões, todavia, é se rejeito o salto da totalidade da imanência para a transcendência ou se constituo a realização desse salto o ponto de partida do filosofar. | ||
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| + | É o salto de tudo quanto possa ser experimentado no tempo e que possa ser conhecido intemporalmente (e, por conseguinte, | ||
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| + | É o salto da realidade abrangente que somos enquanto existência, | ||
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| + | Este salto é decisivo para a minha liberdade. Porquanto a liberdade existe apenas com a transcendência e pela transcendência. | ||
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| + | Sem dúvida, existe alguma coisa que parece aparentada com a liberdade mesmo ao nível da imanência, desde que não identifique eu a realidade abrangente que sou como existência e espírito com a sua cognoscibilidade. Mas esta é tão somente a relativa liberdade para permanecer-se aberto à realidade abrangente da existência e do espírito. | ||
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| + | Sem dúvida, há também a liberdade de pensamento que se levanta até à absoluta liberdade quanto à capacidade de tudo menosprezar — a liberdade da negatividade. Mas a liberdade positiva tem outra origem do que a do pensamento. Emerge apenas para a Existenz que se alcança com um salto. E esta liberdade é obliterada se a capacidade de o pensamento menosprezar se estende à própria liberdade e à transcendência. Não posso menosprezar a mim mesmo como possível Existenz — e, consequentemente, | ||
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| + | Porque a liberdade de Existenz existe apenas como identidade com a origem em que o pensamento soçobra. Esta liberdade é perdida para mim no momento em que cancelo o salto e resvalo para a imanência — por exemplo,-- na ilusória ideia de um universal, necessária e cognoscível totalidade de eventos (do mundo, da existência, | ||
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| + | Aqui, neste salto para a transcendência, | ||
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| + | O filosofar nos modos da realidade abrangente é uma questão de resolução — a resolução da vontade-para-o-ser de separar-se a si mesma de todo conhecimento determinado do ser, depois que eu tenha me apossado do seu pleno prodígio, de modo que o ser-em-si-mesmo possa verdadeiramente vir a mim. | ||
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| + | É a resolução em que determino se me abandono lassamente a um conhecimento satisfatório do ser ou se, em lugar disto, a uma esfera aberta, sem horizontes, que abrange todos os horizontes, em que escuto o que fala a mim e em que percebo os sinais relampejantes que apontam, avisam, instigam — e talvez revelam aquilo que é; | ||
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| + | — se, nas reverberações do ser, tudo do que aparece como representações do ser, certifico-me eu mesmo e nunca tento evitar este caminho de imanência accessí-vel apenas a mim, como se sem ele pudesse eu imediatamente ganhar acesso aos fundamentos do ser; | ||
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| + | — se persevero até que me torne consciente de que à única base junto à fundação da possível Existenz que sou eu é a transcendência que me apoia; | ||
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| + | — se, em lugar de ganhar uma posição ilusória numa doutrina do ser, eu como fenômeno histórico torno-me em mim mesmo como o outro Eu dentro da realidade abrangente que permanece aberta. | ||
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| + | OS MODOS da realidade abrangente iluminam uma característica básica da possibilidade do homem. | ||
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| + | Gostaríamos de ver o ideal do homem. Gostaríamos de reconhecer nos nossos pensamentos aquilo que deveríamos ser, e o que pode ser à base do nosso fundamento obscuro. É como se na imagem representada tivéssemos de achar uma certeza da nossa essência através da claridade da ideia da humanidade ideal. | ||
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| + | Mas cada forma conceituai e cada forma visível de ser humano carece de validez universal. A forma é apenas um aspecto da histórica Existenz, não a própria Existenz. E toda forma de possível perfeição humana prova por meio de reflexão ser enganosa e irrealizável na realidade. | ||
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| + | Portanto, os ideais servem bem como guias. São como balizas ao longo de uma caminhada; mas não nos permitem permanecer, como se o nosso objetivo e descanso já estivessem neles contidos. | ||
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| + | Como tudo que é objetivamente conhecido, os ideais acham-se fundidos com a realidade abrangente. O filosofar aponta para além de todos os ideais — embora apenas por meio de um constante contato com eles e dentro deste contato constante — rumo à duradoura espera da realidade abrangente. É da essência de ser humano alcançar a consciência desta amplitude, porque a realidade abrangente faz com que permaneçamos alertas quanto à nossa própria possibilidade. | ||
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| + | Somos, na verdade, verdadeiramente humanos apenas na medida em que captamos sempre o que está mais próximo das nossas mãos, segundo o padrão de ideais que se tornaram lúcidos até esse momento. Mas o pensamento da realidade abrangente, ao estender-se esta esfera, abre a alma à percepção da origem. | ||
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| + | Porque a essência do homem não consiste no ideal que pode ser fixado, mas apenas nessa tarefa não-limitada, | ||
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| + | A essência do homem é ainda menos contida no conhecimento antropológico que pode obter de si mesmo como um ser vivo inserto no mundo. Também não é ela exaurida no contexto de sua existência, | ||
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| + | Mas, embora como existência temporal finita permaneçamos velados, encobertos, e tenhamos desconfortavelmente de lidarmos com coisas preliminares a todo momento, mesmo assim há dentro de nós uma profundidade escondida que podemos sentir nos momentos exaltados, alguma coisa que impregna todos os modos da realidade abrangente e que se torna certa para nós precisamente através destes modos. Schelling disse que somos " | ||
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| + | Até aqui temos apontado para uma amplitude e para uma profundidade apenas em abstrato. Permanecem elas vazias ou será que encontramos, | ||
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| + | Ou mergulho na insondabilidade do infinito: encontro-me no seio do Nada, diante de cuja face sou o que posso ser através tão somente de mim mesmo. Se esta ideia não volatilizar a minha essência, então a fanatizará a fim de resguardar-me rumo a alguma coisa captada peia força, a algum particular — cego perante a realidade abrangente e face a face com o Nada. | ||
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| + | Ou a consciência da amplitude engendra ilimitada capacidade de visão e de ilimitada presteza. Na realidade abrangente, o ser em si mesmo surge de todas as origens a fim de me encontrar. Eu mesmo sou dado a mim mesmo. | ||
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| + | Ambas as alternativas são possíveis. Ao perder a substância do meu eu percebo o Nada. Ao ser dado a mim mesmo, percebo a plenitude da realidade abrangente. | ||
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| + | Não posso forçar nenhuma destas duas situações. Intencionalmente, | ||
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| + | Se nada vier a mim, se eu não amar, se o que é não vier a mim através do meu amor e eu não me transformar em mim mesmo através dele, então permanecerei no final como uma existência que só pode ser utilizada como material bruto. Mas, porque o homem nunca é apenas um meio, mas é sempre também um fim último, o filósofo, confrontando essa dupla possibilidade, | ||
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