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| + | ====== A questão tornada crucial da impressão (2000) ====== | ||
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| + | //Data: 2021-09-12 19:42// | ||
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| + | ==== Encarnação ==== | ||
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| + | === I. A inversão da fenomenologia === | ||
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| + | //HENRY, Michel. Encarnação: | ||
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| + | <tabbox Tradução> | ||
| + | É essa destruição de toda impressão concebível no “fora de si” da exterioridade pura — onde tudo é sempre exterior a si, de onde toda autoimpressão é banida no princípio que ressaltam as extraordinárias Lições sobre o tempo que Husserl pronuncia em Göttingen no semestre de inverno dos anos 1904-1905. O pôr para fora de si da impressão já não é aqui sua projeção intencional na forma de uma qualidade sensível do objeto — o primeiro momento da edificação do universo [77] objetivo e espacial que é o da percepção dos objetos ordinários e que define, aos olhos de todos, o universo real. O pôr fora de si da impressão de que se trata aqui é muito mais originário, | ||
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| + | Esse som se decompõe, vimos, em diferentes fases sonoras, de modo que, imediatamente assim que experimentadas, | ||
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| + | É verdade que a consciência retencional não está isolada; ela se entrelaça constantemente com uma consciência de agora que, por sua vez, está ligada a uma protensão, de modo que somente a síntese jamais desfeita dessas três intencionalidades constitui a consciência interna do tempo — essa consciência que nos dá o som que dura através de suas fases sucessivas, em seu decorrer concreto. Para dizê-lo de outro modo, considerando já não a consciência que constitui o som ouvido temporalmente, | ||
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| + | Duas dificuldades insuperáveis, | ||
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| + | Essa incapacidade paradoxal da consciência do agora de dar ao presente o que precisamente não é em si jamais presente, mas sempre fluxo, passagem, deslocamento constante, é o que tenta camuflar a [79] ideia de síntese contínua pela qual uma consciência retencional se enlaça com essa consciência do agora, de maneira que a fase atual não é dada senão deslizando para o passado e o que é dado, afinal de contas, é esse deslizar para o passado como tal. É verdade que a fase “passado para o instante” não é concebível senão como a fase passada de uma fase que acaba de ser atual. Mas o que é essa fase atual além de uma exigência lógica, na medida em que a consciência do agora é, na realidade, incapaz de dá-la? Se, com efeito, se considera que o fluxo em seu conjunto é esse deslizar contínuo das fases impressionais, | ||
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| + | Que dizer, enfim, da intencionalidade dada pelo presente com esse senso de dar o presente — da consciência do agora? Não é ela mesma — na medida em que escapa à noite do inconsciente onde nenhuma doação se cumpre — uma impressão? Captada inteira, a mesmo título que a impressão sonora, pelo transcurso, como ela escaparia mais que esta ao desvanecimento universal? | ||
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| + | Husserl se perguntou o que, no fluxo, escapa ao fluxo. Diz ele: “a forma do fluxo”. (Ibidem, p. 152) A forma do fluxo é a síntese das três intencio-nalidades — protensão, consciência do agora, retenção — que constituem, em conjunto, a estrutura a priori de todo “fluxo” possível. Nela se opera o surgimento da exterioridade, | ||
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| + | De onde vem então a impressão, a impressão real, se não é do futuro nem do passado nem, menos ainda, de um presente reduzido a um ponto ideal? Essa dificuldade incontornável não escapa a Husserl; ela suscita no texto das Lições uma inversão extraordinária: | ||
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| + | Longe de ser pensada até o fim, no entanto, essa singular troca de papéis entre a consciência do agora e a impressão constituiu o objeto de um travestimento imediato. A consciência intencional do agora não produz, como o vimos, senão a ideia do agora, a significação [81] de estar aí agora, de estar presente, a forma vazia do agora e do presente, sem que haja ainda nada presente, nenhum conteúdo real no fluxo. A essa consciência vazia, Husserl acrescenta bruscamente o conteúdo real e concreto que lhe falta: a impressão. De onde ela vem? Em que consiste essa vinda? Qual é seu aparecer? Como este último continua a ser pensado como o “fora de si” da forma do fluxo, é a esta que se pede o que, precisamente, | ||
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| + | Mas, quando a impressão supostamente pertencente à forma do fluxo chega a este último, ela o faz numa consciência intencional do agora cujo próprio é, lançando esta impressão para fora de si, [82] destruí-la. Inútil enlaçar a essa consciência do agora uma retenção que faz desabar toda a realidade no não ser do passado: a consciência do agora já se encarregou disso. Pois a vinda da impressão no fluxo da consciência não é, com efeito, senão isto: a introdução nela do afastamento pelo qual é separada de si, cortada ao meio — como a criança que as duas mulheres puxavam sob os olhos do rei Salomão, que propôs cortá-la ao meio, com efeito, para dar uma metade a cada uma —, des-feita e, portanto, privada de seu fruir interior que a diferencia para sempre de todas as coisas inertes, de todas as que se dão a nós no aparecer do mundo. | ||
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| + | Conjurar o desmoronamento ontológico da impressão e, com ela, de toda realidade e de toda presença efetiva — é para isso que se esforça a descrição husserliana que faz renascer a cada instante do fluxo a realidade que ele aniquila sem dificuldade. No próprio lugar onde a impressão acaba de ser condenada à morte, afastada no “fora de si” do Ek-stase do tempo, surge uma nova impressão, vinda de alhures, mas imediatamente aniquilada. Donde o caráter alucinante do fluxo husserliano, | ||
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| + | De onde vem ela, com efeito? Como? Como se apoderaria de nós, estreitando-nos contra ela para fazer de nós, viventes? | ||
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| + | <tabbox Original> | ||
| + | C’est cette destruction de toute impression concevable dans le « hors de soi » de l’extériorité pure où tout est toujours extérieur à soi, d’où toute auto-impression est bannie dans le principe, qui ressort des extraordinaires Leçons sur le temps que Husserl prononça à Göttingen dans le semestre d’hiver des années 1904-1905. La mise hors de soi de l’impression n’est plus ici sa projection intentionnelle sous la forme d’une qualité sensible de l’objet – le premier moment de l’édification de l’univers objectif et spatial qui est celui de la perception des objets ordinaires et qui définit aux yeux de tous l’univers réel. La mise hors de soi de l’impression dont il s’agit ici est beaucoup plus originaire, beaucoup moins évidente aussi ; elle se produit en quelque sorte en nous, là où nous ressentons l’ensemble de nos impressions et de nos sensations, au niveau de ce que Husserl appelle la couche hylétique – matérielle, | ||
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| + | Il se décompose, avons-nous vu, en différentes phases sonores, de telle façon que, sitôt éprouvée, chaque phase actuelle glisse au « passé de l’instant », au « tout juste passé » (sœben gewesen), et cette phase passée à l’instant glisse à son tour dans un passé de plus en plus éloigné. Parce que ce glissement au passé est donné à une intentionnalité – la rétention –, il est la venue au dehors sous sa forme primitive, l’Ek-stase dans son surgissement originel, la Différence qu’on peut en effet écrire Différance parce qu’elle n’est rien d’autre que le pur fait de dif-férer, d’écarter, | ||
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| + | Il est vrai que la conscience rétentionnelle n’est pas isolée ; elle se noue constamment à une conscience de maintenant elle-même liée à une protention, de telle sorte que seule la synthèse jamais défaite de ces trois intentionnalités constitue la conscience interne du temps – cette conscience qui nous donne le son qui dure à travers ses phases successives, | ||
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| + | Deux difficultés insurmontables et d’ailleurs corrélatives surgissent ici. Au même titre que rétention et protention, la conscience du maintenant est une intentionnalité ; elle fait voir hors de soi, et si aucune impression n’advient dans un milieu d’extériorité pure, parce que la réalité de l’impression, | ||
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| + | Cette incapacité paradoxale de la conscience du maintenant de donner au présent ce qui précisément n’est en soi jamais présent mais toujours flux, passage, glissement constant, c’est ce que tente de camoufler l’idée de la synthèse continuelle par laquelle une conscience rétentionnelle se noue à cette conscience du maintenant, de sorte que la phase actuelle n’est donnée que glissant au passé et que ce qui est donné en fin de compte, c’est ce glissement au passé comme tel. Il est bien vrai que la phase « passée à l’instant » n’est concevable que comme la phase passée d’une phase qui vient d’être actuelle. Mais cette phase actuelle, qu’est-elle d’autre qu’une exigence logique dans la mesure où la conscience du maintenant est en réalité incapable de la donner ? Si en effet on considère le flux dans son ensemble comme ce glissement continu des phases impressionnelles, | ||
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| + | Que dire enfin de l’intentionnalité qui donne le présent avec ce sens de donner le présent – de la conscience du maintenant ? N’est-elle pas elle-même – pour autant qu’elle échappe à la nuit de l’inconscient où aucune donation ne s’accomplit – une impression ? Saisie tout entière, au même titre que l’impression sonore, par l’écoulement, | ||
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| + | Husserl s’est demandé ce qui, dans le flux, échappe au flux. C’est, dit-il, « la forme du flux » (ibid., p. 152). La forme du flux est la synthèse des trois intentionnalités – protention, conscience du maintenant, rétention – qui constituent ensemble la structure a priori de tout « flux » possible. En elle s’opère le surgissement de l’extériorité, | ||
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| + | D’où vient donc l’impression, | ||
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| + | Loin d’être pensé jusqu’au bout, cependant, ce singulier échange des rôles entre la conscience du maintenant et l’impression fait l’objet d’un travestissement immédiat. La conscience intentionnelle du maintenant ne produit, on l’a vu, que l’idée du maintenant, la signification d’être là maintenant, d’être présent, la forme vide du maintenant et du présent, sans qu’il y ait encore rien de présent, aucun contenu réel dans le flux. A cette conscience vide, Husserl adjoint brusquement le contenu réel et concret qui lui manque : l’impression. D’où vient celle-ci ? En quoi consiste cette venue ? Quel est son apparaître ? Parce que ce dernier continue d’être pensé comme le « hors de soi » de la forme du flux, c’est à celle-ci qu’est demandé ce qu’elle est précisément incapable de fournir, cette impression réelle qui ne se montre jamais en elle. Alors s’opère dans le texte husserlien une série de glissements : de la forme vide du flux au constat d’un contenu censé se montrer en elle – de ce constat (en lui-même fallacieux) à l’idée que ce contenu étranger à la forme, extérieur à elle, ne lui est cependant pas extérieur, mais lui est lié, résulte d’elle de quelque manière, se trouve déterminé par elle – même si une telle détermination ne suffit pas à en rendre pleinement compte. Voici cette série d’équivoques : « Ce qui demeure avant toute chose, c’est la structure formelle du flux, la forme du flux […] mais […] la forme permanente est sans cesse remplie à nouveau par un “contenu”, | ||
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| + | Seulement, quand l’impression censée appartenir à la forme du flux vient en ce dernier, elle le fait dans une conscience intentionnelle de maintenant dont le propre est, en jetant cette impression hors de soi, de la détruire. Inutile de nouer à cette conscience du maintenant une rétention qui fait basculer toute réalité dans le non-être du passé : la conscience du maintenant s’en est déjà chargée. Car la venue de l’impression dans le flux de la conscience n’est en effet que cela : l’introduction en elle de l’écartement par lequel, séparée de soi, coupée en deux – comme l’enfant que s’arrachaient les deux femmes sous l’œil du roi Salomon, qui proposa de le couper en deux en effet et d’en remettre à chacune une moitié –, dé-faite donc, privée de sa jouissance intérieure qui la différencie à jamais de toutes les choses inertes, de toutes celles qui se donnent à nous dans l’apparaître du monde. | ||
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| + | Conjurer l’effondrement ontologique de l’impression et, avec elle, de toute réalité et de toute présence effective, c’est à quoi s’efforce la description husserlienne en faisant renaître à chaque instant du flux la réalité qu’il anéantit sans coup férir. A l’endroit même où l’impression vient d’être mise à mort, écartelée dans le « hors de soi » de l’Ek-stase du temps, une nouvelle impression surgit, venue d’ailleurs mais aussitôt anéantie. D’où le caractère hallucinant du flux husserlien, ce jaillissement continu d’être sur l’abîme d’un néant qui s’ouvre constamment sous lui pour l’engloutir – le prétendu continuum de ce flux constamment brisé, sa réalité soi-disant homogène partie en éclats, en morceaux d’être et de non-être qui s’échangent dans une discontinuité à peine pensable. Le dernier texte cité se poursuit ainsi : « La forme consiste en ceci qu’un maintenant se constitue par une impression et qu’à celle-ci s’articulent une queue de rétentions et un horizon de protentions. Mais cette forme permanente [la forme du flux] porte la conscience de la mutation permanente qui est un fait originaire : la conscience de la mutation de l’impression en rétention, tandis qu’à nouveau continûment une impression est là » (ibid., souligné par nous). Le texte incohérent qui prétendait imputer à la forme vide du flux le contenu dont elle manque si cruellement – l’impression réelle qu’elle pousse immédiatement dans sa tombe – ne peut qu’offrir à notre admiration la résurrection aussi miraculeuse que permanente d’une impression toujours nouvelle et qui, toujours et à chaque instant, vient nous sauver du néant. | ||
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| + | D’où vient-elle en effet, comment ? Comment se saisira-t-elle de nous, nous pressant contre elle pour faire de nous des vivants ? | ||
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