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estudos:jaspers:jaspers-filosofia-da-existencia-introducao-3543

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 Não propomos considerar em sua totalidade esta perda de realidade numa época de realismo visivelmente elevado — uma época de cuja crescente consciência desenvolveu-se a aflição da alma e o ato de filosofar. Em lugar disto, tentaremos relembrar por um relato histórico a tortuosa rota tomada por esse retorno à realidade — um retorno que assumiu várias configurações — usando como exemplo a nossa relação com as ciências, um exemplo que se mostra inerentemente essencial ao nosso tema. Não propomos considerar em sua totalidade esta perda de realidade numa época de realismo visivelmente elevado — uma época de cuja crescente consciência desenvolveu-se a aflição da alma e o ato de filosofar. Em lugar disto, tentaremos relembrar por um relato histórico a tortuosa rota tomada por esse retorno à realidade — um retorno que assumiu várias configurações — usando como exemplo a nossa relação com as ciências, um exemplo que se mostra inerentemente essencial ao nosso tema.
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 NA PASSAGEM DO SÉCULO, a filosofia era na sua maior parte concebida como uma ciência em meio às outras ciências. Era um campo para os estudos acadêmicos, e era tomada como uma possibilidade educacional pelos jovens. Conferências brilhantes ofereciam vastos panoramas de sua história, de suas doutrinas, de seus problemas e sistemas. Vagos sentimentos de liberdade e de verdade frequentemente vazios de conteúdo (porquanto raramente efetivos na vida concreta) combinavam-se com fé no progresso dos conhecimentos filosóficos. O pensador "progredia mais além" e estava convencido de que, a cada passada, pairava no ápice do conhecimento a que até o momento se conseguiria chegar. NA PASSAGEM DO SÉCULO, a filosofia era na sua maior parte concebida como uma ciência em meio às outras ciências. Era um campo para os estudos acadêmicos, e era tomada como uma possibilidade educacional pelos jovens. Conferências brilhantes ofereciam vastos panoramas de sua história, de suas doutrinas, de seus problemas e sistemas. Vagos sentimentos de liberdade e de verdade frequentemente vazios de conteúdo (porquanto raramente efetivos na vida concreta) combinavam-se com fé no progresso dos conhecimentos filosóficos. O pensador "progredia mais além" e estava convencido de que, a cada passada, pairava no ápice do conhecimento a que até o momento se conseguiria chegar.
  
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 O caminho que leva à filosofia tinha de ser mais uma vez descoberto. O caminho que leva à filosofia tinha de ser mais uma vez descoberto.
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 NOSSO PROCESSO DE FILOSOFAR CONTEMPORÂNEO está condicionado por esta experiência havida com a ciência. O roteiro que segue da desilusão em relação à filosofia deteriorada até às ciências reais, e destas novamente até à filosofia autêntica, é tal que deve ter um papel decisivo em modelar a espécie de filosofar possível nos dias de hoje. Por conseguinte, antes de fornecer um esboço geral do caminho que leva de volta à filosofia, precisamos definir a relação que está longe de ser não-ambígua entre o filosofar atual e a ciência. NOSSO PROCESSO DE FILOSOFAR CONTEMPORÂNEO está condicionado por esta experiência havida com a ciência. O roteiro que segue da desilusão em relação à filosofia deteriorada até às ciências reais, e destas novamente até à filosofia autêntica, é tal que deve ter um papel decisivo em modelar a espécie de filosofar possível nos dias de hoje. Por conseguinte, antes de fornecer um esboço geral do caminho que leva de volta à filosofia, precisamos definir a relação que está longe de ser não-ambígua entre o filosofar atual e a ciência.
  
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 Tudo conspira para vincular a filosofia à ciência. A filosofia lida com as ciências de uma tal maneira que o seu próprio significado é posto em evidência e revelado. Ao permanecer em contacto vivo com as ciências, a filosofia dissolve o dogmatismo (esta obscura pseudo-filosofia) que tem a tendência de irromper no seio delas. Sobretudo, no entanto, a filosofia se transforma no testemunho consciente do esforço científico dirigido contra os inimigos da ciência. Viver filosoficamente é inseparável da atitude da mente que sustenta sem reservas a ciência. Tudo conspira para vincular a filosofia à ciência. A filosofia lida com as ciências de uma tal maneira que o seu próprio significado é posto em evidência e revelado. Ao permanecer em contacto vivo com as ciências, a filosofia dissolve o dogmatismo (esta obscura pseudo-filosofia) que tem a tendência de irromper no seio delas. Sobretudo, no entanto, a filosofia se transforma no testemunho consciente do esforço científico dirigido contra os inimigos da ciência. Viver filosoficamente é inseparável da atitude da mente que sustenta sem reservas a ciência.
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 JUNTAMENTE COM ESTA elucidação dos limites e do significado da ciência, emergia a independência da origem da filosofia. Somente quando cada uma das asserções prematuras se expunha à aguda penetração esclarecedora da crítica é que os homens tornavam-se conscientes dessa independência, e a filosofia primordial imutável começou a falar novamente através de seus grandes representantes. Era como se longos textos familiares tivessem sido retirados do esquecimento para serem trazidos à luz do dia e como se os homens apenas agora tivessem aprendido a lê-los verdadeiramente, com novos olhos. Kant, Hegel, Schelling, Nicolau de Cusa, Anselmo, Plotino, Platão e mais uns poucos tornaram-se tão recentemente relevantes que se experimentava a verdade da observação de Schelling, de que a filosofia é um "segredo público". Podem conhecer-se os textos e ser capaz de seguir a evolução das construções de seus pensamentos com precisão — e, mesmo assim, não os entender. JUNTAMENTE COM ESTA elucidação dos limites e do significado da ciência, emergia a independência da origem da filosofia. Somente quando cada uma das asserções prematuras se expunha à aguda penetração esclarecedora da crítica é que os homens tornavam-se conscientes dessa independência, e a filosofia primordial imutável começou a falar novamente através de seus grandes representantes. Era como se longos textos familiares tivessem sido retirados do esquecimento para serem trazidos à luz do dia e como se os homens apenas agora tivessem aprendido a lê-los verdadeiramente, com novos olhos. Kant, Hegel, Schelling, Nicolau de Cusa, Anselmo, Plotino, Platão e mais uns poucos tornaram-se tão recentemente relevantes que se experimentava a verdade da observação de Schelling, de que a filosofia é um "segredo público". Podem conhecer-se os textos e ser capaz de seguir a evolução das construções de seus pensamentos com precisão — e, mesmo assim, não os entender.
  
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 Embora a origem nos fale através dos textos antigos não podemos simplesmente adotar as suas doutrinas. A compreensão histórica das doutrinas do passado deve ser distinguida da posse do que é presente em toda a filosofia, em todas as épocas. Porquanto somente essa apropriação torna-se, à sua vez, a plataforma da possibilidade de uma compreensão histórica do distante e do alheio. Embora a origem nos fale através dos textos antigos não podemos simplesmente adotar as suas doutrinas. A compreensão histórica das doutrinas do passado deve ser distinguida da posse do que é presente em toda a filosofia, em todas as épocas. Porquanto somente essa apropriação torna-se, à sua vez, a plataforma da possibilidade de uma compreensão histórica do distante e do alheio.
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 O ATO DE FILOSOFAR ATUAL advém, conscientemente, de sua própria fonte, não descobrível ou atingível pela ciência tão somente: O ATO DE FILOSOFAR ATUAL advém, conscientemente, de sua própria fonte, não descobrível ou atingível pela ciência tão somente:
  
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