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 A razão aponta, por conseguinte, duas coisas: a natureza inacessível daquele Um, sob cuja infinita atração ela pensa; e esse "outro" das origens, que, vivificadas por ela, se tornam perceptíveis. A razão faz que aquilo que existe e pode existir se desdobre necessariamente, é aquilo que abre todas as coisas. E impele o que foi aberto para o Um, referido ao qual isso que foi aberto não afunda no nada da dispersão. A razão aponta, por conseguinte, duas coisas: a natureza inacessível daquele Um, sob cuja infinita atração ela pensa; e esse "outro" das origens, que, vivificadas por ela, se tornam perceptíveis. A razão faz que aquilo que existe e pode existir se desdobre necessariamente, é aquilo que abre todas as coisas. E impele o que foi aberto para o Um, referido ao qual isso que foi aberto não afunda no nada da dispersão.
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 Desejaria agora completar esta breve caracterização da razão, pela discussão de algumas possibilidades que ela proporciona. Desejaria agora completar esta breve caracterização da razão, pela discussão de algumas possibilidades que ela proporciona.
  
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 Quando, na tentativa de distinguir radicalmente o Oriente do Ocidente, contrapomos o movimento do ocidental à tranquilidade do asiático, o que encontramos é apenas uma polaridade da razão mesma, que é própria de ambos (Oriente e Ocidente). É a tensão que se manifesta por sua vez historicamente aqui e lá, mas que não é suficientemente distinguível na sua manifestação por meio de categorias universais. A historicidade como tal nunca se torna objeto de conhecimento. Não sabemos nada de essencial uns dos outros, senão quando entramos em comunicação uns com os outros. Quando, na tentativa de distinguir radicalmente o Oriente do Ocidente, contrapomos o movimento do ocidental à tranquilidade do asiático, o que encontramos é apenas uma polaridade da razão mesma, que é própria de ambos (Oriente e Ocidente). É a tensão que se manifesta por sua vez historicamente aqui e lá, mas que não é suficientemente distinguível na sua manifestação por meio de categorias universais. A historicidade como tal nunca se torna objeto de conhecimento. Não sabemos nada de essencial uns dos outros, senão quando entramos em comunicação uns com os outros.
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 As manifestações que ocorrem na ausência da razão podem ser caracterizadas como em número infinito. Um princípio da não-razão é a vontade de existência concreta (Da-sein), que atribui a si mesma a proeminência. Para frisar o contraste com a razão, pode-se formular o seguinte: As manifestações que ocorrem na ausência da razão podem ser caracterizadas como em número infinito. Um princípio da não-razão é a vontade de existência concreta (Da-sein), que atribui a si mesma a proeminência. Para frisar o contraste com a razão, pode-se formular o seguinte:
  
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 Enquanto o pensamento a serviço da razão é crítico, deseja a verdade, a existência concreta pensante procura sua auto-justificação na sofistica e sua certeza do Ser na superstição da gnose metafísica. Enquanto o pensamento a serviço da razão é crítico, deseja a verdade, a existência concreta pensante procura sua auto-justificação na sofistica e sua certeza do Ser na superstição da gnose metafísica.
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 E agora a coisa decisiva: a razão não existe por natureza, mas realmente apenas por decisão. Não acontece por si mesma, como um fato natural e como a totalidade da existência humana concreta, na medida em que esta tem caráter de natureza, mas nasce da liberdade. E agora a coisa decisiva: a razão não existe por natureza, mas realmente apenas por decisão. Não acontece por si mesma, como um fato natural e como a totalidade da existência humana concreta, na medida em que esta tem caráter de natureza, mas nasce da liberdade.
  
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 "O homem que é consciente de um caráter, no seu modo de pensar, não o tem por natureza, mas deve tê-lo adquirido constantemente. Pode-se também admitir que a fundação desse caráter, qual uma espécie de renascimento, certo solene voto de dedicação feito a si mesmo, faz que essa fundação e o momento em que tal transformação se passa no homem, tornem-se inesquecíveis para êle, semelhante a uma nova época. A educação, os exemplos... não poderiam produzir pouco a pouco, de modo geral, esta firmeza nos princípios, mas a produzem, a bem dizer, por uma explosão... Talvez sejam somente poucos os que tenham tentado esta revolução antes dos trinta anos, e ainda menos os que a tenham firmemente instituído antes dos quarenta. Querer fragmentàriamente tornar-se um homem melhor, é uma tentativa vã... a fundação de um caráter é a unidade absoluta do princípio interior e da conduta, em geral..." E diz depois: "Numa palavra: a veracidade... convertida em máxima suprema, é a única prova que a consciência de um homem lhe dá, de que ele tem um caráter; e como ter caráter é o mínimo que se pode exigir de um homem racional, mas ao mesmo tempo também é o máximo de valor interior   (de dignidade humana), ser um homem de princípios deve ser possível à razão humana comum."  [Kant,   "Antropologie  in  pragmatischer  Hinsicht,  II  Teil  §   87 (Ed. Hartenstein, Vol. VII, pág. 616).] "O homem que é consciente de um caráter, no seu modo de pensar, não o tem por natureza, mas deve tê-lo adquirido constantemente. Pode-se também admitir que a fundação desse caráter, qual uma espécie de renascimento, certo solene voto de dedicação feito a si mesmo, faz que essa fundação e o momento em que tal transformação se passa no homem, tornem-se inesquecíveis para êle, semelhante a uma nova época. A educação, os exemplos... não poderiam produzir pouco a pouco, de modo geral, esta firmeza nos princípios, mas a produzem, a bem dizer, por uma explosão... Talvez sejam somente poucos os que tenham tentado esta revolução antes dos trinta anos, e ainda menos os que a tenham firmemente instituído antes dos quarenta. Querer fragmentàriamente tornar-se um homem melhor, é uma tentativa vã... a fundação de um caráter é a unidade absoluta do princípio interior e da conduta, em geral..." E diz depois: "Numa palavra: a veracidade... convertida em máxima suprema, é a única prova que a consciência de um homem lhe dá, de que ele tem um caráter; e como ter caráter é o mínimo que se pode exigir de um homem racional, mas ao mesmo tempo também é o máximo de valor interior   (de dignidade humana), ser um homem de princípios deve ser possível à razão humana comum."  [Kant,   "Antropologie  in  pragmatischer  Hinsicht,  II  Teil  §   87 (Ed. Hartenstein, Vol. VII, pág. 616).]
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 Em nossa época, Koestler encontrou notáveis e emocionantes palavras para referir-se à conversão que o libertou do comunismo e o fez um ardente defensor da liberdade e da humanidade. Fala da "vivência" que, "logo que a vestimos com palavras, aparece sempre na roupagem falsa dos eternos lugares comuns",  -  "que o homem é uma realidade e a humanidade uma abstração: que não se pode tratar os homens como números em uma equação política, porque eles se comportam como os sinais de zero ou de infinito, que transtornam todos os cálculos matemáticos; que só dentro de limites muito estreitos é que o fim justifica os meios; que a ética não é só uma função de utilidade social e o amor do próximo um sentimento pequeno-burguês, mas a força de gravitação que mantém unida toda civilização." Em nossa época, Koestler encontrou notáveis e emocionantes palavras para referir-se à conversão que o libertou do comunismo e o fez um ardente defensor da liberdade e da humanidade. Fala da "vivência" que, "logo que a vestimos com palavras, aparece sempre na roupagem falsa dos eternos lugares comuns",  -  "que o homem é uma realidade e a humanidade uma abstração: que não se pode tratar os homens como números em uma equação política, porque eles se comportam como os sinais de zero ou de infinito, que transtornam todos os cálculos matemáticos; que só dentro de limites muito estreitos é que o fim justifica os meios; que a ética não é só uma função de utilidade social e o amor do próximo um sentimento pequeno-burguês, mas a força de gravitação que mantém unida toda civilização."
  
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 Os simples princípios da razão filosófica podem parecer sem conteúdo, puramente formais, porque na sua generalização nada dizem. Mas precisamente por isso têm uma significação oni-envolvente. Agem como fórmulas mágicas, que, entretanto, são transparentes à razão. Lembram-nos o que é decisivo, sem nos constranger. Fazem ver e dão impulso. Graças ao seu caráter formal, podem, por assim dizer, curar-nos da nossa cegueira, porém a visão concreta, essa eles a deixam à nossa liberdade. Não são proclamações, mas fazem um apelo à razão daquele que vem ao seu encontro, que os ouve e deles se apropria e, ao transformar-se a si mesmo, toma a decisão. Os simples princípios da razão filosófica podem parecer sem conteúdo, puramente formais, porque na sua generalização nada dizem. Mas precisamente por isso têm uma significação oni-envolvente. Agem como fórmulas mágicas, que, entretanto, são transparentes à razão. Lembram-nos o que é decisivo, sem nos constranger. Fazem ver e dão impulso. Graças ao seu caráter formal, podem, por assim dizer, curar-nos da nossa cegueira, porém a visão concreta, essa eles a deixam à nossa liberdade. Não são proclamações, mas fazem um apelo à razão daquele que vem ao seu encontro, que os ouve e deles se apropria e, ao transformar-se a si mesmo, toma a decisão.
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 A razão cria o âmbito de pensamento no qual aquilo que existe pode ser apreendido, adquire expressão, e, portanto, valor, enquanto ser próprio. Este âmbito da razão é como a água, o ar e a luz, em que toda vida pode medrar, e por isso é ávido de preenchimento por essa vida, mas com a condição de ser penetrado pela razão. A razão cria o âmbito de pensamento no qual aquilo que existe pode ser apreendido, adquire expressão, e, portanto, valor, enquanto ser próprio. Este âmbito da razão é como a água, o ar e a luz, em que toda vida pode medrar, e por isso é ávido de preenchimento por essa vida, mas com a condição de ser penetrado pela razão.
  
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 Pareceria como se, no meio da ruína, mas desde que a existência concreta não esteja aniquilada, a razão pudesse levar o ser autêntico da Existência a uma transformação em novas possibilidades de construção do ser humano - com o que o ser autêntico de um indivíduo e o ser autêntico de outro se encontram num chamado recíproco por sobre o mundo. Pareceria como se, no meio da ruína, mas desde que a existência concreta não esteja aniquilada, a razão pudesse levar o ser autêntico da Existência a uma transformação em novas possibilidades de construção do ser humano - com o que o ser autêntico de um indivíduo e o ser autêntico de outro se encontram num chamado recíproco por sobre o mundo.
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 Para terminar, digamos, ainda uma vez, o que pode ser a razão. Para terminar, digamos, ainda uma vez, o que pode ser a razão.
  
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