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| + | ====== Homem ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009// | ||
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| + | **O macaco do homem: o inconsciente** | ||
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| + | * A elaboração sistemática das estruturas fundamentais do aparecer, prosseguida através de Descartes, Schopenhauer e Nietzsche, torna agora possível uma crítica radical da psicanálise, | ||
| + | * cita-se a resposta de Freud segundo a qual a pergunta sobre a natureza do inconsciente não é mais judiciosa que a pergunta sobre a natureza do consciente | ||
| + | * O inconsciente não tem outra existência teórica senão a de ser o único princípio de explicação possível do material patológico, | ||
| + | * Os textos em que Freud situa explicitamente na consciência o ponto de partida de seu trabalho teórico são numerosos, havendo dupla motivação: | ||
| + | * O ser, porém, não é apenas homogêneo à aparência que pretende fundar, é dela secretamente tributário, | ||
| + | * O conceito de consciência é ao mesmo tempo ôntico e ontológico: | ||
| + | * Além do que é consciente, a psicanálise põe o que não o é, o inconsciente, | ||
| + | * Que significa o inconsciente no sentido ontológico? | ||
| + | * Estranha doutrina que começa rejeitando o primado tradicional da consciência em proveito de um inconsciente que a determina inteiramente, | ||
| + | * O descrédito lançado sobre o inconsciente enquanto tal por uma teoria que se define por ele é menos paradoxal do que parece, pois o puro fato de ser inconsciente só é vazio na medida em que o conceito antitético a partir do qual é construído, | ||
| + | * cita-se a confissão de Freud de que não é preciso explicar o que se chama de consciente, sendo essa a consciência dos filósofos e do grande público | ||
| + | * É a ausência de toda elaboração ontológica da essência da fenomenalidade que acarreta a indeterminação total do conceito ontológico do inconsciente, | ||
| + | * Que significa então o inconsciente do ponto de vista ontológico, | ||
| + | * A intuição implícita mas decisiva da psicanálise, | ||
| + | * Assim que o inconsciente é apreendido na positividade de sua essência ontológica primitiva, sua significação se desdobra, pois além de ser o outro da representação, | ||
| + | * Revestindo-se assim o conceito ontológico de inconsciente de duas significações radicalmente diferentes conforme se refira à representação ou à vida, o inconsciente entendido como consciência barrada só se entende em relação à consciência representativa, | ||
| + | * a questão freudiana essencial da transformação do inconsciente em consciente e vice-versa (ics es) encontra aqui sua condição apriorística de possibilidade, | ||
| + | * Com esse inconsciente da representação (ics = es), nada tem a ver o inconsciente que se refere secretamente à essência da vida, pois a barra aqui aposta concerne apenas à fenomenalidade da representação, | ||
| + | * Porque o ser segundo a essência originária de seu auto-aparecer expulsa de si a ek-stase, a possibilidade de se mostrar nela é excluída por princípio, recebendo assim a questão da transformação recíproca entre consciente e inconsciente uma solução oposta: de possível ela se torna impossível (ics es), esclarecendo-se o duplo destino atribuído aos conteúdos inconscientes | ||
| + | * A existência dos conteúdos que se recusam obstinadamente a se tornar conscientes não precisa ser explicada por processo ôntico misterioso como um recalque primário, enraizando-se antes numa prescrição de ordem ontológica que formula o próprio estatuto da vida, referindo-se secretamente o discurso freudiano sobre o inconsciente às estruturas fundamentais do ser | ||
| + | * Já mostramos como é a finitude do lugar da ek-stase que, afastando as representações não presentes, as coloca em estado de latência, tornando inconcebível contestar o inconsciente se considerarmos a totalidade de nossas lembranças virtuais, argumento já formulado na Nota sobre o inconsciente de 1912 | ||
| + | * Freud propõe chamar consciente a representação presente à nossa consciência e inconscientes as representações latentes cuja existência supomos, como no caso da memória | ||
| + | * É portanto a representidade que serve de ponto de partida à determinação psicanalítica do inconsciente, | ||
| + | * A mesma situação se encontra na associação de ideias, sendo em toda parte o conteúdo representativo considerado em si mesmo, separada sua realidade objetiva de sua realidade formal, não surpreendendo que esse conteúdo isolado do poder que o produziu apareça fragmentário e enigmático, | ||
| + | * Descobre-se aqui outra face do conceito psicanalítico de inconsciente: | ||
| + | * O ponto extremo em que a filosofia da consciência se volta contra si e se autodestrói é a inconsciência da própria consciência transcendental, | ||
| + | * Com a inconsciência da produção a filosofia da natureza pensa resolver o problema deixado pendente pelo idealismo, de como o princípio que produz o mundo pode se chocar com ele como realidade estranha, sendo essa criação que se ignora a si mesma e descobre seu produto como enigma, situação que encontra formulação explícita no Sistema do idealismo transcendental do jovem Schelling | ||
| + | * A afinidade historial entre a filosofia da natureza e a psicanálise tem por mediação a psicologia do fim do século XIX, tendo Dalbiez, em seu trabalho pioneiro, evidenciado que o realismo confiado à psicanálise provém, num sistema intrapsíquico, | ||
| + | * exemplifica-se com a percepção de uma árvore, em que a visão não é conhecida senão por um segundo ato posterior | ||
| + | * Essa posterioridade da consciência em relação à conhecimento, | ||
| + | * O inconsciente que procede da representidade se desdobra assim: ao conteúdo inconsciente latente opõe-se a inconsciência de sua produção, o próprio vínculo associativo, | ||
| + | * O conceito representativo de inconsciente encontra-se sobredeterminado em Freud pelo papel do sonho, jamais analisado diretamente por ser sua intencionalidade imaginária incompatível com a análise conceitual, substituindo-se-lhe seu relato, um texto, conjunto de significações que relevam do pensamento propriamente dito e de uma consciência doadora de sentido | ||
| + | * Cria-se então situação extraordinária: | ||
| + | * exemplifica-se com a criança que forma imagem da mãe sem formar a significação verbal correspondente, | ||
| + | * Essa crítica principial deve ser tomada em seu alcance mais geral, pois o sonho é apenas o protótipo da representação para Freud, estendendo-se assim a interpretação dos sonhos a todas as formas da vida representativa, | ||
| + | * Assim se volta contra si mesma uma das intenções mais interessantes do freudismo, o reconhecimento do papel decisivo do imaginário na vida, pois é à medida das significações ideais que esse imaginário é finalmente reduzido, recobrindo o cientificismo de Freud a intuição da vida | ||
| + | * Se a significação ideal visada a vazio pelo pensamento já é estranha ao imaginário, | ||
| + | * A criança em Freud, como o animal em Nietzsche, é apenas uma figura, sendo a vida, sem ek-stase alguma, incapaz de se aperceber a si mesma ou de se significar, não tendo por isso sentido nem devendo responder à pergunta do sentido, sendo semelhante a uma rosa | ||
| + | * cita-se a fórmula angelusiana da rosa sem porquê | ||
| + | * O sonho tem um sentido, o lapso tem um sentido, o silêncio tem um sentido, o esquecimento tem um sentido, tudo tem um sentido, permanecendo porém equívoco o que se deve entender por sentido nesses casos: se designa significação ideal como a do idioma, é correlato noemático de intencionalidade significante | ||
| + | * O trabalho crítico da análise consiste então em substituir um sentido falso visado por outro verdadeiro, sendo o analista quem conduz o paciente a reconhecer que o ciúme era na verdade desejo de trair, permanecendo assim, apesar da aparência de ruptura, o idealismo da consciência inteiramente vigente, situando-se a psicanálise na linha direta do pensamento ocidental | ||
| + | * Quando Freud declara que o sonho tem um sentido, quer dizer outra coisa: que um conteúdo onírico é produzido por uma tendência inconsciente, | ||
| + | * cita-se Freud tratando dos fenômenos psíquicos como índices de um jogo de forças que se cumpre na alma | ||
| + | * O renversement das posições clássicas está consumado: o fenômeno é ainda conteúdo representativo, | ||
| + | * A inflexão do conceito freudiano de inconsciente rumo ao domínio invisível da vida se vê na Nota de 1912, onde a prova da latência cede lugar a outra consideração: | ||
| + | * Deficiências normais e sintomas neuróticos revelam fenômeno absolutamente geral: a determinação principial de tudo o que vem à condição de ser-representado por um poder que nunca advém a essa condição, correspondendo o caráter dinâmico do inconsciente eficiente ao reporte deliberado da força e da potência para fora do campo da representabilidade | ||
| + | * A mutação do inconsciente freudiano, deixando de designar a negação vazia da qualidade consciente para tomar a cargo o dinamismo da psique, o sistema ics, não marca tanto a queda de seu conceito no ôntico quanto revela, sob sua facticidade aparente, o que inconsciência significa quando visa a própria possibilidade da ação, a essência originária do ser enquanto vida | ||
| + | * A dificuldade de o pensamento escapar ao poder da representidade se vê no artigo sobre O inconsciente de 1915, onde a pulsão, mal reconhecida como o outro absoluto da representação, | ||
| + | * A pulsão só adquire existência psíquica enquanto esse representante, | ||
| + | * Há razão para essa equivocidade que toda problemática radical deve desvendar: a impotência do pensamento de captar em si mesma atividade, potência e força, substituindo-lhes sua essência própria a da representação assim que devem ser consideradas como psíquicas, nascendo o conceito aberrante de representação inconsciente | ||
| + | * Nesse conceito se juntam dois erros maiores do freudismo: primeiro imaginar que há representações inconscientes porque há lembranças em que não pensamos atualmente ou representações recalcadas, como se essas representações existissem independentemente do ato que as forma, de sua realidade formal | ||
| + | * Segundo, a pulsão que significa primeiramente a não-representabilidade — nunca podendo se tornar objeto da consciência — só existe psiquicamente através de seu representante, | ||
| + | * Freud queria preservar a especificidade do psíquico contra toda redução físico-biológica, | ||
| + | * Na medida em que esse ser psíquico é compreendido como representante segundo o modelo da representação, | ||
| + | * cita-se a afirmação de Freud de que os estados latentes só se distinguem dos conscientes por lhes faltar precisamente a consciência | ||
| + | * A essência originária da Psique é assim falhada duas vezes, reduzida primeiro à realidade física e depois à consciência representativa, | ||
| + | * A afinidade entre ser material e consciência acarreta múltiplas consequências: | ||
| + | * cita-se a explicação freudiana da morbidade segundo a qual a existência do sintoma condiciona-se ao fato de um processo psíquico não ter podido chegar a seu fim normal, tornando-se consciente | ||
| + | * Aprofundando o conceito de inconsciente, | ||
| + | * A intuição enterrada no cerne do freudismo de que toda vida é infelicidade se explica pela ideia de que o aquém-do-mundo, | ||
| + | * A redução dos modos fundamentais do agir eficaz ao processo de exteriorização da representação leva a uma teoria representativa e no limite fantasmática do desejo, cujo equívoco importa denunciar: embora o desejo se acompanhe de cortejo de representações, | ||
| + | * cita-se a passagem da Ciência dos sonhos sobre a imagem mnésica associada à satisfação da necessidade, | ||
| + | * Assim o desejo, que não é senão a própria necessidade despertando e se cumprindo como movimento do corpo original, na esfera de imanência da subjetividade absoluta, vê seu ser e sua história modificados fundamentalmente, | ||
| + | * Com esse deslocamento pelo qual a pulsão de um desejo, movimento real, se transforma em movimento de representações, | ||
| + | * Resta o essencial do pensamento de Freud: o representante da pulsão não é apenas a representação, | ||
| + | * O afeto não é apenas representante da pulsão ao lado da representação, | ||
| + | * cita-se a afirmação categórica de que é da essência de um sentimento ser percebido, ser conhecido pela consciência, | ||
| + | * O embaraço que envolve tais afirmações numa filosofia do inconsciente se manifesta nas passagens sobre sentimentos inconscientes de culpa ou angústia, vendo Freud nessas expressões mera impropriedade de linguagem, sendo a representação associada ao sentimento, e não este, que é ou pode ser inconsciente | ||
| + | * No processo de recalque o sentimento nunca deixou de ser conhecido, tendo apenas seu sentido, a representação a que estava ligado, sido desconhecido, | ||
| + | * Diante da questão-limite de saber se o próprio afeto pode ser recalcado e tornar-se inconsciente, | ||
| + | * O aporte decisivo de Freud consiste em pôr em primeiro plano a angústia: quando a representação ligada ao afeto é recalcada, este não é suprimido mas modificado qualitativamente, | ||
| + | * cita-se a afirmação de que o destino do estado afetivo associado à representação recalcada é sofrer transformação em angústia, sendo essa a parte mais importante do processo de recalque | ||
| + | * Que a angústia seja assim como a moeda corrente da vida, o lugar comum de passagem de todos os afetos, é o que a análise das psiconeuroses declara explicitamente, | ||
| + | * Sendo o afeto também mero representante da pulsão, não seria ele, como a representação, | ||
| + | * Tal esquema marca o ponto extremo da alienação do pensamento da existência ao impor a interpretação desta a partir do modelo físico de um sistema energético regido pela entropia, mas na medida em que esse modelo pretensamente científico é tradução inconsciente da própria vida fenomenológica absoluta, ele a ilumina em vez de determiná-la | ||
| + | * O sistema nervoso ou organismo se determina em seu ser pela capacidade de receber duas espécies de excitações, | ||
| + | * Os traços psico-biológicos atribuídos pelo Projeto aos sistemas φ e Ψ são tradução grosseiramente realista, na linguagem da ciência, das estruturas que determinam a possibilidade da experiência em geral, sendo o ponto essencial que a excitação pulsional, vinda do interior do próprio organismo, é constante e inescapável | ||
| + | * o eu permanece sem defesa contra as excitações pulsionais, pois a pulsão nunca age como força de impacto momentânea mas sempre como força constante | ||
| + | * Essa constância da excitação, | ||
| + | * cita-se a afirmação de que no caso da pulsão a fuga não serve de nada, pois o eu não pode escapar de si mesmo | ||
| + | * Pulsão designa em Freud o fato de se auto-impressionar a si mesmo sem jamais poder escapar de si, sendo essa auto-impressão efetiva o peso e a carga de si mesmo, sendo a necessidade o que se encontra nessa condição de não poder se desfazer de si | ||
| + | * Segundo o Projeto, o sistema de neurônios investido de energia tende a se livrar dessas quantidades para voltar ao estado zero, princípio de inércia realizável para excitações exógenas mas não para as endógenas, constantes e impossíveis de afastar, existindo assim um eu perpetuamente investido em que a auto-afeição nunca cessa | ||
| + | * O princípio de inércia se transforma em princípio de constância porque há uma energia inalienável que o sistema não pode eliminar totalmente, camuflando a linguagem mítica da ciência de 1895 a estrutura da subjetividade absoluta, sendo o sistema Ψ a imagem da essência originária da Psique | ||
| + | * Segundo o esquema explicativo, | ||
| + | * Do mesmo modo o recalque não é dirigido por fuga diante do aumento de excitação mas diante do desprazer atualmente experimentado, | ||
| + | * o recalque não tem outro motivo nem outro fim senão evitar o desprazer | ||
| + | * A interferência entre discurso científico e discurso fenomenológico se exprime na denominação estranha da afetividade sob o título de quantum de afeto, quantidade que não visa senão um trop, uma carga demasiado pesada, o próprio afeto enquanto carregado de si e não podendo escapar de si, sendo a descarga neuronal transposição imaginária dessa essência da vida em sua passividade insuperável a respeito de si | ||
| + | * Há leitura superficial do freudismo que reduz a angústia a mera reprodução do traumatismo do nascimento, mas essa angústia infantil constitui na verdade o modelo ou protótipo da angústia verdadeira, sua essência, não sendo angústia diante de perigo exterior real mas diante da pulsão, excitação endógena, a própria vida | ||
| + | * A angústia diante da pulsão não é angústia diante de algo que se possa fugir, sendo antes fuga diante de si mesma, na qual não há devant algum mas a impossibilidade principial de desdobrar qualquer distância, sendo a angústia o sentimento de não poder escapar a si daquilo que se constitui em sua essência por essa impossibilidade | ||
| + | * A angústia é o sentimento do ser enquanto vida, o sentimento do Si: em termos freudianos a vida é a pulsão, a libido, e a angústia é o sentimento da libido, a prova que ela faz de si mesma acossada a si, incapaz de romper o vínculo que a liga a si mesma | ||
| + | * a libido de uma pessoa faz parte dela mesma e não pode se opor a ela como algo exterior | ||
| + | * Não é a libido mas mais precisamente a libido não empregada que provoca a angústia, sendo a angústia infantil semelhante à angústia neurótica dos adultos por ambas nascerem de uma libido não empregada, o menor perigo exterior substituindo as exigências dessa libido | ||
| + | * Uma libido recalcada não fica fora de jogo mas tem sua prova de si levada ao extremo, até se tornar insuportável, | ||
| + | * o que facilita o nascimento de uma neurose é a incapacidade de suportar por tempo considerável um recalque um tanto considerável da libido | ||
| + | * Na medida em que uma libido acumulada e não empregada se dá a sentir em todas as partes de seu ser a ponto de não poder mais se suportar, ela não é senão a vida, sendo assim o cumprimento da libido, buscado na liquidação das energias investidas rumo ao estado zero, apenas a liquidação da própria vida | ||
| + | * O freudismo é o último marco dessa história que, contestando a definição do homem pelo pensamento, descobre em seu mais profundo a vida, mas não a tomou em conta senão para liquidá-la, | ||
| + | * Enquanto representante de um sistema energético que tende à abolição das quantidades que o constituem, a vida não é senão o movimento dessa autodestruição, | ||
| + | * tudo o que vive retorna ao estado inorgânico, | ||
| + | * Além do princípio de prazer introduziu pulsão mais profunda, a pulsão de morte, tendência inerente a todo organismo vivo de restabelecer estado anterior, sendo esse rodeio pela compulsão de repetição desnecessário se a pulsão de morte apenas reafirma os pressupostos que sempre guiaram a doutrina, dando as mãos Além do princípio de prazer e o Projeto de 1895 | ||
| + | * Contra a morte resta Eros, cuja função é preservar a coesão de tudo que vive, mantendo a vida por meio do aumento das energias investidas, numa espécie de revolta contra a própria lei entrópica, opondo-se assim Eros ao prazer cúmplice da morte | ||
| + | * Dessas contradições enormes Freud não se dá conta, articulando sem transição a celebração de Eros com a repetição obsessiva do princípio entrópico, associando a renovação da vida por afluxo de novas excitações à hipótese de que o processo vital tende internamente à morte | ||
| + | * Além dessas contradições e oscilações, | ||
| + | * Freud apreendeu da vida apenas seu fundo obscuro, o lugar das primeiras angústias onde, acossada a si, ela só pensa em fugir, seguindo-a até o fim nesse caminho de liquidação de si sem reconhecer nela senão o rosto atroz da pulsão de morte, já presente no Projeto de 95 | ||
| + | * Não viu o sentido desses começos difíceis: que a dor pertence à edificação interior do ser e o constitui, que esse nascimento é transcendental, | ||
| + | * Resumindo: o inconsciente não existe, se descontarmos que quase todo representado se encontra excluído da representação, | ||
| + | * Quanto ao inconsciente que designa a vida, não se pode reduzi-lo à negação vazia do conceito formal de fenomenalidade, | ||
| + | * Uma das intuições decisivas de Freud, que o situa na linha de Schopenhauer e Nietzsche, é que esse pathos da vida determina sua representação e por consequência o recalque e o retorno do recalcado, aflorando esse primado da afetividade nos melhores textos sobre lembranças tenazes e sobre o afeto que renasce antes de seu conteúdo representativo | ||
| + | * A própria cura não mostra que a representação, | ||
| + | * cita-se a passagem sobre o conhecimento obscuro dos fatos psíquicos inconscientes que se reflete na construção de uma realidade suprassensível | ||
| + | * Essa percepção endopsíquica, | ||
| + | * Uma determinação radicalmente fenomenológica da realidade psíquica, contudo, não deixa em suspenso dificuldades últimas? | ||
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