User Tools

Site Tools


estudos:husserl:lyotard-a-eidetica-de-husserl

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

estudos:husserl:lyotard-a-eidetica-de-husserl [15/01/2026 20:13] – created - external edit 127.0.0.1estudos:husserl:lyotard-a-eidetica-de-husserl [17/01/2026 13:31] (current) mccastro
Line 24: Line 24:
  
 Assim, o conceito era algo vivido, o princípio uma condição contingente do mecanismo psicológico, a verdade uma crença coroada de êxito. Sendo o próprio saber científico relativo à nossa organização, nenhuma lei poderia ser considerada absolutamente verdadeira mas tão-somente uma hipótese em via de verificação sem fim, a eficácia das operações (pragma) que ela torna possíveis definia sua validade. A ciência teceria portanto uma rede de símbolos cômodos (energia, força, etc.) com que veste o mundo; seu único objetivo seria então estabelecer entre esses símbolos relações constantes que permitam a ação. O problema de um conhecimento do mundo propriamente dito não se propunha. Não se podia mais afirmar um progresso desse conhecimento no decorrer da história da ciência: a história é um devir sem significado determinado, um acúmulo de tentativas e de erros. É portanto necessário renunciar a propor problemas à ciência para os quais não existe resposta. Enfim, a matemática é um vasto sistema formal de símbolos estabelecidos convencionalmente e de axiomas operatórios sem conteúdo limitativo: tudo aí é possível à nossa fantasia (Poincaré). A verdade matemática define-se ela própria segundo o referencial de axiomas escolhidos de início. Todas essas teses convergem para o ceticismo. Assim, o conceito era algo vivido, o princípio uma condição contingente do mecanismo psicológico, a verdade uma crença coroada de êxito. Sendo o próprio saber científico relativo à nossa organização, nenhuma lei poderia ser considerada absolutamente verdadeira mas tão-somente uma hipótese em via de verificação sem fim, a eficácia das operações (pragma) que ela torna possíveis definia sua validade. A ciência teceria portanto uma rede de símbolos cômodos (energia, força, etc.) com que veste o mundo; seu único objetivo seria então estabelecer entre esses símbolos relações constantes que permitam a ação. O problema de um conhecimento do mundo propriamente dito não se propunha. Não se podia mais afirmar um progresso desse conhecimento no decorrer da história da ciência: a história é um devir sem significado determinado, um acúmulo de tentativas e de erros. É portanto necessário renunciar a propor problemas à ciência para os quais não existe resposta. Enfim, a matemática é um vasto sistema formal de símbolos estabelecidos convencionalmente e de axiomas operatórios sem conteúdo limitativo: tudo aí é possível à nossa fantasia (Poincaré). A verdade matemática define-se ela própria segundo o referencial de axiomas escolhidos de início. Todas essas teses convergem para o ceticismo.
-+++++
 **II — As essências.** — Husserl demonstra (Rech. logiques. Ideen I) que esse ceticismo apoiado no empirismo suprime-se contradizendo-se. Com efeito, o postulado de base para todo empirismo consiste na afirmação de que a experiência é a única fonte de verdade para qualquer conhecimento: mas essa afirmação mesma deve ser posta à prova da experiência. Ora, a experiência, fornecendo apenas o contigente e o singular, não pode fornecer à ciência o princípio universal e necessário de uma afirmação semelhante. O empirismo não pode ser compreendido pelo empirismo. Por outro lado, é impossível confundir por exemplo o fluxo de estados subjetivos experimentados pelo matemático enquanto ele raciocina e o raciocínio: as operações do raciocínio são definíveis independentemente desse fluxo; pode-se apenas dizer que o matemático raciocina corretamente quando por esse fluxo subjetivo acede à objetividade do raciocínio verdadeiro. Mas essa objetividade ideal é definida por condições lógicas e a verdade do raciocínio (sua não-contradição) impõe-se tanto ao matemático como ao lógico. O raciocínio verdadeiro é universalmente válido, o raciocínio falso é maculado de subjetividade, portanto instransmissível. Do mesmo modo um triângulo retângulo possui uma objetividade ideal no sentido que ele é o sujeito de um conjunto de predicados, inalienáveis sob pena de perder o próprio triângulo retângulo. Para evitar o equívoco da palavra "ideia", diremos que ele possui uma essência, constituída por todos os predicados cuja supressão imaginária acarretaria a supressão do triângulo em pessoa. Por exemplo, todo triângulo é por essência convexo. **II — As essências.** — Husserl demonstra (Rech. logiques. Ideen I) que esse ceticismo apoiado no empirismo suprime-se contradizendo-se. Com efeito, o postulado de base para todo empirismo consiste na afirmação de que a experiência é a única fonte de verdade para qualquer conhecimento: mas essa afirmação mesma deve ser posta à prova da experiência. Ora, a experiência, fornecendo apenas o contigente e o singular, não pode fornecer à ciência o princípio universal e necessário de uma afirmação semelhante. O empirismo não pode ser compreendido pelo empirismo. Por outro lado, é impossível confundir por exemplo o fluxo de estados subjetivos experimentados pelo matemático enquanto ele raciocina e o raciocínio: as operações do raciocínio são definíveis independentemente desse fluxo; pode-se apenas dizer que o matemático raciocina corretamente quando por esse fluxo subjetivo acede à objetividade do raciocínio verdadeiro. Mas essa objetividade ideal é definida por condições lógicas e a verdade do raciocínio (sua não-contradição) impõe-se tanto ao matemático como ao lógico. O raciocínio verdadeiro é universalmente válido, o raciocínio falso é maculado de subjetividade, portanto instransmissível. Do mesmo modo um triângulo retângulo possui uma objetividade ideal no sentido que ele é o sujeito de um conjunto de predicados, inalienáveis sob pena de perder o próprio triângulo retângulo. Para evitar o equívoco da palavra "ideia", diremos que ele possui uma essência, constituída por todos os predicados cuja supressão imaginária acarretaria a supressão do triângulo em pessoa. Por exemplo, todo triângulo é por essência convexo.
  
Line 32: Line 32:
  
 Tratava-se exatamente, como o queria o empirismo, de voltar "às próprias coisas" (zu den Sachen selbst), de suprimir toda opção metafísica. Mas o empirismo era ainda metafísico quando confundia essa exigência do retorno às coisas com a exigência de fundar todo o conhecimento na experiência, considerando como conhecimento indiscutível que só a experiência nos dá as próprias coisas: há um preconceito empírico, pragmatista. Na realidade, a última fonte de direito para qualquer afirmação racional está no "ver" (sehen) em geral, isto é, na consciência doadora originária (Ideen). Não pressupomos nada, diz Husserl, "nem mesmo o conceito de filosofia". E quando o psicologismo pretende identificar o eidos, obtido pela variação, com o conceito cuja gênese é psicológica e empírica, respondemos apenas que, se ele quer se limitar à intuição originária tomando-a como sua lei, seus conhecimentos a respeito são menores do que ele pretende. O número dois é talvez, considerado como conceito, construído a partir da experiência, mas na medida em que eu obtenho desse número o eidos por variação, eu afirmo que este eidos é "anterior" a qualquer teoria da construção do número e a prova é que toda explicação genética se apoia sempre no saber atual da "alguma coisa" que a gênese deve explicar. A interpretação empirista da formação do número dois pressupõe a compreensão originária desse número. Esta compreensão é portanto uma condição para toda ciência empírica; o eidos que ela nos oferece é apenas um puro possível, mas existe uma anterioridade desse possível em relação ao real de que trata a ciência empírica. Tratava-se exatamente, como o queria o empirismo, de voltar "às próprias coisas" (zu den Sachen selbst), de suprimir toda opção metafísica. Mas o empirismo era ainda metafísico quando confundia essa exigência do retorno às coisas com a exigência de fundar todo o conhecimento na experiência, considerando como conhecimento indiscutível que só a experiência nos dá as próprias coisas: há um preconceito empírico, pragmatista. Na realidade, a última fonte de direito para qualquer afirmação racional está no "ver" (sehen) em geral, isto é, na consciência doadora originária (Ideen). Não pressupomos nada, diz Husserl, "nem mesmo o conceito de filosofia". E quando o psicologismo pretende identificar o eidos, obtido pela variação, com o conceito cuja gênese é psicológica e empírica, respondemos apenas que, se ele quer se limitar à intuição originária tomando-a como sua lei, seus conhecimentos a respeito são menores do que ele pretende. O número dois é talvez, considerado como conceito, construído a partir da experiência, mas na medida em que eu obtenho desse número o eidos por variação, eu afirmo que este eidos é "anterior" a qualquer teoria da construção do número e a prova é que toda explicação genética se apoia sempre no saber atual da "alguma coisa" que a gênese deve explicar. A interpretação empirista da formação do número dois pressupõe a compreensão originária desse número. Esta compreensão é portanto uma condição para toda ciência empírica; o eidos que ela nos oferece é apenas um puro possível, mas existe uma anterioridade desse possível em relação ao real de que trata a ciência empírica.
-+++++
 **III. — A ciência eidética.** — Verifica-se por conseguinte a possibilidade de conferir a esta ciência sua validade. As incertezas da ciência, sensíveis já para as ciências humanas, mas que ao cabo atingem aquelas que serviam de modelo, físico e matemático, têm sua origem numa cega preocupação experimental. Antes de fazer física é necessário estudar o que é o fato físico, sua essência. O mesmo se pode dizer quanto às outras disciplinas. Da definição do eidos tomado pela intuição originária, poder-se-á tirar as conclusões metodológicas que orientarão a pesquisa empírica. Por exemplo, é claro que nenhuma psicologia empírica séria pode ser empreendida se a essência do psíquico não foi estabelecida de maneira a evitar qualquer confusão com a essência do físico. Em outros termos, é necessário definir as leis eidéticas que guiam qualquer conhecimento empírico; esse estudo constitui a ciência eidética em geral, ou então ontologia da natureza (isto é estudo do esse ou essência); essa ontologia foi tomada em sua verdade como prolegômeno à ciência empírica correspondente, por ocasião do desenvolvimento da geometria e do papel que ela desempenhou no saneamento do conhecimento físico. Todas as coisas naturais têm, como essência, efetivamente, ser especial e a geometria é a eidética do espaço: mas ela não abarca toda a essência da coisa, daí o surto de novas disciplinas. Podemos pois distinguir hierarquicamente, a partir do empírico: 1) essências materiais (a do vestiário, por exemplo) estudadas por ontologias ou ciências eidéticas materiais; 2) essências regionais (objeto cultural) coroando as precedentes e explicitadas por eidéticas regionais; 3) a essência do objeto em geral, segundo a definição dada precedentemente, cujo estudo é feito por uma ontologia formal O). Essa última essência que coroa todas as essências regionais é uma "pura forma eidética" e a "região formal" que ela determina não é uma região coordenada pelas regiões materiais mas "a forma vazia de região em geral". Essa ontologia formal é identificável à lógica pura; é a mathesis universalis, ambição de Descartes e de Leibniz. É claro que essa ontologia deve definir não só a noção de teoria em geral, mas todas as formas de teorias possíveis (sistema da multiplicidade). **III. — A ciência eidética.** — Verifica-se por conseguinte a possibilidade de conferir a esta ciência sua validade. As incertezas da ciência, sensíveis já para as ciências humanas, mas que ao cabo atingem aquelas que serviam de modelo, físico e matemático, têm sua origem numa cega preocupação experimental. Antes de fazer física é necessário estudar o que é o fato físico, sua essência. O mesmo se pode dizer quanto às outras disciplinas. Da definição do eidos tomado pela intuição originária, poder-se-á tirar as conclusões metodológicas que orientarão a pesquisa empírica. Por exemplo, é claro que nenhuma psicologia empírica séria pode ser empreendida se a essência do psíquico não foi estabelecida de maneira a evitar qualquer confusão com a essência do físico. Em outros termos, é necessário definir as leis eidéticas que guiam qualquer conhecimento empírico; esse estudo constitui a ciência eidética em geral, ou então ontologia da natureza (isto é estudo do esse ou essência); essa ontologia foi tomada em sua verdade como prolegômeno à ciência empírica correspondente, por ocasião do desenvolvimento da geometria e do papel que ela desempenhou no saneamento do conhecimento físico. Todas as coisas naturais têm, como essência, efetivamente, ser especial e a geometria é a eidética do espaço: mas ela não abarca toda a essência da coisa, daí o surto de novas disciplinas. Podemos pois distinguir hierarquicamente, a partir do empírico: 1) essências materiais (a do vestiário, por exemplo) estudadas por ontologias ou ciências eidéticas materiais; 2) essências regionais (objeto cultural) coroando as precedentes e explicitadas por eidéticas regionais; 3) a essência do objeto em geral, segundo a definição dada precedentemente, cujo estudo é feito por uma ontologia formal O). Essa última essência que coroa todas as essências regionais é uma "pura forma eidética" e a "região formal" que ela determina não é uma região coordenada pelas regiões materiais mas "a forma vazia de região em geral". Essa ontologia formal é identificável à lógica pura; é a mathesis universalis, ambição de Descartes e de Leibniz. É claro que essa ontologia deve definir não só a noção de teoria em geral, mas todas as formas de teorias possíveis (sistema da multiplicidade).
  
 Tal é o primeiro grande movimento do intento husserliano. Ele se apoia no fato, definido como "estar aí individual e contingente"; a contingência do fato remete à essência necessária pois pensar a contingência é pensar que pertence à essência desse fato poder ser diferente do que é. A facticidade implica, portanto, numa necessidade. Esse propósito retoma aparentemente o platonismo e sua "ingenuidade". Mas contém igualmente o cartesianismo porque se esforça por fazer do conhecimento das essências não o fim de todo conhecimento mas a introdução necessária ao conhecimento do mundo material. Nesse sentido a verdade da eidética reside no empírico, razão por que essa "redução eidética", pela qual fomos levados a passar da facticidade contingente do objeto ao seu conteúdo inteligível pode ser também chamada "mundana". A cada ciência empírica corresponde uma ciência eidética concernente ao eidos regional dos objetos estudados por ela e a própria fenomenologia é definida, nessa etapa do pensamento husserliano, como ciência eidética da região consciência; em outras palavras, em todas as ciências empíricas do homem (Geistwissenschaften) se encontra implícita necessariamente uma essência da consciência e é essa implicação que Husserl tenta articular em Ideen II. Tal é o primeiro grande movimento do intento husserliano. Ele se apoia no fato, definido como "estar aí individual e contingente"; a contingência do fato remete à essência necessária pois pensar a contingência é pensar que pertence à essência desse fato poder ser diferente do que é. A facticidade implica, portanto, numa necessidade. Esse propósito retoma aparentemente o platonismo e sua "ingenuidade". Mas contém igualmente o cartesianismo porque se esforça por fazer do conhecimento das essências não o fim de todo conhecimento mas a introdução necessária ao conhecimento do mundo material. Nesse sentido a verdade da eidética reside no empírico, razão por que essa "redução eidética", pela qual fomos levados a passar da facticidade contingente do objeto ao seu conteúdo inteligível pode ser também chamada "mundana". A cada ciência empírica corresponde uma ciência eidética concernente ao eidos regional dos objetos estudados por ela e a própria fenomenologia é definida, nessa etapa do pensamento husserliano, como ciência eidética da região consciência; em outras palavras, em todas as ciências empíricas do homem (Geistwissenschaften) se encontra implícita necessariamente uma essência da consciência e é essa implicação que Husserl tenta articular em Ideen II.
  
/home/mccastro/public_html/ereignis/data/pages/estudos/husserl/lyotard-a-eidetica-de-husserl.txt · Last modified: by mccastro