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| + | ====== Fisiologia da Arte ====== | ||
| + | //A obra de arte. Ensaio sobre a ontologia das obras. Tr. Maria Helena Kühner. São Paulo: Difel, 2000// | ||
| + | **IV - A " | ||
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| + | * As duas estéticas sucessivas de Nietzsche, a de O nascimento da tragédia de 1872 e a dos fragmentos dos anos 1880, não são tão diferentes quanto poderiam parecer, pois ambas são dominadas por uma reflexão que visa sobretudo à criação ou ao estado criador, mais que à obra, traduzindo-se pelo tema da fisiologia da arte, situando-se ambas no prolongamento do romantismo por esta idéia de que a arte é a expressão direta da natureza, um logos da physis | ||
| + | * Entre um período e outro, Nietzsche desembaraçou-se do schopenhauerismo, | ||
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| + | **1. Nietzsche e a " | ||
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| + | * Em O nascimento da tragédia, Apolo e Dioniso não são as divindades clássicas tutelares da arte e da religião, mas designam as pulsões artísticas da natureza que se traduzem no homem pelos dois estados criativos por excelência, | ||
| + | * Nas visões apolíneas do sonho aparecem as figuras ideais dos deuses e, em geral, o limite, a medida, a separação, | ||
| + | * É somente na medida em que o homem, habitado por essas potências e sobretudo pelo dionisismo, torna-se primeiro uma obra de arte viva da natureza, pois o homem não é apenas um artista, ele mesmo é uma obra de arte, que ele recebe a capacidade de criar, baseando-se nesta passagem espontânea da natureza à arte a hipótese relativa à origem do fenômeno trágico, que religa a arte teatral em geral a uma experiência de possessão ou de metamorfose | ||
| + | * Um grupo de pastores celebrando Dioniso vê-se metamorfoseado em sátiros, seres por natureza imaginários, | ||
| + | * Este desgosto, se não fosse combatido com uma poderosa visão artística, levaria a uma recusa a qualquer ação, a uma negação búdica do querer, sendo o coro satírico esta primeira visão salvadora, dionisíaca e desindividualizante, | ||
| + | * Todo mito seria a expressão, em termos apolíneos, de uma sabedoria dionisíaca segundo a qual a falta original, fonte do mal, seria a dispersão em indivíduos, | ||
| + | * O herói sofre com a contradição de ser um indivíduo e de querer identificar-se a um princípio universal: resolver o enigma da esfinge como Édipo, afirmar a igualdade dos homens e dos deuses como Prometeu, simbolizando o incesto de Édipo e o sacrilégio de Prometeu os sofrimentos da individuação, | ||
| + | * As explanações de Nietzsche sobre a alegria trágica, que marcam os capítulos 16, 17, 21 e 22 de O nascimento da tragédia, constituem uma espécie de adeus implícito à obra de arte e um vigoroso retorno à estética da subjetividade, | ||
| + | * Contrariando a análise de Aristóteles, | ||
| + | * Esta alegria mesclada de luto, que emerge do luto e o eclipsa, entra em contradição com a lógica apolínea, mas é do próprio luto do apolíneo que provém a alegria trágica, pois o espectador se compraz porque vê o mito apolíneo levado a um limite a partir do qual volta ao fundo dionisíaco de onde surgiu, sentindo-se a morte do herói com esta estranha alegria por simbolizar a negação do mundo dos fenômenos isolados e seu retorno ao Todo Único | ||
| + | * A obra permite pressentir uma alegria mais elevada que a alegria propriamente estética, a de pertencer à unidade dionisíaca original, à realidade mais profunda e eternamente ditosa que subjaz a todos os seres do mundo e cuja alegria ultrapassa de antemão toda dor, sendo a obra de arte concebida como um meio de nos iniciar na alegria metafísica de que ela é expressão | ||
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| + | **2. A tipologia dos artistas** | ||
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| + | * A estética mais tardia de Nietzsche, não cessando de exaltar a arte como o grande estimulante da vida e a forma mais transparente da vontade de potência, culmina com a descrição do temperamento do artista e acaba desinteressando-se por completo das obras | ||
| + | * Por um lado, a ênfase é posta na tarefa metafísica da arte, que deve servir de contramovimento em relação ao niilismo, de contrapeso ao hipertrofiado saber e a todos os valores de nivelamento, | ||
| + | * Por outro lado, a descrição do artista e dos estados criadores artísticos visa a dar o modelo concreto de uma existência que escuta o corpo, tipo humano para o qual o corpo serve efetivamente de fio condutor de todas as interpretações, | ||
| + | * Entre esses efeitos, a embriaguez, condição de possibilidade de toda criação, significa um estado de extrema acuidade e receptividade de todos os sentidos, mas também uma percepção mais clara das formas, das relações e dos traços principais, e a capacidade de jogar com as formas, modificá-las e deslocá-las, | ||
| + | * O artista, segundo o retrato que dele faz Nietzsche, é imperioso, comanda tiranicamente, | ||
| + | * O artista é um ser ambíguo, possuidor de traços reativos, como a histeria e a hipocrisia, mas também de traços afirmativos, | ||
| + | * O artista, mesmo não sendo reativo, possui a grande saúde, isto é, a aptidão a dominar seus estados patológicos, | ||
| + | * A predileção de Nietzsche pela arte clássica, pela arte de um Claude Lorrain por exemplo, ou pelo que ele chama de o grande estilo, marcado pela simplificação lógica e geométrica, | ||
| + | * Se os clássicos favorecem a lei, a ordem, a medida, a beleza dos ritmos e dos intervalos, não é por fidelidade à natureza, que não conhece ordem alguma, mas para aumentar seu próprio sentimento de prazer, sua própria Vontade de poder, sendo por prazer e para contemplar a imagem de sua força que eles simplificam os traços e se tornam claros e quase matemáticos, | ||
| + | * Este subjetivismo afasta ainda mais qualquer consideração referente às obras, sobretudo porque afirma que a verdadeira finalidade da obra de arte é suscitar no espectador o estado criador artístico, a embriaguez, não falando a arte senão a artistas, sendo erro o conceito de profano | ||
| + | * A distinção entre artista e espectador apaga-se em favor de um estado estético no qual as formas se dissolvem e retornam a seu estado nascente, mergulhadas no sentimento geral de que toda e qualquer coisa pode ser embelezada e transfigurada se a capacidade de afirmá-la for suficientemente forte, distinguindo-se a arte da noção do fazer, do trabalho em um material, tornando-se um nome para a afirmação transfigurante | ||
| + | * Cada um de nós é um artista quando afirma sua própria vida, intensificada através de imagens, formas, palavras, gestos e sons, mas o conteúdo expressivo não conta, contando apenas a ruptura com os estados não-artísticos e a capacidade de provocar nos outros um aumento de força e de prazer, sendo a arte o efeito da sugestão sobre o próprio corpo e o dos outros, produzido por uma vida que se intensifica, | ||
| + | * A tragédia era para os gregos como que um tonificante: | ||
| + | * Nietzsche substitui a hierarquia tradicional das artes por uma tipologia dos artistas, baseada na distinção entre o tipo ativo e o tipo reativo, devendo ser colocadas diante de qualquer obra duas questões relativas à criação: de onde ela provém, se de um sentimento de reconhecimento e superabundância ou se é expressão de carência e fraqueza; e o que quer o artista, se busca o ser, a permanência, | ||
| + | * A necessidade de devir, de destruição das formas, pode resultar de uma riqueza ou superabundância de forças capazes de quebrar por serem portadoras de futuro, sendo o artista dionisíaco, | ||
| + | * Quanto ao desejo de ser, de permanência, | ||
| + | * Não há outra verdade da arte a não ser esta adequação a um temperamento que dá, em uma obra, uma imagem ficcional de si mesmo para manter-se e expandir-se | ||
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| + | **3. "O espírito da música" | ||
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| + | * A música, no jovem Nietzsche, escapa a esta redução da arte a um antropomorfismo, | ||
| + | * Em O nascimento da tragédia e nos fragmentos contemporâneos, | ||
| + | * O espírito da música é profundamente alegre mesmo quando inspira cantos fúnebres, sendo o dionisíaco pré-artístico do qual procede toda arte, e não apenas a música, a alegria trágica da qual procede todo ritmo e toda forma, fazendo experimentar o elo necessário e indissolúvel entre o aparecer e o desaparecer, | ||
| + | * A arte musical não faz mais que celebrar e traduzir este ritmo primitivo, emanando as duas músicas, escritas ou orquestradas, | ||
| + | * Uma é constituída de ritmos cheios de movimento, sincopados, ou de uma melodia obsedante, de sonoridades graves ou superagudas, | ||
| + | * A outra música é etérea, ligeira, lúdica, desdobrando-se como uma arquitetura em movimento, soberanamente ordenada e ordenadora, demiúrgica com Bach, contemplativa, | ||
| + | * Nietzsche prefere, ao que parece, Beethoven, mais próximo do dionisíaco e ligado a melodias populares, a Mozart, que ele acha demasiado enrijecido de urbanidade e demasiado distanciado da vida, contemplando-a à distância e, por assim dizer, do alto | ||
| + | * Mas sua crítica implacável do romantismo dirigir-se-á ao mesmo tempo a Wagner e a Beethoven, demasiado enfáticos, excessivamente pesados, falsamente heróicos para serem autenticamente felizes, confrontando-os Nietzsche com Bizet, capaz de alegria mesmo no trágico e sobretudo de dançar, isto é, da ligeireza do corpo | ||
| + | * Através de sua ruidosa crítica a Wagner, Nietzsche busca definir esta música do futuro, esta boa música, alegre e profunda como uma tarde de outubro, provocativa, | ||
| + | * A questão que aqui se coloca tem origem na fisiologia da arte: como deve ser a música para favorecer a saúde do corpo, sendo a boa música o melhor antídoto contra o ressentimento e contra todos os sentimentos niilistas, música restauradora, | ||
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