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estudos:jaspers:jaspers-a-razao-em-luta-3541

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 Depois da traição, só existe remédio na conversão radical, que tenha uma visão penetrante de si mesma, que aceite a sua culpa. A todo momento, estamos interiormente diante desta encruzilhada: a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos mediante a razão. Depois da traição, só existe remédio na conversão radical, que tenha uma visão penetrante de si mesma, que aceite a sua culpa. A todo momento, estamos interiormente diante desta encruzilhada: a possibilidade de nos tornarmos nós mesmos mediante a razão.
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 Essa é a decisão sempre retomada: poder ser autenticamente si mesmo, isto é, poder ser livre, o que coincide com o caminho para a verdade, com esta simples retidão que se manifesta até nos menores gestos do homem que é êle mesmo e fala como tal. Aqui tem suas raízes o trabalho do pensamento que pensa ao mesmo tempo as coisas e a si mesmo, aqui começa a construção do conteúdo histórico da vida no âmbito da razão, no qual nada é esquecido. Essa é a decisão sempre retomada: poder ser autenticamente si mesmo, isto é, poder ser livre, o que coincide com o caminho para a verdade, com esta simples retidão que se manifesta até nos menores gestos do homem que é êle mesmo e fala como tal. Aqui tem suas raízes o trabalho do pensamento que pensa ao mesmo tempo as coisas e a si mesmo, aqui começa a construção do conteúdo histórico da vida no âmbito da razão, no qual nada é esquecido.
  
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 Desde o começo do filosofar, em oposição à filosofia da razão está a in-filosofia (Unphilosophie), mas não como nulidade inoperante, e sim como poderosa feitiçaria. Desde o começo do filosofar, em oposição à filosofia da razão está a in-filosofia (Unphilosophie), mas não como nulidade inoperante, e sim como poderosa feitiçaria.
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 A feitiçaria encontra-se muitas vezes em grandes espíritos. Entender de feitiços é às vezes poderoso talento. Grandiosas manifestações do idealismo alemão são dessa natureza: a construção, por exemplo, feita por Fichte, relativa ao ponto de transição da sua época e a da filosofia fichteana como façanha desse momento de transição. Essa mesma forma de pensamento reaparece ainda em Nietzsche. A profética visão pessoal de Nietzsche tem a fatal oscilação entre uma profunda intuição e uma fraudulenta ilusão. A escatologia de Marx apresenta esse mesmo traço. Já nesses grandes homens se encontra esta obsessão, esta inobjetividade objetiva, que, a seguir, nos medíocres só nos pode repugnar: essa tendência a fazer do próprio pensamento um absoluto, o único verdadeiro, a identificar a si mesmo, enquanto interesse egocêntrico, com o objeto, e a repelir o que não favorece o próprio modo de pensar. Procuram admiradores e súditos, não amigos. Qualquer outro homem, como se isso fosse muito natural, é por eles considerado pelo que possa significar em relação à própria encenação. A feitiçaria encontra-se muitas vezes em grandes espíritos. Entender de feitiços é às vezes poderoso talento. Grandiosas manifestações do idealismo alemão são dessa natureza: a construção, por exemplo, feita por Fichte, relativa ao ponto de transição da sua época e a da filosofia fichteana como façanha desse momento de transição. Essa mesma forma de pensamento reaparece ainda em Nietzsche. A profética visão pessoal de Nietzsche tem a fatal oscilação entre uma profunda intuição e uma fraudulenta ilusão. A escatologia de Marx apresenta esse mesmo traço. Já nesses grandes homens se encontra esta obsessão, esta inobjetividade objetiva, que, a seguir, nos medíocres só nos pode repugnar: essa tendência a fazer do próprio pensamento um absoluto, o único verdadeiro, a identificar a si mesmo, enquanto interesse egocêntrico, com o objeto, e a repelir o que não favorece o próprio modo de pensar. Procuram admiradores e súditos, não amigos. Qualquer outro homem, como se isso fosse muito natural, é por eles considerado pelo que possa significar em relação à própria encenação.
  
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 Com o abandono da liberdade da razão, a in-filosofia prepara o homem para a escravidão política. No declive mítico, faz naufragar o conhecimento da liberdade. Ensina o homem a retirar-se para o terreno da indiscutibilidade de uma fé irracional. Depois, quando não se vive mais da liberdade, em breve não se sabe mais o que ela é. E porque nos sentimos vazios, porque perdemos a nós mesmos e à verdade, queremos, em nosso temor, ser subjugados. Sem percebê-lo, ao renunciar à razão, renuncia-se também à liberdade. Estamos prontos para qualquer totalitarismo, e seguimos, em comum com o rebanho, o carneiro-guia, para a desgraça, o crime e a morte vergonhosa. Com o abandono da liberdade da razão, a in-filosofia prepara o homem para a escravidão política. No declive mítico, faz naufragar o conhecimento da liberdade. Ensina o homem a retirar-se para o terreno da indiscutibilidade de uma fé irracional. Depois, quando não se vive mais da liberdade, em breve não se sabe mais o que ela é. E porque nos sentimos vazios, porque perdemos a nós mesmos e à verdade, queremos, em nosso temor, ser subjugados. Sem percebê-lo, ao renunciar à razão, renuncia-se também à liberdade. Estamos prontos para qualquer totalitarismo, e seguimos, em comum com o rebanho, o carneiro-guia, para a desgraça, o crime e a morte vergonhosa.
  
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 Há decênios que ouvimos dizer, em relação ao nazismo e ao comunismo: contra uma fé é necessário ter outra fé que se lhe oponha. O mundo livre está fraco, diz-se, porque nenhuma fé o sustenta. Há decênios que ouvimos dizer, em relação ao nazismo e ao comunismo: contra uma fé é necessário ter outra fé que se lhe oponha. O mundo livre está fraco, diz-se, porque nenhuma fé o sustenta.
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 Contra o desânimo só há um remédio: quem quer seriamente sair do mundo das nebulosidades, conhece, por sua liberdade própria, a experiência fundamental, a qual nunca é dado da natureza; possui uma certeza que nenhuma garantia objetiva sustenta; segue o seu caminho com a consciência de servir à verdade sem possuí-la. Contra o desânimo só há um remédio: quem quer seriamente sair do mundo das nebulosidades, conhece, por sua liberdade própria, a experiência fundamental, a qual nunca é dado da natureza; possui uma certeza que nenhuma garantia objetiva sustenta; segue o seu caminho com a consciência de servir à verdade sem possuí-la.
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 Quer, num mundo de fogos-fátuos, salvar a razão, quer deixá-la falar com imperturbável paciência, embora na impotência de uma ressonância que aparentemente vai desaparecendo. Quer, num mundo de fogos-fátuos, salvar a razão, quer deixá-la falar com imperturbável paciência, embora na impotência de uma ressonância que aparentemente vai desaparecendo.
  
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 Mas todos os argumentos e possibilidades de pensamento não são decisivos para a razão. A razão vive da sua origem, e não de argumentos ou da rejeição de argumentos contrários, consciente, em toda situação, de nunca estar de fato na posse da verdade, mas de estar no caminho para ela. Mas todos os argumentos e possibilidades de pensamento não são decisivos para a razão. A razão vive da sua origem, e não de argumentos ou da rejeição de argumentos contrários, consciente, em toda situação, de nunca estar de fato na posse da verdade, mas de estar no caminho para ela.
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 A razão vive portanto na consciência de estar em frente às portas. Cresce a força que talvez permita, àqueles que resistirem, atravessá-las, - e isto só parece possível no luminoso reino da liberdade. Ou talvez o caminho conduza, primeiramente, às trevas da servidão (Unfreiheit) presa a símbolos, divinizadora de homens, privada de ideias. Em face desse extremo, pode tornar-se mais firme e mais consciente a decisão do indivíduo de tornar-se ele mesmo e, com isso, de estabelecer confiantemente aliança com o amigo, de resistir interiormente em qualquer condição e de não colaborar (por qualquer forma, ainda que inconsciente) na preparação da sua entrega total e uma existência humana sem autodeterminação, que vive de uma outra coisa, do mecanismo, tornado vazio, do poder, do "movimento", do povo, dos quais o indivíduo participa sem verdade e sem veracidade. A razão vive portanto na consciência de estar em frente às portas. Cresce a força que talvez permita, àqueles que resistirem, atravessá-las, - e isto só parece possível no luminoso reino da liberdade. Ou talvez o caminho conduza, primeiramente, às trevas da servidão (Unfreiheit) presa a símbolos, divinizadora de homens, privada de ideias. Em face desse extremo, pode tornar-se mais firme e mais consciente a decisão do indivíduo de tornar-se ele mesmo e, com isso, de estabelecer confiantemente aliança com o amigo, de resistir interiormente em qualquer condição e de não colaborar (por qualquer forma, ainda que inconsciente) na preparação da sua entrega total e uma existência humana sem autodeterminação, que vive de uma outra coisa, do mecanismo, tornado vazio, do poder, do "movimento", do povo, dos quais o indivíduo participa sem verdade e sem veracidade.
  
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 A luta pela razão tem lugar em todas as ciências, porém com mais clara consciência na filosofia. Sabemos que hoje a filosofia desempenha papel diminuto na Universidade. Um sinal disso é a seguinte ninharia: até mesmo a Faculdade que, de acordo com ela, se chama Faculdade de Filosofia (e da qual na época positivista a respectiva Faculdade de Ciências Matemáticas e Naturais fora absurdamente separada, com esquecimento da filosofia), mesmo este resto de Faculdade, que ainda se chama "de Filosofia", escolhe habitualmente para as comissões de nomeação representantes das especialidades afins à cátedra a ser provida - mas a filosofia não é considerada como afim de nenhuma dessas ciências. Se a filosofia ainda é ensinada, devemos isso à tradição que vem da Idade Média e que é mantida e tolerada. Não se dá a ela importância alguma. É matéria de diletantismo individual. Desde Marx, fala-se do fim da filosofia. Na moderna Universidade de Jerusalém, construída de acordo com as necessidades e a situação da nossa época, foi eliminado até mesmo o nome de Faculdade de Filosofia. Somente na "Faculty of Humanities", no grupo particular das "General Humanities", que se segue a outros grupos, a filosofia tem o seu modesto lugar. A luta pela razão tem lugar em todas as ciências, porém com mais clara consciência na filosofia. Sabemos que hoje a filosofia desempenha papel diminuto na Universidade. Um sinal disso é a seguinte ninharia: até mesmo a Faculdade que, de acordo com ela, se chama Faculdade de Filosofia (e da qual na época positivista a respectiva Faculdade de Ciências Matemáticas e Naturais fora absurdamente separada, com esquecimento da filosofia), mesmo este resto de Faculdade, que ainda se chama "de Filosofia", escolhe habitualmente para as comissões de nomeação representantes das especialidades afins à cátedra a ser provida - mas a filosofia não é considerada como afim de nenhuma dessas ciências. Se a filosofia ainda é ensinada, devemos isso à tradição que vem da Idade Média e que é mantida e tolerada. Não se dá a ela importância alguma. É matéria de diletantismo individual. Desde Marx, fala-se do fim da filosofia. Na moderna Universidade de Jerusalém, construída de acordo com as necessidades e a situação da nossa época, foi eliminado até mesmo o nome de Faculdade de Filosofia. Somente na "Faculty of Humanities", no grupo particular das "General Humanities", que se segue a outros grupos, a filosofia tem o seu modesto lugar.
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 De onde deriva esse estado de coisas? A causa parece-me, primeiramente, a dispersão do pensamento contemporâneo na massa das ciências especializadas, o colapso que precipita do amplo espaço da razão no mero trabalho do entendimento; em seguida, também, e decisivamente, a falta de uma filosofia atual que satisfaça a extensão da razão moderna já existente de fato; e a falta de filósofos à altura dessa tarefa. De onde deriva esse estado de coisas? A causa parece-me, primeiramente, a dispersão do pensamento contemporâneo na massa das ciências especializadas, o colapso que precipita do amplo espaço da razão no mero trabalho do entendimento; em seguida, também, e decisivamente, a falta de uma filosofia atual que satisfaça a extensão da razão moderna já existente de fato; e a falta de filósofos à altura dessa tarefa.
  
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 Desse grandioso indeterminado vem-nos um critério para o nosso filosofar concreto. Com os olhos fixos na ideia alta, tentamos sempre a sua realização concreta. E, se deve mesmo subsistir algum indício visível da possibilidade do filosofar, é imprescindível, para isso, uma instituição. Para o Ocidente, é a Universidade que mantém de pé a possibilidade do retorno e da ação da razão. Continua problemática, mas é a nossa "chance" real. A luta espiritual pela razão, tem que procurar a Universidade.  Esta é o lugar legitimo da razão pura. Desse grandioso indeterminado vem-nos um critério para o nosso filosofar concreto. Com os olhos fixos na ideia alta, tentamos sempre a sua realização concreta. E, se deve mesmo subsistir algum indício visível da possibilidade do filosofar, é imprescindível, para isso, uma instituição. Para o Ocidente, é a Universidade que mantém de pé a possibilidade do retorno e da ação da razão. Continua problemática, mas é a nossa "chance" real. A luta espiritual pela razão, tem que procurar a Universidade.  Esta é o lugar legitimo da razão pura.
  
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 O ensino da filosofia tem lugar na base e no pressuposto do estudo científico especializado. Conserva a tradição filosófica; tem por tarefa o conhecimento das categorias e métodos do pensamento, o que não é ainda a filosofia própriamente dita, mas o ofício sem o qual não se torna clara; e em seguida, tem a tarefa de achar, na massa incalculável de tudo quanto foi pensado, o que há de simples e de essencial. O ensino da filosofia tem lugar na base e no pressuposto do estudo científico especializado. Conserva a tradição filosófica; tem por tarefa o conhecimento das categorias e métodos do pensamento, o que não é ainda a filosofia própriamente dita, mas o ofício sem o qual não se torna clara; e em seguida, tem a tarefa de achar, na massa incalculável de tudo quanto foi pensado, o que há de simples e de essencial.
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 Para que surja completa imparcialidade no mundo do pensamento, é preciso que os pensadores sejam interiormente independentes. Isto o homem só será quando estiver extinta a sua vontade de poderio e talvez mesmo só quando estiver, de verdade, em estado de fraqueza. A ausência de poder parece ser a condição para agir de forma realmente livre e para despertar a liberdade. É na humildade, sem obstinações, que cada homem individualmente tem uma "chance" de colaborar, na parte infinitamente pequena que lhe toca, para o nascimento de um espaço em que floresça a verdade. Para que surja completa imparcialidade no mundo do pensamento, é preciso que os pensadores sejam interiormente independentes. Isto o homem só será quando estiver extinta a sua vontade de poderio e talvez mesmo só quando estiver, de verdade, em estado de fraqueza. A ausência de poder parece ser a condição para agir de forma realmente livre e para despertar a liberdade. É na humildade, sem obstinações, que cada homem individualmente tem uma "chance" de colaborar, na parte infinitamente pequena que lhe toca, para o nascimento de um espaço em que floresça a verdade.
  
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 O ensino das Universidades, nosso trabalho, está, juntamente com todo o mundo tradicional, à sombra de uma grande ameaça. Desde 1914 esta só tem crescido. O ensino das Universidades, nosso trabalho, está, juntamente com todo o mundo tradicional, à sombra de uma grande ameaça. Desde 1914 esta só tem crescido.
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