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| estudos:jaspers:jaspers-a-razao-em-luta-3541 [15/01/2026 20:13] – created - external edit 127.0.0.1 | estudos:jaspers:jaspers-a-razao-em-luta-3541 [17/01/2026 13:31] (current) – mccastro |
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| Depois da traição, só existe remédio na conversão radical, que tenha uma visão penetrante de si mesma, que aceite a sua culpa. A todo momento, estamos interiormente diante desta encruzilhada: a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos mediante a razão. | Depois da traição, só existe remédio na conversão radical, que tenha uma visão penetrante de si mesma, que aceite a sua culpa. A todo momento, estamos interiormente diante desta encruzilhada: a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos mediante a razão. |
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| Essa é a decisão sempre retomada: poder ser autenticamente si mesmo, isto é, poder ser livre, o que coincide com o caminho para a verdade, com esta simples retidão que se manifesta até nos menores gestos do homem que é êle mesmo e fala como tal. Aqui tem suas raízes o trabalho do pensamento que pensa ao mesmo tempo as coisas e a si mesmo, aqui começa a construção do conteúdo histórico da vida no âmbito da razão, no qual nada é esquecido. | Essa é a decisão sempre retomada: poder ser autenticamente si mesmo, isto é, poder ser livre, o que coincide com o caminho para a verdade, com esta simples retidão que se manifesta até nos menores gestos do homem que é êle mesmo e fala como tal. Aqui tem suas raízes o trabalho do pensamento que pensa ao mesmo tempo as coisas e a si mesmo, aqui começa a construção do conteúdo histórico da vida no âmbito da razão, no qual nada é esquecido. |
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| Desde o começo do filosofar, em oposição à filosofia da razão está a in-filosofia (Unphilosophie), mas não como nulidade inoperante, e sim como poderosa feitiçaria. | Desde o começo do filosofar, em oposição à filosofia da razão está a in-filosofia (Unphilosophie), mas não como nulidade inoperante, e sim como poderosa feitiçaria. |
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| A feitiçaria encontra-se muitas vezes em grandes espíritos. Entender de feitiços é às vezes poderoso talento. Grandiosas manifestações do idealismo alemão são dessa natureza: a construção, por exemplo, feita por Fichte, relativa ao ponto de transição da sua época e a da filosofia fichteana como façanha desse momento de transição. Essa mesma forma de pensamento reaparece ainda em Nietzsche. A profética visão pessoal de Nietzsche tem a fatal oscilação entre uma profunda intuição e uma fraudulenta ilusão. A escatologia de Marx apresenta esse mesmo traço. Já nesses grandes homens se encontra esta obsessão, esta inobjetividade objetiva, que, a seguir, nos medíocres só nos pode repugnar: essa tendência a fazer do próprio pensamento um absoluto, o único verdadeiro, a identificar a si mesmo, enquanto interesse egocêntrico, com o objeto, e a repelir o que não favorece o próprio modo de pensar. Procuram admiradores e súditos, não amigos. Qualquer outro homem, como se isso fosse muito natural, é por eles considerado pelo que possa significar em relação à própria encenação. | A feitiçaria encontra-se muitas vezes em grandes espíritos. Entender de feitiços é às vezes poderoso talento. Grandiosas manifestações do idealismo alemão são dessa natureza: a construção, por exemplo, feita por Fichte, relativa ao ponto de transição da sua época e a da filosofia fichteana como façanha desse momento de transição. Essa mesma forma de pensamento reaparece ainda em Nietzsche. A profética visão pessoal de Nietzsche tem a fatal oscilação entre uma profunda intuição e uma fraudulenta ilusão. A escatologia de Marx apresenta esse mesmo traço. Já nesses grandes homens se encontra esta obsessão, esta inobjetividade objetiva, que, a seguir, nos medíocres só nos pode repugnar: essa tendência a fazer do próprio pensamento um absoluto, o único verdadeiro, a identificar a si mesmo, enquanto interesse egocêntrico, com o objeto, e a repelir o que não favorece o próprio modo de pensar. Procuram admiradores e súditos, não amigos. Qualquer outro homem, como se isso fosse muito natural, é por eles considerado pelo que possa significar em relação à própria encenação. |
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| Com o abandono da liberdade da razão, a in-filosofia prepara o homem para a escravidão política. No declive mítico, faz naufragar o conhecimento da liberdade. Ensina o homem a retirar-se para o terreno da indiscutibilidade de uma fé irracional. Depois, quando não se vive mais da liberdade, em breve não se sabe mais o que ela é. E porque nos sentimos vazios, porque perdemos a nós mesmos e à verdade, queremos, em nosso temor, ser subjugados. Sem percebê-lo, ao renunciar à razão, renuncia-se também à liberdade. Estamos prontos para qualquer totalitarismo, e seguimos, em comum com o rebanho, o carneiro-guia, para a desgraça, o crime e a morte vergonhosa. | Com o abandono da liberdade da razão, a in-filosofia prepara o homem para a escravidão política. No declive mítico, faz naufragar o conhecimento da liberdade. Ensina o homem a retirar-se para o terreno da indiscutibilidade de uma fé irracional. Depois, quando não se vive mais da liberdade, em breve não se sabe mais o que ela é. E porque nos sentimos vazios, porque perdemos a nós mesmos e à verdade, queremos, em nosso temor, ser subjugados. Sem percebê-lo, ao renunciar à razão, renuncia-se também à liberdade. Estamos prontos para qualquer totalitarismo, e seguimos, em comum com o rebanho, o carneiro-guia, para a desgraça, o crime e a morte vergonhosa. |
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| Há decênios que ouvimos dizer, em relação ao nazismo e ao comunismo: contra uma fé é necessário ter outra fé que se lhe oponha. O mundo livre está fraco, diz-se, porque nenhuma fé o sustenta. | Há decênios que ouvimos dizer, em relação ao nazismo e ao comunismo: contra uma fé é necessário ter outra fé que se lhe oponha. O mundo livre está fraco, diz-se, porque nenhuma fé o sustenta. |
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| Contra o desânimo só há um remédio: quem quer seriamente sair do mundo das nebulosidades, conhece, por sua liberdade própria, a experiência fundamental, a qual nunca é dado da natureza; possui uma certeza que nenhuma garantia objetiva sustenta; segue o seu caminho com a consciência de servir à verdade sem possuí-la. | Contra o desânimo só há um remédio: quem quer seriamente sair do mundo das nebulosidades, conhece, por sua liberdade própria, a experiência fundamental, a qual nunca é dado da natureza; possui uma certeza que nenhuma garantia objetiva sustenta; segue o seu caminho com a consciência de servir à verdade sem possuí-la. |
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| Quer, num mundo de fogos-fátuos, salvar a razão, quer deixá-la falar com imperturbável paciência, embora na impotência de uma ressonância que aparentemente vai desaparecendo. | Quer, num mundo de fogos-fátuos, salvar a razão, quer deixá-la falar com imperturbável paciência, embora na impotência de uma ressonância que aparentemente vai desaparecendo. |
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| Mas todos os argumentos e possibilidades de pensamento não são decisivos para a razão. A razão vive da sua origem, e não de argumentos ou da rejeição de argumentos contrários, consciente, em toda situação, de nunca estar de fato na posse da verdade, mas de estar no caminho para ela. | Mas todos os argumentos e possibilidades de pensamento não são decisivos para a razão. A razão vive da sua origem, e não de argumentos ou da rejeição de argumentos contrários, consciente, em toda situação, de nunca estar de fato na posse da verdade, mas de estar no caminho para ela. |
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| A razão vive portanto na consciência de estar em frente às portas. Cresce a força que talvez permita, àqueles que resistirem, atravessá-las, - e isto só parece possível no luminoso reino da liberdade. Ou talvez o caminho conduza, primeiramente, às trevas da servidão (Unfreiheit) presa a símbolos, divinizadora de homens, privada de ideias. Em face desse extremo, pode tornar-se mais firme e mais consciente a decisão do indivíduo de tornar-se ele mesmo e, com isso, de estabelecer confiantemente aliança com o amigo, de resistir interiormente em qualquer condição e de não colaborar (por qualquer forma, ainda que inconsciente) na preparação da sua entrega total e uma existência humana sem autodeterminação, que vive de uma outra coisa, do mecanismo, tornado vazio, do poder, do "movimento", do povo, dos quais o indivíduo participa sem verdade e sem veracidade. | A razão vive portanto na consciência de estar em frente às portas. Cresce a força que talvez permita, àqueles que resistirem, atravessá-las, - e isto só parece possível no luminoso reino da liberdade. Ou talvez o caminho conduza, primeiramente, às trevas da servidão (Unfreiheit) presa a símbolos, divinizadora de homens, privada de ideias. Em face desse extremo, pode tornar-se mais firme e mais consciente a decisão do indivíduo de tornar-se ele mesmo e, com isso, de estabelecer confiantemente aliança com o amigo, de resistir interiormente em qualquer condição e de não colaborar (por qualquer forma, ainda que inconsciente) na preparação da sua entrega total e uma existência humana sem autodeterminação, que vive de uma outra coisa, do mecanismo, tornado vazio, do poder, do "movimento", do povo, dos quais o indivíduo participa sem verdade e sem veracidade. |
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| A luta pela razão tem lugar em todas as ciências, porém com mais clara consciência na filosofia. Sabemos que hoje a filosofia desempenha papel diminuto na Universidade. Um sinal disso é a seguinte ninharia: até mesmo a Faculdade que, de acordo com ela, se chama Faculdade de Filosofia (e da qual na época positivista a respectiva Faculdade de Ciências Matemáticas e Naturais fora absurdamente separada, com esquecimento da filosofia), mesmo este resto de Faculdade, que ainda se chama "de Filosofia", escolhe habitualmente para as comissões de nomeação representantes das especialidades afins à cátedra a ser provida - mas a filosofia não é considerada como afim de nenhuma dessas ciências. Se a filosofia ainda é ensinada, devemos isso à tradição que vem da Idade Média e que é mantida e tolerada. Não se dá a ela importância alguma. É matéria de diletantismo individual. Desde Marx, fala-se do fim da filosofia. Na moderna Universidade de Jerusalém, construída de acordo com as necessidades e a situação da nossa época, foi eliminado até mesmo o nome de Faculdade de Filosofia. Somente na "Faculty of Humanities", no grupo particular das "General Humanities", que se segue a outros grupos, a filosofia tem o seu modesto lugar. | A luta pela razão tem lugar em todas as ciências, porém com mais clara consciência na filosofia. Sabemos que hoje a filosofia desempenha papel diminuto na Universidade. Um sinal disso é a seguinte ninharia: até mesmo a Faculdade que, de acordo com ela, se chama Faculdade de Filosofia (e da qual na época positivista a respectiva Faculdade de Ciências Matemáticas e Naturais fora absurdamente separada, com esquecimento da filosofia), mesmo este resto de Faculdade, que ainda se chama "de Filosofia", escolhe habitualmente para as comissões de nomeação representantes das especialidades afins à cátedra a ser provida - mas a filosofia não é considerada como afim de nenhuma dessas ciências. Se a filosofia ainda é ensinada, devemos isso à tradição que vem da Idade Média e que é mantida e tolerada. Não se dá a ela importância alguma. É matéria de diletantismo individual. Desde Marx, fala-se do fim da filosofia. Na moderna Universidade de Jerusalém, construída de acordo com as necessidades e a situação da nossa época, foi eliminado até mesmo o nome de Faculdade de Filosofia. Somente na "Faculty of Humanities", no grupo particular das "General Humanities", que se segue a outros grupos, a filosofia tem o seu modesto lugar. |
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| De onde deriva esse estado de coisas? A causa parece-me, primeiramente, a dispersão do pensamento contemporâneo na massa das ciências especializadas, o colapso que precipita do amplo espaço da razão no mero trabalho do entendimento; em seguida, também, e decisivamente, a falta de uma filosofia atual que satisfaça a extensão da razão moderna já existente de fato; e a falta de filósofos à altura dessa tarefa. | De onde deriva esse estado de coisas? A causa parece-me, primeiramente, a dispersão do pensamento contemporâneo na massa das ciências especializadas, o colapso que precipita do amplo espaço da razão no mero trabalho do entendimento; em seguida, também, e decisivamente, a falta de uma filosofia atual que satisfaça a extensão da razão moderna já existente de fato; e a falta de filósofos à altura dessa tarefa. |
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| Desse grandioso indeterminado vem-nos um critério para o nosso filosofar concreto. Com os olhos fixos na ideia alta, tentamos sempre a sua realização concreta. E, se deve mesmo subsistir algum indício visível da possibilidade do filosofar, é imprescindível, para isso, uma instituição. Para o Ocidente, é a Universidade que mantém de pé a possibilidade do retorno e da ação da razão. Continua problemática, mas é a nossa "chance" real. A luta espiritual pela razão, tem que procurar a Universidade. Esta é o lugar legitimo da razão pura. | Desse grandioso indeterminado vem-nos um critério para o nosso filosofar concreto. Com os olhos fixos na ideia alta, tentamos sempre a sua realização concreta. E, se deve mesmo subsistir algum indício visível da possibilidade do filosofar, é imprescindível, para isso, uma instituição. Para o Ocidente, é a Universidade que mantém de pé a possibilidade do retorno e da ação da razão. Continua problemática, mas é a nossa "chance" real. A luta espiritual pela razão, tem que procurar a Universidade. Esta é o lugar legitimo da razão pura. |
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| O ensino da filosofia tem lugar na base e no pressuposto do estudo científico especializado. Conserva a tradição filosófica; tem por tarefa o conhecimento das categorias e métodos do pensamento, o que não é ainda a filosofia própriamente dita, mas o ofício sem o qual não se torna clara; e em seguida, tem a tarefa de achar, na massa incalculável de tudo quanto foi pensado, o que há de simples e de essencial. | O ensino da filosofia tem lugar na base e no pressuposto do estudo científico especializado. Conserva a tradição filosófica; tem por tarefa o conhecimento das categorias e métodos do pensamento, o que não é ainda a filosofia própriamente dita, mas o ofício sem o qual não se torna clara; e em seguida, tem a tarefa de achar, na massa incalculável de tudo quanto foi pensado, o que há de simples e de essencial. |
| Para que surja completa imparcialidade no mundo do pensamento, é preciso que os pensadores sejam interiormente independentes. Isto o homem só será quando estiver extinta a sua vontade de poderio e talvez mesmo só quando estiver, de verdade, em estado de fraqueza. A ausência de poder parece ser a condição para agir de forma realmente livre e para despertar a liberdade. É na humildade, sem obstinações, que cada homem individualmente tem uma "chance" de colaborar, na parte infinitamente pequena que lhe toca, para o nascimento de um espaço em que floresça a verdade. | Para que surja completa imparcialidade no mundo do pensamento, é preciso que os pensadores sejam interiormente independentes. Isto o homem só será quando estiver extinta a sua vontade de poderio e talvez mesmo só quando estiver, de verdade, em estado de fraqueza. A ausência de poder parece ser a condição para agir de forma realmente livre e para despertar a liberdade. É na humildade, sem obstinações, que cada homem individualmente tem uma "chance" de colaborar, na parte infinitamente pequena que lhe toca, para o nascimento de um espaço em que floresça a verdade. |
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| O ensino das Universidades, nosso trabalho, está, juntamente com todo o mundo tradicional, à sombra de uma grande ameaça. Desde 1914 esta só tem crescido. | O ensino das Universidades, nosso trabalho, está, juntamente com todo o mundo tradicional, à sombra de uma grande ameaça. Desde 1914 esta só tem crescido. |