User Tools

Site Tools


estudos:guest:wittgenstein

Differences

This shows you the differences between two versions of the page.

Link to this comparison view

estudos:guest:wittgenstein [19/01/2026 08:13] – created mccastroestudos:guest:wittgenstein [09/02/2026 20:16] (current) – external edit 127.0.0.1
Line 1: Line 1:
 +====== Wittgenstein, Ludwig (1889-1951) ======
 +
 +LDMH
 +
 +  * Nome de Wittgenstein evocado duas vezes por Heidegger como figura distante, sem esforço de engajamento direto.
 +    * Duas vezes bem atestadas em textos de Heidegger, além de alusões em conversas com membros do Círculo de Viena.
 +    * Pensamento de Heidegger, por sua vez, é evocado com certa precisão em escritos de Wittgenstein.
 +    * Situação constitui simetria na assimetria, marcada por distância aparentemente intransponível entre dois pensadores estranhos um ao outro.
 +  * Um dos mal-entendidos mais profundos e obscuros do nosso tempo reside na clivagem não questonada entre os caminhos de pensamento de Wittgenstein e Heidegger.
 +    * Poucos trabalhos contemporâneos se deram ao trabalho de medir verdadeiramente o intervalo entre essas duas empresas decisivas do pensamento.
 +    * Nesse intervalo jogam-se, talvez ainda a nossa revelia, alguns dos enjeux maiores da //genealogia da modernidade//.
 +    * O mais perigoso contrassenso poderia ser o que concerne à profunda //mutação// ocorrida, em nosso tempo, na própria //essência// ou //aître// da verdade.
 +    * Ambos os pensadores sentiram os sobressaltos do //nihilismo consumado//, mas de maneiras distintas e em //estilos// incomparáveis.
 +  * Heidegger, em um dos //Seminários do Thor//, evoca Wittgenstein como paradigma da ontologia moderna da objetividade.
 +    * Objetivo é contrastar a experiência grega da verdade como //aletheia// (desocultamento) com a perda dessa experiência na modernidade.
 +    * Para ilustrar essa perda, Heidegger atribui a Wittgenstein uma tese ontológica: //Wirklich ist, was der Fall ist// (É real o que é o caso).
 +      * Frase é referência ao aforismo inicial do //Tractatus Logico-Philosophicus//: //Die Welt ist alles, was der Fall ist//.
 +    * Heidegger interpreta esta frase como expressão máxima da //objectividade factual//, da //Vorhandenheit//, onde o real se esgota na pura factualidade.
 +    * Julga este princípio //fantasmagórico//, como pretensão quase alucinatória da subjetividade transcendental moderna.
 +      * Pretensão de um sujeito metafísico que reduz o //sentido de ser// do //ente em seu conjunto// ao que pode ser fixado e determinado a priori e a posteriori.
 +    * O objetivo heideggeriano é mostrar o abismo entre a //parousia// grega do ente em sua plenitude mundana e a //comparência// e //designação// do ente moderno à objetividade do objeto.
 +      * Objetividade esta essencialmente determinável por uma subjetividade que é a da ciência natural moderna e da metafísica da subjetividade que a sustenta.
 +    * Wittgenstein é assim apresentado como assinatura histórica desse empobrecimento ontológico e dessa pretensão //espectral//.
 +  * Questão crucial: Wittgenstein merece essa atribuição e esse papel sem maiores considerações?
 +    * Papel conviria melhor a um Carnap ou à ideologia //científica// do Círculo de Viena, a qual o próprio Wittgenstein combatia.
 +    * A verdade dos aforismos do //Tractatus// é de ordem totalmente diversa da verdade das proposições das ciências naturais.
 +      * A verdade que interessa a Wittgenstein é da ordem do que //não pode ser dito//, mas apenas //mostrado// no seu próprio mostrar-se silencioso.
 +      * Pertence ao laconismo de uma verdadeira //sigética//, a do //elemento místico// (//Wovon man nicht sprechen kann, darüber muß man schweigen//).
 +    * Se a figura de Wittgenstein tem lugar na //história do Ser//, não é no lugar que Heidegger lhe pensou poder designar.
 +  * Posição de Wittgenstein em relação a Heidegger emerge em contextos de discussão com membros do Círculo de Viena.
 +    * Wittgenstein tomou posição sobre aspectos do pensamento de Heidegger, como a conferência //Que é Metafísica?// (1929) e seus temas (Ser, Nada, angústia).
 +    * Discordava da polêmica de Carnap contra as //pseudo-proposições metafísicas//, que programava sua eliminação.
 +    * Wittgenstein, longe de condenar Heidegger, parece reconhecer-lhe um mérito paradoxal, partilhado com Kierkegaard.
 +      * Mérito de ter tentado //fazer sinal// em direção ao que //não pode ser dito//, mas apenas tacitamente //mostrado//: o //elemento místico//.
 +    * Em nota de entrevista com Moritz Schlick (30 dez. 1929), Wittgenstein declara:
 +      * Compreende o que Heidegger quer dizer com //Ser// e //Angústia//.
 +      * Identifica no homem um //impulso (Trieb)// de //lançar-se contra os limites da linguagem//.
 +      * Exemplifica com o //espanto de que algo exista// (em vez de nada), espanto inexprimível como pergunta e sem resposta.
 +      * Tudo o que podemos dizer a priori é não-sentido, mas não deixamos de nos lançar contra esses limites.
 +      * Este ímpeto é também o visado por Kierkegaard (como tendência a lançar-se contra o paradoxo).
 +      * Define: //Este ímpeto de lançar-se contra os limites da linguagem é a Ética//.
 +      * Na Ética, tenta-se sempre dizer algo que não toca a essência da coisa e não pode alcançá-la.
 +      * Quanto à tendência, ao ímpeto, //isso faz sinal para algo//.
 +      * Cita santo Agostinho: //Então, miserável verme, não queres dizer não-sentido? Diz então, vamos, não faz mal!//
 +  * Crítica fundamental de Wittgenstein a Heidegger é, portanto, de fundo e de estilo.
 +    * Crítica: Heidegger também cedeu à tendência de //lançar-se contra os limites da linguagem//.
 +    * Ou seja, cedeu à tentação de falar da Ética, ou do //que é ético//, falando do Ser ou da angústia.
 +    * Sua empresa (//Ser e Tempo//) teria sucumbido, à sua maneira, à mesma tentação a que o autor do //Tractatus// sucumbira.
 +      * Tentação de tentar //dizer o que não se pode dizer//, o que deveria permanecer calado, o que só pode ser //mostrado// em silêncio.
 +      * Refere-se ao que está nos //limites// da linguagem: algo do //limite interno do mundo//, do que é ao mesmo tempo //Ético e Místico//.
 +    * Discussão específica sobre expressões como //Es nichtet// ou //Das Nichts nichtet// aparece em ditados a Waismann.
 +  * Em outro contexto, no seminário sobre Heráclito com Eugen Fink, Heidegger evoca um pensamento de Wittgenstein em forma de parábola.
 +    * Contexto é a dificuldade da implicação irremissível na circularidade do //círculo hermenêutico//.
 +      * Questão: deve-se sair dele ou entrar nele resolutamente, com um //salto originário e sem reservas// (como preconiza //Ser e Tempo//)?
 +    * Respondendo à sugestão de um participante (//Não deveríamos antes entrar no círculo?//), Heidegger recorda inopinadamente a posição de Wittgenstein.
 +      * Parábola de Wittgenstein: //A dificuldade em que se encontra o pensamento assemelha-se à de um homem numa sala, de onde quer sair. Tenta primeiro pela janela, mas é alta demais. Tenta então pela chaminé, mas é estreita demais. Ele só teria que se virar para ver que a porta nunca deixou de estar aberta.//
 +    * Posição de Wittgenstein parece inversa à de Heidegger, mas apenas em aparência, suscitando reflexão sobre a natureza do acesso ao que já está aberto.
 +
 +{{tag>Guest}}