estudos:henry:cc:capitalismo
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| + | ====== Capitalismo ====== | ||
| + | //HENRY, Michel. Du communisme au capitalisme. Théorie d'une catastrophe. Paris: Odile Jacob, 1990.// | ||
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| + | **Vida e morte no regime capitalista** | ||
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| + | * O capitalismo não se enganou ao apostar na única força que existe no mundo, a força da vida, a força de trabalho vivo, fazendo dela seu fundamento, sua exploração instintiva e sua decisão consciente, suscitando por essa razão metafísica e ontológica a maior revolução conhecida pela humanidade, ou melhor, a única | ||
| + | * Distingue-se essa revolução total da revolução política, que corre sempre à superfície, | ||
| + | * Encontrar essa força de trabalho vivo disponível foi tanto sorte quanto acaso para o capitalismo nascente, pois no estado habitual das coisas a força da vida não está disponível, | ||
| + | * Para tornar disponível a força de trabalho foi preciso romper essa coapropriação primitiva, arrancar da vida as matérias-primas e instrumentos aos quais ela aderia, ruptura ontológica disfarçada de evento histórico: a expropriação camponesa e a vinda ao mercado como trabalhadores " | ||
| + | * O gênio de Marx foi perceber que essa troca capital/ | ||
| + | * Fixado esse destino, o capitalismo deve fazer essa força trabalhar cada vez mais, produzindo mais valor do que custa, o que se cumpriu explorando homens, mulheres e crianças de dez a quinze horas por dia, sem respeito por fadiga, moradia ou dignidade, sugando o sangue do trabalho vivo como um vampiro, na expressão recorrente de Marx | ||
| + | * assim como a produção de valores de uso resulta do " | ||
| + | * Todo o universo econômico é essa representação objetiva do trabalho vivo, tendo os constituintes econômicos significação dupla, positiva e negativa: enquanto índice do trabalho vivo, a valor de troca designa sem equívoco o verdadeiro motor do sistema | ||
| + | * Não se pode esquecer, contudo, o caráter objetivo e ideal desse índice, opondo-se ao trabalho vivo como o irreal ao real, não se retendo no trabalho social e abstrato as propriedades singulares — intensidade, | ||
| + | * Encontra-se aqui o fundamento meta-econômico da aporia da justiça social: sendo justo pagar o mesmo salário pelo mesmo trabalho objetivo, mas diferindo radicalmente sua efetuação subjetiva real, citando-se Marx na Crítica ao programa de Gotha: "Este direito igual é um direito desigual para um trabalho desigual" | ||
| + | * Sob a sombra dessa impossibilidade de medir o mérito de cada um esconde-se o fenômeno crucial da produção da mais-valia, a exploração, | ||
| + | * Até agora se tomou o processo real como origem e o processo econômico como seu duplo representativo; | ||
| + | * Essa subversão se revela no nível da troca: na economia tradicional a fórmula é Mercadoria-Dinheiro-Mercadoria, | ||
| + | * Submetido o processo vital ao processo econômico, sua estrutura interna se modifica profundamente: | ||
| + | * Isso significa que a peça passa a ser representada por dublês: os elementos de substituição do processo econômico funcionam no processo real como suas verdadeiras causas, submetendo-se o trabalho vivo a seu duplo irreal, tornando-se a valor, mero sinal posterior da ação da vida, o único motivo dela, conferindo a essa situação uma espécie de loucura | ||
| + | * Deve-se mostrar, primeiro, que essa substituição é ilusória, pois abstrações e idealidades jamais foram capazes de produzir ação real nem, portanto, o que apenas a figura, sendo o capital, suposta valor autoacrescentável, | ||
| + | * O que vale para a valor de troca vale para toda realidade econômica, sendo o lucro, por exemplo, forma modificada da mais-valia, cuja produção se passa no plano da vida e do trabalho vivo, implicando toda análise do capital, produtivo ou financeiro, fixo ou variável, matematizável cada vez mais pela economia moderna, uma questão de sentido a esclarecer | ||
| + | * O verdadeiro problema é saber se essas análises se limitam à mera morfologia dos fenômenos econômicos, | ||
| + | * Nenhuma análise morfológica dos conceitos econômicos — capital produtivo, comercial, financeiro, fixo, circulante — explica a formação das valores nem seu poder de acréscimo, traduzindo apenas um estado de fato pressuposto sem justificá-lo | ||
| + | * Explicar o universo das valores exige, portanto, sair desse universo e retornar ao poder que as produz, remetendo as vicissitudes econômicas às vicissitudes da força de trabalho, à história da própria vida e a seu poder de ultrapassar suas necessidades, | ||
| + | * Essa análise meta-econômica mostra assim que no fundo do capitalismo, | ||
| + | * Encontra-se aí também a morte. A substituição dos elementos do processo real por equivalentes objetivos ideais não é inocente, pois com o capitalismo a finalidade da troca se inverteu, não se tratando mais de produzir valores de uso mas dinheiro, reagindo essa nova finalidade sobre o processo vital e bulversando sua estrutura interna | ||
| + | * Produzir mais dinheiro é produzir mais mais-valia, havendo dois meios para isso: primeiro, aumentar o tempo de sobretrabalho às custas do tempo de trabalho necessário, | ||
| + | * Com o desenvolvimento dessa produtividade chega-se ao cerne da história do capitalismo, | ||
| + | * Essa tendência, enraizada na vida e determinada em última instância pela vontade de viver, sofre no capitalismo uma inversão: a teleologia vital que visa satisfazer o desejo se inverte, afetando a estrutura interna do processo real sob a forma de um desenvolvimento indefinido da produtividade — modificação apenas " | ||
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