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| + | ====== Genealogia da Psicanálise ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Généalogie de la psychanalyse: | ||
| + | * Apresentação. Um herdeiro tardio | ||
| + | * 1. “Videre videor” | ||
| + | * 2. O declínio dos absolutos fenomenológicos | ||
| + | * 3. A inserção do “ego cogito” na “história da metafísica ocidental” | ||
| + | * 4. A subjetividade vazia e a vida perdida – a crítica kantiana da alma | ||
| + | * 5. A vida reencontrada – o mundo como vontade | ||
| + | * 6. A vida e suas propriedades – o recalque | ||
| + | * 7. Vida e afetividade segundo Nietzsche | ||
| + | * 8. Os deuses nascem e morrem juntos | ||
| + | * 9. O símio do homem: o inconsciente | ||
| + | * Potencialidades | ||
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| + | **Um herdeiro tardio** | ||
| + | * Quando uma forma de pensamento envelhece e se inclina para seu fim, cabe interrogar o longo processo de sua maturação e vinda à luz, e não seus sucessos ou fracassos atuais, para nele ler os sinais anunciadores de seu destino; a genealogia da psicanálise instrui sobre ela mais seguramente do que sua eficácia terapêutica contestada, cabendo à filosofia esclarecer o motivo desse declínio de um corpus teórico que se propôs originalmente como revolução total na compreensão do ser mais íntimo do homem — sua Psique — e como reviravolta da própria filosofia tradicional. | ||
| + | * Essa pretensão revolucionária constitui sua principal ilusão, pois as razões do lento refluxo da psicanálise não lhe são próprias, sendo antes o termo de uma longa história que é a da própria incapacidade da pensamento ocidental de se apoderar do que realmente importa; Freud é um herdeiro tardio, e o que urge afastar não é Freud, mas a herança mais pesada e antiga que ele recolheu sem sabê-lo das pressuposições que guiaram ou desnortearam a filosofia clássica, herança cujas implicações últimas devem ser postas em causa, sendo o objetivo trazer à luz o fundo impensado do qual ela procede. | ||
| + | * O conceito de inconsciente surge na modernidade ao mesmo tempo que o de consciência e como sua exata consequência, | ||
| + | * Descartes levou o conceito de consciência a uma profundidade cuja alcance nunca foi verdadeiramente percebido, nem mesmo pela fenomenologia contemporânea que pretendia lhe dar pleno desenvolvimento, | ||
| + | * As pretensões científicas de Descartes, embora legítimas em si, sobrepuseram-se ao projeto primitivo, desviando-o de seus objetivos verdadeiros e relegando-o ao esquecimento; | ||
| + | * Freud toma emprestado da tradição filosófica, | ||
| + | * O caráter epigonal, filosoficamente falando, da obra de Freud torna-se evidente diante de Schopenhauer, | ||
| + | * A invenção schopenhaueriana, | ||
| + | * A afirmação de que o inteiramente outro da representação, | ||
| + | * Schopenhauer não possui os meios filosóficos para construir essa fenomenologia radical; estabelece, de modo genial, que o outro da representação nunca pode ser apreendido nela, e designa então uma corporeidade primitiva como o lugar de seu cumprimento e ao mesmo tempo como aquilo que nos identifica a ele; a teoria kantiana do sentido interno, contudo, ao reduzir esse último — a subjetividade absoluta — à [[lx> | ||
| + | * Com Nietzsche fulgura por um instante o pensamento radioso que devolve a vida ao aparecer como sua essência própria, sob a condição de um progresso decisivo: que o aparecer seja enfim reconhecido na dimensão não extática de seu advir inicial e eterno em si mesmo — o Eterno Retorno do Mesmo —, que é a vida, sem que nada seja renegado do esplendor do mundo e da aparência extática celebrada em Apolo, mas porque o Fenômeno é percebido sobre o fundo de sua possibilidade nascente, sobre a " | ||
| + | * Sobre o fundo dessa fenomenologia radical desenha-se uma ontologia que descobre a afetividade como a revelação do Ser em si mesmo, como a matéria de que é feito, sua substância e sua carne; essa ontologia permite decifrar as figuras deslumbrantes da vida que são os fortes, os nobres, os animais, todos aqueles que confiaram ao dizer de um sofrimento primitivo seu destino, e torna inteligível o deslocamento essencial — entrevisto por Schopenhauer mas não levado por ele à clareza do conceito — segundo o qual todas as faculdades representativas, | ||
| + | * Uma leitura filosófica de Freud torna-se então possível, pois o que reclama a psicanálise, | ||
| + | * Não basta, contudo, para se livrar dessa redução paradoxal do inconsciente ao lugar de emergência da fenomenalidade, | ||
| + | * Esse além-mundo colocado atrás da vida para explicá-la se assemelha singularmente a ela: a " | ||
| + | * Por isso o esquema entrópico cede afinal diante da inesgotável vinda em si da vida; a descarga dos afetos, assim como a pressão insuperável da libido não empregada, nada mais designam senão a subjetividade da vida quando a prova que ela faz de si mesma se leva ao extremo, até se tornar insuportável; | ||
| + | * A psicanálise não pertence ao corpo das ciências humanas ao qual hoje se a associa, e do qual será aqui cuidadosamente dissociada: é antes sua antítese; quando a objetividade não cessa de estender seu reino de morte sobre um universo devastado, quando a vida não tem outro refúgio senão o inconsciente freudiano, e quando, sob cada um dos atributos pseudocientíficos de que este se reveste, age e se esconde uma determinação viva da vida, cabe dizer: a psicanálise é a alma de um mundo sem alma, é o espírito de um mundo sem espírito. | ||
| + | * A vida, porém, só suporta por um instante a máscara que menos lhe convém, pois nenhuma situação repugna mais à sua essência do que a de um além-mundo, | ||
| + | * Importa por fim precisar que tipo de história está sendo aqui contada, pois o freudismo é frequentemente apresentado como uma história empírica do indivíduo, em que o que lhe acontece e virá a acontecer resulta amplamente do que lhe ocorreu, de sua infância, de sua relação com o Pai, com a Mãe, do traumatismo de seu nascimento etc.; a ingenuidade de toda explicação desse gênero, como aliás da história em geral, está em apenas reportar ao passado um problema que ali se encontra intacto, sem que se tenha avançado um único passo — " | ||
| + | * Com a mesma ingenuidade se tomaria a genealogia da psicanálise aqui exposta por uma espécie de história das doutrinas ou das diversas concepções filosóficas ou científicas que a precederam e das quais ela seria como o resultado previsível; | ||
| + | * Do simples ponto de vista da história, aliás, a formulação repetida, em circunstâncias diferentes, do inconsciente psíquico deveria dar o que pensar, pois não se poderia tratar aí, afinal de contas, de uma descoberta ocasional ou de uma invenção pontual; se a designação do inconsciente se refere ao que há de mais profundo em nós e assim ao próprio ser, não é antes a vida mesma que o produz e não cessa de produzi-lo, em seu retraimento invencível do mundo, na medida em que ela se furta à fenomenalidade do êxtase em que todo pensamento se move, e que o desnorteia a ponto de levá-lo a declarar que tudo o que não se mostra a ele, tudo o que jamais vem a nós na ob-stância de um objeto ou de um "em face", nada mais é do que Inconsciente — o privado em si mesmo do poder de manifestação. | ||
| + | * Genealogia não é arqueologia, | ||
| + | * Precisamente por ter posto em causa, mais que qualquer outra, e mais deliberadamente, | ||
| + | * A essas concepções da vida, contudo, embora todas procedam dela, a própria vida permanece indiferente, | ||
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