| Encontramos neste exemplo de M. Henry, três tipos de saberes: os científicos e objectivos; os da consciência e os saberes imediatos da Vida. Estes últimos, de costume, permanecem saberes e poderes esquecidos, despercebidos, no anonimato - é sobretudo quando nos faltam que nos apercebemos de como são primordiais. Se perguntarmos a alguém qual dos três saberes considera mais importante, é provável que, eivado de ideologia positivista, responda que é o da Biologia, sem referir sequer o da consciência que o possibilita e muito menos o da Vida. Até certo ponto, é compreensível este esquecimento, visto a “vida não ter nenhum objecto, pois a sua essência não é de relação com um objecto.” A vida é auto-revelação e auto-afectividade: junta, junge, unifica; não separa, não objectiva, não põe à distância para ver num horizonte de luz. “Se o saber presente no movimento de mexer as mãos, e que o toma possível, tivesse [que ter] um objecto (...) tal movimento jamais se produziría,”((Michel HENRY, “Question de la vie et de la culture...”, p. 18.)) Porque o je peux presente em todos os poderes humanos((Cf. as várias dimensões deste je peux em Paul Ricoeur, Soi-même comme un autre, Paris, Éditions du Seuil, 1990.)) a começar pelos mais humildes e imediatos, ligados à sensibilidade e à carne sensível e senciente, só é possível na imanência absoluta da subjectividade, quer dizer, na Fenomenalidade pura da Vida, que a si mesma se experiência, se frui e se padece, qual ontológica e primordial paciência de ser. É neste sentido que a Vida é um pathos originário: “Cet accroissement de la vie (...) est bien un pathos, un s’éprouver soi-même”, e isto é “quelque chose qu’elle subit constament dans un subir plus fort que sa liberté”((Michel HENRY, “Question de la vie et de la culture...”, p. 21; Cf. igualmente Michel Henry, ’épreuve de la vie (Actes du Colloque de Cerisy 1996, sous la dir. d’Alain David et de Jean Greisch), Paris, Cerf, 2001.)). | Encontramos neste exemplo de M. Henry, três tipos de saberes: os científicos e objectivos; os da consciência e os saberes imediatos da Vida. Estes últimos, de costume, permanecem saberes e poderes esquecidos, despercebidos, no anonimato - é sobretudo quando nos faltam que nos apercebemos de como são primordiais. Se perguntarmos a alguém qual dos três saberes considera mais importante, é provável que, eivado de ideologia positivista, responda que é o da Biologia, sem referir sequer o da consciência que o possibilita e muito menos o da Vida. Até certo ponto, é compreensível este esquecimento, visto a “vida não ter nenhum objecto, pois a sua essência não é de relação com um objecto.” A vida é auto-revelação e auto-afectividade: junta, junge, unifica; não separa, não objectiva, não põe à distância para ver num horizonte de luz. “Se o saber presente no movimento de mexer as mãos, e que o toma possível, tivesse [que ter] um objecto (...) tal movimento jamais se produziría,”((Michel HENRY, “Question de la vie et de la culture...”, p. 18.)) Porque o je peux presente em todos os poderes humanos((Cf. as várias dimensões deste je peux em Paul Ricoeur, Soi-même comme un autre, Paris, Éditions du Seuil, 1990.)) a começar pelos mais humildes e imediatos, ligados à sensibilidade e à carne sensível e senciente, só é possível na imanência absoluta da subjectividade, quer dizer, na Fenomenalidade pura da Vida, que a si mesma se experiência, se frui e se padece, qual ontológica e primordial paciência de ser. É neste sentido que a Vida é um pathos originário: “Cet accroissement de la vie (...) est bien un pathos, un s’éprouver soi-même”, e isto é “quelque chose qu’elle subit constament dans un subir plus fort que sa liberté”((Michel HENRY, “Question de la vie et de la culture...”, p. 21; Cf. igualmente Michel Henry, ’épreuve de la vie (Actes du Colloque de Cerisy 1996, sous la dir. d’Alain David et de Jean Greisch), Paris, Cerf, 2001.)). |
| É, pois, na auto-revelação da Vida absoluta, como doação passiva para si mesma, que também cada Soi-même é dado e vem a ser, não apenas como eu transcendental, mas como vivente, singular, concreto, nas suas moções mais secretas e humildes e em todos os seus poderes. Não é, portanto, a vida ideal, noemática, essência abstracta, mas a vida concreta dos viventes (o Pedro, a Ivete) a começar pelos poderes mais experienciais e basilares do homem, ligados aos poderes do corpo vivido, i.e., da carne. Poderes mínimos, que são nossos num poder que nos é anterior. As modalidades subjectivas mais imediatas para nós desta passividade são o sentir-se a sentir, o ver-se a ver (videre videor) o padecer-se (de pathos), ser para si mesmo uma doação originária que, depois, todas as outras modalidades da nossa subjectividade assumem: a alegria, o prazer, o medo, a dor, a satisfação, a tristeza e assim por diante. ([O ‘ethos’ da Ética->http://www.lusosofia.net/textos/jose//rosa//o//ethos//da//etica//fenomenologia//michel//henry.pdf], p. 10-13) | É, pois, na auto-revelação da Vida absoluta, como doação passiva para si mesma, que também cada Soi-même é dado e vem a ser, não apenas como eu transcendental, mas como vivente, singular, concreto, nas suas moções mais secretas e humildes e em todos os seus poderes. Não é, portanto, a vida ideal, noemática, essência abstracta, mas a vida concreta dos viventes (o Pedro, a Ivete) a começar pelos poderes mais experienciais e basilares do homem, ligados aos poderes do corpo vivido, i.e., da carne. Poderes mínimos, que são nossos num poder que nos é anterior. As modalidades subjectivas mais imediatas para nós desta passividade são o sentir-se a sentir, o ver-se a ver (videre videor) o padecer-se (de pathos), ser para si mesmo uma doação originária que, depois, todas as outras modalidades da nossa subjectividade assumem: a alegria, o prazer, o medo, a dor, a satisfação, a tristeza e assim por diante. (O ‘ethos’ da Ética, p. 10-13) |