estudos:haar:homem:relacao-homem-ser
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| + | ====== Relação do homem ao ser ====== | ||
| + | //HAAR, Michel. Heidegger et l’essence de l’homme. Grenoble, Jérôme Millon, 1990 / Heidegger e a Essência do Homem. Lisboa: Instituto Piaget, 1997 / Heidegger and the Essence of Man. Translated by Tr William McNeill. State University of New York Press, 1993.// | ||
| + | * É legítimo descrever separadamente a relação extática do homem com o ser, mostrando como o movimento para o ser se apresenta do ponto de vista humano, enquanto a essência do homem não é nada diferente dessa relação de abertura, embora permaneça a questão de saber se todo o corpo e a facticidade humana podem ser englobados por essa dimensão extática sem que o homem se dissolva em pura transparência, | ||
| + | * A relação com o ser é derivada e não iniciada pelo homem, situando-se no interior de uma relação mais original do ser com o homem, na qual o homem não decide sobre sua essência relacional, mas responde ou corresponde a uma relação sempre antecedente, | ||
| + | * A correspondência é o reverso de uma petição ou exigência do ser, definindo o homem primordialmente como essa relação de resposta, na qual a essência humana é especificada como correspondência sempre epocal, destinada pelo ser e que não se limita à pertença a uma abertura, mas é também palavra de retorno. | ||
| + | * As três dimensões constitutivas da relação com o ser, a correspondência, | ||
| + | * Os atributos essenciais do pensamento, como a posse ou a memória do ser, são variantes da fórmula de base que retoma os existenciais de Ser e Tempo, enquanto, vistos do lado do ser, os três momentos da relação correspondem a iniciativas maiores como a reivindicação, | ||
| + | * O esquema da relação homem-ser não deve fazer esquecer a desproporção entre a relação do homem com o ser e a relação inversa, pois há uma dissimetria fundamental que o vocabulário rigoroso de Heidegger indica claramente. | ||
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| + | **HEIDEGGER E HEGEL** | ||
| + | * A distinção entre [[lx> | ||
| + | * Heidegger emprega o termo Ver-hältnis, | ||
| + | * A noção de Conexão participa do esforço para evitar que a relação homem-ser caia no esquema sujeito-objeto, | ||
| + | * Estabelece-se uma hierarquia nas relações, da mais próxima à mais afastada do ser, que inclui a conexão original, a relação essencial, a relação de comportamento e a relação neutra, abstrata ou dialética. | ||
| + | * A tentativa pensada sob o nome de Ver-hältnis recusa todo o pôr em relação no sentido abstrato ou dialético, visando uma copertença tal que os termos antigos tendem a apagar-se, e o abandono das palavras " | ||
| + | * A questão da relação entre o ser humano e o ser do ente abre um abismo de dificuldades, | ||
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| + | * A metafísica sempre situou o homem em relação a uma totalidade, como a polis ou a criação, e a fenomenologia, | ||
| + | * A dificuldade principal reside em situar o homem, uma vez que sua relação com o ser se estende tanto do lado do homem quanto do lado do ser, e a simples ligação desses termos exteriores cai em uma abstração insustentável, | ||
| + | * A relação total heideggeriana difere da totalidade hegeliana porque parte de uma conexão aberta e inacabada, não englobando o ser e o homem em uma síntese superior, e porque o pensamento não é o atributo do Absoluto, mas mantém-se atributo específico do homem, sem que haja uma transparência total da conexão ao pensamento. | ||
| + | * A totalidade hegeliana é, para Heidegger, a totalidade do ente, e nem o ser em si mesmo nem o homem com o ser podem tornar-se objeto de uma tal totalização, | ||
| + | * O homem, enquanto [[lx> | ||
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| + | **O PENSAMENTO COMO ESSÊNCIA DO HOMEM E A QUESTÃO DO " | ||
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| + | * Os três momentos inseparáveis da relação com o ser, correspondência, | ||
| + | * Heidegger afirma que nenhuma abertura ao ente vem dos órgãos dos sentidos, e que a única relação com o ser e a essência do homem é o pensamento, o que levanta a questão de uma possível sobrestimação ou valorização exclusiva da capacidade " | ||
| + | * Embora o corpo não seja negado, ele é descrito como sempre já atravessado por uma disposição e retomado em uma transcendência, | ||
| + | * A percepção é considerada um modo de correspondência e, portanto, um modo de pensamento, excluindo o que Merleau-Ponty chamava de "ser selvagem", | ||
| + | * No contexto de Ser e Tempo, a simples percepção resulta de uma suspensão do comportamento utilitário, | ||
| + | * O que se dá a nós pelo olhar inscreve-se na relação com o ser que preforma o eidético do visível, e o sentido do que percebemos não se define a partir de nossas impressões sensoriais, mas a compreensão precede e torna possível o escutar e o ver, sendo uma faculdade anterior ao fisiológico que se dota de órgãos. | ||
| + | * Esse raciocínio, | ||
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| + | **A DESCONSTRUÇÃO DO " | ||
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| + | * Três poderosos motivos se conjugam para autorizar a desconstrução do homem como animal racional: a ideia de que a essência metafísica é rebaixada pela identificação com um animal subsistente, | ||
| + | * A desconstrução implica um duplo retorno construtivo e fundador à tradição e às fontes da tradição, ou seja, aos modos de experiência do ser que deram origem à ordem conceptual, com a tarefa de, ao desconstruir representações vazias, recuperar as experiências do ser que estão na origem da metafísica, | ||
| + | * A desconstrução do sentido do "eu sou" mostra que o sum não é originalmente uma substância encerrada sobre si, mas é logo relacional, significando habitar ao pé de, ser familiar de, abrindo-se a uma dimensão mais ampla de dispersão original do Dasein em múltiplas relações espaciais e temporais. | ||
| + | * Da mesma forma, a desconstrução do zoon logon echon revela que a interpretação tardia do logos como enunciado racional encobre o solo fenomenal da experiência primeira do homem como o ente que fala, sendo a razão como faculdade que eclipsa a palavra como dimensão do ser-no-mundo. | ||
| + | * No Ser e Tempo, a vida recebe uma definição negativa e aporética, não sendo nem ente-subsistente nem Dasein, e uma descrição do vivente só pode ser elaborada indiretamente a partir de uma privação redutora, método que será desenvolvido no curso de 1929/30 com o leitmotiv de que o animal é pobre em mundo. | ||
| + | * Heidegger sempre será fiel à posição de que o ser não depende da vida, mas a vida é vida porque pode conservar um modo limitado de abertura, e ele acentua essa posição mostrando que a physis tem por essência a aletheia, e que o zoon grego significava originalmente a capacidade de se descobrir, sendo os viventes aparecentes e emergentes. | ||
| + | * O que é desconstruído com isso é a animalidade como tal, pelo rodeio de uma desconstrução do conceito substancialista de natureza, e não a animalidade do homem, e a posição heideggeriana é ambígua ao afirmar que a vida não é um traço essencial do homem, mas também ao esforçar-se por pensar uma alteridade radical entre o homem e o animal. | ||
| + | * Essa posição aproxima Heidegger de um idealismo anti-fenomenológico, | ||
| + | * A ideia de que o corpo humano é essencialmente diferente de um organismo animal contradiz a experiência científica, | ||
| + | * A metafísica considera a vida como o elemento que não diferencia o homem, e a tradição retém e desenvolve sobretudo a racionalidade, | ||
| + | * A verdade definida a partir da certeza para a consciência exige um sujeito no qual a adequação da evidência se faça na presença a si, e essa nova metafísica retoma da antropologia do animal racional o esquema da substância, | ||
| + | * O princípio da desconstrução do sujeito é duplo: primeiro, a ideia de que a essência do sujeito depende da essência da verdade e da História do Ser, e segundo, o fio condutor da representação, | ||
| + | * A representação é método calculante que assegura a tomada na presença constante do que é calculável, | ||
| + | * O sujeito socobra e se apaga na vontade de dominação desencadeada, | ||
| + | * Paradoxalmente, | ||
| + | * A metafísica da subjetividade funda o universalismo, | ||
| + | * Sobre a possibilidade de uma autenticidade não subjetivista do povo ou da nação e de uma liberdade do homem para afirmar e defender, Heidegger dá poucas indicações positivas, considerando que qualquer sistema político viável deve obedecer à Técnica, e uma viragem essencial só pode vir de uma mutação do ser, não da lucidez dos homens. | ||
| + | * Os Beiträge sugerem que a essência do povo se concebe a partir do Dasein, como projeto da própria tradição e compreensão do ser, não se fundando na raça ou em determinações geopolíticas, | ||
| + | * O pensamento político heideggeriano, | ||
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| + | **OS ATOS DO PENSAMENTO** | ||
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| + | * O pensamento realiza a relação do ser com a essência do homem, definindo-se como escuta e oferenda de si, mas Heidegger sustenta que o pensamento age enquanto pensa, levantando a questão de como ele pode simultaneamente abandonar-se à relação com o ser e ter um movimento próprio, e o que é um pensamento que deixa de ser o de um sujeito e como pensar uma liberdade não autônoma. | ||
| + | * Para Heidegger, a noção de liberdade de pensamento no sentido do livre pensador do século XVIII não tem sentido, pois todo pensamento é retoma e responde a uma necessidade historial, inscrevendo-se em uma configuração epocal do ser, e um pensador não escolhe seu pensamento, mas obedece à situação a que está exposto. | ||
| + | * O pensamento implica um duplo entendimento do ser e da história da metafísica, | ||
| + | * A finitude do pensamento prende-se ao limite epocal, e ele se define como uma " | ||
| + | * O salto é um ato primeiro pelo qual o pensamento se reúne ao domínio do ser, mas não é uma atitude voluntária de colocar um objeto, nem uma passividade, | ||
| + | * A ideia de que todo pensamento deve querer e pôr o ser como objeto repousa num preconceito sobre a ação, pois o agir não é criação absoluta, mas realização, | ||
| + | * O salto é a passagem do ente ao ser, que não suporta transição e só pode ser feita num instante, ganhando a pertença ao ser, e ele é necessário para descobrir a presença das coisas e para passar do princípio da razão como proposição lógica à meditação sobre o caráter infundável do ser. | ||
| + | * O salto opõe-se à complexidade da representação, | ||
| + | * O ser chama porque se retira, e há uma correlação entre o retiro do ser, a atração do pensamento e a relação com o ser, sendo o pensamento movido pelo próprio movimento da retirada, e a relação fundamental vai do ser ao homem. | ||
| + | * O salto é ao mesmo tempo rememoração, | ||
| + | * O salto faz ver a totalidade do passado como uma só destinação do ser, reunindo o ter-sido essencial, e o pensamento rememorante preserva essa reunião, mas a fidelidade do Andenken não deve ser confundida com o conceito hegeliano de Erinnerung, sendo antes um pensamento que se mantém o mais próximo do próprio ser. | ||
| + | * Andenken é identificado com Andacht, o recolhimento de alma ao pé do ser, e o pensamento rememorante é ato de reconhecimento e ação de graças, compreendendo o ser como um dom, mas a questão de como agradecer a uma dimensão anônima permanece, sugerindo uma tentativa de repatriar no plano ontológico um fenômeno religioso. | ||
| + | * A memória, para Heidegger, não é uma faculdade de recordar, mas o todo da alma que habita ao pé de, mantendo-se junto ao passado, ao presente e ao futuro, e a rememoração humana repousa na salvaguarda do ser, que liberta e dá o que deve ser guardado, esvaindo-se as faculdades humanas. | ||
| + | * O pensamento como rememoração é também antecipação, | ||
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| + | **PENSAMENTO E PALAVRA** | ||
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| + | * A inserção na língua é o terceiro ato do pensamento, sendo que o homem só pensa enquanto fala, e o pensamento é sempre palavra pensante, devendo encontrar para si uma língua, mas a autonomia do homem é reduzida porque é a língua que fala, e o homem apenas corresponde historialmente a ela, habitando a língua como casa do ser. | ||
| + | * Heidegger mantém que o pensamento " | ||
| + | * O pensamento opera fazendo-se mais simples, redundante e translúcido, | ||
| + | * Os jogos de linguagem de Heidegger não devem ser medidos pela norma de uma exatidão etimológica, | ||
| + | * A acusação de " | ||
| + | * A sintaxe heideggeriana não se limita à tautologia e à analogia, pois há outras formas como o quiasmo e a parataxe alargada, e a afirmação de que um discurso só pode ser racional se for sintático é uma convenção gramatical não crítica, pois a linguagem força a falsa substancialização do sujeito, como Nietzsche já notara. | ||
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| + | **PENSAR E QUESTIONAR** | ||
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| + | * O questionamento é a devoção do pensamento, e parece que Denken e Fragen se determinam um ao outro, mas a origem da questão é dupla: por um lado, a tradição metafísica pergunta "o que é o ente enquanto tal?", a questão condutora, e por outro, a questão fundamental, | ||
| + | * A espontaneidade da questão fundamental testemunha do poder do ser sobre a língua, pois o ser fala e questiona-nos ele próprio através da língua, e o questionamento não é o verdadeiro gesto do pensamento, mas a escuta da palavra que dirige o que deve vir à questão, sendo que qualquer verdadeira questão se coloca a si mesma antes que nós a coloquemos. | ||
| + | * O pensamento calculante questiona, mas dá-se os limites do seu questionamento, | ||
| + | * Essa submissão à língua antecipa todo o questionamento como o primeiro momento do pensamento, que não poderia ser de confiança por parte de quem interroga, e nenhum pensamento na nossa época se pode identificar com as questões e satisfazer-se com elas, pois o pensamento vê-se despojado das suas questões, sendo simples porta-voz do ser. | ||
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