estudos:henry:gp:vida
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| + | ====== Vida ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009// | ||
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| + | **A vida e suas propriedades: | ||
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| + | * A vida assume dois sentidos distintos: o sentido ôntico do querer-viver como desejo incessante, sem objeto, finalidade ou término, e o sentido ontológico da [[auto-afetação]] imanente pela qual todo querer se experimenta originariamente como querer vivo. | ||
| + | * A definição da vida como vontade faminta permanece ingênua enquanto não se esclarece como essa vontade pertence à vida e possui caráter vivo. | ||
| + | * A essência da vida reside na auto-afetação anterior à diferença entre sujeito e objeto, conhecido e cognoscente. | ||
| + | * O sofrimento primordial constitui a imanência na qual o querer existe efetivamente e se experimenta a si mesmo. | ||
| + | * A oscilação schopenhaueriana entre os conceitos ôntico e ontológico da vida desfaz continuamente a unidade entre vida e vontade, pois a vontade concebida como coisa em si inconsciente acaba buscando sua manifestação na representação, | ||
| + | * A vida deixa de constituir a essência interior da vontade e torna-se aquilo que a vontade quer como sua manifestação. | ||
| + | * O mundo visível converte-se no espelho da vontade e em sua inseparável exteriorização representativa. | ||
| + | * A realidade faminta e carente concebida por Schopenhauer exprime, mais profundamente, | ||
| + | * A fome e a sede retomam os temas de Boehme e Schelling acerca do obscuro que tende à luz para alcançar o ser. | ||
| + | * A vontade busca no mundo representado a própria possibilidade de viver, embora a vida se subtraia por princípio à exterioridade. | ||
| + | * O recomeço indefinido do desejo e de seu fracasso resulta de um contrassenso ontológico que sustenta secretamente o pessimismo schopenhaueriano. | ||
| + | * A dissociação entre vontade e vida manifesta-se quando a afirmação da vontade deixa de consistir no exercício imanente de sua essência e passa a significar sua objetivação em um mundo representado, | ||
| + | * O querer-viver esforça-se violentamente por existir e assume formas inumeráveis no mundo. | ||
| + | * O apego da vontade à vida e ao corpo exprime sua carência de realidade interior. | ||
| + | * Os órgãos genitais, os impulsos sexuais e os demais desejos corporais testemunham sua sede incessante de existência. | ||
| + | * A identidade originária entre vontade e corpo torna-se incompatível com a busca da manifestação da vontade em um corpo exterior pertencente à representação, | ||
| + | * A autoafirmação deixa de ser o livre exercício dos poderes corporais e torna-se assentimento concedido por uma vontade separada. | ||
| + | * A representação cria a contradição entre a vontade e sua forma corporal visível. | ||
| + | * O princípio de individuação fragmenta a afirmação da vontade em uma multiplicidade de indivíduos. | ||
| + | * A vida e o corpo, deixando de coincidir com a vontade, convertem-se em objetos que ela pode querer ou rejeitar, e desse intervalo surgem as categorias éticas do bom e do mau. | ||
| + | * A vida aparece como repetição dolorosa de um desejo que jamais alcança satisfação definitiva. | ||
| + | * A maldade consiste em afirmar energicamente o querer-viver no próprio corpo e negar sua manifestação nos demais indivíduos. | ||
| + | * A salvação exige a recusa da vida cuja afirmação individual implica sofrimento próprio e espoliação alheia. | ||
| + | * A possibilidade de a vontade desprender-se da vida reside na distância fenomenológica pela qual ela contempla a própria manifestação, | ||
| + | * A salvação realiza-se mediante a representação e a reflexão, como nas filosofias clássicas e posteriormente no freudismo. | ||
| + | * A natureza conduz a vontade à luz do conhecimento para que nela encontre sua libertação. | ||
| + | * A negação da vida transforma-se necessariamente em autonegação da vontade, pois corpo e vida constituem sua manifestação fenomênica, | ||
| + | * A vontade deixa de afirmar sua essência refletida no espelho dos fenômenos. | ||
| + | * A aversão ascética à vida converte-se em aversão à própria vontade. | ||
| + | * A castidade exprime a supressão simultânea da vontade e da vida corporal que a manifesta. | ||
| + | * A oposição entre vontade e vida revela-se ilusória porque toda ação exercida sobre a vida atinge igualmente a vontade, enquanto a tentativa de fazer a representação transformar a vida contradiz a separação radical entre a realidade poderosa da vontade e a irrealidade impotente do conhecimento. | ||
| + | * O intelecto é apresentado como servidor da vontade, capaz de justificar seus empreendimentos, | ||
| + | * Uma ética exterior que pretendesse corrigir a vontade por doutrinas e mandamentos seria impossível, | ||
| + | * A relação entre vontade e vida deve ser esclarecida a partir da intuição decisiva de que a realidade se opõe à representatividade e permanece em imanência radical, pois somente a vida permanece em si e constitui o ser pensado independentemente da exterioridade extática. | ||
| + | * Os entes e seu modo representável de ser pertencem à exteriorização derivada da ek-stasis e da physis. | ||
| + | * O alvo mais profundo de Schopenhauer não é a vontade isoladamente, | ||
| + | * A realidade irrepresentável torna-se querer-viver, | ||
| + | * A descoberta central de Schopenhauer não reside na vontade, mas em sua condição de possibilidade, | ||
| + | * A vontade não possui fim porque não sai de si nem pode representar algo colocado à distância como objetivo. | ||
| + | * A ausência de finalidade deriva da relação imanente da vontade consigo mesma, e não apenas do fracasso reiterado de sua realização exterior. | ||
| + | * A caracterização da vontade como vazia deve ser invertida, pois sua ausência de objetos, finalidades, | ||
| + | * A vontade nada quer de representável porque não possui olhar nem projeta fins diante de si. | ||
| + | * Os seres vivos não são atraídos por objetivos representados, | ||
| + | * A avaliação dessa vida imanente como movimento cego e desorientado resulta de sua interpretação segundo os critérios da representação. | ||
| + | * A vontade permanece integralmente em si e coincide com sua própria afirmação, | ||
| + | * A vontade é uma pulsão incessante e um impulso sem fundamento cuja razão suficiente não se encontra no mundo exterior. | ||
| + | * Todo ser quer continuamente porque a vontade constitui a realidade de tudo aquilo que existe. | ||
| + | * O caráter terrível da vontade decorre de sua indiferença a um universo que ela não representa, enquanto a existência oscila entre preocupações incessantemente renovadas e um tédio insuportável que exprime sua imanência vazia de conteúdos representativos. | ||
| + | * A fuga do tédio produz finalidades artificiais e reconduz continuamente ao ciclo das preocupações. | ||
| + | * O mesmo vazio pode ser reinterpretado por Nietzsche como experiência de plenitude, pois deriva da presença integral da vida a si mesma. | ||
| + | * O reconhecimento da vontade como imanência conduz à descoberta filosófica da possibilidade verdadeira da ação, em oposição à tradição grega que compreende agir como produção, passagem do não presente à presença e condução exterior de algo ao aparecer. | ||
| + | * Na tradição fundada na ek-stasis, produzir significa colocar algo diante de si no domínio da presença. | ||
| + | * A ação é interpretada como eclosão da physis e exteriorização no mundo. | ||
| + | * A metafísica moderna da representação conserva a concepção extática da ação ao defini-la como posição de fins, disposição de meios e objetivação daquilo que deve ser realizado. | ||
| + | * Agir torna-se representar antecipadamente o que será feito e conduzi-lo à condição de objeto. | ||
| + | * A representação pode ser considerada ação somente porque a ação já foi previamente reduzida ao processo representativo. | ||
| + | * O movimento das percepções leibnizianas torna-se, assim, essência da força e da ação real. | ||
| + | * Schopenhauer inverte os pressupostos do idealismo ao conceber a vontade como ação sem representação, | ||
| + | * O indivíduo conduzido interiormente pela vontade, sem ser atraído por um objetivo representado, | ||
| + | * A suspensão da representatividade exclui da ação imanente toda finalidade, projeto, cálculo, saber, segurança e evidência consciente, deixando-a como simples atualização interior de uma essência que ignora o mundo. | ||
| + | * A certeza prática não pode ser compreendida como consecução teleológica de uma evidência representativa. | ||
| + | * A vontade age sozinha, sem qualquer forma de conhecimento que preceda ou ilumine seu exercício. | ||
| + | * A ação estranha à representação revela-se, num segundo momento, segura e infalível, pois sua perfeição imanente é perturbada justamente pela introdução da razão, dos cálculos e das avaliações conscientes. | ||
| + | * A vontade sem razão e a ação sem representação constituem o instinto. | ||
| + | * A segurança, a infalibilidade e o mistério do instinto exprimem o assombro diante de uma atividade cega que alcança seus resultados. | ||
| + | * Eduardo von Hartmann transforma o instinto em atividade milagrosa de um Inconsciente divinizado, provocando simultaneamente o entusiasmo religioso, a resistência científica e o interesse posterior da psicanálise. | ||
| + | * Os cientistas procuram reduzir o instinto a fenômenos objetivos explicáveis por leis e recusam sua suposta infalibilidade. | ||
| + | * Freud reconhece na vontade inconsciente de Schopenhauer o equivalente dos instintos psíquicos da psicanálise. | ||
| + | * A ação sem conhecimento somente parece catastrófica ou milagrosa para uma metafísica que situa a possibilidade do ser na representatividade, | ||
| + | * A concepção do Inconsciente revela a contradição de uma metafísica que reduz o ser à representação e precisa recorrer imediatamente ao seu contrário. | ||
| + | * A irrepresentabilidade da ação não a torna absurda, mas constitui sua própria possibilidade, | ||
| + | * O corpo constitui a unidade viva de poderes como ver, ouvir, tocar, agarrar e mover-se. | ||
| + | * Cada poder corporal somente é poder porque pertence imediatamente ao corpo e pode ser exercido por ele. | ||
| + | * A corporeidade originária coincide com a alma cartesiana, a imanência e a vida. | ||
| + | * A vontade é corpo porque o querer adere imediatamente a si mesmo, encontra sua manifestação na própria força e recebe da unidade imanente a potência de ser e agir, sem necessitar de um corpo exterior que o reflita. | ||
| + | * A força precede a vontade e será posteriormente reconhecida por Nietzsche como seu fundamento. | ||
| + | * A ação corporal refuta praticamente a metafísica da representação, | ||
| + | * Onde um corpo exerce seus poderes, a metafísica da exterioridade encontra-se suspensa. | ||
| + | * A aparente passividade do corpo diante de necessidades não escolhidas não o distingue da vontade, pois também esta quer sem haver escolhido querer, sendo ambos incapazes de estabelecer uma distância pela qual pudessem aceitar ou recusar a própria essência. | ||
| + | * A representação do corpo como objeto cria a ilusão de uma vontade separada capaz de querer ou não querer suas necessidades. | ||
| + | * O corpo originário permanece encerrado em si, imanente e vivo, sem poder transformar-se em objeto para si mesmo. | ||
| + | * A imanência reconduz à essência da vida como experiência originária de si no sofrimento, pela qual todo vivente permanece preso ao próprio ser sem haver escolhido essa condição. | ||
| + | * A vontade não pode querer ou deixar de querer seu próprio querer. | ||
| + | * Uma força anterior à vontade entrega-a irremediavelmente a si mesma e constitui a potência originária do ser. | ||
| + | * Essa força passiva é o sofrimento primordial, pelo qual a essência da vida se determina como afetividade. | ||
| + | * A originalidade de Schopenhauer consiste em colocar a afetividade no centro da existência, | ||
| + | * A dor constitui o fundo de toda vida e se modaliza nas diversas tonalidades da existência. | ||
| + | * A relação com os outros realiza-se afetivamente como compaixão ou crueldade, e não primordialmente como conhecimento. | ||
| + | * As comunidades reais, como família e classes, fundam-se nos sentimentos, | ||
| + | * A afetividade permite decifrar o mundo como sonho terrível e, ao mesmo tempo, constitui concretamente a libertação, | ||
| + | * A essência comum das coisas revela-se concretamente pelo sentimento. | ||
| + | * Alegria celeste, serenidade íntima e repouso profundo caracterizam a superação da alternância entre desejo, medo, esperança, prazer e sofrimento. | ||
| + | * A metafísica da vontade é frequentemente uma metafísica da afetividade, | ||
| + | * A afetividade não constitui acidente empírico acrescentado exteriormente à vida, mas sua estrutura apriorística e absoluta, pois a fonte do sofrimento encontra-se no próprio ser vivo. | ||
| + | * O projeto schopenhaueriano busca retirar a vida afetiva da facticidade e constituir uma eidética capaz de revelar suas determinações necessárias. | ||
| + | * A dor pertence à essência da vida e torna-se, na formulação posterior de Nietzsche, a mãe do ser. | ||
| + | * O projeto de uma teoria apriorística da afetividade fracassa porque esta não é compreendida a partir da auto-afetação originária da vida, mas explicada pelo conceito ôntico do querer-viver como desejo, necessidade e apetite jamais satisfeitos. | ||
| + | * A afetividade deixa de ser analisada em sua essência e torna-se efeito de um fato anterior. | ||
| + | * Uma explicação causal substitui a análise ontológica da essência absoluta da vida. | ||
| + | * A afetividade é explicada de maneira naturalista pela satisfação ou frustração da necessidade, | ||
| + | * A definição da afetividade como efeito do desejo subordina suas leis e sua história a um princípio exterior, convertendo-a em consequência posterior da vontade e tornando ilusória a pretensão de reconhecê-la como a priori. | ||
| + | * A satisfação e a insatisfação são explicadas segundo o sucesso ou o fracasso da vontade em alcançar aquilo de que carece, como se a constituição da realidade pelo manquejo de ser fosse a condição de possibilidade do prazer e da dor. | ||
| + | * A vontade, enquanto falta de realidade, é apresentada como fundamento das tonalidades afetivas. | ||
| + | * A teoria pretende deduzir a afetividade da estrutura carente do querer-viver. | ||
| + | * A infinitude do desejo estabelece uma desigualdade entre sofrimento e satisfação, | ||
| + | * Nenhuma satisfação possui duração ou conteúdo positivo próprio. | ||
| + | * O pessimismo schopenhaueriano funda-se na precedência ontológica da carência e do sofrimento. | ||
| + | * A insatisfação desempenha um papel duplo, pois aparece tanto como consequência da frustração de um desejo quanto como determinação originária pertencente ao próprio desejo antes de qualquer resultado. | ||
| + | * A afetividade deixa de ser efeito da vontade quando a necessidade já se apresenta desde o início como sofrimento. | ||
| + | * Desejo e necessidade pressupõem uma modalidade afetiva anterior que os torna possíveis. | ||
| + | * A tese tradicional que deriva as tonalidades afetivas de um conatus prévio é circular, pois as ideias de desejo satisfeito ou insatisfeito já contêm a afetividade que deveriam explicar. | ||
| + | * Alcançar um objetivo não produz por si mesmo qualquer sentimento, como demonstra a flecha que atinge o alvo sem experimentar satisfação. | ||
| + | * Apenas um ser originariamente afetivo pode viver o êxito ou o fracasso como prazer ou sofrimento. | ||
| + | * A vontade somente pode modular seus sentimentos porque já é um querer afetivamente autoexperimentado. | ||
| + | * A impotência do desejo para alcançar uma realidade adequada não explica por si mesma o sofrimento, pois a existência somente pode experimentar sua insatisfação e possuir uma história trágica porque é originariamente afetiva. | ||
| + | * A precedência da vontade sobre a afetividade sofre uma inversão silenciosa quando a dor passa a anteceder o desejo, suscitá-lo e lançá-lo para além de si na tentativa de escapar de seu próprio sofrimento. | ||
| + | * Todo desejo nasce de uma necessidade, | ||
| + | * A falta somente se transforma em necessidade quando afeta um ser capaz de sentir. | ||
| + | * A própria dor, incapaz de suportar-se, | ||
| + | * A explicação corporal do prazer e da dor confirma involuntariamente a precedência da afetividade, | ||
| + | * Prazer e dor não são representações, | ||
| + | * A explicação do sentimento pelo querer pressupõe o caráter impressionável que deveria fundamentar. | ||
| + | * A análise do recalque decide a relação entre vontade, afetividade e vida ao partir da separação entre a vontade poderosa e cega e a representação iluminadora, | ||
| + | * A vontade não conhece e o intelecto não quer, de modo que a representação se submete ao poder do querer ao fornecer-lhe luz. | ||
| + | * A relação entre ambos não é cooperação equilibrada, | ||
| + | * O intelecto convertido em servo da vontade deixa de cumprir sua função de mostrar e passa a ocultar, pois a vontade pode proibir determinadas representações, | ||
| + | * A essência da vida representativa é invertida quando a representação deixa de exibir aquilo que existe. | ||
| + | * A passividade do intelecto fundamenta uma teoria da memória e do esquecimento na qual a vontade decide quais conteúdos podem aparecer diante do espírito. | ||
| + | * A vontade constitui a base permanente da conservação e da recordação. | ||
| + | * O esquecimento resulta da recusa de deixar uma representação entrar na consciência. | ||
| + | * Aquilo que mais ameaça a vontade pode permanecer encoberto mesmo durante um exame aparentemente completo das possibilidades. | ||
| + | * A teoria da loucura aprofunda a problemática do esquecimento ao explicar o transtorno mental como recalque de representações contrárias aos interesses, ao orgulho e aos desejos da vontade. | ||
| + | * Conteúdos agradáveis entram espontaneamente na consciência e retêm a atenção, enquanto os dolorosos são evitados ou abandonados. | ||
| + | * A resistência da vontade ao aparecimento de conteúdos insuportáveis abre a possibilidade da loucura. | ||
| + | * A experiência normal exige acolher representações dolorosas vinculadas à ordem necessária do mundo, mas a recusa absoluta de um conteúdo insuportável cria uma lacuna na consciência que a vontade preenche com lembranças inventadas ou reorganizadas. | ||
| + | * O recalque retira acontecimentos e detalhes da cadeia representativa. | ||
| + | * A necessidade de continuidade produz um passado fabricado e ligações arbitrárias entre fenômenos. | ||
| + | * A loucura surge quando a lacuna deixada pelo conteúdo recusado é preenchida por uma construção imaginária. | ||
| + | * A loucura não deriva propriamente de uma deficiência da memória, da razão ou da percepção, | ||
| + | * O doente pode raciocinar adequadamente, | ||
| + | * As perturbações incidem sobretudo na relação entre o presente e acontecimentos ausentes ou passados. | ||
| + | * O rompimento do fio da memória não resulta da incapacidade representativa de conservar lembranças, | ||
| + | * Memória, razão e percepção sofrem efeitos paralelos da cisão entre uma representação passiva e uma vontade poderosa. | ||
| + | * O recalque consiste no poder da vontade de repelir aquilo que a representação poderia tornar consciente. | ||
| + | * A teoria do recalque enfrenta a aporia de explicar como uma vontade inteiramente cega pode reconhecer antecipadamente uma representação incompatível, | ||
| + | * Para rejeitar um conteúdo, a vontade precisaria conhecê-lo, | ||
| + | * A união entre vontade e representação permanece sem princípio explicativo. | ||
| + | * O inconsciente recebe clandestinamente um saber que lhe permite entrever aquilo que pretende encobrir. | ||
| + | * O recalque não é motivado pelo conteúdo representativo em si, mas pela dor, pela angústia e pela repugnância afetiva que acompanham a representação, | ||
| + | * Uma representação somente é acolhida ou repelida porque se encontra afetivamente determinada. | ||
| + | * Torna-se necessário explicar como uma representação pode receber investimento afetivo. | ||
| + | * A explicação empirista da carga afetiva por associação com acontecimentos traumáticos transforma essa carga em elemento contingente e exterior, reduzindo o recalque a mecanismo ocasional e impedindo que ele seja compreendido como lei geral da vida psíquica. | ||
| + | * A afetividade da representação somente pode ser fundada quando se reconhece que todo conteúdo representado aparece no interior de uma vida originariamente afetiva e recebe dela a tonalidade pela qual se torna suportável ou insuportável. | ||
| + | * A representação não produz seu próprio peso afetivo. | ||
| + | * A vida que acolhe a representação já se experimenta como prazer ou sofrimento antes de qualquer associação empírica. | ||
| + | * A vontade não recalca diretamente uma representação conhecida, pois o poder de rejeição pertence à própria vida afetiva que se contrai diante de uma experiência insuportável e modifica o campo representativo para escapar dela. | ||
| + | * O recalque deve ser compreendido a partir da auto-afetação e não da ação misteriosa de uma faculdade inconsciente sobre outra. | ||
| + | * A dor contém imediatamente a tendência de afastar aquilo que intensifica seu sofrimento. | ||
| + | * A relação entre afeto e representação não resulta da justaposição de duas realidades independentes, | ||
| + | * A afetividade constitui a condição elementar da experiência e do recalque porque somente um ser capaz de sofrer pode afastar, deformar ou substituir uma representação, | ||
| + | * A dificuldade de Schopenhauer em explicar a união entre vontade e representação provém da ausência de uma fenomenologia da afetividade capaz de mostrar como o poder e a manifestação coincidem na autoexperiência da vida. | ||
| + | * A vontade é concebida ora como força inconsciente exterior aos sentimentos, | ||
| + | * Essa ambiguidade impede distinguir claramente vontade, afeto e representação. | ||
| + | * Duas concepções da afetividade coexistem em Schopenhauer: | ||
| + | * A primeira concepção sustenta explicações causais e naturalistas. | ||
| + | * A segunda emerge nas análises da dor, do corpo, do recalque e da experiência imediata. | ||
| + | * A tentativa de derivar afetos de uma vontade inconsciente incorre no mesmo círculo posteriormente encontrado em Freud, pois somente uma pulsão já afetiva pode produzir prazer, desprazer, atração ou repulsa. | ||
| + | * O inconsciente não pode conferir afetividade à representação sem já possuir uma forma de autoexperiência. | ||
| + | * A explicação causal pressupõe silenciosamente aquilo que pretende explicar. | ||
| + | * A significação fenomenológica da afetividade não pode ser inteiramente apagada, pois cada tonalidade revela-se imediatamente a si mesma e constitui a própria possibilidade interior da vontade. | ||
| + | * A afetividade pode revelar a vontade como sua auto-afetação, | ||
| + | * Nenhum querer existe fora dessa autoexperiência originária. | ||
| + | * Schopenhauer, | ||
| + | * A tonalidade afetiva deixa de constituir o ser do querer e torna-se aparência de uma realidade inconsciente. | ||
| + | * Medo, esperança, alegria, desejo, inveja, tristeza e cólera tornam-se sinais exteriores de uma vontade oculta, como a fumaça que permite supor um fogo invisível, de modo que a experiência viva do desejo é reduzida à tradução suspeita de uma pulsão inconsciente. | ||
| + | * A incompreensão do poder revelador da afetividade conduz inevitavelmente à teoria de uma vontade situada além da experiência. | ||
| + | * A teoria dos afetos como efeitos de uma instância inconsciente aprofunda a ocultação de sua fenomenalidade e permite construir especulativamente a ideia de que cada indivíduo deverá experimentar todas as paixões e sofrimentos da vontade infinita. | ||
| + | * A transmigração das almas e a retribuição universal dos atos são deduzidas da presença integral da vontade em cada querer. | ||
| + | * Essa construção contém, sob forma racionalizada, | ||
| + | * A Metafísica do amor explica o sentimento amoroso por uma vontade inconsciente que deseja eternamente a vida e se manifesta fundamentalmente como instinto sexual voltado para a continuidade ilimitada das gerações. | ||
| + | * O instinto sexual não constitui impulso particular, mas a própria vontade de viver e o fundamento metafísico do ser. | ||
| + | * A identidade entre vontade, querer-viver e instinto sexual conduz à explicação de toda paixão pela sexualidade, | ||
| + | * A vontade integral da espécie utiliza o indivíduo para realizar a continuidade da vida, criando nele a ilusão de perseguir sua felicidade pessoal quando trabalha efetivamente pela reprodução e pelos interesses das gerações futuras. | ||
| + | * O instinto é a ilusão pela qual a vantagem da espécie aparece como benefício individual. | ||
| + | * A vontade individual contém simultaneamente o impulso de conservação pessoal e a vontade universal da espécie. | ||
| + | * As preferências amorosas por determinadas características corporais são interpretadas como estratégias inconscientes do gênio da espécie para corrigir defeitos, produzir descendentes adequados e iludir os amantes com a promessa de felicidade pessoal. | ||
| + | * A paixão antecipa como felicidade individual a realização reprodutiva da vontade. | ||
| + | * A cegueira do amor resulta de sua orientação para um terceiro ainda não nascido. | ||
| + | * A afetividade é declarada ilusória e perde completamente seu poder próprio de revelação. | ||
| + | * A suposta ilusão amorosa não pertence ao sentimento, mas à representação consciente de seus objetivos, pois o afeto é sempre exatamente aquilo que se manifesta, embora possa receber uma interpretação falsa acerca de sua finalidade. | ||
| + | * A verdade representativa atribui à sexualidade a perpetuação da espécie, enquanto a ilusão a apresenta como busca da satisfação individual. | ||
| + | * A confusão entre afetividade e representação permite declarar enganoso aquilo que, como sentimento, não pode deixar de ser real. | ||
| + | * A negação da autorrevelação afetiva torna incerta a realidade e a localização do sentimento, dividindo-o artificialmente entre tonalidades limitadas do indivíduo e paixões infinitas atribuídas ao gênio eterno da espécie. | ||
| + | * A intensidade do amor é explicada por objetivos universais supostamente superiores às necessidades do indivíduo passageiro. | ||
| + | * Os sofrimentos e alegrias do amante tornam-se efeitos de uma vontade que não lhe pertence plenamente. | ||
| + | * A redução da afetividade à compreensão representativa reaparece na interpretação do remorso, da vergonha e das experiências de libertação como consequências de conhecimentos metafísicos acerca da vontade e do mundo. | ||
| + | * O remorso seria tristeza produzida pelo reconhecimento de que ainda se pertence à vontade cega. | ||
| + | * A vergonha corporal e sexual derivaria do conhecimento do corpo como objetivação do querer-viver. | ||
| + | * A essência fenomenológica das tonalidades é substituída por significações intelectualmente acrescentadas. | ||
| + | * A submissão dos sentimentos ao princípio de individuação divide-os entre aqueles enganados pela separação individual e aqueles produzidos por um conhecimento capaz de ultrapassá-la. | ||
| + | * A crueldade nasce da crença de que a dor da vítima difere do prazer ou do alívio do agressor. | ||
| + | * A unidade metafísica da vontade transforma as diferenças afetivas entre indivíduos em simples aparência. | ||
| + | * A doutrina do véu de Maia dissolve as diferenças reais entre alegria e dor, criminoso e vítima, ao subordinar as tonalidades à unidade conhecida da vontade e negar sua fenomenalidade específica. | ||
| + | * A compaixão, a caridade, a santidade e o misticismo recebem seu poder de uma visão intelectual que atravessa o princípio de individuação. | ||
| + | * A afetividade torna-se dependente do conhecimento, | ||
| + | * A afetividade, | ||
| + | * A consciência divide-se entre um elemento conhecido, a vontade com suas tonalidades, | ||
| + | * A vontade e os sentimentos são considerados essenciais quanto ao conteúdo, mas incapazes de manifestar a si mesmos. | ||
| + | * Apesar dessas insuficiências, | ||
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