estudos:jaspers:jaspers-a-razao-em-luta-3541
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| + | ====== Jaspers: A Razão em Luta ====== | ||
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| + | //Data: 2022-03-23 14:10// | ||
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| + | ==== Pensamento Ocidental Moderno ==== | ||
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| + | === Filósofos e Pensadores === | ||
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| + | //Razão e anti-razão em mosso tempo | ||
| + | Karl jaspers | ||
| + | Trad. Álvaro Vieira Pinto | ||
| + | Conferências na Universidade de Heidelberg 1950 | ||
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| + | Textos de Filosofia Contemporânea | ||
| + | Instituto Superior de Estudos Brasileiros | ||
| + | 1958 | ||
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| + | TERCEIRA CONFERÊNCIA: | ||
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| + | //Razão e anti-razão em mosso tempo | ||
| + | Karl jaspers | ||
| + | Trad. Álvaro Vieira Pinto | ||
| + | Conferências na Universidade de Heidelberg 1950// | ||
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| + | **TERCEIRA CONFERÊNCIA** | ||
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| + | **A RAZÃO EM LUTA** | ||
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| + | A RAZÃO parece não ter adversário algum, enquanto almeja tornar claro tudo que existe, trazê-lo à sua linguagem, incluí-lo. Estende, por assim dizer, a mão para todos os lados, sem restrição. | ||
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| + | Porém, não somente se choca com uma resistência, | ||
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| + | Esse adversário é o espírito antifilosófico (der Geist der Unphilosophie), | ||
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| + | Onde predomina, sua violência impede o exame reflexivo. Permite o arbitrário e aniquila o autocontrole. Sua versatilidade extingue a seriedade em favor da paixão do momento. Obriga a existência concreta a passar da ausência de fé a uma fanática pseudo fé e novamente a voltar ao nada. | ||
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| + | Esse espírito, em sua manifestação, | ||
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| + | Esse adversário, | ||
| + | |||
| + | De onde tira esse adversário a sua força? | ||
| + | Há em nós alguma coisa que deseja: | ||
| + | não a razão, mas o mistério; | ||
| + | não um pensamento penetrante, claro, mas o sussurro; | ||
| + | não a reflexão que vê e escuta, aberta a tudo, mas o caprichoso abandono a uma obscura multiplicidade; | ||
| + | não a compreensão humana, que modera as suas exigências, | ||
| + | não a ciência, mas a feitiçaria com máscara científica; | ||
| + | não a | ||
| + | não a fidelidade digna de confiança, | ||
| + | não a liberdade, que é uma só coisa com a razão, a lei e a escolha da própria historicidade, | ||
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| + | Qual a razão desse desejo de mistério, sussurro, absurdidade, | ||
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| + | Sempre que a razão não é mais sustentada e preenchida pelo ser autêntico de um homem, resvalando para o mero entendimento, | ||
| + | |||
| + | O fundamento do nosso ser anseia por plenitude, presença e corporeidade. Mas o acesso a essas coisas é dúplice. Ou se tornam verdadeiras como plenitude genuína, sob a direção da razão e como construção na continuidade histórica, por obra da razão; ou se transformam em ilusão, na dispersão e desorientação da multiplicidade e da eventual variação, sem a razão e contra a razão. | ||
| + | |||
| + | Aqui está a encruzilhada entre a razão e a não-razão. Nela começa a marcha para o desastre, com a traição da simples verdade, a qual, na maioria das vezes, se revela à boa-fé do homem sincero, na vida diária e nas suas situações. | ||
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| + | Depois da traição, só existe remédio na conversão radical, que tenha uma visão penetrante de si mesma, que aceite a sua culpa. A todo momento, estamos interiormente diante desta encruzilhada: | ||
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| + | Essa é a decisão sempre retomada: poder ser autenticamente si mesmo, isto é, poder ser livre, o que coincide com o caminho para a verdade, com esta simples retidão que se manifesta até nos menores gestos do homem que é êle mesmo e fala como tal. Aqui tem suas raízes o trabalho do pensamento que pensa ao mesmo tempo as coisas e a si mesmo, aqui começa a construção do conteúdo histórico da vida no âmbito da razão, no qual nada é esquecido. | ||
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| + | Se, porém, nessa encruzilhada se renuncia à possível vontade de ser racionalmente si mesmo, ela reaparece, contudo, modificada mas em forma invertida. Então, o impulso deste nosso ser, que não se basta a si mesmo, faz-se no sentido de conquistar apaixonadamente, | ||
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| + | Esse impulso, enquanto fuga ante si mesmo até ao esquecimento de si, leva a nebulosidades que se oferecem como autêntica verdade, leva ao irracional, ao próprio absurdo, tomado por profundidade, | ||
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| + | As formas da contra-razão, | ||
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| + | Assim, o mito é a linguagem indispensável da verdade transcendente. A criação do autêntico mito é verdadeira iluminação. Esse mito alberga em si a razão e está sob o controle da razão. Por meio do mito, por meio da imagem e do símbolo, é que conquistamos, | ||
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| + | Na perversão, porém, é completamente diferente. O pendor para o mito sem controle entrega-se às imagens enquanto tais. O sentido não é mais a penetração racional da essência, tornada presente em imagens, que representam um aspecto da realidade na prática da vida cotidiana do homem. Ao contrário, o impulso conduz a nos desprendermos da nossa realidade própria pela qual somos responsáveis, | ||
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| + | Desde o começo do filosofar, em oposição à filosofia da razão está a in-filosofia (Unphilosophie), | ||
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| + | A feitiçaria encontra-se muitas vezes em grandes espíritos. Entender de feitiços é às vezes poderoso talento. Grandiosas manifestações do idealismo alemão são dessa natureza: a construção, | ||
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| + | Um homem individual, porém, nunca é só feiticeiro, e nenhum de nós está livre de todas as seduções da feitiçaria. Quando contrastamos a imagem do homem que filosofa com a do feiticeiro, verificamos que ninguém pode ser classificado em uma ou em outra: | ||
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| + | Quem filosofa sabe o que faz, quando pensa e age; o feiticeiro não sabe o que faz nem como. Ambos acertam e não acertam na verdade, mas o homem que filosofa corrige incessantemente o conteúdo da verdade e se torna senhor das suas ideias; o feiticeiro investiga menos a verdade do que os seus gestos, seus modos de expressão, seus efeitos. O homem que filosofa põe à prova a verdade, procurando os contra-argumentos e os seus adversários. O feiticeiro não se quer pôr à prova na sua verdade; é como se fosse cego para a diferença entre verdadeiro e falso, entre realidade e aparência. Não pode realmente falar com outra pessoa, não pode discutir lealmente. Está prisioneiro de ideias que êle mesmo formou ou que lhe foram transmitidas. Vai através da vida como vontade de poder, sem perceber os seus próprios motivos. | ||
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| + | Mas, esse inimigo se encontra em cada um de nós. É conosco mesmo que temos de nos haver, quando o combatemos. Nenhuma filosofia se torna verdadeira se não voltar as costas conscientemente à feitiçaria, | ||
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| + | Ora, a possibilidade de ação da feitiçaria filosófica repousa sobre o seu bom acolhimento por parte do enfeitiçado. Os feiticeiros deixam-se seduzir. São provocados por aqueles que anseiam por venerá-los. São confirmados e exaltados pela multidão daqueles que nomeiam um deles para ser ponto culminante na história do mundo, que se põem à sua disposição, | ||
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| + | Até agora as massas têm sempre seguido a feitiçaria. Os feiticeiros as têm sempre iludido, mediante promessas de um conhecimento absoluto, mediante a pretensão de um significado sobrenatural do seu próprio pensamento e ação, que é feito tendo em vista o público. A sua encenação pessoal tem sido sempre bem sucedida, consistindo em oferecer uma visão total das coisas, em cujo curso o feiticeiro passa a ocupar o centro e o ponto culminante. Tem-se conseguido criar uma aura de efeito mágico. Múltiplo e variado é este reino dos sofistas, estetas, charlatães, | ||
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| + | Pode bem parecer como se os feiticeiros, | ||
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| + | O processo da anti-razão, | ||
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| + | No seu vazio sem a dignidade do ser autêntico do homem, a irracionalidade vai atrás de um sedutor, como aquele encantador de ratos da cidade de Hameln, que semiconscientemente encena a fraude. Sua in-filosofia parece a princípio inofensiva, se, num mundo livre, produz um ruído estranho. Mas tem significação política. | ||
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| + | Com o abandono da liberdade da razão, a in-filosofia prepara o homem para a escravidão política. No declive mítico, faz naufragar o conhecimento da liberdade. Ensina o homem a retirar-se para o terreno da indiscutibilidade de uma fé irracional. Depois, quando não se vive mais da liberdade, em breve não se sabe mais o que ela é. E porque nos sentimos vazios, porque perdemos a nós mesmos e à verdade, queremos, em nosso temor, ser subjugados. Sem percebê-lo, | ||
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| + | Há decênios que ouvimos dizer, em relação ao nazismo e ao comunismo: contra uma fé é necessário ter outra fé que se lhe oponha. O mundo livre está fraco, diz-se, porque nenhuma fé o sustenta. | ||
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| + | Também na filosofia, muitas vezes, o pensamento racional parece desanimado. Podem fazer-se as seguintes reflexões: | ||
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| + | 1 . Atualmente parece como se a razão | ||
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| + | 2. A existência da razão age como o ar, como se não existisse. Como seria de esperar que agisse? Mas é de fato o ar puro, de que se precisava como da coisa mais necessária à vida, e que contudo não se deseja, porque o que se quer é a atmosfera narcotizante e embriagadora. A filosofia, que apenas produz o ar em que é possível crescer, vir a si mesmo, experimentar-se a si mesmo, é também inapreensível como o ar. Nada ela dá, nenhuma ordem procede dela, não exige obediência alguma, nada oferece que se possa então tomar. Deseja que cada um pense por si e se torne si mesmo, ajuda a chegar a esse resultado, mas não o dá de presente. Comete a falta de piedade de supor a liberdade como possibilidade, | ||
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| + | Deste ponto de vista, o filosofar da razão é hoje invectivado | ||
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| + | 3. Uma consideração histórica parece mostrar que todos os grandes movimentos de fé tiveram em sua raiz algo absurdo e justamente devido a esse absurdo é que alcançaram a sua grande influência. A razão encontra-se sempre diante do fato de que os crentes, que não são mais capazes de escutar, não aceitam argumento algum, sustentam inabalavelmente o absurdo como pressuposto intangível - e realmente parecem crer. | ||
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| + | Com estas e outras reflexões, a razão nos parece, em vez de estar somente desiludida, ter-se tornado desanimada. | ||
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| + | Esse abatimento, ou já é mesmo expressão de uma fé na liberdade - esta fé não dogmática, própria da razão - em via de dissolver-se em simples pensamento do entendimento. E então, na consciência da própria vacuidade, o homem desejaria criar uma fé política. Mas em vão. | ||
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| + | Ou este desânimo não é propriamente um desânimo: se a fé na liberdade, por falta de ar - na ausência de ressonância - respira demasiadamente pouco, então, apesar de, no fundo, ter confiança em si, não confia mais na sua realização atual no presente mundo. | ||
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| + | Contra o desânimo só há um remédio: quem quer seriamente sair do mundo das nebulosidades, | ||
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| + | Quer, num mundo de fogos-fátuos, | ||
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| + | A fé da razão é de caráter diferente do de toda outra fé, que é determinada por um conteúdo confessional, | ||
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| + | Não pode fazer propaganda, não pode sugestionar, | ||
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| + | Para fortalecer o seu pensamento na afirmação de si mesma, podem ser intentados vários movimentos de ideias, ideias favoráveis à razão, capazes de dar coragem, tanto quanto aquelas outras pareciam desencorajar. | ||
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| + | Quem já sentiu alguma vez o gosto da razão, pergunta: que posso ainda desejar, se me recusar à razão? | ||
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| + | Porque então não posso querer a unidade, nem o Um, nem a construção histórica, guiada pela origem e pelo fim. Deixo-me, em tudo, arrastar e, irrefletidamente, | ||
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| + | Vemos hoje, como em qualquer época histórica, homens sinceros que pensam lucidamente. Muitos, desde a juventude, seguem originàriamente o caminho da razão, embora em segredo. Pois a razão não faz ruído. | ||
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| + | Quando a razão ouve aquelas censuras - " | ||
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| + | Que se faça o pior prognóstico de decadência, | ||
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| + | Suportar a tensão; não contar com um futuro certo; mesmo no caso mais feliz, ter presente a desgraça que paira sempre como uma ameaça, e, no caso aparentemente desesperado, | ||
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| + | Isto me parece ser válido também para o curso da história universal. Em face de probabilidades desanimadoras, | ||
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| + | Mas todos os argumentos e possibilidades de pensamento não são decisivos para a razão. A razão vive da sua origem, e não de argumentos ou da rejeição de argumentos contrários, | ||
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| + | A razão vive portanto na consciência de estar em frente às portas. Cresce a força que talvez permita, àqueles que resistirem, atravessá-las, | ||
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| + | A razão, mesmo então, não pode afirmar, sem dúvida, - mas também não pode considerar como impossível - , que a experiência dos maiores horrores só ocorre para possibilitar uma conversão do homem. O homem seria exposto ao extremo, numa ignorância que toca os limites da perda de si mesmo, para que um dia a razão, com força irresistível, | ||
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| + | O que é decisivo, porém, é que nada do que é razão se produz espontaneamente, | ||
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| + | Todos sabemos que estamos à mercê de acontecimentos que não estão em nossas mãos. Mas, dentro desta fatalidade que nos é imposta, o homem, pela sua decisão, quer tentar, por sua parte, viver racionalmente, | ||
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| + | A resistência da razão só é possível, portanto, por meio da própria razão. Se ela se compreende a si mesma no seu significado, | ||
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| + | Falei sobre a razão em luta, sobre a sua auto-afirmação, | ||
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| + | A luta da razão pela sua realização, | ||
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| + | Esta é a ideia ocidental. O fato de que sempre a realidade só parcialmente a satisfaz e somente se aproxima passo a passo dessa ideia ou dela se afasta, não é objeção contra a sua verdade. E até agora a ideia, sempre em segredo, é ativa ou é possível. Acusar em conjunto as Universidades, | ||
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| + | Mas, pertence à ideia da Universidade a sua autocrítica. Em todo tempo, quem aí atua, como estudante ou como docente, deve saber o que se passa com ela, e saber o que ela era e o que poderia ser. | ||
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| + | A luta pela razão tem lugar em todas as ciências, porém com mais clara consciência na filosofia. Sabemos que hoje a filosofia desempenha papel diminuto na Universidade. Um sinal disso é a seguinte ninharia: até mesmo a Faculdade que, de acordo com ela, se chama Faculdade de Filosofia (e da qual na época positivista a respectiva Faculdade de Ciências Matemáticas e Naturais fora absurdamente separada, com esquecimento da filosofia), mesmo este resto de Faculdade, que ainda se chama "de Filosofia", | ||
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| + | De onde deriva esse estado de coisas? A causa parece-me, primeiramente, | ||
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| + | A crítica da filosofia universitária é fácil. Desde o tempo de estudante, crescemos no meio desta crítica, e, no entanto, viemos a ser nós mesmos objeto desta crítica. Faziam-se as seguintes acusações: | ||
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| + | A esta negligência da verdadeira filosofia, apesar da qual houve muita pesquisa proveitosa, correspondia um auditório relutante, que, por seu lado, nenhum caminho certo encontrava. Com o nome de filosofia, aspirava-se, | ||
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| + | Quando se vêem tais quadros, parece resultar de fato que seja conveniente riscar a filosofia da lista dos trabalhos intelectuais que se devam levar a sério, e, quando muito, deixá-la, num lugar à parte, arrastar-se ainda por algum tempo em seu jogo a bem dizer supérfluo. As perguntas: "quem filosofa?", | ||
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| + | Desse grandioso indeterminado vem-nos um critério para o nosso filosofar concreto. Com os olhos fixos na ideia alta, tentamos sempre a sua realização concreta. E, se deve mesmo subsistir algum indício visível da possibilidade do filosofar, é imprescindível, | ||
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| + | O ensino da filosofia tem lugar na base e no pressuposto do estudo científico especializado. Conserva a tradição filosófica; | ||
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| + | Uma filosofia que se isolasse seria desprovida de razão. A filosofia como especialidade é coisa duvidosa. Como ensino, sua função é despertar a atenção. | ||
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| + | O estudo da filosofia dá-se portanto por meio do estudo das ciências e por meio da prática da vida pessoal, despertado pela grande | ||
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| + | O professor de filosofia tem a sua significação na luta em favor da razão por meio da razão. Para esta luta, em que só há as armas do espírito e que sempre fornece todas as armas ao adversário, | ||
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| + | Para que surja completa imparcialidade no mundo do pensamento, é preciso que os pensadores sejam interiormente independentes. Isto o homem só será quando estiver extinta a sua vontade de poderio e talvez mesmo só quando estiver, de verdade, em estado de fraqueza. A ausência de poder parece ser a condição para agir de forma realmente livre e para despertar a liberdade. É na humildade, sem obstinações, | ||
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| + | O ensino das Universidades, | ||
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| + | Desde então, a pergunta, rapidamente esquecida em alguns anos de paz, tem sido: diante desta ameaça, diante de um possível fim de tudo quanto nos é caro no mundo, que é ainda o essencial? Quais são os critérios, que, em face do fim de tudo, se mantêm de pé e têm valor? | ||
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| + | Sem dúvida parece-nos indigno oscilar de um lado para outro, entre uma angústia aniquiladora - que torna sem sentido toda atividade - e uma tranquilidade com o esquecimento de si, na qual, com desviar o olhar, continuam a existir os velhos hábitos mentais, na qual a vida espiritual não é mais Eros, porém a agitação sem finalidade passa a ser, sem reflexão, o próprio sentido; o trabalho é feito então como trabalho, sem que se tenha consciência, | ||
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| + | Nesta ameaça, é tarefa da razão suportar a tensão; fazer e essencial; submeter a sua vida cotidiana a critérios de valor dos quais tenha uma clara noção; prosseguir infatigavelmente naquilo que, pela sua mesma natureza, só é possível a longo prazo. Ninguém sabe se terá êxito nisso ou se a sua significação será o malogro. Na aparente situação sem saída, a razão nunca perderá todas as esperanças. Quem age espiritualmente deve dizer a si mesmo: enquanto eu permanecer com vida, no curso dos terríveis acontecimentos, | ||
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| + | Devemos dar plenitude a todo momento atual. Este nos é dado de presente, mas não para que o percamos. Só no verdadeiro momento presente e em cada verdadeiro presente, reside um sentido do futuro. O fato de fazermos o que podemos, torna possível o futuro, mesmo sem plano nosso. | ||
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| + | Se, porém, as realidades conhecíveis da existência humana concreta nos transviarem, | ||
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