estudos:henry:esv:vida
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| + | ====== 3 Vida ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Eu Sou a Verdade. Por uma filosofia do cristianismo. Tr. Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, | ||
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| + | **3 Esta Verdade que se chama Vida** | ||
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| + | * A elaboração do conceito cristão de Verdade fez que ela encontrasse sua essência na Vida, sendo esta já de início fenomenológica, | ||
| + | * É quando se põe essa questão central da fenomenologia que se descobre a extraordinária originalidade do cristianismo: | ||
| + | * Por sua essência fenomenológica, | ||
| + | * Suscita-se a questão da relação entre a abordagem cristã e a científica, | ||
| + | * Rejeita-se a explicação de que na época de Cristo faltava saber científico, | ||
| + | * Sob a luz da Vida, os viventes vacilam como inebriados, seu comportamento se inverte: quem quer ser primeiro senta-se por último, quem entesoura é despojado, quem nada sabe sabe tudo, propostas difíceis de atribuir ao saber da percepção comum | ||
| + | * Pergunta-se se a química molecular diria mais sobre esses paradoxos, questionando-se se Cristo teria modificado sua concepção da vida ao conhecer um instituto de biologia, citando-se: " | ||
| + | * Propõe-se a hipótese inversa de que é hoje, no auge dos progressos da biologia, que se desenvolve ignorância crescente sobre o que realmente é a vida, estendendo-se essa ignorância a todo o campo científico e ao espírito público | ||
| + | * Recorda-se a decisão galileana do início do século XVII que atribuiu à ciência conhecer o universo real constituído de objetos materiais extensos, excluindo-se as qualidades sensíveis por variáveis e inadaptadas, | ||
| + | * Compreender essa exclusão inicial das qualidades sensíveis em seu alcance metafísico é compreender que ela implica o afastamento da própria sensibilidade e, com ela, da Vida fenomenológica de que a sensibilidade é apenas modalidade, sendo sentir só possível onde reina o " | ||
| + | * O alijamento da vida pela ciência galileana concerne primeiramente à biologia, que ao final de sua investigação só encontra processos físico-químicos e nada que se assemelhe à experiência interior do " | ||
| + | * Afirma-se, ao contrário do que se supunha, que é hoje, apesar dos progressos científicos ou por causa deles, que se sabe cada vez menos da vida, não dizendo a biologia sequer que nada de semelhante ao " | ||
| + | * Os próprios biólogos sabem o que é a vida, mas não como biólogos, sabendo-o como todos, por viverem, amarem, sofrerem angústia da morte, sendo essas experiências, | ||
| + | * Redução absurda afirmar que o que se experimenta no estreitamento patético do sofrer e do fruir seja na realidade algo incapaz de experimentar qualquer coisa, partículas materiais, não sendo a ciência a responsável por essa redução, mas os cientistas que a fazem dizer o que ela não diz, tornando-se assim assassinos da vida | ||
| + | * Considerando o mundo sensível antes da redução galileana, o mundo-da-vida ([[lx> | ||
| + | * No mundo vemos seres vivos mas nunca sua vida, sendo a captação da significação "ser vivo" mera visada "no vazio", | ||
| + | * Distinguem-se essas significações vazias das que se referem às coisas sensíveis, capazes de preencherem-se em intuição plena — como perceber de repente a árvore verde antes apenas significada —, sendo a significação " | ||
| + | * Essa incapacidade da biologia não lhe é própria, sendo a de todo conhecimento aberto sobre um mundo, escapando a Vida fenomenológica, | ||
| + | * Interroga-se como uma cultura pôde não colocar essa realidade essencial em primeiro lugar, respondendo-se: | ||
| + | * Isso se produziu desde a Antiguidade clássica: o vivente é um ente que se mostra no mundo entre outros entes, resta saber o que o distingue, sendo suas propriedades — mobilidade, nutrição, excreção, reprodução — objetivas e mundanas, permanecendo enigma por que tais funções são tidas como características da vida quando não revelam em si o " | ||
| + | * A impossibilidade de a vida se revelar na verdade do mundo é evidenciada pela própria ciência galileana, que tematiza o ente vivente e não a vida, sendo a designação " | ||
| + | * Encontra-se exemplo significativo dessa carência no termo da história do pensamento ocidental, na filosofia de Heidegger, que leva ao absoluto os pressupostos fenomenológicos gregos, pondo a questão em Sein und Zeit: "A vida é um gênero de ser particular, mas por essência ela só é acessível no Dasein" | ||
| + | * Sendo o [[lx> | ||
| + | * Essa confusão da Vida com um ente vivente resulta da carência fenomenológica do pensamento ocidental, sendo atribuído à própria vida sem mais o que é verdadeiro apenas dos organismos vivos enquanto objetividades empíricas | ||
| + | * Distingue-se essa redução heideggeriana da redução galileana, meramente metodológica, | ||
| + | * Observa-se a dificuldade de Heidegger obrigado a seguir vias diferentes: sendo nosso acesso à vida feito pelo Dasein no mundo, sua problemática se assemelha à démarche científica, | ||
| + | * Aponta-se a razão dessas aporias: não reconhecer como portadora de verdade senão a relação exterior a organismos objetivos, escamoteando-se totalmente a relação interior da vida consigo mesma como sua autorrevelação essencial | ||
| + | * Examina-se como Heidegger considera o animal como portando poder de revelação diferenciador — o comportamento, | ||
| + | * Perguntando se a vida foi sempre a parente pobre da reflexão ocidental, recorda-se sua irrupção com Schopenhauer em O Mundo Como Vontade e Como Representação (1818), subordinando radicalmente a representação kantiana à vontade, outro nome da vida, conduzindo por Nietzsche e Freud a uma recomposição da cultura europeia inteira — literatura, teatro, pintura, cinema — sobre a base do querer-viver | ||
| + | * O traço mais extraordinário dessa vinda da vida ao primeiro plano é, contudo, sua desnaturação e falsificação, | ||
| + | * Uma vida cega e inconsciente, | ||
| + | * Observa-se o laço inquietante entre três maneiras de caluniar a vida: reduzi-la a processos materiais (biologismo), | ||
| + | * Como antítese formidável, | ||
| + | * Soma-se a essa fenomenologia radical uma concepção nova do homem a partir da Vida: contrariamente à concepção grega do homem como vivente dotado de Logos, e à tese heideggeriana de que "a ontologia da vida se cumpre por via de interpretação privativa", | ||
| + | * Segunda tese decisiva: a Vida é igualmente mais que o vivente, mesmo o homem compreendido adequadamente enquanto vivente, aplicando-se essa tese também a Deus | ||
| + | * Sendo a Vida mais que o homem, é da Vida, isto é, de Deus, que se deve partir, e sendo em Deus mesmo a Vida anterior ao vivente, é pela Vida, pelo processo eterno em que ela se faz Vida, que convém começar | ||
| + | * A relação da Vida com o vivente, tema central do cristianismo, | ||
| + | * Essa relação opera dentro de Deus como geração do Primeiro Vivente no seio da autogeração da Vida, e, na relação de Deus com o homem, como geração do homem transcendental no seio dessa mesma autogeração | ||
| + | * O que é gerado na Vida como Primeiro Vivente o cristianismo chama Filho primogênito, | ||
| + | * Anuncia-se a marcha da análise: primeiro, a autogeração da Vida absoluta como geração do Primeiro Vivente, o Arqui-Filho transcendental; | ||
| + | * Introduz-se o conceito filosófico de " | ||
| + | * Não havendo pai nem filho naturais no sentido de pertencentes à " | ||
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