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| + | ====== A Obra de Arte ====== | ||
| + | //A obra de arte. Ensaio sobre a ontologia das obras. Tr. Maria Helena Kühner. São Paulo: Difel, 2000// | ||
| + | **Introdução: | ||
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| + | * A técnica moderna aproximou consideravelmente as obras de arte, tornando seu acesso mais fácil que em qualquer outra época, através de reproduções, | ||
| + | * A singularidade da obra de arte e sua inalterável estabilidade provêm de uma coesão orgânica tão poderosa que a obra remete mais a si mesma que a qualquer outro ente no mundo, sendo antes de mais nada um corpo auto-referenciado que, voltado sobre si mesmo, ainda assim mostra um mundo | ||
| + | * Exemplos de grandes obras citados: a Paixão de Bach, o Don Giovanni de Mozart, pinturas de Van Gogh e de Cézanne, Em busca do tempo perdido | ||
| + | * A organização da obra tem dupla propriedade: | ||
| + | * O Café noturno, pintado por Van Gogh em Arles em 1888, ilustra a análise da obra através do jogo de cores, do contraste entre o amarelo degradado e sujo e o vermelho forte das paredes, associado por uma carta do pintor ao inferno moral de um lugar de decadência | ||
| + | * As deformações e esquematizações das formas dos bebedores, do dono e do bilhar transmitem uma impressão de irrealidade e de vertigem alcoólica, reforçada pela diminuição espectral dos personagens e pela sombra sinistra sob a mesa de bilhar | ||
| + | * Os pontilhados de amarelo-esverdeado em torno das lâmpadas, os tons de mofo verde-azulado, | ||
| + | * O dono, perfilado atrás do bilhar, interroga o espectador com olhar ausente, enquanto o mundo do café é sobretudo o mundo da miséria dos desgraçados que ali buscam refúgio | ||
| + | * Van Gogh, em carta a Théo (Carta 534), descreve ter buscado expressar, pelo contraste de cores, na atmosfera de uma fornalha infernal de enxofre opaco, o poder das trevas de uma taberna, lugar em que alguém pode arruinar-se, | ||
| + | * O mundo revelado pela obra não é fictício nem criado por ela, mas por ela tornado presente e intensificado, | ||
| + | * Refletir sobre qualquer obra de arte exige primeiro olhá-la ou ouvi-la com toda a atenção possível, esperando que ela fale e abandonando pretensões a um sentido preestabelecido, | ||
| + | * Essa abordagem afetiva primeira da obra deve completar-se com os conhecimentos trazidos pela história da arte quanto à época, à corrente artística, ao estilo, ao meio social e cultural e ao momento da carreira do artista, dados indispensáveis para que a descrição não seja simplista | ||
| + | * O enfoque filosófico distingue-se da história da arte por propor questões anteriores, como se a arte pode dizer a verdade e o que ela quer dizer, sendo a questão da classificação da arte na escala do conhecimento humano uma constante desde Platão, já que para os gregos a téchne designava um saber amplo relativo à natureza e à totalidade das coisas, e para Aristóteles ainda um modo de saber como a arte política | ||
| + | * A pergunta pelo que é uma obra de arte, se possui verdade e consistência próprias, se imita as coisas ou as expressa à sua maneira, permaneceu relegada a segundo plano por muito tempo | ||
| + | * Dois motivos retardaram a constituição de uma filosofia da arte independente: | ||
| + | * A reavaliação hegeliana da arte teve como reverso o esquecimento da forma sensível em favor do conteúdo de verdade e da Idéia, distinção metafísica de origem platônica entre forma sensível e conteúdo inteligível somente ultrapassada pela fenomenologia contemporânea, | ||
| + | * O segundo motivo foi paradoxalmente a própria criação da estética por Kant, conceito cujo inventor fora o leibniziano Baumgarten por volta de 1750, que situou a reflexão sobre o belo e o sublime não na arte, mas no estado afetivo do sujeito | ||
| + | * Kant demonstrará a preponderância da beleza natural sobre a beleza artística, mostrando que a arte só secundariamente é bela, pois ser artista exige um dom da natureza, o gênio | ||
| + | * Com Nietzsche a velha condenação platônica é definitivamente suprimida, mas sua fisiologia da arte, ao compreendê-la em função do artista, tende a relegar a segundo plano a consideração das obras, tal como fizera a estética kantiana | ||
| + | * Depois de Heidegger e de Merleau-Ponty, | ||
